Nós dois

Andy Jones · Capítulo 30 de 37

Páginas do PDF

Nós dois

Capítulo 34

 

Uma semana depois de trazermos nosso filho para casa, ele ainda não tem nome.

Ivy tentou amamentá-lo, mas — talvez por ter passado os três primeiros dias longe da mãe, tomando leite na mamadeira — ele não consegue ou não quer pegar no peito. Ivy extrai o leite, mas não tem vontade alguma de dar a mamadeira. Então, eu o alimento, enquanto Ivy passa boa parte do dia sem se comunicar, encolhida no canto do sofá (como se tentasse sumir atrás das almofadas), perdida em pensamentos ou nas páginas de um livro. O Baixinho não é de chorar, porém mais de uma vez eu já vi Ivy se retrair ao som do choro, como se ficasse ressentida com o incômodo. Apesar de tudo isso, agora ela dorme no quarto do bebê, onde pode tomar conta dele de noite. Nosso plano original era pôr os gêmeos para dormir nos cestinhos no nosso quarto, mas, como ele passou os primeiros dias numa incubadora, Ivy diz que o mínimo que podemos fazer é deixá-lo dormir em seu próprio quarto. Então, enquanto ele dorme no cesto dentro do berço, Ivy fica em um sofá-cama desconfortável que não é grande o suficiente para o tamanho dela. E eu durmo sozinho na nossa cama de casal.

Durante as noites, nós nos sentamos diante da TV. Jantamos com os pratos no colo e conversamos sobre amenidades enquanto Ivy extrai o leite e eu bebo uma garrafa inteira de vinho, ou perto disso (além das duas ou três cervejas que tomo ao longo do dia). Tentei trazer à baila o assunto do nome, mas toda vez Ivy se retrai, chora e pergunta, irritada, o porquê da pressa.

 

Enterramos Daniel numa manhã fria mas ensolarada de quinta-feira, um dia antes da data prevista para o nascimento. Seu irmão dorme, impassível, no carrinho duplo, enquanto o caixão desce a uma pequena cova. Não víamos Daniel desde que nos despedidos dele no hospital, oito dias atrás, e agora, enquanto ele desaparece da nossa vista, me arrependo do fundo do coração por não termos feito uma última visita e lhe dado um ursinho de pelúcia para fazer companhia. Um homem pergunta se desejamos jogar a primeira pá de terra, mas nenhum de nós quer. Ivy se vira para o carrinho, e, com lágrimas escorrendo pelo rosto, pega o Baixinho com todo o cuidado. Segurando-o com uma das mãos no bumbum e a outra na nuca, ela o beija na testa, no narizinho e nas bochechas, então diz:

— Vamos, neném. Vamos para casa.