Nós dois

Andy Jones · Capítulo 2 de 37

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Nós dois

Capítulo 2

 

 

— Ti... tira esse ab... abacxi.

El nem sempre consegue encontrar as palavras de que precisa; e, quando consegue, nem sempre é capaz de pronunciá-las. É muito mais forte do que uma gagueira. O esforço fica evidente em sua expressão, quando ele tenta forçar uma palavra a sair e ela é impedida pelo tipo de resistência que encontramos ao tentar soprar uma calda por um canudinho. Mesmo assim, não custa nada ser educado.

— E qual é a palavrinha mágica? — pergunto.

— Ag... ag... agora, caramba.

— Ah, assim é melhor — digo, tirando os pedaços de abacaxi de sua fatia de pizza.

El abre a boca, e eu lhe dou a ponta da fatia dobrada. A cabeça dele oscila, mas ele consegue dar uma mordida sem passar mais molho de tomate no rosto já todo lambuzado. Por baixo do molho ele está com um forte bronzeado, mas isso não basta para sequer parecer que ele está saudável. Faz dois dias que El e seu companheiro, Phil, voltaram de férias de San Francisco. É improvável que El tenha piorado de forma significativa enquanto ficou fora, mas os espasmos, as tremedeiras e a fala de fato parecem piores.

— Q... q... q...

— Qual? — completo, mas El balança a cabeça. — Quando?

El balança a cabeça de novo.

— Não.

— Quem?

El faz que sim.

— Quem? Quem é que b... bota abacxi numa p... — Ele aponta um dedo trêmulo para a pizza entre nós dois.

— É havaiana. Foi você quem pediu.

El dá de ombros.

— Porque gostei do nome.

Como todos os melhores amigos que moram a até quinze quilômetros um do outro em Londres, nós costumávamos nos ver umas três vezes por ano. Mas nada como uma doença terminal para jogar a apatia para escanteio. Então, há coisa de dois anos, quando ele começou a apresentar sintomas mais agudos do mal de Huntington, nós estabelecemos uma rotina de encontros toda terça. No começo íamos a um bar, mas, conforme a condição de El progrediu, ele perdeu a tolerância à bebida, junto com as inibições e a noção das delicadezas sociais. Mudamos o local de encontro para um restaurante indiano das redondezas, aonde chegávamos logo no comecinho da noite, com o lugar ainda vazio, para El poder xingar, se contorcer, gaguejar e derrubar copos sem plateia. Mas, nos últimos meses, até isso ficou difícil demais. Portanto, agora é pizza e cerveja sem álcool na sala de estar dele.

Acho que em algum lugar da minha cabeça El ainda é o mesmo garoto de dez anos com quem eu andava de bicicleta, o adolescente de quem eu comprava pornografia roubada e o homem que me fazia chorar de rir. É como se a derrocada que ele vem suportando nos últimos anos — as contrações e os espasmos constantes; a falta de coordenação motora, equilíbrio e empatia; a perda de peso, a perda, na verdade, de todas as sutilezas e nuances que fazem de El o El — desse hoje a impressão de que toda a sua deterioração tivesse se comprimido nas três semanas que ele passou fora. E, embora eu saiba que não é verdade, é inegável: sua fala piorou. Antes de sair para o bar, Phil me contou que tem sido cada vez mais necessário ajudar El a encontrar palavras, formular pensamentos e entender o que as outras pessoas lhe dizem.

Eu me sirvo de uma fatia de pizza de quatro queijos, dobro-a no meio e dou uma mordida.

— Continua c... comendo aquela... g... mulher — diz El, encarando-me divertido, à espera de uma reação.

— Eu não me lembro de ter dito nada sobre comer.

— P... P... Pippa, não é? Quica quica!

— Ivy — corrijo, estremecendo por dentro. — O nome dela é Ivy.

— Í... Í... Vi... viu o quê? — pergunta. Embora, assim como tantos outros, ele tenha feito essa brincadeirinha ao ouvir o nome de Ivy pela primeira vez, eu dou uma risada, porque isso mostra que o velho El ainda está entre nós, pelo menos em parte.

— Q... q... q...

— Qual? Quem? Quando? Q...

— Quando! Quando eu vou conhecer?

Boa pergunta.

Depois de ter levado um chute da minha última namorada, Kate, eu fiz o que qualquer idiota humilhado faria: transei com a recepcionista do trabalho. Pippa tinha o hábito cativante mas engraçado de balbuciar “Quica quica” sempre que ficava por cima. E isso acontecia com frequência. E... eu contei isso a El. Eu sei, eu sei — mas ele é o meu amigo de mais longa data, e não deu para resistir. Bem, essa indiscrição acabou se voltando contra mim, porque o nome dela ficou bem gravado num lugar onde pouquíssimas coisas ficam atualmente: a cabeça de El. A menos que a minha próxima namorada seja uma especialista em trampolim chamada Pippa, provavelmente vai ser um erro apresentá-la a ele.

El me olha como cara de quem quer saber a resposta.

— Logo.

Ele estreita os olhos.

— El... ela t... t... t...

— Consegue soletrar? — pergunto, ao me lembrar do que Phil disse sobre como usar várias técnicas de “dar pistas” para arrancar as palavras de El. — Ou faça o som da letra.

Os tendões do pescoço magro de El tensionam com o esforço, enquanto ele reúne forças para tentar outra vez.

— Te... t... e...

— T-E?

El faz que sim.

— Rrrr... — Ele vira o pescoço para a esquerda enquanto mexe os lábios em silêncio, como se tentasse abocanhar a letra seguinte. — M... N...

— T-E-R-M-N?

Ele junta e balança as mãos o suficiente para considerar o gesto uma batida de palmas.

— Ela t... terminou com você... j... já saquei. Ha ha ha.

— E isso é engraçado?

— Talvez não seja — responde, com uma cara séria. — Triste, trágico, prev... prev...

— Previsível?

El aponta para mim como se fosse um apresentador de game-show mostrando o candidato vencedor.

— Lamento cortar esse seu barato horrível, mas Ivy não terminou comigo.

— Í... Í... Vi...

Eu sei o que o safado vai dizer, mas nem a pau vou facilitar a vida dele.

— Merda — diz, por fim. — Acha que cosegue me carregar?

Duvido muito que El tenha atingido seu objetivo da adolescência de chegar a um e setenta de altura, e ele já era magro antes de o mal de Huntington começar a corroê-lo. Não deve pesar muito mais do que uma das minhas sobrinhas de dez anos.

— Tenho certeza de que consigo jogar você direto pela janela.

El pensa na hipótese.

— A... anda logo.

O apartamento que El divide com Phil fica no sexto andar. A porta de entrada do prédio fica no alto de um curto lance de escada com degraus de azulejo que dá para a entrada da garagem e a rua movimentada. El quer tomar “ar f... fresco”, então eu o levanto, o carrego por quase quarenta degraus e o pouso gentilmente na soleira. No fim das contas ele é mais leve do que parece, mas mesmo assim o esforço faz meus braços formigarem.

Depois de uma dificuldade inicial, El tira o maço de cigarros e o isqueiro do bolso.

— A... acende um pr’mim.

Eu faço o que ele pede e lhe entrego o cigarro aceso.

— Você não fuma.

El me mostra a evidência em contrário e sopra fumaça na minha direção. O tráfego naquela rua é incessante, então o rosto esfumaçado equivale a pouco mais que um insulto diante da nuvem de poluição que nos rodeia nesta agradável noite de agosto.

— Bem, você não fumava três semanas atrás.

El dá uma tragada, prende a fumaça cheia de alcatrão nos pulmões, arregala os olhos e em seguida fica vesgo. Aguardo El ficar verde, tossir, engasgar — como nos filmes —, mas ele simplesmente abre a boca e deixa a fumaça sair devagarinho dos pulmões.

— Q... quer um?

— Não, obrigado. É um vício nojento.

— Fffoi o que o Phil disse. — Ele sorri. — Mas fumando voc’parece l... c... legal pra c... caramba.

— Isso lá é verdade.

Poluição à parte, é agradável ficar sentado na escada vendo as pessoas e os carros passarem mais ou menos no mesmo ritmo. El já está no terceiro cigarro quando vemos Phil voltando para o prédio. Ele balança a cabeça quando nos vê, depois acena brevemente para mim.

— Garotos — diz, subindo os degraus. — Estão dando uma festinha? — Então, estala a língua enquanto cata as guimbas de El e as guarda num lenço de papel.

— Obrigado, q... querido.

— É um desprazer — responde Phil. Daí ele se senta entre nós dois, arranca o cigarro de El, fuma e devolve o cigarro. — Hábito nojento do caramba.

— Os m... m... milhores sempre são — comenta El e pisca para mim.

— Verdade — diz Phil.

— De onde veio... — eu afasto a fumaça de cigarro do rosto — ... tudo isso, afinal?

Phil olha para o chão e balança a cabeça outra vez.

— Lembra aquela música dos S... Smiths? — pergunta El.

— “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want”? — responde Phil, com um sorriso.

— “Bigmouth Strikes Again”? — chuto.

— Que duplinha de palhaços do ca... caramba. N... não. “What D... Di... Diff...” porra!

— Eu sei — comenta Phil, carinhosamente. Então, tira o cigarro de El, traga fundo e devolve. — “What Difference Does It Make?”.

E, caramba, como eu queria ser fumante.

— E aí? — digo. — Como estava o bar?

— Lotado, barulhento e sem personalidade nenhuma.

— V... v... você devia ter ido a... ao b... p... b... bar gay.

— Eu fui.

— Ch... ch... ch...

— Valha-me, Deus. Já é tortura suficiente aguentar as sacanagens desse zero à esquerda o tempo todo. Mas ainda ter que aturar ele cuspir cada letrinha desse jeito... eu juro por Deus, isso é igual a esperar um pelotão de fuzilamento inteiro puxar o gatilho.

— Ch... ch... — O olhar malicioso de El parece confirmar que, seja lá o que ele esteja lutando para dizer, é alguma grosseria (embora, em se tratando de El, nunca se saiba). — Chupou algum pau lá?

— Lamento desapontar você, meu querido, mas a única coisa que eu toquei com os lábios foi um Merlot bem fraquinho.

Petulante, El dá de ombros. Mais para o começo do ano ele gastou a saliva tentando convencer Phil a arranjar um novo namorado. Além dos sintomas físicos, a doença de Huntington acaba com o temperamento e a personalidade, elimina a lógica, a razão e a inibição social de suas vítimas. Some-se a isso o fato de El sempre ter gostado de tudo o que não presta, e o resultado pode ser triste, engraçado e extremamente confuso. Mas ele não está fazendo o papel de cupido desapaixonado só porque está doente ou é malicioso. El compreende que sua morte se aproxima e que antes do fim terá se reduzido a algo irreconhecível. Para ele, o problema é que sua vida pode durar mais dez anos, época em que Phil já seria cinquentão. Por isso, El tem feito várias maluquices, como “terminar” com Phil e cadastrá-lo em sites de relacionamento “e... e... enquanto ele ainda é n... novo o bastante para encontrar outro”. No que diz respeito a gestos de amor, esse é o maior que eu já testemunhei.

— F... Fisher tmou pé na bunda — comenta El.

Phil ergue a sobrancelha.

— Não, Fisher não tomou, não — retruco.

— Ainda — diz ele, sem a menor dificuldade.