Nós dois

Andy Jones · Capítulo 17 de 37

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Nós dois

Capítulo 19

 

Hoje à noite é a confraternização de Natal da Sprocket Hole. Não quero estar aqui, mas Joe insistiu. Além de ser uma chance de ficarmos bêbados feito gambás e dizermos uns aos outros como somos maravilhosos, a comemoração conta com a presença de diversos clientes, e, quanto mais conversinhas eu puxar, mais eu ganho no ano que vem. Já passa das onze, e a festa continua frenética. Não tenho mais papo para puxar, e a bebida está me embrulhando o estômago.

Ontem à tarde, depois de sairmos do cinema, eu e Suzi fomos a um bar e bebemos vinho demais. Mesmo assim, eu cheguei em casa e fui para a cama antes de Ivy voltar do clube do livro. Não sei a que horas ela retornou, mas estava dormindo ao meu lado quando acordei de ressaca às cinco e meia da manhã. Beijei sua bochecha, saí da cama sem fazer barulho — como tem sido rotina ultimamente —, me vesti no corredor, peguei o carro (provavelmente com o nível de álcool no sangue ainda acima do permitido) e atravessei Londres para passar as doze horas seguintes gravando um comercial de absorventes. Precisei de um caminhão de comprimidos para dor de cabeça, de um remédio para gripe e febre e de quatro litros de café com leite para chegar ao último take e ao “Fechamos”. Isso faz três horas, e tudo o que eu queria era me arrastar de volta para casa e esconder a cabeça debaixo do travesseiro. Mas, em vez disso, cá estou eu, preso numa comemoração de Natal. Estou quente por causa do cansaço, minha cabeça ainda dói, uma nuvem de culpa induzida pela bebida paira sobre mim, e sinto saudade de Ivy.

Reúno minhas últimas forças, me levanto e começo a longa jornada até a saída. Escolho o caminho onde encontro menos resistência e desvio de qualquer um que eu reconheça, mas a um metro da porta Suzi aparece à minha frente.

Eu sabia que Suzi estava aqui, mas ela é uma das últimas pessoas que quero ver esta noite. Nós nos divertimos muito ontem no cinema e no bar, rimos, bebemos, flertamos. E, embora eu me sinta meio mal, posso conviver com isso. Mas a coisa vai além. Eu disse a Suzi coisas sobre Ivy que deveria ter guardado — reclamei outra vez sobre Frank e o Natal, falei que Ivy é dez anos mais velha do que eu, contei que Ivy usa o banheiro de porta aberta e que não transamos há quatro meses. E isso — essas revelações íntimas — me faz sentir como um traidor. Acordei hoje de manhã com a lembrança da minha tagarelice indiscreta fresca na memória, e isso me incomodou mais do que a minha ressaca, que, aliás, não teve nada de insignificante. A confidência de ontem à noite, sobre minha castidade de quatro meses, fez a conversa tomar um caminho perigoso. Mesmo que restrito ao roteiro do curta, o sexo se tornou um tema-chave das nossas conversas, e foi inevitável: a discussão saiu do campo da especulação e entrou no da revelação. Falamos das nossas primeiras vezes, das melhores e das piores. Discutimos desejos e rondamos as preferências, e, durante os silêncios nada constrangedores, nós nos encaramos como se estivéssemos nos avaliando, uma sobrancelha erguida, um sorrisinho de canto de boca. Eu já vivi o suficiente para saber quando recebo um sinal verde, e em qualquer outro momento da minha vida nós teríamos acabado na cama ou encostados na parede de um beco escuro. E saber disso me faz sentir péssimo. Vivemos em regiões opostas de Londres, mas eu acompanhei Suzi até sua parada do metrô. Antes do beijo de boa-noite, nós nos encaramos por uma fração de segundo a mais do que o necessário, determinando talvez que tipo de beijo trocaríamos. Suzi tomou a iniciativa e me deu um estalinho. Não foi uma coisa ardente, nem nada do tipo, porém foi mais do que um beijo na bochecha. Durante vários momentos do dia de ontem, enquanto Suzi e eu nos olhávamos como gatos diante de novelos de lã ou de uma presa, eu imaginava não como ela seria na cama (tenho certeza de que é ótima), mas como seria na manhã seguinte, e na outra, e na outra. Quando Suzi riu, corou e me perguntou o que eu estava pensando, e respondi “nada” de um jeito sugestivo. Influenciado pelo álcool e pela luxúria, eu estava pensando que Suzi e eu nos daríamos muito bem juntos.

Mas, enquanto meu metrô ia para o sul, eu sabia que estava errado. Nós nos atracaríamos, sairíamos, conheceríamos os amigos, possivelmente passaríamos um fim de semana na praia. E então a sensação de novidade perderia a força. Nós passaríamos a nos irritar um com o outro, ignoraríamos ligações, inventaríamos desculpas e — depois de muitas trepadas de despedida — deixaríamos isso para trás e terminaríamos tudo de um jeito que destruiria tudo de bom que aconteceu antes. Não faço ideia de como sei disso, mas eu sei. Já passei por isso antes, e meu subconsciente (mais inteligente) reconheceu os sinais: a risada forçada, talvez; a tendência ao egocentrismo; as orelhas assimétricas. Seja o que for, está ali, sob a superfície, como uma espinha prestes a nascer. Enquanto o metrô rumava para Wimbledon, meus pensamentos começaram a descambar para a animosidade. Caramba, Suzi sabe perfeitamente bem que Ivy está grávida de gêmeos, e o fato de ela flertar comigo desse jeito inegável, de acenar com a possibilidade de sexo... bom, o que isso diz sobre ela? E o modo como eu aceitei, joguei seu joguinho e retribuí o flerte diz o que a meu respeito?

Eu e Ivy estamos discutindo com mais frequência e, parece, mais irritação. Na maioria das vezes a gota d’água é uma bobagem, e não consigo concluir se isso diminui ou intensifica a questão. Tudo está fora de sequência, o que distorceu minha perspectiva. A coisa de onde passar o Natal, por exemplo. Talvez, se Ivy não estivesse grávida de 21 semanas, eu não visse problema em passarmos a data separados. Mas, gostemos ou não, agora somos uma família, e como ter certeza de que fomos feitos um para o outro se as circunstâncias estão ditando os termos? E a companhia de Suzi só parece dificultar ainda mais a distinção. Portanto, sim, ela é basicamente a última pessoa com quem quero papo hoje à noite. Mas aqui está ela, na minha frente, bloqueando minha saída dessa algazarra.

— Fugindo às escondidas?

— Eu tive um dia bem longo.

— Como foi a filmagem?

— Nada inspiradora. — E não estou sendo truculento de propósito, mas é sério: o que mais eu posso dizer sobre o assunto?

Suzi fica meio sem jeito diante do meu comportamento.

— Entendi — diz, em seguida me entrega um presentinho embrulhado num papel que lembra um quadro do Jackson Pollock. — Feliz Natal.

E eu me sinto um completo babaca.

— Eu não comprei nada para você. Me desculpe. Eu tenho estado... você sabe.

— Não se preocupe. É só um livro. — Ela fica na ponta dos pés e me dá um beijo na bochecha. — Feliz Natal! Êêê!

— Êêê. A gente se vê ano que vem.

Mas ela já se foi.

A corrida de táxi custa quarenta e seis libras, e, quando eu chego em casa, já passa da meia-noite e só faltam três dias para o Natal. Mesmo assim, não faço menção de sair do carro enquanto o taxista faz o teatrinho de procurar quatro moedas para me dar de troco.

— Se anima, amigo — diz ele, me entregando as moedas. — Vai dar tudo certo.

— Já era.

Enquanto o carro se afasta, eu me dou conta de que deixei o presente de Suzi no banco traseiro, ainda fechado.

O apartamento está silencioso e arrumado. Para não incomodar Ivy, tiro os sapatos no topo da escada e vou até o banheiro para tirar a roupa. Escovo os dentes sem fazer barulho e tomo o cuidado de mijar na porcelana, não na água. Eu bebi, mas não estou bêbado, por isso consigo evitar as tábuas de assoalho que rangem no caminho até o quarto. O relógio no criado-mudo marca 00h18, e o brilho esverdeado dos dígitos me permite ver o rosto de Ivy. Não vejo seu rosto à luz do dia desde quinta de manhã, há quase dois dias. Eu me deito em silêncio, mas, ao virar de lado, o movimento do edredom sobre mim mais lembra uma avalanche numa manhã tranquila de sábado.

Ivy se vira e me dá um beijo.

— Oi.

— Oi.

Ela se apoia nos cotovelos.

— Me empurra — pede.

Eu a empurro, e ela consegue se sentar e pôr as pernas para fora da cama. Está prestes a sair pela porta quando bate nos cestos empilhados.

— Ai! Caramba.

E eu perco mais um ponto de autorrespeito.

— Como foi o dia? — pergunto, quando ela volta. Coloquei os cestos do meu lado da cama para ela evitar mais trombadas.

— Bom — responde ela enquanto boceja. — E o seu? Como foi a filmagem?

— Poderia ter sido pior. Talvez.

Ivy se cobre com o edredom até os ombros e se ajeita numa posição confortável.

— A gente podia ler o livro do bebê — murmuro.

— Eu já li com o Frank.

— Como assim? E eu? Sexta é dia de ler o livro do bebê.

— Bom, agora já é sábado.

— Isso é uma piada, né?

— Não. Já passa de meia-noite, eu estou esgotada e quero voltar a dormir.

Fim de papo.

Agora estou completamente acordado e agitado, sentindo uma raiva impotente. Se houvesse um quarto extra, eu iria para lá dormir agora mesmo. Mas o Frank tomou conta do quarto de hóspedes, assim como do apartamento, assim como da minha vida. Eu dormiria no sofá, mas as persianas da sala não bloqueiam toda a luz vinda da rua, e não faço ideia de onde Ivy guarda os cobertores. Eu tenho um apartamento em Brixton, mas agora ele tem inquilinos. E deitado aqui, neste quarto escuro, é difícil me imaginar mais preso numa cela.