O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

5 - Alix De Brusk

CAPÍTULO 5

Alix De Brusk

- Alix, tu estás atrasada para o torneio!

Thom as criou coragem e abriu os olhos. Experim entava a sensação de fazer parte de um

sonho estranho. Seu corpo estava leve. “Será que ainda estou vivo?”, pensou, desconfiado.

— Já estou indo, aia! — respondeu um a adolescente.

O m enino descobriu que estava ao lado da m esm a garotinha que vira no vidro. Ela devia ter agora uns quinze anos. De m odo estabanado, tentava prender um a tiara nos cabelos com pridos, parada diante de um espelho. “Será que ela pode m e ver?”

Estavam em um quarto grande, com m uitas tapeçarias coloridas. Dois baús cheios de vestidos estavam abertos e bagunçados. Havia roupas tam bém sobre a cam a im ensa. Alix ainda brigava com os cabelos quando outra j ovem , da m esm a idade, entrou no aposento.

— Ainda não estás pronta, prim a? — perguntou a recém -chegada, num tom que pedia urgência. A m oça usava os cabelos loiros e m uito lisos presos por duas tranças. Seu vestido branco era delicado e longo, com m angas com pridas.

Alix, im paciente, deixou a tiara cair. Thom as estrem eceu. Aos pés da j ovem , encontrou seu antigo livro de capa azul.

— Ora, deixa-m e te aj udar.

A recém -chegada recuperou a tiara e prendeu-a com eficiência na cabeça da prim a.

— Com o estou? — perguntou Alix, rem exendo-se dentro de um vestido azul, tam bém longo e discreto.

— Muito bonita.

Depois, ao descobrir o livro, m urm urou, apreensiva:

— Por que tu não o escondes? Mulheres não têm perm issão para ler.

A adolescente sorriu, chutando o obj eto para debaixo da cam a.

— Jane, tu és boba! Ninguém vai descobrir. Sabes que este livro m e traz recordações de m inha falecida m ãe. E, depois, está há anos com a m inha fam ília.

— Mas teu pai te proibiu...

— Ele não saberá se tu não contares a ele — disse Alix ao pegar gentilm ente as m ãos da prim a e levá-la para fora do quarto.

“E agora?”, afligiu-se Thom as. Ele tentou andar, m as não teve êxito. “O que m e guia neste lugar?” Olhou em volta, atrás de algo que o aj udasse. “Teu pensam ento”, respondeu sua intuição. Sem perder tem po, o m enino pensou novam ente em Alix e sentiu a cabeça rodar.

Foi parar j unto de Alix e Jane, que ocupavam duas das cadeiras destinadas aos nobres num a arquibancada de m adeira, m ontada ao redor de um a arena. Um a m ultidão barulhenta ocupava todos os lugares disponíveis. Na arena coberta de gram a pisoteada, vários cavaleiros, j á sobre as m ontarias, aguardavam em silêncio o início de um torneio, alinhados em duas fileiras, um a ao lado da outra, sob a m anhã ensolarada. Vestiam arm aduras brilhantes, ornam entadas com lenços que traziam as cores de seus brasões. Os cavalos, com as cabeças protegidas por placas de m etal, estavam cobertos por m antos bordados. Thom as nunca assistira a um torneio de um lugar tão privilegiado.

Quando o arauto anunciou a entrada do rei Arnon, todos fizeram silêncio. O hom em m oreno

passou entre os nobres antes de se acom odar em um a cadeira de m adeira entalhada, posicionada no ponto m ais alto do cam arote.

— Em nom e de Deus, da Igrej a e de toda a Britany a, declaro aberto este torneio! E que

vença o m elhor! — gritou o rei. Ele era m ais j ovem do que Thom as se lem brava. Devia ter uns trinta e cinco anos.

O povo vibrou, aplaudindo os cavaleiros. Alix esticou-se em sua cadeira para ter um a visão

m elhor do espetáculo. Havia outras dam as em assentos próxim os, tão ricam ente vestidas quanto ela. Algum as cochichavam , apontando para os cavaleiros. Thom as ouviu vários nobres fazendo apostas, enquanto o rei observava tudo com atenção. Os cavaleiros separaram -se em dois grupos, colocados em pontas opostas do cam po de batalha. Paj ens corriam entre seus am os, preocupados com os últim os preparativos. Cada cavaleiro recebeu um escudo — com o brasão de cada fam ília — e um a lança de m adeira com ponta de ferro, que devia m edir uns três m etros de com prim ento.

No instante em que as trom betas soaram , a m ultidão parou, hipnotizada, para depois explodir

em gritos e vivas. Os dois grupos se enfrentavam , direcionando as lanças para os adversários. Alguns hom ens caíram . Outros, ainda m ontados, voltaram para os paj ens em busca de novas lanças. Alix prendeu a respiração. Alguns cavaleiros iniciavam um a luta de espadas no solo. Um deles caiu pesadam ente, sem se m exer m ais. Saiu carregado por dois paj ens, seguido por um rastro de sangue.

Thom as não soube dizer quanto tem po durou aquela batalha im placável. Sentia-se tonto.

Conseguiu, a m uito custo, recuperar a concentração. Percebeu, surpreso, que os nobres tinham trocado de roupa. O vestido de Alix agora era rosa, com detalhes dourados. O cabelo rebelde estava firm em ente preso por um a trança, enfeitada por flores do cam po bem m iúdas. Quanto tem po se passara desde a abertura do torneio? Dois, três dias?

O interesse geral estava centrado em um único duelo de espadas, que envolvia dois hom ens no

m eio do cam po. Os dem ais cavaleiros tinham sido derrotados. Assustado, o garoto notou a rosa prateada sobre listras azuis e brancas, cuidadosam ente entalhada no escudo de um dos adversários: o brasão de Rouen De Larc. Era o m esm o hom em que quase m atara Sabina e os pequenos andarilhos havia quatro anos, em York.

Rouen enfrentava outro cavaleiro, quase tão alto quanto ele. O adversário utilizava um escudo

negro e um a arm adura sim ples, assim com o o elm o assim étrico, sem adornos. Alix fechou os olhos assim que as espadas se tocaram m ais um a vez, com estardalhaço. Os dois hom ens eram extrem am ente ágeis em seus m ovim entos, apesar das arm aduras. Arnon coçava a barba, apreensivo. Thom as sabia que Rouen De Larc era o cam peão do rei, talvez o m elhor cavaleiro de Britany a. O povo gritava, entusiasm ado.

Com um golpe seco, Rouen atingiu o peito do cavaleiro negro, que cam baleou para trás. Alix

abriu os olhos, agarrando os braços da cadeira. Sem perder a oportunidade, o ruivo aproveitou para desferir um novo golpe, m as o adversário se desvencilhou a tem po. A luta feroz hipnotizava a plateia. Thom as teve a im pressão de que o cavaleiro negro estava ferido, vulnerável e exausto. Rouen avançou com determ inação. “Está tudo perdido”, lam entou o garoto, torcendo a favor de qualquer um que fosse contra o intragável ruivo.

Surpreendendo a todos, o cavaleiro negro, com um giro rápido, colocou-se atrás de Rouen que, tendo j ulgado o adversário derrotado, não conseguiu se defender. Atingido nas costas, caiu de j oelhos, m as não seria derrotado tão facilm ente. Num golpe de fúria, m irou as pernas do rival, levantando-se num pulo.

A m ultidão adm irou a proeza do cam peão do rei.

— Ele é m esm o im batível — com entou um nobre, próxim o a Thom as.

Mas o cavaleiro negro previra o golpe. Ele o desequilibrou e o j ogou de bruços, com violência. O povo aplaudiu. Desapontado, o rei cruzou os braços. Alix sorriu.

— Eu só gostaria de saber quem é esse cavaleiro negro — disse Jane.

Alix, aflita, m ordia os lábios. Thom as tam bém pressentiu o perigo. Rouen ainda não estava derrotado.

O cavaleiro negro parou diante dele, aguardando, paciente. O rei hesitava em lhe dar a vitória. Ouviram -se vários m urm úrios no m inuto em que o hom em ruivo se ergueu m ais um a vez. Arnon parecia satisfeito. Rouen atacou com truculência, atingindo o rival no om bro. Este segurou o im pacto do golpe, para espanto de todos, e, com um chute, o desequilibrou ao atingir um a de suas pernas. Rouen não era páreo para a agilidade do outro. No m om ento em que vacilou, o cavaleiro negro acertou-o com a espada em pleno estôm ago. O hom em ruivo curvou-se de dor e afundou no chão após receber novos golpes por todo o corpo. Estatelou-se de barriga para baixo, inconsciente. O cavaleiro negro esperou o veredicto. O silêncio era total.

Arnon, enfim , cedeu.

— Não posso te declarar o m elhor cavaleiro de m eu reino enquanto não souber teu nom e.

Curiosas, as pessoas aguardavam . Alix esticou-se na cadeira. O cavaleiro negro atravessou o cam po, vencendo a curta distância que o separava da nobreza. Com um m ovim ento rápido, tirou o elm o. Thom as escutou cochichos e alguns suspiros das dam as. O novo cam peão era um rapaz loiro, de cabelos curtos e crespos, com incríveis olhos azuis. Talvez ainda não tivesse vinte anos. Um corte sangrando na altura da testa m arcava o rosto bonito, que revelava sinais de cansaço. O rapaz apoiou um dos j oelhos no chão, estendendo a espada j unto aos pés para oferecê-la a seu rei.

— Sou Erec De Sutter, escudeiro de Mark De Durham .

Um burburinho percorreu a plateia com o fogo.

— E teu pai, com o se cham a? — perguntou Arnon, pálido.

— Meu pai era cham ado de Kirian De Sutter — respondeu, altivo.

O rei precisou pedir silêncio ao povo, que se agitava nas arquibancadas.

— O falecido Kirian De Sutter foi o m elhor dos cavaleiros de m eu pai, o rei Jam es — disse, após alguns segundos.

Thom as captou os com entários ao redor. Não entendia o que estava acontecendo.

— Ele é filho da feiticeira — com entou um a dam a idosa. — Lem bro-m e dela! Tão bela quanto o filho... E tão perversa!

Um vulto, protegido por um a capa escura, saiu do m eio da m ultidão e avançou pelo cam po, em direção ao rei. A plateia foi se acalm ando, im pressionada com sua audácia. Arnon ia dizer algum a coisa quando parou e sorriu. Thom as reconheceu Mark De Durham .

— Perm ita-m e falar em favor de m eu escudeiro, m aj estade — disse ele, tirando o capuz antes de fazer um a reverência.

— Meu nobre sr. De Durham , tu estás vivo! — com em orou o rei. — Disseram -m e que tinhas sido m orto pelos bárbaros, nos lim ites de nosso reino.

— Fui gravem ente ferido, m aj estade, e m eu corpo ainda se recupera da am eaça que sofri.

Estaria m orto se não fosse pelo sr. De Sutter, que arriscou sua vida pela m inha — explicou o recém -chegado, virando-se para Erec que, de cabeça baixa, hum ildem ente aguardava a decisão do rei. — Meu escudeiro é um j ovem de grande coragem , com o foi seu pai. Está aos m eus serviços desde os doze anos, época em que ficou órfão.

Mark encarou a m ultidão e, novam ente, dirigiu-se ao rei. — Sabes que a tragédia acom panhou a fam ília deste rapaz — continuou. — Mas garanto-te,

m eu senhor, que fatos passados não dim inuem sua coragem . Eles o fortaleceram e o tornaram digno de te servir, com o teu m ais devotado cavaleiro.

O rei espiou, desolado, seu cavaleiro m ais poderoso, Rouen De Larc, ainda estendido no chão.

O cavaleiro negro vencera-o com grande m érito. Seu estilo de luta, que ousava golpes precisos e rápidos, im pressionara Arnon profundam ente, bem com o o público. Não poderia dispensar os serviços de um rapaz com o aquele.

— Qual é a história da fam ília dele? — quis saber Alix, cutucando Jane. A prim a nem

precisou se dar ao trabalho de responder. Um a das dam as virou-se para trás, pronta para passar o que sabia.

— Contam que a m ãe era tida com o um a poderosa bruxa e que acabou consum ida por um

raio — m urm urou. — O rapaz era só um a criança na época. Dizem ainda que, antes de m orrer, ela lançou um a m aldição sobre o m arido, o hom em m ais forte de Britany a. Desde então, ele ficou cego e fraco, m urchando a olhos vistos até a m orte.

Alix pareceu chocada. Não era possível que o rapaz, com seu j eito de anj o, tivesse um a m ãe

com o aquela.

— Pobrezinho... — m urm urou.

Erec lutava contra os próprios fantasm as. Exposto ali, ao j ulgam ento de todos, não erguia o

olhar, tenso. Arnon desceu os degraus até o gram ado. O silêncio era absoluto.

— Escudeiro... — disse, ao tirar a espada da bainha. A ponta da arm a tocou de leve o om bro

do j ovem . — Com tua coragem , conquistaste o direito de ser o m elhor hom em deste torneio. Em nom e de Deus, tu agora te tornas m eu cavaleiro, devendo ser leal a m im , teu rei, até tua m orte.

Erec esboçou um sorriso. Pareceu a Thom as que ele tirava um peso im enso das costas. A

em polgação tom ou conta das pessoas nas arquibancadas, felizes com a decisão de Arnon. O povo j á escolhera seu novo cam peão.

...

Thom as sentia-se cada vez m ais exausto. Alucinação, pesadelo, m agia, fosse lá o que

estivesse acontecendo com ele, aquilo esgotava suas forças. Mas o garoto resistiu e perm aneceu ao lado de Alix em outro cenário. Anoitecera e os nobres reuniam -se para desfrutar de um banquete farto, disposto num a m esa m uito com prida. Hom ens e m ulheres exibiam roupas caras e j oias, um luxo que Thom as nunca tivera a oportunidade de ver de perto. O am biente era anim ado por alguns m enestréis. Um grupo de andarilhos fazia m alabarism os com bolas e tochas de fogo, entre os risos e a conversa anim ada dos convidados.

Alix estava sentada perto do rei, m uito ereta em um deslum brante vestido branco. Pequenas pérolas estavam presas em seu cabelo escuro. Não era um a garota bonita e o excesso de tim idez im pedia que ela sorrisse com frequência, o que deixava seu rosto m arcado por um toque m elancólico. Jane, próxim a a ela, distraía-se com a anim ação dos andarilhos. Sentado em frente às duas, Erec era o centro das atenções, principalm ente dos olhares fem ininos. Ele, que não ostentava j oias, vestia um a túnica negra, de veludo, que realçava seu corpo atlético. O corte no rosto estava protegido por um curativo discreto. Alix observava as m ãos dele, notando hem atom as e arranhões. “Ele deve ter se m achucado por inteiro, principalm ente no om bro”, pensou Thom as, acom panhando o raciocínio da garota. Erec fitou-a, constrangido. Alix corou até a raiz dos cabelos quando seus olhares se cruzaram e abaixou im ediatam ente a cabeça, m irando a salada que lhe enfeitava o prato.

Mark e o rei conversavam , acom panhados de longe por um carrancudo Rouen De Larc, que tinha a cabeça em oldurada por um a im ensa bandagem . O olho esquerdo estava roxo e o nariz parecia m ais torto do que o norm al. Thom as estrem eceu com o ar sinistro do cavaleiro ruivo, o que lhe trouxe lem branças daquela tarde desastrosa em York. O hom em era m ais j ovem do que se lem brava, com o o rei. Se estava conhecendo o passado de alguém ligado à sua m ãe, o que não tinha certeza, aquilo fazia, sim , m uito sentido. “O sr. De Durham ainda nem com eçou a ficar careca!”

— Que todos brindem à saúde de nosso novo cam peão! — sugeriu Arnon em voz alta, suspendendo sua taça. No m esm o instante, os nobres im itaram -no, dirigindo-se a Erec. O rapaz agradeceu tim idam ente a gentileza, enquanto todos bebiam . Não se sentia à vontade no novo papel de herói.

Um m enestrel aproxim ou-se de Alix, sentando-se em um tam borete atrás dela.

— Ora, m enestrel, que tal cantar um a aventura? — propôs o rei.

— Se m e perm ites, senhor, acho que j á vim os m uita aventura nestes últim os dias — argum entou um a dam a, algum as cadeiras adiante.

— E o que sugeres, m inha senhora?

— Talvez um a bela canção de am or...

Algum as m ulheres apoiaram a escolha da dam a. O rei pediu ao artista que cantasse a m ais bela canção de am or de todos os tem pos. Obedecendo à ordem , ele deslizou os dedos nas cordas do alaúde, obtendo o silêncio dos convidados. A m úsica, lentam ente, encheu o ar e os corações. Thom as não prestou m uita atenção na letra, que falava de um am or trágico e im possível. Com o as dam as, os hom ens tam bém apreciavam a m elodia envolvente.

Alix criou coragem e olhou para Erec. O peito dela subia e descia, num a respiração curta e intensa. O rapaz retribuiu o olhar e sorriu. A garota, num m ovim ento brusco, desviou a cabeça, querendo fugir daquela situação tão confusa para ela. Num gesto ainda m ais nervoso e involuntário, suas m ãos bateram na j arra de vinho à frente, derram ando o líquido em cim a de Erec. Os dois levantaram -se ao m esm o tem po. Ele, para tentar fugir do vinho que j á lhe m olhara a barriga e as pernas. Ela, assustada com o desastre que provocara, acabou derrubando a cadeira para trás, o que acertou em cheio o m enestrel. Este deu um grito quando a m adeira pesada desabou sobre seus dedos.

Refeitos do susto, os convidados com eçaram a cochichar e a rir. Alix, ainda em pé, encarava o chão. Jane não sabia com o aj udá-la. Um olhar reprovador de Arnon silenciou a sala. No m esm o instante, outros dois m enestréis com eçaram a tocar e os andarilhos voltaram a fazer novas peripécias.

— Deves perdoar a atitude de m inha filha, sr. De Sutter — m urm urou o rei. Os criados j á

haviam recolocado a cadeira no lugar e Alix sentara-se, encolhida, com as m ãos trem endo.

— De m inha parte não há problem a algum , m aj estade. Thom as piscou. “Filha?”, repetiu, incrédulo, olhando Alix e Arnon. Alix era filha de Arnon? O

rei não tinha sucessores diretos. Era viúvo, perdera um a filha j ovem e nunca m ais se casara outra vez. A sucessão era um problem a que ganhava a atenção de m uita gente na época em que o garoto frequentava as ruas com o grupo de Jon. No Monastério, as questões im portantes do reino nunca eram tratadas na frente dele. Com tantos deveres e estudos, Thom as praticam ente esquecera-se do assunto. De um a coisa não tinha dúvidas. Se tudo aquilo fosse um sonho, ninguém poderia acusá-lo de falta de criatividade.

Um vento súbito, vindo das j anelas altas do salão, apagou os im ensos archotes que ilum inavam

o am biente e fez os presentes tem erem algum a am eaça invisível.

— É só um a tem pestade que se aproxim a — explicou Arnon. — Não há m otivo para

interrom perm os a festa.

Enquanto os criados corriam para acender os archotes, o arauto anunciou a chegada de um

visitante.

— Hugues De Angelis, o novo arcebispo de Britany a! Thom as sentiu um a pontada de dor no estôm ago. Todos ficaram em silêncio para conhecer o

estranho personagem que cam inhava devagar até o rei. Ele parou e fez um a reverência exagerada. Os olhos negros, porém , não dem onstravam subm issão no rosto m agro e m oreno. A boca parecia desafiar qualquer autoridade. Mas, quando falou, o tom de voz era sim ples e encantador, com o se desej asse enfeitiçar os presentes.

— Perm ita-m e, m aj estade, interrom per tua festa... Acabo de chegar a Brusk. Fui escolhido

para ser o novo arcebispo do reino, em substituição ao m eu estim ado e falecido antecessor, o sr. De Wins.

— Sê bem -vindo, sr. De Angelis. É um im enso prazer te conhecer. Erec, m olhado de vinho da cintura para baixo, ainda não se sentara. Estava sério, outra vez

senhor de seus sentidos. Avaliava, intrigado, o novo arcebispo. A noite não seria m ais a m esm a.

...

A vontade de vom itar atorm entava Thom as. A cabeça rodava loucam ente, a percepção

daquela realidade se enfraquecia, m as ele se esforçava ao m áxim o para perm anecer im erso m ais um pouco. Teve a im pressão de que as horas voaram .

Um cheiro forte de flores deixou-o ainda m ais tonto. Agora estava em um j ardim . Era dia,

m as ele não sabia se era m anhã ou tarde. Em algum lugar, pássaros cantavam , felizes. Alix, agachada, recolhia flores, enquanto Erec se aproxim ava com cautela.

— Alteza... — cham ou, baixinho, com m edo de assustá-la. Não obteve o efeito que esperava. Alix espalhou flores por todos os lados ao se levantar,

assustada. Quando viu o cavaleiro, abaixou a cabeça e cruzou os braços nas costas. Erec não se intim idou.

— Preciso falar contigo — disse, controlando o nervosism o. — Teu pai quer que nos casem os...

Alix não se m exeu m ais. Thom as suspeitou que ela j á conhecia a decisão real.

— Gostaria de saber tua opinião, alteza... — continuou o rapaz. — Preciso descobrir o que pensas realm ente de m im .

A m enina continuou im óvel. Erec, criando coragem , segurou o queixo da dam a.

— Alix...

Ela apertou os lábios, ainda encarando os pés.

— Olha para m im , Alix, eu te peço. Se m e rej eitas, desobedecerei ao rei. Não quero te m agoar.

Com suavidade, o rapaz ergueu-lhe o rosto. Alix não desviou seus olhos dos dele. Trem ia.

— Tu queres ser m inha esposa? — perguntou ele, em ocionado.

— Eu te am o, sr. De Sutter — sussurrou Alix num fio de voz. — Eu te am o desde o m om ento em que te vi, no torneio, lutando contra o sr. De Larc...

Um sorriso ilum inou o rosto do rapaz.

— Tam bém sinto am or por ti, Alix De Brusk. Um am or que m e acalm a o coração. Que m e faz ver que existe beleza no m undo e m e m ostra que vale a pena lutar por ele.

De dentro do gibão, tirou um a delicada corrente de ouro. Presa a ela, Thom as viu sua pedra opaca.

— Gostaria que isto ficasse contigo. Pertenceu à m inha m ãe.

Alix hesitou em pegar o presente.

— Sabes o que dizem de m inha m ãe — disse o cavaleiro, deixando que um a som bra de tristeza invadisse sua alm a.

— As pessoas inventam m uitas coisas, m eu senhor.

Decidida, ela aceitou a pedra e buscou um sorriso charm oso. As som bras invadiram a m ente de Thom as, forçando-o a deixar para trás aquele m om ento em Brusk. A im agem dos j ovens apaixonados foi se apagando lentam ente. O som dos pássaros soou com o eco na cabeça do m enino.

Fora do Monastério, a tem pestade desabava sobre as Terras Erm as. Gotas pesadas de chuva batiam contra os vidros da j anela. Thom as estava deitado, as costas contra o chão gelado, com dificuldade para focalizar os obj etos em seu quarto. Os dentes chacoalhavam de frio. Procurou pela vela, que ardia tranquilam ente ao seu lado. Parte da cera estava derretida. Quanto tem po estivera em transe? Com m uita dificuldade, recuperou os m ovim entos e se arrastou para a cam a, atrás do calor nos lençóis. Seguindo a intuição, escondeu a pedra opaca, que ainda segurava, debaixo do travesseiro. Um a sonolência invadiu-o, forçando-o a dorm ir.

A m adrugada passou, assim com o a chuva. Os m onges encontraram um a m anhã fria e nublada. O inverno viria em breve. Quando Michel veio despertar Thom as, apavorou-se com o seu estado; o m enino ardia em febre. Ele preparou um rem édio com gosto horrível e o obrigou a tom á-lo. Com o a febre não cedia, deu-lhe um banho, num a tentativa frustrada de baixar a tem peratura.

— Queria que nosso m estre estivesse aqui — disse, pesaroso.

Dois dias depois, a febre, enfim , cedeu. E m ais de um a sem ana depois, Thom as j á se sentia novam ente fortalecido. Retom ara até algum as das tarefas no Monastério, apesar das advertências de Michel. Só era difícil m esm o controlar a ansiedade toda vez que procurava a pedra escondida sob o travesseiro. Relutante, calculou o estrago que um novo transe faria à sua saúde. A curiosidade, porém , venceu. Precisava, m ais do que nunca, descobrir a história com pleta de Alix e Erec.

Num a noite, quando todos os m onges dorm iam , saiu da cam a e se sentou sobre o piso da cela.

Acendeu um a vela, com o da outra vez, e deixou-a por perto. Com força, apertou a pedra opaca entre os dedos, buscando concentrar os pensam entos desta vez em Erec. O cavaleiro negro era um a figura m isteriosa e, ao m esm o tem po, distante. Thom as queria saber m ais sobre ele.

Foi difícil desligar a m ente cheia de perguntas. No m om ento em que finalm ente teve sucesso,

deixou-se dom inar m ais um a vez pela fam iliar sensação de m orte.

...

O garoto tossiu com o m au cheiro de um a taberna im unda. Estava atrás de um a parede de

m adeira coberta de lim o, j unto a um a m esa ocupada por dois hom ens, um deles oculto pelo capuz de um a capa velha e escura, irreconhecível. Mas Thom as sabia quem era. Espiou-o com cautela, esquecendo-se de que não poderia ser notado.

— Por que m e cham aste aqui? — perguntou Erec, num a voz abafada. — Pedi que viesse, senhor, porque tenho algo para te vender — m urm urou o outro. Com os

m odos ágeis de um ladrão, retirou da m anga um pequeno saco de couro. — É um obj eto m uito caro ao sr. De Angelis.

— És pago para espionar e não para roubar.

— Sou apenas um servo, m eu senhor. Preciso de dinheiro para sobreviver... — disse, com

um a risadinha. — Isto aqui vale, pelo m enos, quinhentas m oedas de ouro.

— Não trago esse dinheiro com igo.

— Repito que isto é m uito im portante para ele. — Se é tão im portante, com o te apossaste disto? — zom bou o cavaleiro. — Tenho m eus truques — retrucou o outro, irritado. — Se não queres esta perenthis, então

encontrarei outro com prador...

— Com o cham aste o obj eto? — disse Erec, subitam ente interessado. — É com o m eu am o cham a esta coisa: perenthis. Ela vale quinhentas m oedas! — Já te disse que não trago esse valor com igo. Pago-te cem . O servo fingiu indignação e am eaçou guardar a tal perenthis. Erec prendeu-o pelo pulso. — Posso te pagar m ais cem da próxim a vez que nos encontrarm os. Sabes que sou um bom

pagador.

— Preciso de m ais dinheiro. Devo ir para longe. Não posso m ais trabalhar para o arcebispo.

Quando ele sentir falta disto aqui...

— Receberás m ais cem m oedas quando m e certificar de que este obj eto é m esm o o que

afirm as ser.

Thom as acom panhava, confuso, o diálogo. A cabeça doía. Estava desapontado por ver Erec

frequentar aquele lugar horrível e barganhar o preço de um obj eto roubado. Não correspondia à figura do herói que vira lutando em Brusk. Até a aparência do rapaz com binava com a taberna im unda. Vestia-se com o os salteadores que os andarilhos tanto tem iam . “Será que Alix sabe disso?”

Ao se lem brar da princesa, Thom as foi arrastado para longe. Fechou os punhos. Aquela sensação horrível deixava-lhe a boca seca. Quando a cabeça parou de rodar, descobriu que estava em um corredor ilum inado por archotes. Não era o requintado castelo de Brusk, com certeza. As paredes de pedra clara estavam nuas, exceto por um a tapeçaria. Thom as ouviu a voz de Alix vindo de um quarto à sua direita. Aproxim ou-se, em ocionado, sem reparar que descobria com o se locom over dentro daquela realidade. A j ovem lia um a das histórias do livro de capa azul.

— O j ovem cavaleiro recuperou a espada para apontá-la contra o focinho do terrível dragão — disse, com doçura. Alix, sentada em um a confortável cadeira, segurava com um a m ão o livro, enquanto com a outra acariciava os cabelos de um garotinho adorm ecido em seu colo.

Thom as perguntou-se quanto tem po se passara desde o encontro da princesa e seu noivo no j ardim . Alix não era m ais um a adolescente e sim um a j ovem adulta.

Ao se certificar de que o filho dorm ia, ela se levantou para colocá-lo com cuidado no berço. Distraída, enfiou o livro em um dos bolsos de seu vestido largo e sim ples. Estava descalça e os cabelos soltos davam -lhe um a aparência de cam ponesa. Thom as sorriu. Naquele lugar, a princesa podia ser ela m esm a, sem preocupação com protocolos.

O garotinho devia ter uns três anos. Tinha alguns traços do rosto de Erec, além da pele clara e dos cabelos loiros.

— Parece que hoj e ele deu trabalho para adorm ecer — disse Erec. — Já é m adrugada...

Eufórica, Alix correu até o m arido, encostado contra a batente da porta entreaberta. O rapaz estava exausto. Não usava a capa, m as as roupas denunciavam que acabara de regressar de um a longa viagem . Alix puxou-o para fora do quarto, fechando a porta atrás de si.

— Há quanto tem po, quanto tem po! Estava m orta de saudades — m urm urou ela, cobrindo-o de beij os.

— Tam bém senti tua falta.

— Deves estar fam into! Eu m esm a vou preparar algum a coisa para com eres.

— Isto pode esperar. Tenho algo para te falar.

Erec enlaçou-a e a conduziu para um segundo quarto. Sentaram -se na beirada de um a cam a. O lugar era sim ples, apesar da decoração elegante.

— Deves partir de Sutter o m ais rápido possível.

— Queres que eu volte para a corte? — surpreendeu-se a princesa. — Ora, sabes o quanto gosto da tranquilidade de Sutter. O verão aqui é tão bonito! Nosso filho gosta m uito de brincar na praia. Sinto falta de m eu pai, m as...

— Não quero que fiques com teu pai. Tam bém é perigoso.

Erec tocou com carinho os cabelos da esposa. Queria dizer m uito m ais do que acabou revelando.

— Procura Moriarty .

— Por que não posso ficar contigo?

— Preciso que estej as em segurança, j unto com nosso filho, para poder agir. A grande am eaça está chegando ao nosso m undo e irá nos destruir.

A j ovem não conseguiu conter as lágrim as que, silenciosas, tom aram sua face.

— Am o-te m ais do que a m inha própria vida — disse Erec. — Esta fam ília é m eu ponto fraco, o único cam inho que os inim igos têm para m e atingir.

— Há algo que ainda não sabes, que não contei a ninguém porque queria que fosses o

prim eiro a saber.

Alix guiou a m ão do rapaz até a barriga saliente que o vestido largo disfarçava com eficiência. — O bebê é para o com eço de novem bro.

Em ocionado, ele a abraçou com o se tem esse perdê-la naquele instante. — Lem bra-te — sussurrou-lhe aos ouvidos —, vai ao encontro de Moriarty. Não procures a

aj uda de ninguém , nem m esm o de Mark De Durham .

— Mas ele é nosso am igo! — protestou Alix ao se afastar do m arido. Erec não deu seus m otivos. Tom ou-lhe as m ãos e beij ou-as. — Há alguém que deves tem er: Hugues De Angelis. De súbito, o eco de um estrondo distante colocou-o im ediatam ente em pé. — Estam os sendo atacados! Pega nosso filho e vai para a Praia dos Pelicanos. Lá encontrarás

dinheiro, roupas e provisões para a viagem .

— Não vou te deixar!

— Alix, por favor, não m e deixes vulnerável... Agora vai! Erec saiu apressado do quarto, seguido por Alix. Thom as foi atrás da j ovem , que retornou

para o quarto do filho. O garotinho dorm ia, chupando o dedo. Ela se abaixou para pegá-lo no exato m om ento em que surgiu um a perigosa lum inosidade. Thom as estrem eceu.

Junto à j anela aberta, um a criatura brilhante avançou sobre eles. Tinha a aparência de um

anj o, com asas, porte alongado e traços suaves que pareciam hum anos. Não havia, entretanto, bondade naquele ser. O garoto quis tirar Alix e a criança dali o m ais rápido possível. Mas era apenas um observador, incapaz de qualquer interferência.

A j ovem , rápida, agarrou o filho e tentou fugir. A criatura alcançou-a, enfiou garras, que

surgiram do nada, em seus om bros. Ela gritou, caindo de j oelhos; o filho, assustado, despertou chorando. “Tenho que aj udá-los. Preciso fazer algum a coisa!”, pensava Thom as, agoniado.

Velozm ente, o brilho da criatura esgotou as forças de Alix, que m al reagiu quando o filho foi

arrancado de seus braços. Satisfeita, a criatura escondeu-o em seus braços e, ao retornar à j anela, abriu as asas para se lançar em m eio à noite.

...

Muito tem po se passou antes que a princesa recuperasse a consciência. Thom as não tivera

coragem de deixá-la sozinha. De onde estava, ouvia os gritos dos soldados que lutavam para proteger o castelo. Não podia fazer nada para aj udar. Cam baleante, Alix levantou-se e foi para o corredor. Um a fum aça grossa e escura encobriu sua visão. O lugar estava em cham as.

Apalpando as paredes, Alix encontrou um lance de escada e desceu por seus degraus. Dois

criados passaram por ela, apavorados.

— Onde está o sr. De Sutter? — perguntou, segurando um deles pelo cotovelo. — Com os soldados, alteza. Destruíram o portão principal e puseram fogo em tudo. São

m uitos!

— E quem são eles? Quem nos ataca?

— Não sei, alteza, acho que são salteadores.

Alix largou o hom em e, tossindo, desceu um novo lance de escada. O fogo estava próxim o dem ais. Salteadores com uns não atacavam castelos, ainda m ais um a fortaleza à beira de um precipício, com o o castelo de Sutter. Nem tam pouco ousariam destruir a residência da filha do rei Arnon. O local era m uito bem guardado.

O grande salão tam bém estava em cham as. Alix parou nos prim eiros degraus da escada ao ouvir o som característico do choque m etálico entre espadas. Thom as, que a seguia, viu Erec do outro lado do salão, sendo atacado por três hom ens. O rapaz lutava de m odo feroz; seus adversários eram hom ens rudes.

— Mercenários... — deduziu Alix.

Um quarto hom em uniu-se a eles. Estava coberto por um a capa e um capuz envolvia a sua cabeça. A um sinal seu, os m ercenários suspenderam a luta e saíram . O fogo, que agora consum ia a escada por onde Alix viera, aum entava de intensidade. Ela, porém , não se preocupou com as cham as. Seus olhos estavam fixos no m arido.

— Tens algo que m e pertence, sr. De Sutter — disse o recém -chegado.

A j ovem sabia, com o Thom as. O quarto hom em era Hugues De Angelis.

— Isto não pertence a ti, nem a este m undo — respondeu Erec, m antendo a espada em posição de ataque.

— É o preço que pagam os pela paz, m eu j ovem .

— Por quanto tem po, Savac? Por quanto tem po achas que poderás m antê-los longe daqui?

— Então sabes quem sou?

— Desde tua chegada a Britany a. Teu rosto foi m odificado, m as não conseguiste m udar tua essência.

— Tens a sensibilidade de tua m ãe. Pena que não tenhas os poderes dela...

O arcebispo estendeu um dos braços, lançando um a luz que envolveu Erec. Alix tentou avançar, m as as cham as estavam entre ela e os dois hom ens. Apesar de a fum aça tornar difícil entender o que acontecia no salão, Thom as viu o m om ento em que um a esfera brilhante saiu flutuando das roupas do cavaleiro. O obj eto, do tam anho de um a m açã, voou até o lugar onde Hugues se encontrava. Erec, de j oelhos e ainda agarrado à sua espada, sofria dores horríveis.

— Farei com que tua m orte sej a digna de um cavaleiro, rapaz. Gosto de ti! — sorriu o arcebispo, ao m esm o tem po que guardava a esfera.

Alix conteve um grito. A espada de Erec ganhou vida e atravessou-lhe o corpo. O rapaz tom bou, m orto.

O fogo cobria todo o salão. Thom as, desesperado, procurou por Alix.

Ela desaparecera nas cham as.