O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
5 - O sobrinho do arcebispo
CAPÍTULO 5
O sobrinho do arcebispo
Am úsica não saía da cabeça de Vince. Ele foi assobiando até o quarto para m em orizá-la. Assim
que entrou no aposento, pegou um a das folhas espalhadas sobre a cam a e m arcou as notas m usicais com um a pena um edecida no tinteiro que m antinha num a m esa próxim a. Sorriu, satisfeito. Finalm ente conseguira achar um final para a m elodia que vinha com pondo há tem pos.
Procurou pelo alaúde no m eio da bagunça que era seu quarto. Além das folhas espalhadas
sobre a cam a, havia pilhas de livros em um canto, roupas j ogadas em outro e, por todos os lados, obj etos estranhos que encontrara em suas viagens às Terras Erm as. Um deles deixara-o fascinado: um sistem a de lentes de aum ento acondicionadas em um tubo de m etal com quase um m etro de com prim ento. Era um obj eto antigo e m ilagrosam ente intocado pela ação do tem po. Após algum a pesquisa, o cavaleiro descobrira que o equipam ento era cham ado de telescópio. Com ele, passara a observar o céu nas noites claras, estudando cada estrela e planeta ao seu alcance. A lua revelara-se fantástica, com suas crateras m isteriosas.
O alaúde estava escondido debaixo de um a cam isa que tirara na noite anterior. Vince j ogou-
se na cam a, sentou-se e esticou as pernas com pridas para a frente. Tocou as cordas do instrum ento, produzindo um a m elodia suave. Um a tristeza im ensa invadiu seu espírito, um a dor que não lhe pertencia. Ele interrom peu a m úsica e em purrou o alaúde para o lado. Só então percebeu que a andarilha, carregando um a pilha de roupa lim pa, entrara no quarto e estava parada j unto à porta.
— O que desej as? — perguntou ele, m al-hum orado. Detestava aquela sensação de tristeza que
perturbava seus pensam entos.
— Vim trocar os lençóis — explicou a j ovem , abaixando a cabeça. O rapaz arrependeu-se do m odo brusco com que a tratara. Shannon estava abatida há dias,
desde que o arqueiro fora m orto. Ele m al a vira durante este tem po. Estivera ocupado dem ais num treino intenso para o Torneio da Prim avera, que aconteceria em breve. Ele não podia decepcionar o rei. Deveria ser o m elhor. Sem pre fora assim , desde que se tornara cavaleiro, três anos antes. Na verdade, não se lem brava de nenhum dia de sua vida em York em que não fosse obrigado a ser sim plesm ente o m ais inteligente, o m ais ágil, o m ais forte... Seu tio não o deixava esquecer suas obrigações.
— Podes arrum ar a cam a — resm ungou antes de se levantar. Precisava com urgência de um
cigarro.
Cam inhou até a j anela, rem exendo os bolsos. Em segundos, m ontou um cigarro de palha,
acrescentando um a pitada de pó am arelo ao fum o. Duas tragadas m ais tarde e j á se sentia bem m elhor. Shannon esticava-se para aj eitar um a coberta lim pa sobre a cam a. Era difícil desviar o olhar daquela m oça atraente. Ela usava um vestido cinza, o m esm o m odelo adotado pelas criadas.
— Escutaste a m úsica? — perguntou o cavaleiro, um pouco tonto. Exagerara na quantidade de
pó am arelo.
— É um a bela m elodia, em bora sej a m uito triste. — Gostaste dela?
Ela assentiu, sem erguer a cabeça. Parecia conform ada com sua nova situação. Tinha m ais regalias do que um a prisioneira, que ficaria confinada ao calabouço. Entretanto, usufruía m enos vantagens do que um a criada. A andarilha agachou-se para pegar a roupa suj a j ogada sobre o piso.
— Posso arrum ar teu quarto, senhor? Espalhaste tudo o que coloquei em ordem ontem .
Nunca recebera qualquer crítica vinda de um criado em York. Todos tem iam -no, com o tem iam o arcebispo. O rapaz, divertido com o atrevim ento da andarilha, apoiou os braços sobre o parapeito da j anela. Lá fora havia um bonito dia de prim avera.
— Arrum a o que quiseres.
A tontura deixou-o em m inutos. Espiar a andarilha era m elhor do que contem plar a paisagem de sem pre. Naquele m om ento, ela em pilhava alguns livros largados em um canto.
— Sabes que não te farei m al, Shannon?
A j ovem levantou os olhos para ele. Era a prim eira vez que fazia isso, desde a m orte do am igo. Olheiras profundas tiravam a beleza de seu rosto pálido.
— Entendes que a única m aneira de te deixar a salvo é te m anter sob m inha proteção? Conheço o tem peram ento ruim do sr. De Larc há m uito tem po. Ele pode ser m uito violento com um a m ulher.
— Há opção, senhor? Eu era livre, vivia com m eus pais e am igos...
— É a lei do m ais forte. O que achas que o povo pode fazer contra a vontade dos nobres? Apenas rezar para que o senhor que responder pelas terras onde cada um vive tenha algum bom sentim ento no coração.
A porta do quarto abriu-se de repente. Hugues De Angelis entrava, com um a expressão dura no rosto.
— Devias bater antes — criticou o rapaz, enquanto escondia o cigarro entre os dedos.
Tarde dem ais. Hugues farej ava o cheiro de fum aça.
— Entrega-m e o que escondes! — ordenou ele.
— É só um cigarro, tio.
O arcebispo estendeu o braço para ele, num a cobrança autoritária. Vince obedeceu. O outro hom em levou o cigarro de palha até o nariz. Com a m ão, o cavaleiro fez sinal para que Shannon deixasse o quarto. Não a queria por perto durante o im inente acesso de fúria do tio.
— Misturaste pó am arelo ao fum o? — disparou Hugues, fuzilando-o com o olhar.
— Foi só um punhado. Não virei dependente do pó...
— Isto não é para um garoto nobre, educado para ser o m elhor dos cavaleiros! — gritou, ensandecido. — Com o tem po, esta droga inibe pensam entos, ações e força de vontade, debilitando a saúde. Queres acabar com o aqueles infelizes nos lim ites de Britany a? Este pó é para eles e não para um cavaleiro briton!
Parada j unto à porta, Shannon hesitou em ir para o corredor. Estava preocupada com o rapaz.
— Estás proibido de acender outro cigarro. E quero todo o m aterial que tens aí contigo.
Sem questionar a ordem , o cavaleiro entregou tudo o que trazia no bolso: as folhas de palha, o fum o e a pequena bolsa de couro com o pó am arelo. Hugues deu-lhe as costas, m as, antes de sair, notou o telescópio. Vince pressentiu o castigo.
— Não, tio, eu te peço... — tentou, sem m uita esperança.
O arcebispo dirigiu o olhar para o obj eto. No m esm o instante, este foi erguido e arrem essado com violência contra a parede, espalhando pedaços de vidro no ar. O tubo bateu no chão com um estrondo.
— Tu m e deves obediência, Vince. Nunca te esqueças disso — disse o hom em , ignorando
Shannon ao abandonar o quarto.
Vince não reagiu. Um m isto de ódio e revolta queim ava-lhe o espírito. Shannon, indecisa
sobre o que fazer, apenas o fitava.
— É m elhor que deixes a arrum ação do quarto para depois — disse o rapaz, m antendo a
calm a, com o sem pre fazia.
A j ovem retom ou a postura subm issa e saiu, carregando a pilha de roupa suj a.
...
Dines estava sem sono. Ouviu m ais um a vez a m ensagem de Tenorius, reproduzida num a das
pedras de energia, relatando a m isteriosa partida de Thom as. Tem ia pelo garoto. Que m otivos o teriam levado a deixar a segurança de Durham ? Desde a últim a visita de Mark, quatro anos antes, um a dúvida m artelava os pensam entos do abade. Se Thom as fora capaz de citar a profecia sem conhecê-la, talvez...
Não, ainda era m uito cedo para saber. Ele ainda era um a criança. Precisava estudar m ais e
am adurecer para a vida. O im portante era m antê-lo protegido, sob a vigilância paternal de Mark De Durham . O garoto, porém , escapara da vigilância de Tenorius. Dines apenas rezava para que Thom as não acabasse nas m ãos de Hugues De Angelis.
Espreguiçou-se na cadeira, no salão subterrâneo. Olhou para a pilha de livros adiante,
lem brando-se com saudades do garoto curioso que o enchia de perguntas. “Ele esteve aqui com igo e eu o perdi.”
Ia se levantar quando parou, estático. Thom as estava bem diante de seus olhos. Não era o
m enino que conhecera, m as um adolescente alto e m agro, de dezesseis anos. Seu rosto m ostrava preocupação. O rapaz tentava lhe dizer algum a coisa.
— Thom as, o quê...? — disse o abade.
No m esm o instante, a im agem de Thom as desfez-se no ar.
...
A escuridão atordoava Erin. Sentia os pés pesados, com o geralm ente acontece nos sonhos. O
cam inho parecia não ter fim . “Preciso acordar”, pensou, agitada. “Detesto pesadelos.” Sua força de vontade não estava aj udando em nada.
— Erin... — cham ou Thom as, ao seu lado.
A garota pendurou-se no pescoço dele.
— Onde posso te encontrar, Tom ?
— Estou em York... Encontrei Savac!
Aflita, a j ovem apertou seus om bros.
— Estás vivo?
Bruscam ente, a escuridão sum iu. Erin abriu os olhos, confusa. A luz do dia entrava pela j anela
do quarto. Ela se sentou na cam a e esfregou os olhos. Oz, aos seus pés, m irava-a com atenção.
— Sonhei com Thom as, m eu am igo. Ele precisa de nós — sussurrou, ao acariciar-lhe as orelhas.
...
A noite fora agitada para Vince. Intercalara cochilos com longos m om entos de insônia. Há quatro dias, desde que fora descoberto, lutava para controlar a necessidade voraz de fum ar. Sentou-se pela m ilésim a vez na cam a, saiu de lá, andou pelo quarto, sem conseguir se acalm ar. Pouco antes de o dia nascer, retornou para os lençóis, onde encontrou um sono m ais profundo.
Seu antigo pesadelo reencontrou-o após um a m erecida trégua de m eses. Ele se viu novam ente preso a um a luz incessante, que lhe sugava as forças. O corpo estalava de dor. Os gritos desesperados de um a m ulher encheram -lhe a cabeça...
Havia um toque suave sobre seus cabelos... Instintivam ente, Vince abriu os olhos e agarrou a m ão que o tocava, sentando-se. Levou alguns segundos para perceber que Shannon estava à sua frente, com m edo, tentando soltar o pulso que ele aprisionara. Já deviam ser m ais de 9h da m anhã. A andarilha, que fora até o quarto para arrum ar a bagunça diária, ficara espantada ao encontrar o rapaz ainda dorm indo.
— Estavas tendo um pesadelo. Pensei em te acordar... — j ustificou a j ovem , sem esconder um a careta de dor. Vince m achucava-a.
— Perdoa-m e — disse ele após libertá-la.
Shannon m assageou o pulso enquanto se afastava para a porta.
— Voltarei m ais tarde, senhor.
— Fica — pediu ele, cansado dem ais para disfarçar a própria angústia. — Vigia m eu sono. Não quero ter outro pesadelo.
A andarilha hesitou. O cavaleiro m ordeu os lábios. Tinha certeza de que ela o deixaria. Para sua surpresa, Shannon sentou-se na cabeceira da cam a. Vince deitou-se outra vez, descansando a cabeça sobre seu colo. Adorm eceu quase im ediatam ente, saboreando o toque carinhoso da m ão da andarilha sobre seus cabelos.
...
Depois de m uito tem po, Shannon sentiu as pálpebras pesadas e cochilou com as costas apoiadas na cabeceira da cam a. Ainda com a cabeça sobre seu colo, Vince dorm ia. A andarilha teve um sonho confuso, onde se via num a cidade com prédios de cristais, cantando para um a m ultidão incalculável.
Acordou com um sobressalto. O cavaleiro, que despertara antes dela, estava sentado ao seu lado, com os braços cruzados. Ele trem ia de m odo com pulsivo. Os cabelos castanho-claros e longos, na altura dos om bros, estavam encharcados de suor. As roupas colavam em seu corpo m olhado.
— Senhor?
Ele fixou nela seus olhos castanhos. As pupilas estavam dilatadas.
— Meu tio... — disse, com dificuldade.
Apesar do m edo que a dom inava apenas em pensar que o arcebispo estava por perto, Shannon sabia o que deveria ser feito. Teve sorte em encontrar um criado no corredor.
— Diz ao sr. de Angelis que seu sobrinho precisa vê-lo com urgência! — gritou ela.
O coração de Shannon disparou ao se aproxim ar novam ente de Vince. O poderoso cavaleiro
tinha um a aparência vulnerável. Ele se deitara outra vez, encolhido, agarrando os j oelhos com os braços na tentativa de controlar a trem edeira.
— Senhor, há m ais algum a coisa que eu possa fazer? — perguntou a j ovem . O cavaleiro abriu os olhos. Tinha dificuldade em focalizá-la. — Não vá em bora...
— Não m e afastarei m ais, m eu senhor — sussurrou ela, acariciando-lhe a face. Nunca vira
um rapaz tão bonito em sua vida.
Hugues De Angelis logo apareceu no quarto. Shannon saiu de seu cam inho para que ele
pudesse cuidar de Vince. E, adm irada, constatou o quanto ele tem ia perder o sobrinho. Não podia im aginar que existisse algum tipo de sentim ento naquele coração além de crueldade.
— Por que tu não m e cham aste antes? — perguntou Hugues a Vince. — Detesto adm itir... quando estás com a razão... Eu m e viciei... no pó am arelo... — Trago o antídoto — disse ele ao tirar do bolso um a garrafa de vidro escuro. Shannon aj udou-o a segurar a cabeça do rapaz, enquanto ele o fazia beber algum as gotas de
um líquido transparente.
— Agora deves dorm ir — disse Hugues, num tom paternal. — Ficarei aqui. O rapaz cerrou as pálpebras e relaxou. Parara de trem er. — Traz m ais cobertores, andarilha — m andou o arcebispo, sem desviar a atenção do
sobrinho. — Ele sentirá m uito frio nas próxim as horas.