O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

12 - Escolhas

CAPÍTULO 12

Escolhas

Ovento carregado de m aresia acom panhou Thom as em m ais um m om ento de solidão. Com o

fazia quando era criança, o rapaz escalara com agilidade a m uralha do Monastério, à procura do m elhor ponto para observar os prim eiros m inutos de m ais um dia de prim avera. E este surgiu, em cores suaves, em purrando, sem qualquer cerim ônia, as som bras da noite para longe.

O rapaz sentiu-se feliz pela prim eira vez desde que retornara. O m undo que avistava resistira

às atitudes inconsequentes dos hum anos no passado e se reciclara por si próprio. As criaturas m utantes, m antidas fora do paraíso im aginado por Arthur, haviam escolhido sozinhas o próprio cam inho de evolução a partir da Era do Caos, sem a interferência hum ana. O novo dia nascia, indiferente, com o sem pre fora desde a form ação daquele planeta, bilhões de anos antes. A natureza j á perdera a conta de quantos ciclos históricos vivenciara. Estava bem ali, ao redor de Thom as, com o sem pre estivera ao redor do ser hum ano, desde os tem pos prim itivos.

Quando as nuvens escuras deixaram por com pleto o horizonte, o rapaz deu m ais alguns passos

no alto da m uralha. Depois, escalou outra parede para alcançar sua torre preferida. Estava cam inhando sobre o m uro baixo, observando a distância que o separava do m ar, quando sentiu que alguém se aproxim ava. Ele desceu para o piso de pedra para conversar com Erin.

— Im aginei que estarias pendurado em algum lugar alto — riu ela. — O irm ão Michel m e

contou que tu atacaste dois pães recém -saídos do forno, três fatias grossas de queij o e um a caneca de leite fresco. Que ótim o que teu apetite resolveu aparecer! Estás m elhor?

— Dorm i com o um a pedra depois de todas aquelas histórias m alucas que ouvim os no salão

subterrâneo.

— Não acreditas nelas?

— Não sei em que acreditar.

A j ovem chegou m ais perto e entregou-lhe a pedra e a aliança que ele arrem essara contra a

parede. Depois, abraçou-o pela cintura, puxando-o para si.

— Já decidiste o que fazer?

— Prim eiro, vou buscar Menethrrah. Quanto ao resto, ainda não sei. — Sabes onde encontrá-la?

Thom as assentiu. Erin j á com eçou a pensar nos preparativos para a viagem . — Eu irei sozinho — disse ele. — Estou apenas esperando m estre Dines sair da m issa para... — Não podes!

— A esfera está fora dos lim ites de Britany a, cercada por perigos que desconheço. Não quero

que te m achuques num a viagem perigosa que...

— Não entendes, Tom ? — disse ela, aproxim ando ainda m ais seus olhos dos dele. — Eu cresci

acom panhando a angústia da m inha m ãe, noite após noite, à espera de notícias do m eu pai na época em que ele deixava Durham em suas viagens secretas. Prom eti nunca sofrer a espera que toda m ulher em Britany a parece condenada a sofrer. Por isso, aprendi a lutar, a m e defender. Não vou ficar de braços cruzados!

Thom as retirou a aliança do cordão que ainda segurava e guardou a pedra em um dos bolsos

da calça com prida. Com suavidade, puxou a m ão esquerda de Erin para encostar o anel na ponta de seu dedo anular.

— Tens certeza de que é isso que desej as para tua vida? Sou apenas um andarilho doido, com visões e poderes descontrolados, envolvido até o pescoço num a confusão gigantesca. Não posso nem fazer escolhas sim ples e decidir m eu próprio destino. Desde que nasci, sigo um a história que não é m inha, escrita pelos m eus pais, pelos m eus avós, por seres que nem im agino com o sej am . É o que queres para ti, Erin? Um a vida sem a certeza de um am anhã?

— O que achas, Thom as De Sutter?

Era estranho ouvir alguém cham á-lo daquele j eito. Num gesto delicado, ela fez com que a aliança deslizasse por seu dedo até o ponto que deveria ocupar. Então, beij ou os lábios que corresponderam com paixão.

Lentam ente, o rapaz foi perdendo a consciência do barulho do m ar contra os rochedos, dos sons dos pássaros que sobrevoavam o Monastério, do sol tocando sua pele... Suas m ãos com eçaram a despir o corpo que o fascinava, ansiosas por conhecê-lo em detalhes. A situação estava ficando fora de controle.

— Acho que não devem os, Erin. Quer dizer, não sei até onde nós...

— Tom , escolhi um a vida que pode não ter um am anhã, lem bra? Mas existe o hoj e, com o este m om ento especial. Só im porta saber que tu m e am as. Quero ser tua esposa. E quero que m e faças tua esposa agora...

...

Logo após a m issa, Dines pegou um livro e foi se sentar j unto a um a singela fonte, um lugar tranquilo cercado por flores e plantas. Sentia um a necessidade urgente de distrair seus pensam entos. A reação de Thom as à verdade fora a pior possível. O abade, m ais um a vez, não sabia com o lidar com aquele garoto de tem peram ento im pulsivo.

A leitura envolveu-o por quase um a hora até que Thom as apareceu para conversar. Dines alegrou-se em vê-lo bem disposto, livre da angústia que o perseguia desde que o encontrara na floresta, lutando contra Vince De Angelis.

— Mestre, vim te dizer que decidi procurar a segunda perenthis. Acho que não tenho escolha sobre essa questão, não é?

O abade concordou. Lam entava expor um a criança a perigos que ele próprio, um adulto m arcado por tantas perdas, tam bém tem ia. Thom as coçou a cabeça, espalhando ainda m ais os cabelos ondulados e rebeldes. Parecia não saber a m elhor m aneira de abordar Dines sobre algum assunto que o incom odava.

— Preciso te fazer um a pergunta. Um a vez, há m uitos anos, tive um a visão sobre um a criatura estranha, que chorava a m orte da filha e de seu m undo destruído. O lugar era absurdam ente quente e havia dois sóis que brilhavam no céu...

— Por isso ficaste com m edo de m im ?

— Lem bras de quando aconteceu? — perguntou Thom as, desconcertado.

Dines fechou o livro e estudou o rapaz por um tem po. Thom as ainda era o m esm o aluno ansioso que roía unha e desviava o rosto ao ficar nervoso. Estava m ais velho, é verdade, um adolescente que crescera sob a influência positiva da fam ília de Mark De Durham . Tinha ao seu lado um a nam orada que o adorava e apoiava suas decisões. Mas isso seria suficiente para um futuro líder, um ser destinado a grandes feitos, a esperança para m ilhões de vidas? Se Thom as era realm ente Gotihan, com o tudo indicava, ele precisaria de toda a aj uda possível. Não estava pronto para o que o esperava. Se estivesse ali, ao seu lado, Hannah teria dificuldades em enxergar sinais do Herdeiro naquele garoto inseguro, que prom etia não aguentar a pressão que lhe fora im posta.

— Tens razão, não sou hum ano — disse Dines, procurando sorrir. — Faço parte dos zabors,

um a raça quase extinta pelos nergals. Nosso organism o não suporta o processo sim biótico, por isso fom os descartados pelos inim igos. O que um nergal não usa, ele destrói. Foi assim com m eu m undo, Zabor, o planeta que viste com dois sóis. Perdi m inha filha Mareen, perdi tudo o que tinha. Eu vivia desesperado, sem rum o, até o dia em que conheci Tolkien. Tornei-m e um guardião e m inha aparência foi m odificada para que eu pudesse viver entre os hum anos de Britany a.

O rapaz m ostrou-se aliviado, com o se tivesse tirado um peso dos om bros. O abade

surpreendeu-se com a reação. Esperava reencontrar o garoto irritadiço do dia anterior.

— Pensei em partir am anhã — disse Thom as. — Irei contigo. Precisarás de aj uda.

— Ah, Erin tam bém vai.

— Mas pode ser m uito perigoso!

— Tenta falar isso para ela, m estre — disse ele, em um tom divertido, enquanto se afastava.

— Erin consegue ser m ais teim osa do que eu!

...

Os três partiram a pé com os prim eiros raios da m anhã. Michel despediu-se deles com Oz no

colo. O cachorrinho choram ingou sem parar, fazendo de tudo para acom panhá-los. Thom as decidira que o Monastério era o m elhor lugar para o anim al naquele período difícil.

— Não o deixes com er dem ais, Michel! — gritou Thom as, alguns m etros distante do portão

principal.

O m onge acenou para ele após enxugar rapidam ente um a lágrim a por baixo dos óculos.

Thom as desej ou rever aquele lugar m agnífico. Corria de braços abertos para um a viagem que lhe custaria um preço m uito alto.

Em poucas horas, os três viaj antes entraram na Floresta Escura. Nem Thom as nem Erin a

tinham percorrido antes. Dines guiou-os por um cam inho entre árvores im ensas e assustadoras, quase coladas um as às outras.

Seu plano era sim ples. Eles atravessariam a floresta até os lim ites do Pântano do Terror. De

lá, o abade seguiria sozinho até sua nave, escondida naquele lugar praticam ente inacessível aos seres hum anos. Ele pretendia buscar o teletran, um obj eto desenvolvido pelos cientistas de Gaia, capaz de transportar instantaneam ente um a pessoa para qualquer lugar em um raio de vários quilôm etros. A cidade que Thom as vira em seu transe se localizava em outro continente, separado por um oceano intransponível para as em barcações de Britany a. Usar a nave tam bém poderia cham ar a atenção do inim igo. O teletran, então, fora considerado a m elhor alternativa.

— Por que Dines j á não trouxe antes este tele-qualquer-coisa para o Monastério? Seria bem

m ais prático! — resm ungou Erin para Thom as, em voz baixa, logo após tropeçar na raiz de um a árvore.

O rapaz fez um sinal para que ela ficasse quieta. Tentou se concentrar no traj eto. Além das raízes, vários galhos atrapalhavam a cam inhada, tirando-lhe a visão de onde pisava. A vegetação espessa fazia o dia se parecer com a noite. Era com o m ergulhar num a caverna sem luz. O rapaz com eçou a se preocupar.

Aprendera a desconfiar de planos sim ples.

Mais tarde, o grupo investiu num a pausa apenas para alm oçar. A cam inhada até o m om ento fora difícil, pois exigia atenção redobrada a cada passo. Para piorar, Dines obrigava os dois a irem o m ais depressa possível.

— É m elhor engolir isto — disse o abade, entregando-lhes duas bolinhas m inúsculas. A aparência dele era ótim a, o que contrastava com o visível cansaço dos j ovens. Mostrava-se tão bem com o se tivesse acabado de acordar.

— Este é o alm oço? — perguntou Erin, desolada.

— São cham adas de pílulas. Contêm todos os nutrientes necessários para o organism o se m anter por m uitas horas sem sentir fom e. Elas são as m elhores com panheiras dos guardiões, que nunca sabem quando poderão colocar algum alim ento na boca.

Com cara de noj o, Erin pegou um a das pílulas e exam inou-a dem oradam ente antes de em purrá-la garganta abaixo. Thom as tam bém pegou a sua e j á ia abrir um a bolsa que trazia com água fresca quando Dines o interrom peu.

— As pílulas tam bém saciam a sede. Experim enta.

O rapaz seguiu o conselho. Alguns m inutos após engolir a pílula, sentiu um a sensação de bem -estar tom ar-lhe o corpo. Já estava pronto para continuar a viagem .

Dines forçou os j ovens a andarem até a m adrugada. Pararam , por fim , num a clareira, cercada por árvores grotescas. Os dois puderam dorm ir um pouco, enquanto o abade fazia a vigília. Tinham som ente duas horas para descansar.

Thom as despertou de um sono pesado, sem sonhos, assim que algo em sua m ente lhe pediu que abrisse os olhos. Erin ainda dorm ia, abraçada a ele. Os dois estavam encostados no tronco de um a árvore de galhos tortuosos. O rapaz beij ou a testa da garota e cham ou-a baixinho. Ela abriu os olhos, sonolenta, e ia dizer algum a coisa, m as ele encostou os dedos contra seus lábios, im pedindo-a de falar. Erin arregalou os olhos e verificou tudo ao redor, com cuidado. Estavam sozinhos.

Thom as arm ou seu arco e levantou-se. Erin fez o m esm o. Na escuridão à frente, eles distinguiram vários pares de olhos averm elhados. O rapaz j á tivera oportunidade de conhecê-los.

— Os lupus... — sussurrou.

As criaturas avançaram aos poucos. Thom as preparou-se para disparar um a flecha, afastando a lem brança do prim eiro encontro com aqueles seres horripilantes. Era m elhor não pensar em nada.

A estranha luz azulada, surgida do nada, isolou os j ovens das criaturas. Elas uivaram e, assustadas, fugiram .

— Os lupus voltarão — disse Dines, que apareceu à esquerda de Thom as, saído de seu esconderij o atrás da árvore. — É m elhor partim os agora.

O abade interrom peu a em issão de luz e guardou a arm a de energia no bolso. Involuntariam ente, Thom as tocou a cicatriz em seu rosto. Um a arm a com o aquela teria feito um a enorm e diferença em sua j ornada para Durham .

...

— Vej o esta pílula e im agino o delicioso ensopado que só Maria sabe fazer — disse Erin,

exibindo a bolinha m inúscula na palm a da m ão.

— E ela fica m ais saborosa? — riu Thom as, que j á engolira seu almoço. — Claro! — respondeu ela, tam bém rindo. — Devias fazer o m esm o. Os dois abafaram o riso quando Dines lançou-lhes um olhar reprovador. A Floresta Escura

não era lugar para brincadeiras. Mas era praticam ente im possível para Erin não fazer piada sobre qualquer assunto, por m ais assustador que fosse. Ela trazia a alegria do povo de Durham que o rapaz tanto am ava.

Dines deu por encerrada a pausa para o alm oço. Quase não falara nos últim os dois dias,

concentrado nos próprios pensam entos. A floresta tornara-se m enos escura no trecho que percorriam graças à distância m aior entre as árvores. Em com pensação, arbustos com um a aparência ainda m ais sinistra se proliferavam por vários locais. Desde o últim o encontro com os lupus, nenhum outro anim al feroz aparecera. A floresta, no entanto, não deixara de repercutir sons estranhos e am eaçadores.

Thom as pisava a raiz retorcida de um a árvore no instante em que sua intuição o avisou para

não se m exer. De dentro da terra fofa logo abaixo, um a cobra esverdeada rastej ava em sua direção. Erin, que ia à frente, virou-se para ele, descobrindo, apavorada, o que acontecia.

— Mestre... — cham ou ela, em voz baixa.

Dines tirou a arm a de energia de dentro da roupa. A cobra deslizou sobre a raiz e passou por

cim a do pé do rapaz. Era incrivelm ente com prida, com cerca de cinco m etros. Com elegância, o anim al escorregou para outro buraco, ignorando a presença dos viaj antes. Thom as só respirou de novo ao ver a ponta do rabo sum ir de vista.

— O veneno desta cobra é m ortal. Não conheço antídoto contra ele — disse Dines, tam bém

aliviado.

— Pelo m enos não era um rato — com entou Erin. A viagem durou m ais algum as horas. No final da tarde, os três passaram próxim o a um a

clareira. Oculto pelas árvores, Thom as avistou três guardas, m ontados a cavalo, que se divertiam em perseguir um a criança m altrapilha. Ela fugia, desesperada, pelo descam pado. Qualquer que fosse a direção que escolhia, era bloqueada por seus perseguidores, que riam em voz alta.

Thom as quis interferir, m as Dines segurou-o pelo braço. — São guardas de Francis De Roths. Estam os nos lim ites das terras dele — disse o abade, com

tranquilidade.

— Mas a m enina...

— É um a cria dos bárbaros. Persegui-los é um dos passatem pos dos hom ens desta região. — Passatempo?! Não irás im pedi-los? Usa tua arm a de energia. — Para cham ar a atenção de todos? Estam os num a m issão que deve ser m antida em segredo,

nem que isto traga perdas.

— Diabos, Dines! É um a criança!

— Deves sacrificar um a vida se esse ato puder salvar a vida de m uitos outros.

— Quem disse essa besteira? Gotihan?

O grito da criança chegou aos ouvidos do rapaz. Um dos cavalos atropelara-a. Chorando, ela tentou se arrastar para fora do alcance dos hom ens. Com raiva, Thom as desvencilhou-se de Dines.

— Esta atitude não é inteligente — avisou o abade.

— Talvez. Mas é hum ana — retrucou o rapaz, entre dentes. — Vou distraí-los — disse para Erin, que j á arm ava seu arco. — Cuida da m enina.

Ele saiu da proteção que a floresta lhe oferecia, direto para a luz do sol. Cam inhou rapidam ente até os guardas, sorrindo para eles.

— Olá! Estou perdido. Vós podeis m e aj udar? — disse, im itando o tom de voz agradável do arcebispo, um a form a de controle que agia sobre as em oções das pessoas.

Os hom ens, espantados com a aparição repentina, deixaram a vítim a em paz por um m om ento.

— Quem és tu? — perguntou um deles.

— Já vos disse. Sou alguém que se perdeu.

O rapaz tinha certeza de que poderia controlar com facilidade os dois hom ens à sua esquerda. No entanto, o terceiro...

— Vós não tendes m edo dos lupus? — disse, alterando novam ente seu tom de voz, que agora era frio e quase m etálico. — Eles estão por toda parte, prontos para vos atacar...

Os dois hom ens piscaram , boquiabertos, e espiaram a floresta logo adiante.

— Há lupus por todos os lados. Am eaçadores, fam intos, terríveis...

Em pânico, eles puxaram as rédeas dos cavalos e os forçaram a sair da clareira o m ais depressa possível, com o se tivessem lupus em seu encalço.

O terceiro guarda, sem entender direito o que ocorria, cham ou os com panheiros, sem ter resposta. Eles j á estavam longe. O hom em dirigiu-se a Thom as, a espada em punho.

— Bruxo m aldito! — gritou ele, esporeando o cavalo para atropelá-lo.

Thom as não se m exeu até que a arm a estivesse perto o suficiente. Com o um raio, desviou-se do golpe certeiro para agarrar o braço do guarda e puxá-lo para o chão. Apesar de tonto, o guarda reagiu. Thom as livrou-se da m ira da espada para chutá-lo. Depois, pegou a arm a e apontou-a para o pescoço dele. Ainda decidia com o resolver a situação no instante em que a luz azulada envolveu seu prisioneiro. Milésim os de segundos depois, ele se desfez no ar.

— Tu o m ataste! — gritou o rapaz para Dines, que resolvera, enfim , interferir. Erin corria para a m enina, que olhava aterrorizada para eles.

— E o que pretendias fazer? Não conseguiste controlá-lo com o fizeste com os outros. Se vivesse, ele diria que o ataque dos lupus estava apenas na im aginação daqueles hom ens, algo plantado por ti. E te denunciaria com o bruxo ao sr. De Roths.

Thom as olhou para seu professor com o se o visse pela prim eira vez. Só então entendeu que o hom em à sua frente não era o m estre Dines que conhecera na sua infância, m as o guardião, o hom em que defenderia suas crenças acim a de tudo. Exatam ente com o Savac fazia sem pestanej ar.

— Tom , a m enina está ferida — alertou Erin. Não conseguira se aproxim ar. Apavorada, a criança arrastava-se para longe dela, chorando de dor.

O rapaz chegou o m ais perto que pôde. Não soube precisar a idade da m enina. Era pequena, m uito m agra, vestida com roupas im undas e rasgadas. Talvez tivesse uns sete ou oito anos, não m ais do que isso.

— Não tenhas m edo — disse ele após se agachar. — Querem os te aj udar. A m enina pareceu entendê-lo e parou de se m over. Apesar da distância de quase três m etros

que os separava, Thom as exam inou seus ferim entos. Dines estava certo em um detalhe: a m issão era im portante. Não poderiam levar um a criança ferida floresta adentro. Além disso, ela deveria ter um a fam ília.

Um a das m ãos do rapaz tocou um a pequena pedra caída ao seu lado. A outra, ele posicionou

na direção da m enina. Era incrível com o aquele processo, antes tão doloroso, tornava-se cada vez m ais fácil. Em m inutos, a dor da criança foi transferida para a pedra, que se esfacelou em m últiplos grãos.

Ao se descobrir curada, a m enina interrom peu o choro, colocou-se em pé num pulo e, sem

olhar para trás, atravessou correndo a clareira.

— O que m ais os guardiões fazem para defender os interesses dos sacerdotes, Moriarty ? —

perguntou Thom as, m irando os olhos verdes do abade.

— Ainda és inocente — respondeu Dines, com cautela. — Não conheces o sofrim ento que

existe em outros m undos. Nem tam pouco im aginas qual é a real im portância do Herdeiro.

— Meu pai agiria com o agiste? Ignoraria um a criança e m ataria um hom em apenas para

proteger um segredo?

— Sim , ele agiria com o um guardião.

— Para o inferno todos vós, guardiões e sacerdotes! Não vej o diferenças entre vós e os

nergals.

— Elas existem . E tu irás descobri-las no tem po certo. Agora devem os prosseguir com a

viagem , pois m uitas horas de cam inhada nos esperam .

Dines retornou para a floresta. Thom as só se acalm ou quando Erin se aproxim ou para abraçá-

lo.

...

Thom as e Erin seguiram Dines em silêncio até alcançarem os lim ites do pântano. Naquele

trecho, a terra m ostrava-se lam acenta e m alcheirosa. A visão à frente era desoladora. A vegetação ficava ainda m ais espessa, o que tornava o ar quase irrespirável.

— À direita de vós, logo adiante, há um a gruta — disse o abade. — Quero que m e aguardeis

naquele lugar. Não pretendo dem orar.

— Por acaso tens outra arm a de energia sobrando...? — perguntou Erin, esperançosa. — Infelizm ente, não. Mas acredito que os lupus não se aproxim em . No pântano, m oram

criaturas tão abom ináveis que são tem idas até por eles.

— E elas costum am vir passear aqui?

— Espero que não venham .

Erin suspirou e, apreensiva, olhou para Thom as. O rapaz estava com aquele j eito som brio que

ela tanto detestava.

— Tom ai cuidado — aconselhou Dines, antes de sum ir em direção ao pântano. Sem trocar um a palavra, os j ovens atravessaram o traj eto indicado pelo abade. A gruta, na verdade, não passava de um buraco escavado num a colina e protegido pela vegetação.

Erin desabou exausta no chão, largando a bolsa de couro.

— Ele deixou algum as pílulas contigo, Tom ? — perguntou, lem brando-se de que tam bém estava fam inta.

Thom as m eneou a cabeça, ainda de cara am arrada. A j ovem espiou-o com as pálpebras sem icerradas. Sabia, por experiência própria, que nada do que fizesse ou falasse alteraria seu hum or.

— Podes pelo m enos m e abraçar? Estou com frio!

Inesperadam ente, Thom as sorriu, tornando-se encantador outra vez.

— Perdoa-m e — disse, enquanto a aconchegava contra o peito. — Às vezes, esqueço que não estou m ais sozinho.

Aquecida pelo carinho de Thom as, Erin entregou-se ao sono sem resistir. Sonhava com um a tarde agradável na Praia dos Pelicanos quando acordou sobressaltada com um m ovim ento do rapaz. Ele pediu que ela não se m exesse e, silenciosam ente, deslizou para fora da gruta. A j ovem esperou alguns m inutos. Não ouviu nenhum barulho. Preocupada, resolveu sair, não sem antes tirar da cintura a espada que ganhara de Michel.

Podia apostar que am anheceria em breve. A penum bra ocultava qualquer sinal do rapaz.

— Tom ? — disse ela, sem ter resposta.

“Onde ele está?”, pensou, estreitando os olhos.

Thom as desaparecera.

...

Erin procurou por ele até am anhecer. A claridade revelou várias m arcas de pés descalços acom panhadas de outras, feitas pelas botas de Thom as. Ele fora capturado por um grupo de sete ou oito pessoas.

A j ovem não podia ficar esperando por Dines para tom ar um a decisão. Esqueceu o m edo e passou a seguir os rastros pela floresta, m em orizando cada detalhe do cam inho para não se perder. As raízes das árvores dificultaram o trabalho várias vezes. As pegadas sum iam para depois reaparecerem em outro trecho.

Ao pressentir que não estava m ais sozinha, Erin subiu na árvore m ais próxim a e escondeu-se entre os galhos altos. Um m inuto m ais tarde, um hom em pisou no m esm o ponto onde estivera. Ela reconheceu o brasão de Francis De Roths em seu uniform e.

— Ei, Carl, acho que um deles passou por aqui — disse o hom em em voz baixa para um segundo guarda, logo atrás dele.

— Tens certeza?

Erin não ousou respirar. Um anim al estranho, que m ais parecia um rato im enso e cinza, acabara de aparecer em seu cam po de visão. Ele arreganhou os dentes afiados, perm itindo que um a baba verde escorresse de sua boca. Pronto para proteger sua árvore, ele saltou na direção da intrusa.

Para fugir do ataque, Erin pulou da árvore, caindo agachada bem em frente aos dois guardas. Surpresos, eles dem oraram segundos para reagir. A garota aproveitou a situação para fugir. Um dos guardas cercou-a, tentando atingi-la com a espada. Eles queriam matá-la! Sem pensar, pegou sua espada e reagiu, lançando a outra arm a para longe. Depois, virou-se virou para o segundo hom em , que pretendia atacá-la por trás. Ágil, evitou o golpe certeiro e chutou-lhe a lateral do corpo. Ele caiu de cara na terra.

O prim eiro perseguidor voltou a golpeá-la assim que recuperou a espada. Erin precisou se

defender de novos ataques, que vinham agora com m ais violência. O outro hom em , com o rosto verm elho suj o de terra, uniu-se ao com panheiro. A j ovem desarm ou-os de novo, acertando a cabeça de um deles com o cabo da espada e o rosto de outro com um m urro. Não pretendia perder seu tem po brincando com dois idiotas. Precisava encontrar Thom as. E depressa!

Foi quando um a terceira espada apareceu para detê-la. Pertencia a um perplexo Toby as De

Roths, o irm ão de sua m adrasta.

— O-O que fazes aqui, Lady Erin?

Ofegante, a garota desistiu de fugir. Alguém a reconhecera naquele canto rem oto das Terras

Erm as.

...

Durante o cam inho até a fortaleza de Roths, Erin só conseguia pensar em quanto seria útil ter o

talento de Thom as em hipnotizar as pessoas. Não achava um a história convincente que j ustificasse sua presença na região, vestida de hom em , com os cabelos curtos e usando um a espada para se defender. Toby as aceitou sua desculpa de que estava cansada dem ais para conversar e aproveitou para contar que ele e seus hom ens estavam à caça de alguns bárbaros.

— Não vivem os um m om ento de paz? — perguntou ela, procurando levar o rapaz para outro

assunto.

— Claro que sim . Os bárbaros daqui estão sob controle há anos. Estes, pelo j eito, vieram de

longe, à procura de com ida. Acho que m eus guardas te confundiram com um deles — respondeu o rapaz, sorrindo. Era um j ovem m usculoso e bonito, com cabelos loiros e os m esm os olhos esverdeados da irm ã Claire.

Erin forçou um sorriso. Não conseguia esquecer a luta desleal de Toby as contra Vince De

Angelis.

Acom panhados pelos dois guardas, eles andaram pela floresta até um a área descam pada,

onde outro guarda tom ava conta dos cavalos. O desconhecido cedeu a m ontaria à j ovem e seguiu o grupo a pé. Em m enos de um a hora de cavalgada, Erin avistou a fortaleza de Roths, solene e im batível num a planície em tom cinzento, cercada por cam pos arados. Ao fundo, um a cordilheira fechava o horizonte. Nada naquele cenário lem brava Durham . Hom ens, m ulheres e crianças trabalhavam a terra, vigiados de perto por guardas.

— São bárbaros? — perguntou para Toby as, que seguia ao seu lado. — Sim . Trabalham para nós.

Em cada rosto, havia um a expressão apática, sem vida. Eram escravos, controlados pela

força e por algo m ais: o pó am arelo.

A fortaleza era vigiada por quase o dobro de hom ens que Erin vira em York. Um a defesa

m antida pelo próprio Arnon através dos altos im postos cobrados do povo da Ilha Média e da Grande Ilha. Outros senhores das Terras Erm as tam bém recebiam o m esm o benefício. Após cruzar o portão principal da fortaleza, Erin surpreendeu-se em encontrar um vilarej o bastante m ovim entado. Havia algum as loj as e barracas vendendo os m esm os artigos que encontraria no m ercado em Durham . Um núm ero significativo de pessoas circulava pelas ruas de terra.

— Um a caravana com alim entos e outras m ercadorias chegou ontem — j ustificou Toby as ao notar o interesse da j ovem . — Nosso povo depende quase totalm ente do que vem das ilhas.

No pátio da m oradia dos senhores de Roths, Erin deixou a m ontaria para trás. Ao contrário do que im aginava, o castelo era m aj estosam ente decorado. Um a j ovem loira, de uns quinze anos, veio correndo recebê-los.

— Lady Erin, esta é m inha irm ã caçula, Mona — apresentou Toby as.

— Erin de Durham ? Oh, m eu irm ão, o que aconteceu com ela? — disse a garota, com pena da recém -chegada.

Erin tinha plena consciência de que sua aparência era a pior possível. Há três dias que não sabia o que era um banho.

— Agora não é o m om ento para explicações — disse o rapaz. — Nossa convidada está cansada. Podes cuidar dela?

Mona m ostrou um sorriso enorm e e puxou Erin por vários aposentos até um quarto, tão pom poso quanto o restante da casa. Três criadas apareceram para preparar o banho enquanto a adolescente abria vários baús, j ogando inúm eros vestidos para fora.

— Não há nenhum bonito o suficiente para ti, senhora — lam entou.

— Eu prefiro usar roupas de hom em — pediu Erin, enquanto m ergulhava, após se livrar das roupas suj as, na tina de água m orna.

— Não podes! És um a dam a!

Mona contem plou, com tristeza, os cabelos curtos da convidada.

— Oh, senhora, teus cabelos...

— Sabes, Mona, é um a longa história... Posso te cham ar assim , não? Se quiseres, esquece a form alidade. Sou apenas Erin para ti.

A garota vibrou com a intim idade que acabava de ganhar.

— Acho que posso conseguir algum as roupas com m eu prim o. Ele é do teu tam anho — disse antes de sair, com pressa.

...

Erin criou coragem para enfrentar Francis De Roths. O pai de Claire, Toby as e Mona era um hom em grandalhão, tão loiro quanto os filhos. A j ovem nunca o encontrara pessoalm ente. O cavaleiro recusava-se a sair de suas terras havia anos, desde que deixara de participar de torneios. Nem com parecera ao casam ento da filha m ais velha com Mark De Durham , realizado na Ilha Média. Som ente o filho fora enviado para representá-lo.

O rosto de Francis dem onstrava um a dureza que Erin j á conhecera em outros cavaleiros m ais velhos. Não havia qualquer traço que revelasse bondade em sua alm a, m arcada por tantas batalhas contra os bárbaros.

— Por que te vestes com o um hom em , senhora? — disparou ele após exam inar a recém -chegada, trazida por Mona até sua presença no grande salão. Toby as tam bém a aguardava.

— Para m e proteger, sr. De Roths. Um disfarce eficiente pode aj udar um a m ulher sozinha.

— E por que peram bulavas pela Floresta Escura? Meu filho m e contou que teu pai acredita que m orreste no terrível incêndio que destruiu parte do castelo de York. Mas estás aqui, viva, bem debaixo dos m eus olhos. Com o explicas isto?

Neste instante, a porta se abriu com um estrondo. E Vince De Angelis entrou no salão exibindo

seu m elhor sorriso.

Apesar das roupas de viagem im undas, o sobrinho do arcebispo cam inhou até eles com sua

elegância de sem pre, com o se acabasse de chegar para um a solenidade. Mona, à direita de Erin, suspirou, encantada.

— Mais um que voltou dos m ortos — resm ungou Toby as. — Perdoa-m e por vir a Roths sem te avisar com antecedência, sr. Francis De Roths — disse

Vince, com um a profunda reverência ao poderoso nobre. Os olhos brilhavam , irônicos, no rosto que esbanj ava inocência. Depois, virou-se para Toby as e Mona, sorrindo apenas para ela: — Com o estás, m inha adorável senhora?

A garota tam bém sorriu, eufórica.

— Pensei que tivesses m orrido, Vince — argum entou Francis, ainda surpreso. — E deixar Toby as ser cam peão no próxim o ano sem m e enfrentar outra vez? — brincou ele.

— Vim pedir um a revanche!

Francis relaxou. O filho virou o queixo orgulhoso para o lado, com raiva. Mona continuou

suspirando.

— Vim te agradecer, senhor, por salvar a vida da filha de Mark De Durham — disse Vince,

com a seriedade que o assunto parecia exigir.

— Salvar?!

— Com certeza, m eu senhor. Nossa com itiva avançava pela estrada a cam inho de Sands

quando fom os atacados pelos lupus.

Os nobres de Roths m ostraram -se bastante preocupados. As criaturas eram um a eterna

am eaça para quem vivia nas Terras Erm as.

— Tivem os problem as com os lupus ainda ontem — acrescentou Francis. — Três guardas

foram atacados. Um deles não retornou à fortaleza.

Erin pensou em Thom as. Ele realm ente convencera os guardas do im aginário ataque das

criaturas.

— Infelizm ente, m eus guardas foram m ortos. Apenas Lady Erin e eu sobrevivem os —

explicou Vince, m ostrando um a significativa expressão de sofrim ento.

Mona levou um a das m ãos aos olhos para enxugar as lágrim as. — Não fui bom o suficiente para proteger a nobre dam a. Eu a perdi e ela ficou vagando

sozinha pela Floresta Escura. Pensei que estivesse m orta até que vi Toby as e seus hom ens trazendo-a para cá, para a proteção de tua casa. Não im aginas o quanto te sou grato!

Até Erin poderia ter acreditado naquele m elodram a se não soubesse a verdade. Toby as, que

não parecia m uito inteligente, tinha pena da j ovem que, sozinha e indefesa, enfrentara m uitos perigos na floresta perigosa. Mona pegou-lhe a m ão, com o se quisesse confortá-la. Apenas Francis resistia.

— Por que iam para Sands? — perguntou, desconfiado. — Toby as partiu de York antes de saber que Lady Erin não tinha m orrido em nenhum

incêndio. Na verdade, um dia depois deste lam entável incidente, o sr. De Durham m e pediu que conduzisse sua filha até Sands. Não sei os detalhes e acredito que a senhora tam bém não saiba.

O velho cavaleiro fitou Erin, que confirm ou com a cabeça. Ele bufou, nervoso. O sr. De Sands era seu vizinho e rival. Que segredos Mark De Durham poderia estar negociando com ele? Os olhos de Vince acom panhavam , divertidos, seus pensam entos.

— E por que ela se veste desta form a e, ainda por cim a, cortou os cabelos? — retrucou Francis, inconform ado com o visual m asculino adotado por um a nobre britã.

Vince pareceu constrangido. Mirou as próprias botas antes de responder.

— Não sei se posso te contar...

Logo depois, virou-se para Erin.

— Tenho tua perm issão para falar, senhora?

Intrigada, ela assentiu.

— Lady Erin perdeu um a aposta — disse o rapaz após m order os lábios.

— Que aposta?

— Eu a venci no j ogo de cartas, m eu senhor, e provei que um a m ulher não foi feita para usar sua bela cabecinha em assuntos tão com plicados.

Os hom ens caíram na gargalhada. Mona abaixou os olhos, envergonhada, enquanto Erin contava até vinte para não estrangular Vince.

...

Pela m anhã, logo que o dia ilum inou as terras tristes de Roths, Vince dispensou a com itiva que Francis De Roths lhe ofereceu e aceitou gentilm ente dois cavalos para que pudesse levar a filha de Mark De Durham para Sands.

Apesar do excelente j antar da noite anterior e da cam a confortável em que tentara dorm ir, Erin não parava de pensar em Thom as. Àquela hora, Dines j á devia ter voltado do pântano e, possivelm ente, estava revirando a floresta à procura dos j ovens.

— Foi um enorm e prazer te conhecer, m inha nova am iga! — disse Mona após abraçar Erin. Elas estavam no pátio, a alguns m etros de Vince e Toby as, que checavam os cavalos. — Ah, se pudesses ficar m ais um pouco...

— Sentirás falta apenas de m im ? — perguntou Erin, indicando o sobrinho do arcebispo.

— Ele é lindo, não é m esm o? — adm irou Mona, levem ente corada. — Sabes que o rei Arnon pretende fazer dele seu herdeiro? Oh, m as isto tu j á sabes, não? Serás a esposa de Vince!

— Eu?

A adolescente escondeu a boca sob as m ãos.

— Perdoa-m e! Acho que falei dem ais.

— Que história é essa? — quis saber Erin, pegando a nova am iga pelo cotovelo.

— Eu ouvi m eu irm ão com entar que o rei queria nom ear Vince seu herdeiro após o torneio. Só que aconteceu aquele incêndio e...

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Toby as disse que tu serias escolhida para ser a rainha, pois Arnon gosta m uito dos nobres de Durham ...

Erin ficou sem reação. Agora entendia por que Claire insistira para que carregasse tantos vestidos na bagagem para York. Lem brou-se tam bém de que fora o pai que a convidara para o torneio, o que nunca fizera antes. Claro que ela iria de qualquer j eito, depois do sonho preocupante que tivera com Thom as...

— Então esse casam ento não vai acontecer? — perguntou Mona, ansiosa. — Lógico que não!

— Erin, m inha am iga, não im aginas com o estou feliz! Chorei m uito quando soube que Vince

iria se casar — com em orou a garota, abraçando a hóspede pela segunda vez. — O pior é que aquela oferecida da Alicia De Sands tam bém vai ficar sabendo.

— Quem é essa nobre?

— Nossa vizinha. Ela vive convidando Vince para visitar as terras de seu pai. Ai, tam bém tem

aquela chata da Melissa De Wins...

— Quantas nobres britãs estão apaixonadas pelo sr. De Angelis? — Todas! — cochichou Mona, com um a piscadela. — Ele não é m esm o lindo? Com o se adivinhasse ser o centro da conversa, Vince foi até elas com seu charm e irresistível. — Fico triste em partir, m inha senhora — disse ele ao tom ar a m ão de Mona para beij á-la. — Não dem ores em retornar — pediu a garota, novam ente corada. Ela fez um a reverência

para o cavaleiro e retornou correndo ao castelo até parar na porta para vê-lo partir.

— Pronta? — perguntou Vince, virando-se para Erin com o m esm o sorriso que dispensara a

Mona. Os olhos, entretanto, revelavam o quanto ele se divertia em m anipular as pessoas.

— Deixa este teu charm e insuportável para tuas pretendentes. Não preciso dele — disse a

j ovem , irritada.

— Tens razão. Esqueci que tu és um a m ulher que pensa ser inteligente. O cavaleiro deu-lhe as costas e foi até sua m ontaria. — Não esqueceste nada? — perguntou Toby as, que o esperava. O sobrinho do arcebispo m irou-o, im passível.

— Talvez não tenhas dinheiro? — insistiu o outro, com sarcasm o. Os olhos de Vince fixaram -se no rosto do rapaz, frios e am eaçadores. — Meu am igo, teu tio não está m ais vivo para te proibir, não é m esm o? Ou ele tam bém

regressou da m orte? — provocou Toby as, depositando na m ão de Vince um a bolsa pequena, fechada por um cordão. — É um presente. Não precisas m e pagar desta vez.

Toby as afastou-se rindo para ir ao encontro da irm ã. Vince fitou a bolsa durante alguns

segundos antes de deixá-la sem pressa no bolso. Estava terrivelm ente pálido no m om ento em que subiu em sua m ontaria e a esporeou, obrigando Erin a pular sobre o cavalo para acom panhá-lo na cavalgada.

...

— Muito bem , senhora, vam os conversar. Onde está aquele arqueiro irresponsável? —

perguntou Vince logo que a fortaleza de Roths sum iu no horizonte.

— Tam bém gostaria de saber — respondeu Erin após olhar para trás. Ninguém os seguia. —

Nós nos separam os. Acho que ele foi capturado por um grupo de bárbaros, os m esm os que os hom ens do sr. De Roths perseguiam quando m e acharam .

— Esse garoto está sem pre m etido em algum a confusão — disse, divertindo-se com a

situação. — Aliás, os dois. Tu devias ter sido m ais esperta.

— Não tive escolha! — protestou Erin, recordando-se dos dentes afiados do rato enorm e que encontrara na árvore.

— Para onde, agora? — perguntou Vince ao parar o cavalo.

— O que pretendes fazer se achares Thom as? — quis saber a j ovem , tam bém segurando as rédeas da m ontaria.

— Matá-lo.

— Não creio que faças isso. Tu e teu irm ão... Vós sois m uito parecidos.

— O que queres dizer?

— Os dois têm um coração que se im porta com os outros. Só que tu o escondes debaixo desta cara esnobe.

— Meu tio diria que sou fraco — disse o cavaleiro, prendendo o olhar de Erin no dele.

Neste instante, a j ovem vislum brou um espírito atorm entado, em busca das m esm as respostas que Thom as.

— O arcebispo estava errado — disse ela, sustentando o olhar.

Vince estrem eceu e desviou o rosto para a estrada de terra que os esperava.

— Onde viste o arqueiro pela últim a vez? — perguntou, indiferente.

...

Após esconder os cavalos na floresta, Erin levou Vince até o local em que perdera os rastros de Thom as, onde fora descoberta pelos guardas. Isso depois de algum as voltas inúteis e com a aj uda de um m apa que o cavaleiro trazia.

— Tens m esm o certeza de que foi aqui? — perguntou Vince, entediado.

— Com certeza! Vê, as pegadas ainda não sum iram — disse Erin, apontando para um a m arca logo atrás da árvore.

Vince foi até lá para exam iná-las m ais detalhadam ente. Erin aproveitou para beber dois goles de água de um a bolsa.

— Então, Vince, o que achas?

— Acho que as pegadas foram feitas por duas m ulheres m orenas e um a loira, quatro hom ens barbudos e um adolescente m agricela.

— Com o podes saber? — reagiu ela, quase se engasgando com o terceiro gole de água.

Curiosa, fechou depressa o fecho da bolsa e contornou a árvore. Desistiu de perguntar com o sim ples pegadas poderiam conter tantas inform ações.

Diante deles, um grupo de bárbaros, exatam ente com o Vince descrevera, am eaçava-os com pedras, facas e um a espada enferruj ada.