O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

14 - Busca

CAPÍTULO 14

Busca

V iaj ar usando o teletran foi um a experiência agradável para Thom as, algo que lhe proporcionou

um a sensação de liberdade inim aginável. Um m inuto após Dines acionar o dispositivo, o rapaz sum iu da Floresta Escura para aparecer no cenário de seu transe: as ruínas de um a grande cidade em outro continente. Tudo era exatam ente com o vira. O final da tarde ainda ilum inava prédios sem idestruídos, atacados sem piedade pela passagem do tem po, além de pilhas de entulho e obj etos estranhos. Fora um m ovim entado centro urbano, onde a avançada tecnologia de um a época distante perm eava o cotidiano de m ilhões de pessoas.

Vince abaixou-se para pegar um obj eto de m etal um pouco m aior do que sua m ão. Ele o

estudou m inuciosam ente, com o um colecionador faria.

— O que é isso? — perguntou Erin, ainda im pressionada com o cenário. — É um a latinha de refrigerante. Colocavam um tipo de bebida dentro dela. Vi algum as nas

ruínas que costum ava visitar, m as nenhum a em tão bom estado de conservação.

— Que ruínas? — perguntou Thom as, curioso. Não conhecia nenhum lugar, em Britany a, que

guardasse provas da existência da Era da Tecnologia.

— Depois da cordilheira existem algum as cidades em ruínas. Há coisas fantásticas por lá. — Estiveste m uitas vezes nesses lugares?

— Sem pre que conseguia escapar da vigilância de Rouen De Larc. Fui um péssim o escudeiro

— sorriu ele. — Passei a m aior parte da adolescência viaj ando para as Terras Erm as. Rouen fazia visitas periódicas ao sr. De Roths e eu aproveitava a desculpa para fugir do treinam ento e das aulas enfadonhas do m eu professor em York.

Era estranho im aginar o fam oso cam peão do rei fugindo do treinam ento diário de um

cavaleiro, que incluía obrigatoriam ente aulas de luta e esgrim a. Thom as não sabia m ais o que pensar de Vince De Angelis. Julgara-o um nobre tão sem escrúpulos quanto o tio. Mas um a pessoa assim não protegeria um grupo de bárbaros.

— Para que direção agora? — perguntou o cavaleiro, guardando a latinha com cuidado no

bolso da capa.

Thom as olhou para Dines, que observava os irm ãos com um ar im passível. Em seu transe, o

rapaz vira a si próprio andando por m uito tem po antes de achar a segunda esfera. Havia algum detalhe que lhe escapava e ele não conseguia descobrir o que era.

— Não tenho certeza — adm itiu, espiando os pés. — Sei que existia um a estátua gigantesca

num a ilha, m as a perenthis não estava perto dela.

— Hannah não te disse onde escondeu a esfera, m estre? — quis saber Erin. — Podem os tentar localizar a nave que trouxe a sacerdotisa a este m undo — sugeriu Dines,

dispensando atenção a um pequeno equipam ento retangular em sua m ão. — Isto é, se ela não a destruiu antes de ir para Britany a.

— Com o pretendes fazer isso? — perguntou Vince ao notar o obj eto. — Vou procurar por partículas onis.

— As estruturas de m etal destes prédios interferem no rastream ento das partículas. Meu tio j á

tentou localizar essa nave, sem sucesso. Qual o raio de abrangência deste scanner?

— Dez quilôm etros.

— Eu não sabia que um guardião usava um aparelho tão obsoleto — provocou ele. — Scanners m ais poderosos do que isso aí fracassaram na busca.

Para espanto de Thom as, Dines sorriu, satisfeito.

— Alguém pode m e explicar o que são partículas onis? — perguntou Erin.

— São partículas que têm em sua com posição m aterial orgânico — explicou Vince, vendo que o abade não pretendia responder. — Não existem neste m undo, pois fazem parte da tecnologia que os hum anos de Gaia herdaram dos m y rhans. São utilizadas principalm ente na construção de naves espaciais.

— Aquela nave é um ser vivo! — concluiu a j ovem , adm irada com a conclusão a que chegara.

— É quase isso.

— Tens algum a sugestão para localizá-la, sr. De Angelis? — perguntou Dines.

— É fácil. Thom as pode fazer isso.

— Eu?! — disse o rapaz, com o rosto ardendo de vergonha. Arrastara três pessoas para um a busca que prom etia ser um fracasso. — Não sei com o!

— É só te conectares à natureza — retrucou Vince, com o se falasse o óbvio. — Fazes isso quando queres brincar com o fogo, não é m esm o?

— Mas se o arcebispo tam bém pode controlar o fogo e não encontrou a nave...

— Ainda não entendeste, arqueiro? Tu és m uito m ais poderoso do que ele. Por isso Savac queria te subj ugar.

Se estivesse sozinho, Thom as teria atacado as unhas das m ãos para com pensar o nervosism o. Por que sem pre esperavam dele feitos grandiosos? Franziu teste e procurou um a conexão com aquele m undo abandonado. Mas era difícil se concentrar com três pessoas olhando para ele. Com um a careta, cerrou as pálpebras e procurou se acalm ar.

Com o ele poderia cham ar um a nave espacial? Ela teria um nom e? Pensou em Hannah e im aginou-a chegando sozinha àquele m undo hostil, carregando um a trem enda responsabilidade nos om bros. Onde ela esconderia a segunda perenthis? Deixá-la na própria nave espacial não seria óbvio dem ais? “Claro, ela destruiu a nave. Não queria vestígios que denunciassem ao inim igo sua vinda a este planeta.” Então, onde estaria a esfera? “Menethrrah...”

— Ela está no subterrâneo desta cidade, seguindo para o norte de onde estam os — disse Thom as, abrindo os olhos.

— Não deve ser difícil encontrar um a nave espacial — disse Erin. — Alguém sabe qual é o tam anho dela?

— A nave foi destruída — contou o rapaz. — Eu sei onde Hannah escondeu Menethrrah.

Consultando apenas a intuição, Thom as conduziu o grupo até os escom bros de um edifício. Eles atravessaram um a abertura para um pavim ento inferior, escuro e igualm ente abandonado. Dines usou um a pedra de energia para ilum inar o cam inho, o que assustou um im enso rato cinza. Erin reagiu escondendo-se atrás de Vince.

— Senhora, poderias parar de apertar m eu braço? Está doendo... — disse ele, zom beteiro.

— Eu te detesto, sr. De Angelis! — respondeu a j ovem , soltando-o com raiva.

— Tem os de descer m ais um ou dois pavim entos — disse Thom as, olhando para os dois. Gostaria de saber em detalhes tudo o que acontecera em Roths. A intim idade que via crescer entre eles o incom odava.

Dines encontrou um a nova passagem que, segundo seus cálculos, separava em m ais de trinta

m etros de altura o pavim ento onde se encontravam e o subsolo.

— Podem os descer colados à parede. Há várias saliências, não será difícil — sugeriu Thom as

após exam inar a descida. A passagem lem brava um poço estreito. — Achas que consegues, Erin?

— Sem problem a.

Dines assentiu com um m ovim ento de cabeça. Apenas Vince parecia indeciso. — Devíam os procurar outra passagem — disse ele após checar a distância até o subsolo. — O scanner não registrou nenhum a passagem em seu raio de alcance — explicou Dines. —

Paredes desabaram em vários trechos, bloqueando possíveis saídas.

O cavaleiro engoliu saliva. Ele não devia sentir a m esm a atração que Thom as por lugares

altos.

— Eu irei prim eiro e levo a luz para vos guiar na escuridão — disse o abade. Ele com eçou a

descer, seguido por Erin.

Quando os dois desapareceram , Thom as cobrou o irm ão. — Tu não irás?

— Tenho escolha? — rum inou, espiando, nervoso, a passagem . — Desce ao m eu lado e faz exatam ente o que eu fizer. E não olhes para o fundo. O rapaz avançou pela passagem , m ostrando onde Vince deveria colocar os pés e as m ãos. Os

prim eiros m etros foram tranquilos. O cavaleiro, m uito pálido, seguia cada m ovim ento de Thom as. Dines, logo abaixo, m antinha a luz direcionada para eles.

Quase na m etade do cam inho, um dos pés de Vince escorregou. Assustado dem ais para se

controlar, ele se desequilibrou, direto para a queda que o aguardava.

Instintivam ente, Thom as agarrou-o pelo pulso, quase caindo tam bém . Vince era grande e

pesado dem ais para ele. O arqueiro reuniu toda a concentração que conseguiu, um a força extra que sabia ter em algum lugar.

— Agarra-te à parede! — disse, com dificuldade. O cavaleiro não o ouvia, num pânico m udo que o im obilizava. — Vince, olha para m im !

Lentam ente, ele girou os olhos para cim a, direcionando-os ao irm ão m ais novo. — Não vou aguentar por m ais tem po. Deves te equilibrar novam ente. Vince j ogou o corpo contra a parede, à procura de apoio para os pés e para a m ão livre. O

outro rapaz libertou-o sem pressa.

— Vam os continuar, agora, bem devagar. Tira os pensam entos da tua cabeça e apenas te

concentres em teu corpo.

Ele obedeceu. Thom as só relaxou no m inuto em que os pés do irm ão tocaram o subsolo. — Há um a saída à esquerda, que dá para a plataform a de em barque e desem barque de

passageiros — disse Dines, sem se preocupar com a aparência am edrontada de Vince. — Estam os num a antiga estação de m etrô.

O abade seguiu a direção indicada.

— O que é um a estação de m etrô, m estre? — interrogou Erin, atrás dele. Tam bém preferira ignorar o cavaleiro.

Thom as ia segui-los quando Vince o cham ou.

— Obrigado — m urm urou, ainda bastante pálido. — Só queria que soubesses que...

Hesitou por alguns segundos antes de prosseguir.

— Não é que eu tenha m edo de altura... O túnel lem brou-m e de algo que aconteceu há m uito tem po. Quando eu tinha onze anos, Rouen j ogou-m e em um poço abandonado. Ele adorava m e pregar esse tipo de brincadeira. Dizia que um cavaleiro de verdade devia saber se virar em qualquer situação. E eu fiquei lá, sozinho, quase três dias, tentando escalar as paredes do poço.

— E teu tio?

— Eu estava nas Terras Erm as, m uito longe de York. Mas duvido de que m eu tio teria feito algum a coisa. Ainda m e daria um a bronca por ter m e deixado apanhar num a brincadeira tão estúpida.

— Com o tu saíste do poço?

— Um escravo bárbaro m e tirou de lá, com um a corda. E sabes o que aconteceu com ele?

Thom as m oveu a cabeça de m odo negativo.

— Rouen m atou-o por ter interferido no m eu treinam ento. Vem , quero sair deste lugar o m ais rápido que puderm os.

...

A plataform a m antivera-se inacreditavelm ente conservada após tantos séculos. Um traj eto form ado por trilhos continuava por quilôm etros, dividindo o local em duas partes. Nos dois lados, havia bancos para passageiros e painéis com m ensagens. Em um deles, Thom as viu a im agem de um copo de cervej a gelada.

— É aqui? — disse Dines.

— Não. Tem os de continuar pelo túnel — respondeu.

Desceu para o chão de terra, logo abaixo da plataform a, onde os trilhos estavam instalados. O grupo seguiu-o, avançando com cautela depois que a estação ficou para trás. O barulho de ratos, logo à frente, fez Erin pegar a m ão de Thom as e apertá-la com força. Aquela j ornada estava sendo difícil para ela. Apesar de todo o treino que tivera, nunca enfrentara perigos reais. E fazia tudo aquilo por Thom as, som ente para estar ao seu lado.

— Não deixarei nenhum rato chegar perto de ti — cochichou ele. Erin sorriu para esconder o m edo.

Após m ais de m eia hora de cam inhada, chegaram a outra estação de m etrô, quase tão bem conservada quanto a anterior. Thom as aj udou a j ovem a subir na plataform a e se afastou para exam inar os painéis espalhados pelo local. Por fim , balançou a cabeça, pensativo.

— Tam bém não está aqui? Que ótimo! — reclam ou Vince. — Os hum anos da Era da Tecnologia construíram dezenas de estações com o esta. Pretendes visitar todas elas?

— Já estás cansado, sr. De Angelis? — perguntou Erin.

Um painel com o desenho de um a nave espacial, disparando raios coloridos, atraiu o interesse de Thom as. Divulgava um festival de film es antigos, selecionados para os fãs de ficção científica. “Você acredita em aliens?”, leu Thom as, decifrando o que conhecia daquela língua antiga. “Não perca estes clássicos que m arcaram gerações.” O cartaz que ilustrava o painel pertencia a um film e, Guerra dos mundos, baseado num a obra de H. G. Wells.

— Hannah tinha senso de hum or — disse Thom as antes de levantar o painel. Ele lera a história

em um livro velho e sem capa, esquecido num a das prateleiras da biblioteca do Monastério.

Menethrrah saiu de trás do painel e flutuou, brilhante, até ele. — Faz m uito tem po, am iga... — m urm urou Thom as, feliz com a m esm a sensação de

reencontro que experim entara com Mithrrah.

A esfera, do tam anho da prim eira, continuou brilhando até desaparecer. Um a força estranha

e, ao m esm o tem po fam iliar, percorreu o corpo de Thom as. De algum a form a, ele tam bém tivera um a experiência de integração, com o ocorrera com Kirian e o nergal que ele aceitara hospedar.

— Qual é a sim bologia desta esfera? — perguntou para Dines. — Menethrrah está ligada à em oção e à sensibilidade — respondeu o abade. — Não apenas isso — com pletou Vince —, m as tam bém ao inconsciente e à figura m aterna.

Traz a m arca da constelação de Câncer, entre outras referências que...

— Adoraria ficar para a aula do sr. De Angelis, m as estou com pressa — cortou Erin. —

Mestre, que tal usar o teletran para retornarm os ao Monastério?

— Ele não vai conseguir daqui — sorriu Vince. — O equipam ento é velho dem ais. Com o os

guardiões pretendem enfrentar a Grande Guerra com tanta coisa ultrapassada?

— O teletran só funciona na superfície — respondeu Dines, sem se abalar com a eterna

provocação do cavaleiro. Thom as invej ou-lhe o sangue frio.

— Preparado para enfrentar novam ente aquele túnel, sr. De Angelis? — com eçou Erin. — Escuta aqui, Lady Erin, eu...

— Qual é vossa idade? — interrom peu Thom as, plantando-se na frente dos j ovens. — Acho

que os dois j á são bem grandinhos. Podem m uito bem com eçar a se com portar com o adultos.

Vince tentou rir, m as o olhar som brio de Thom as não deixava dúvidas sobre quem era o líder

do grupo. O cavaleiro abaixou o rosto, sem reagir. Erin, envergonhada, j á desviara o seu. Dines bateu a m ão de leve no om bro de Thom as. Sorria.

— Vem , filho — disse. — O scanner detectou um a saída para a superfície, logo depois

daquele túnel.

Minutos antes de alcançarem a superfície, Dines obrigou os j ovens a acelerarem a

cam inhada.

— Um grupo de bárbaros está se aproxim ando — j ustificou após consultar o scanner. — Logo

acim a há um a passagem .

Pela preocupação do abade, Thom as suspeitou que aqueles bárbaros fossem terrivelm ente

perigosos, m uito diferentes do grupo que conhecera nas Terras Erm as. O rapaz prendeu a m ão de Erin contra a sua, aj udando-a a subir com ele para um a plataform a estreita, de concreto, que ganhava cada vez m ais altura ao se inclinar para cim a. Vince seguiu-os. Já estavam a um a distância considerável do solo quando Thom as descobriu que o cam inho term inava de m odo abrupto, com um a nova parede diante deles.

Logo atrás dos três, parte do piso cedeu. Vince desequilibrou-se e ia despencar m etros abaixo

se Erin e Thom as não o segurassem pela capa.

— Hoj e não é m eu dia — com entou o cavaleiro, colando-se à parede.

— Onde está Dines? — perguntou Thom as, aflito. O desabam ento revelara um abism o escuro. A luz desaparecera j unto com o abade.

— O que provocou este desm oronam ento? — perguntou Erin. — Fom os nós?

— Talvez — respondeu Vince. — Há várias estruturas sensíveis, antigas dem ais para suportar qualquer peso.

— Mestre? — cham ou Thom as, na beirada da plataform a. Não houve resposta.

— As paredes tam bém são frágeis. Parecem ocas... — observou Vince.

Neste segundo, um a m ão m onstruosa surgiu de dentro da parede para agarrar o om bro de Erin.

— Tom ! — gritou ela, lutando para se soltar.

Vince golpeou a m ão com a espada, libertando a garota. Outros braços surgiram da parede, desej ando prendê-los. Erin tam bém tirou a espada da bainha, pronta para se defender. No m esm o instante, um trecho da parede oca veio abaixo, revelando criaturas repulsivas, parcialm ente hum anas. Rostos deform ados e aterrorizantes em corpos sem inus que exibiam a im undície das condições em que viviam . Thom as adiantou-se para enfrentá-los. Um a cortina de fogo surgiu do nada e, sob o com ando do rapaz, colocou-se entre ele e as criaturas. Am edrontadas, elas recuaram .

— Apenas por curiosidade... — disse Vince. — Por quanto tem po podes m anter estas cham as?

— Por m uito tem po... — respondeu o irm ão, lem brando-se com tristeza do incêndio em York.

Um a claridade que saía do abism o desviou a atenção dos três, agora esprem idos na ponta da plataform a. Dines, sozinho lá em baixo, afastava as criaturas com a arm a de energia, tam bém form ando um a barreira, m as de luz azulada.

— Tentai chegar à superfície. Eu irei vos encontrar! — gritou ele, antes de desaparecer novam ente.

— E com o ele acha que vam os fazer isso? — perguntou Vince.

— A parede à nossa frente tam bém é oca — descobriu Erin ao dar um m urro contra ela.

Os rapazes aj udaram -na a abrir um a passagem entre os cascalhos que se desm anchavam .

— Há aranhas aí dentro — choram ingou ela.

— Ratos, aranhas... De que m ais tens m edo, senhora? — disse Vince, irritado.

Dezenas de teias penduravam -se pelo em aranhado de canos no outro lado da passagem . Vince foi na frente, puxando Erin pela m ão. Thom as seguiu atrás deles. Felizm ente, as aranhas estavam m ais interessadas em tecer m etros e m etros de fios do que nos intrusos.

Os três andaram bastante até encontrar um a porta. Vince abriu-a com cuidado, com o se tem esse encontrar um batalhão de bárbaros atrás dela.

— Vós não ireis acreditar... — lam entou.

Diante deles, após um a m inúscula plataform a de concreto que sobrara de algum desabam ento, um abism o separava-os de um túnel. Adiante, antes de um a curva, havia um a abertura no teto, que revelava parte de um a noite estrelada de prim avera.

— Este piso aguenta nosso peso? — perguntou Thom as, passando pela porta para checá-lo. — Podeis vir. É seguro.

Erin j untou-se a ele, seguida por Vince. Não havia com o atravessar o abism o.

— Um a ponte viria bem a calhar — disse o cavaleiro ao descobrir um a escada de m etal abandonada do outro lado.

Ele a fitou, concentrado, e o obj eto voou até o abism o, encaixando-se perfeitam ente no vão

entre as plataform as.

— Será que a escada vai nos aguentar? — com entou Erin, desconfiada. — Ela é apenas para m im — disse Vince, caprichando na cara de m au. Erin arregalou os olhos. Thom as preparou-se para se defender de qualquer ataque. A atitude

do cavaleiro, porém , desarm ou-o.

— Já voaste algum a vez, Lady Erin? — perguntou Vince, com um sorriso. Parecia um a

criança que m ostrava um brinquedo novo aos am igos.

Ela não teve tem po para responder. Seus pés deixaram o chão e seu corpo, com o um a plum a,

flutuou graciosam ente até a outra ponta do abism o, onde pousou com suavidade.

— Nada com o ter a com panhia de dois bruxos poderosos — disse a j ovem , im pressionada. — Estás pronto, arqueiro? — perguntou Vince. Thom as apenas sentiu o corpo leve, com o se um a gigantesca m ão invisível o levantasse no ar

e o conduzisse em segurança até Erin. Vince pareceu cansado ao se dirigir para a ponte im provisada. Evitou olhar para baixo e atravessou-a sem conseguir esconder seu m edo de altura.

Na superfície, procuraram por Dines. Foi num a rua deserta que dezenas de vultos surgiram a

alguns m etros deles. Os bárbaros os encontravam m ais um a vez.

— Eles tam bém nos cercaram por trás — avisou Erin. Um a ideia m aluca passou pela cabeça de Thom as. Não tinha m uita certeza de que daria

certo... Pediu a Erin e Vince que se agarrassem a qualquer coisa firm e o bastante para prendê-los ao solo.

— O que pretendes...? — tentou perguntar a j ovem , m as o cavaleiro em purrou-a sem

qualquer sutileza para um abrigo. Não havia nem um m inuto a perder. Os bárbaros estavam prestes a atacá-los.

Thom as fechou os olhos, procurando deter os pensam entos na brisa que soprava naquela noite

quente. Aos poucos, ela foi ficando cada vez m ais intensa. A terra, arrancada do chão, colou-se ao rapaz. Suas roupas se agitavam . Thom as não sentia m ais nada, apenas o vendaval que provocava. Sabia que arrem essara para longe as criaturas m ais próxim as. As outras, em pânico, tinham corrido à procura de proteção. Não atacariam tão cedo os britons.

O rapaz ergueu as pálpebras. O vendaval partira, não sem antes m udar de lugar pilhas de

entulho. Um veículo de m etal, que Thom as identificou com o a carcaça de um carro, estava de cabeça para baixo. Erin e Vince surgiram detrás de um a pedra enorm e que, para a sorte deles, resistira bravam ente.

— Teus poderes crescem a cada dia. Isto é adm irável — disse Hugues De Angelis a poucos

m etros de Thom as. O garoto encarou-o, sem fôlego. Dois hom ens acom panhavam o arcebispo, que deixara o hábito de lado para vestir roupas com uns.

— C-com o nos achaste?

— Vince trouxe-m e até aqui.

— Traidor! — xingou Erin ao se afastar do cavaleiro. O desespero tom ou conta de Thom as. Dines acabava de aparecer no outro extrem o da rua. — Será que finalm ente nos confrontarem os, Moriarty ? — perguntou Hugues ao cam inhar

solenem ente até o adversário. — Esperei m uito por este dia.

— Nunca te esqueças de que tenho orgulho de ti, Thom as — disse Dines enquanto m irava a arm a de energia no arcebispo.

O rapaz quis correr para im pedir a m orte do abade. Mas os dois hom ens que estavam com Hugues com eçaram a em itir um a luz intensa, transform ando-se em criaturas brilhantes, de asas angelicais. Thom as apenas caiu, fraco dem ais para se m exer. Os nergals sugavam suas forças.