O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

7 - Revelações

CAPÍTULO 7

Revelações

Am eio dia de cavalgada de York havia um a estalagem . Além de refeições, oferecia tam bém

hospedagem para quem pretendesse chegar à cidade pela m anhã após um a noite tranquila em

um quarto confortável. Fora esta a opção de Mark De Durham e sua com itiva, que se dirigiam a York para assistir ao Torneio da Prim avera.

Thom as seguia-os de longe, sem ser notado, desde o fim da tarde, indeciso em procurar o am igo. Estava encrencado dem ais para envolver m ais gente no assunto. Deixara Tenorius para trás com a ideia firm e de resgatar Shannon e Pégasus. Já falhara antes. Pretendia ser m ais cuidadoso desta vez.

Para confundir ainda m ais sua cabeça, o j ovem não parava de pensar em Erin, após vê-la cavalgando ao lado do pai. Sabia que a garota estava preocupada com ele desde o contato que fizera através do sonho. Tam bém intrigava-o o fato de Mark ter trazido a filha pela prim eira vez a um torneio. Fazia anos que ele próprio não assistia a um .

O rapaz esperou a noite cair por com pleto. Quando o burburinho dos fregueses no interior da estalagem dim inuiu, entrou com cautela pela cozinha. Não havia ninguém no local. Subiu a escada até o pavim ento superior, onde ficavam os quartos. Mark devia estar dorm indo sozinho em um deles. Sua esposa, Lady Claire, perm anecera em Durham com as crianças, novas dem ais para aguentarem um a viagem tão cansativa. Não precisou descobrir em qual quarto a am iga estava hospedada. Oz latia atrás da segunda porta à direita, arranhando a m adeira para sair.

— Queres passear a esta hora? Já é tão tarde... — disse Erin, dentro do quarto.

Quando ela abriu a porta, o cachorro pulou direto no colo de Thom as para lam ber-lhe o rosto. Erin, ao vê-lo, correu para abraçá-lo.

— Pensei que estivesses m orto — cochichou ela.

— Preciso falar contigo.

Só então o rapaz reparou direito nela. A j ovem usava um delicado vestido rosa. Os cabelos loiros e lisos estavam soltos, atingindo a altura dos cotovelos. Thom as habituara-se a vê-la sem pre de trança e de calça com prida. Erin estava perturbadoram ente bonita.

— Que foi? — perguntou, com um a sobrancelha erguida.

— Estás... de vestido!

— Ora, Tom , só estou experim entando a roupa que usarei no banquete que terem os com o rei — j ustificou, verm elha até a raiz dos cabelos.

Thom as escondeu Oz no bolso de sua capa de viagem e levou Erin pela m ão para fora da estalagem . Foram cam inhando em silêncio até a m argem de um cam po arado. Não havia árvores por perto, nem outro tipo de vegetação que pudesse esconder a presença de algum a pessoa. Poderiam conversar à vontade, sem m edo de serem ouvidos. O rapaz deixou o cachorro no chão, livre para peram bular ao redor deles. Acim a de suas cabeças, a lua cheia ilum inava a noite.

Erin escutou com atenção tudo o que Thom as lhe narrou sobre o que acontecera desde sua partida de Durham . Era a única pessoa em quem ele confiava. Além disso, sua m ente incrivelm ente lógica sem pre o aj udava. Não escondeu nenhum detalhe, nem o encontro com o irm ão Tenorius.

— Se eu conhecesse a m issão secreta do nosso professor, teria dado um a aj uda — brincou

Erin, com um m eio sorriso. — Não im aginava que tu eras tão im portante para o abade.

— Queres dizer, im portante para Moriarty .

— Moriarty e Dines são a m esm a pessoa. Quem diria! Era um a ironia enorm e para Thom as ter saído do Monastério à procura de alguém que, na

verdade, passara anos ao seu lado. A única pessoa que poderia lhe explicar todo o m istério que envolvia sua fam ília.

— E com o estão teus braços?

— Curados — disse Thom as, puxando as m angas da capa e da cam isa. Não existia qualquer

cicatriz. — Lem bras do que Hannah m e disse sobre transferir energia de nosso corpo para obj etos? Foi o que fiz...

— Fascinante! — exclam ou ela após um assobio. — Estás a cada dia m ais poderoso, Tom .

Mas ainda não estás preparado para encontrar outra vez o arcebispo. Concordo com o irm ão Tenorius. Deves ir antes ao Monastério.

— Shannon precisa de aj uda.

— Esta andarilha deve ser m uito bonita para atrair a disputa de dois cavaleiros — disse a

j ovem , franzindo a testa.

— Ela é m esm o m uito bonita.

— Tu a am as?

Thom as arregalou os olhos, aturdido.

— Isso não é im portante...

— Claro que é! — gritou Erin, tão verm elha quanto ele. — O que quero dizer é que Shannon corre perigo. — Tu a am as ou não?

— Que droga, Erin! Não sei!

A j ovem ficou de costas, com raiva dem ais para encará-lo. Oz, deitado aos pés de Thom as,

levantou o focinho para ele. O rapaz dem orou a entender... Ela estava com ciúme! Um a felicidade deliciosa apoderou-se de seu peito. Lem brou-se do toque dos lábios de Erin, naquele prim eiro e único beij o em Durham .

— Só quando deixei tua casa é que percebi o quanto era difícil passar um dia sem falar

contigo... — com eçou ele, tím ido. As palavras fugiam -lhe da m ente.

A am iga, intrigada, voltou a olhá-lo. Não aj udava ver o rosto dela. Thom as m irou os pés.

Disparou as palavras seguintes na m aior velocidade que conseguiu.

— Quando o arcebispo m e atingiu e eu deixei m eu corpo, pensei desesperadam ente em te

encontrar. Precisava ouvir tua voz, tuas ideias... Acho que não teria feito tantas bobagens, com o deixar um as flechas estúpidas para trás, se estivesses ao m eu lado. Tu sem pre com pletas m eu raciocínio. Sou distraído dem ais, m inha cabeça vive nas nuvens. Tu pensas em tudo, em cada detalhe. Sinto-m e com pleto quando estou contigo...

— Queres dizer que m e am as? — perguntou ela, sem esconder a ansiedade. — Desde que m e atiraste aquela bola de neve no nariz.

Erin segurou o queixo dele, obrigando-o a fitar seu olhar azul.

— E eu te am o desde que m ergulhaste no rio para m e salvar.

— Mas foste tu que acabaste m e salvando, lem bras?

Resistir ao sorriso fem inino era im possível. A j ovem aproxim ou os lábios aos dele para tocá-los com paixão. Thom as envolveu-a em seus braços. Um beij o levou a outro e a outro, cada um m ais audacioso do que o anterior. As m ãos do rapaz percorreram as costas da j ovem e ficaram perdidas entre os cabelos m acios e perfum ados. Um canto da m ente de Thom as registrou o m om ento em que Oz com eçou a latir, alertando-o da presença de um a terceira pessoa.

— Erin... — cham ou Mark De Durham .

Abruptam ente, os j ovens separaram -se. O cavaleiro observava-os com um a expressão indecifrável.

— Deves voltar para o quarto agora — disse ele, sem em oção.

Erin, com as bochechas ardendo, evitou olhar para o rapaz. Este preferiu enfrentar novam ente os pés, sem coragem de abrir a boca. A j ovem pegou Oz no colo e correu para a estalagem . Thom as e Mark ficaram sozinhos.

— Nobres relacionam -se com nobres, Tom . É a lei. Sabes que gosto de ti com o um filho. Nada m e faria m elhor do que ver a tua felicidade e a da m inha filha...

A situação era inj usta dem ais. Thom as ainda se enxergava com o um andarilho, um garoto sem fam ília que vivera de favor na casa de um nobre. Não conseguia aceitar a ideia de ser príncipe, o neto de um rei. Para piorar, saber que era um nobre e não ter com o provar essa verdade tam bém o m agoava.

— Por que deixaste Durham sem falar com igo?

— Tive um a visão. Minha am iga ia m orrer se eu não chegasse a tem po — explicou Thom as, erguendo o olhar para Mark.

— Que am iga?

— A filha da andarilha que m e criou.

Resum idam ente, Thom as explicou a disputa de Rouen De Larc e Vince De Angelis pela posse de Shannon, o ataque dos guardas e a captura da andarilha pelo sobrinho do arcebispo. Om itiu seu encontro com Hugues e tudo o que ocorrera depois.

— Então é m elhor para ela perm anecer com Vince — disse Mark. — Rouen é um m onstro. E está ficando cada vez pior. Nem o rei o suporta m ais.

— Mas ela deve ser livre para escolher o próprio destino!

— Pessoas do povo não têm direitos, Tom .

— Podias falar com o rei e...

— Arnon não se preocupa com este tipo de questão.

— Que ótimo rei ele é! — resm ungou Thom as.

— Arnon é um nobre briton e os nobres consideram -se superiores por descender de Arthur e seus cavaleiros. O povo deve-lhes gratidão eterna por ter sido resgatado da Era do Caos. E isto im plica subm issão total.

— Um bando de fanáticos vem de outro planeta e se acha no direito de escravizar os outros! — gritou o rapaz, sem pensar.

— O... quê?

Thom as notou tarde dem ais o erro que com etera. — Onde ouviste isso? — quis saber Mark ao agarrá-lo pelos om bros. — Quem te falou sobre

Gaia?

Foi a vez de o rapaz ficar surpreso. O cavaleiro tam bém sabia sobre Gaia? — Onde ouviste isso, Thom as? — insistiu Mark, sacudindo-o com violência. O cavaleiro, m ais alto e m uito m ais forte do que ele, nunca o tratara daquela form a

truculenta. O rapaz teve um a boa ideia de com o era ser um inim igo do sr. De Durham .

De repente, Mark suspendeu o interrogatório e arrancou a corrente que o garoto usava no

pescoço. De m odo inesperado, ela ficara à vista.

— Onde encontraste esses obj etos? — disse, incrédulo. Sobre a palm a de sua m ão im ensa

estavam a pedra opaca e a aliança de Alix. — Sabes a quem pertenciam ?

— O anel era de Alix De Brusk — respondeu Thom as, encurralado. Não conseguia m ais

m entir. — Verão de 817 deve ter sido a época de seu casam ento. A pedra tam bém pertenceu à princesa. Foi um presente de Erec De Sutter. Ele a herdou da m ãe, a feiticeira Hannah.

— Onde encontraste estes objetos?

— É um a longa história, senhor. Não acreditarás em m im . — Podes tentar.

...

Thom as com eçou a contar sua história a partir da Noite dos Mortos, quase dezessete anos

antes. Relem brou brevem ente sua vida com os andarilhos, a ida para o Monastério, as visões que tivera — entretanto, sem revelar detalhes — e por que partira em busca de respostas. Não citou os nom es de Moriarty, Savac e Hugues De Angelis, nem a existência do salão subterrâneo. A lem brança de Erec proibindo Alix de procurar a aj uda de Mark o incom odava. O sr. De Durham podia ser um traidor? Por que Erec não confiara a esposa aos cuidados do am igo?

Mark ficou de queixo caído quando o rapaz lhe falou da visita às ruínas de Sutter e da

descoberta do hologram a. Teve dificuldade para entender o que era um program a holográfico. Nunca im aginara nada parecido. Fora através da im agem de Hannah que Thom as soubera da existência de Gaia.

— Acreditas em m im , senhor?

— E tu acreditas nessa história?

— O hologram a m e disse que apenas quem descende de Hannah pode acionar a pedra. E eu

fiz isso.

E então contou sobre a conversa que tivera com Sabina, quando recebera a aliança e

descobrira detalhes sobre a m orte da m ãe.

— Se Alix escapou, por que não foi nos procurar em Durham ? — perguntou Mark, que

parecia conversar consigo m esm o.

Thom as avaliou-o. Sua intuição dizia-lhe que o cavaleiro não era um traidor. Quem sabe Erec

só quisesse poupar a vida do am igo, de Lady Jane e de Erin, apenas um bebê na época? Savac destruiria Durham num piscar de olhos, com o fizera com Sutter.

— Quem m atou Erec?

— Savac — revelou Thom as, outra vez sem saída.

— E quem é esse Savac, afinal? Depois que falaste o nom e dele naquele dia, na torre, eu fiquei pensando. E m e veio à m ente a im agem daquele arcebispo odioso...

O grito de um pássaro noturno veio até eles. Mark e Thom as olharam para o alto no instante em que a ave cruzava o céu. O cavaleiro estrem eceu.

— “Saberás quando o pássaro cruzar a noite de lua cheia” — disse, repetindo parte do que o transe do rapaz lhe revelara havia anos. — Então Savac é m esm o Hugues De Angelis! Isto explica algum as coisas. Não deves ir a York, Tom . É perigoso.

— Acreditas que eu sej a m esm o filho de Erec e Alix?

— E por que não confiaria em ti? Jane dizia que tu a fazias se lem brar de Alix, com teu j eito tím ido. Claro que tam bém te pareces fisicam ente com ela. Jane costum ava ficar intrigada, im aginando o porquê de tantas sem elhanças. Mas nós não podíam os im aginar que havia um segundo filho. Ah, se soubéssem os! Devias ter m e contado tudo antes. Eu conversaria com Dines e...

— O que o abade tem a ver com isso? — perguntou Thom as, fingindo ingenuidade.

— Há m uitas coisas acontecendo, filho. Erec vivia para um a grande m issão, um a responsabilidade que herdara da m ãe. Hannah foi um a m ulher poderosa em Gaia, que veio até Britany a atrás de alguém que pudesse aj udá-la a derrotar o m al que am eaçava o m undo de onde viera. O tal do Herdeiro de que falaste na profecia. Não conheço a profecia com pleta, nem sei de que tipo seria essa aj uda. Descobri algum as coisas por acaso, por ter Erec com o am igo. Ele confiava em m im e eu queria colaborar de algum m odo, m esm o sem saber detalhes da m issão, porque descobri que este m al que provocou a fuga de Hannah tam bém am eaça Britany a.

— A tal guerra?

— Sim . Erec dizia que ela virá até nós. E trará o fim da raça hum ana.

— E o abade...?

— Erec trabalhava com Dines. O abade é um hom em de bem , Tom . Alix devia ter ido até ele e não corrido para Brusk.

— Acho que ela queria avisar o pai sobre o perigo que o arcebispo representa.

— É, deve ter sido esse o m otivo — refletiu o cavaleiro, com tristeza. — O conhecim ento que tens agora pode colocar a tua vida, a m inha, a de Dines e a de outras pessoas em perigo. Ainda insistes em viaj ar para York?

— Se nem Arnon pode fazer nada por Shannon, então eu devo ir.

Mark desistiu de argum entar. Conhecia m uito bem o tem peram ento teim oso do garoto.

— Erec tam bém tinha essa cabeça-dura — disse, com um sorriso.

...

Já era m adrugada quando Thom as e Mark regressaram para a estalagem . O cavaleiro foi direto para o quarto, pensando em descansar antes que o sol nascesse. Thom as retornou para o local apenas para se despedir de Erin. A j ovem puxou-o para dentro do quarto assim que ele bateu à porta.

— E...? — perguntou, aflita. Seus olhos estavam verm elhos.

— Teu pai agora sabe quem sou — disse, tocando de leve as olheiras provocadas pelo choro.

A seguir, explicou o que com binara com Mark.

— Irei para York apenas para tranquilizar Shannon. Teu pai proibiu-m e de m e expor. Em

troca, ele tentará passá-la para sua proteção.

— E irás seguir o que ele te pediu? — perguntou a j ovem , desconfiada. — Eu tentarei. Não quero enfrentar Savac outra vez. E era verdade. Tem ia o arcebispo m ais do que podia calcular. A dor que atingira seus braços

era indescritível. E havia a lem brança ainda m ais dolorosa da m orte de Erec.

— Não chores m ais, Erin.

— Nem sei por que chorei! Mulheres são bobas m esm o... Thom as sorriu e abraçou-a para beij á-la. Depois, despediu-se do cachorro e desapareceu no

corredor.

...

Foi fácil para Thom as passar despercebido no m eio da m ultidão que invadira York para o

torneio. A agitação era exatam ente igual aos tem pos de sua infância. Pessoas de todos os pontos de Britany a encontravam -se na cidade, abarrotando ruas e passagens para assistir ao evento anual, o m ais im portante do reino. A im ensa arquibancada de m adeira j á estava pronta para receber o público no dia seguinte, na abertura do torneio. Thom as avistou os cavaleiros na área de treinam ento, no m esm o local de sem pre.

Seu pensam ento foi para Erin, que naquele instante estava na estrada, com a com itiva de seu

pai. Thom as partira na frente, ainda de m adrugada, em um dos cavalos que tom ara em prestado de Mark. O anim al fora deixado em um estábulo, a dois quilôm etros da entrada de York, com o com binado. Era m elhor que nenhum detalhe ligasse o garoto ao cavaleiro. Havia um a coisa, no entanto, que Thom as não incluíra no trato. Não pretendia partir da cidade sem Pégasus, que considerava tão im portante quanto Oz.

À noite, encontrou o m elhor m om ento para entrar no castelo vigiado por dezenas de guardas.

As com itivas de vários nobres entupiam o pátio principal, congestionando o espaço com criados apressados, cavaleiros, dam as, carruagens, bagagens e cavalos. Era obrigação do anfitrião hospedar toda a nobreza. Este ano, a honra pertencia a Hugues. No ano anterior, fora trabalho para o próprio rei, na capital do reino, Brusk.

Encontrar Shannon naquela agitação revelou-se m uito com plicado. A intuição inform ava-lhe

que ela não voltara para o calabouço. Tam bém não poderia estar j unto à nobreza que se apoderara de quartos e aposentos no im enso castelo. Só restava procurá-la entre a criadagem .

Thom as escapuliu para a cozinha, onde viu um m ovim ento ainda m ais intenso. Ninguém

prestou atenção no intruso. Um a infinidade de pratos diferentes estava sendo preparada por cozinheiras sobrecarregadas. Criados corriam transportando louças e outros obj etos. Não, a andarilha não estava na cozinha. O rapaz peram bulou por vários corredores, procurando usar novam ente a intuição com o guia. Aprendera a confiar nela.

Deu certo. A voz de Shannon veio até ele em um dos corredores. Ela conversava com

alguém . Um a tapeçaria, pendurada num a parede, escondeu o rapaz a tem po de evitar um encontro desastroso. A andarilha cam inhava ao lado de Vince De Angelis.

— Se m e perm ites dizer, senhor, não acho que devas participar deste torneio. — Não te preocupes. Já estou bem .

— Senhor...

— Shannon, ouve-m e — disse o cavaleiro, detendo o passo. Thom as viu, com raiva, quando ele pôs a m ão sobre o om bro da andarilha. — Não há escolhas para ninguém , entendes? Nem para andarilhos, nem para nobres.

Thom as sentiu ainda m ais raiva ao perceber a relativa intim idade que existia entre os dois. Vince era um suj eito odioso. Com o Shannon podia nutrir qualquer sim patia por ele?

— Agora pede a um dos criados para preparar m eu banho — continuou o cavaleiro, cansado. Ainda usava partes de sua arm adura, que estava suj a e enlam eada. Passara o dia no cam po de treino. — Vou conversar com m eu tio antes de ir para o quarto.

Vince seguiu o corredor, deixando a andarilha a sós. Era a chance de Thom as. Quando a j ovem girou os calcanhares, ele a cham ou, saindo do esconderij o. Apavorada, ela recuou.

— Estou vivo, Shannon — sussurrou ele, aproxim ando-se devagar. — Não sou nenhum fantasm a...

— Não pode ser! — disse ela, dando outro passo para trás. Estava m uito pálida.

— Usei um truque. Só isso!

— És um bruxo, com o o arcebispo!

— E tens m edo de m im ?

Shannon olhou para os braços do rapaz.

— E-Eles estão curados!

Thom as desistiu. Não havia tem po para lhe explicar assuntos com plexos com o transferência de energia.

— Usei bruxaria, se preferes cham ar assim .

As palavras tranquilizaram -na. Com certeza, a j ovem , que j á vira m uitas coisas estranhas nos últim os dias, estava com eçando a considerar tudo m uito norm al.

— Thom as, sofri tanto por ti!

— Vim apenas te dizer que estam os agindo para te devolver a liberdade.

— Tu falaste com m eus pais? Eles estão bem ?

— Não os vej o desde o dia da captura...

— Só m e preocupo com eles. Prom eta-m e que irás procurá-los para lhes dizer que estou bem .

Um a dúvida ocupou os pensam entos do rapaz.

— Queres ser livre de novo, não é m esm o?

A andarilha m ordeu os lábios.

— Tenho agora a proteção do sr. Vince De Angelis — m urm urou ela, corando com o um tom ate.

— Não queres ser salva?!

— Prefiro perm anecer j unto ao cavaleiro.

— Tu és louca? Esse rapaz é um m onstro!

— Estás enganado! — defendeu ela, ardentem ente. — Ele é gentil, educado, inteligente...

— Ele é igual ao tio!

— Tu não o conheces para dizer isso! Não vês que ele m e capturou apenas para m e proteger do sr. De Larc? Podia ter m atado todos os andarilhos, m as preferiu apenas afastá-los da cidade.

— A m im ele prendeu! E estava louco para m e pendurar num a forca.

— Mas tu m ataste três guardas.

— Para te defender!

O rapaz não podia acreditar no que estava ouvindo. Mulheres eram realm ente as criaturas

m ais im previsíveis do m undo.

— Eu sei que te devo a vida — retom ou a j ovem . — E te agradeço por isso. O cavaleiro tem

um coração orgulhoso, m as não é um a pessoa ruim . Sabias que foi ele quem apagou o fogo em teus braços naquela noite, no estábulo?

— Não.

— Pois eu vi quando ele tirou a própria capa e foi te aj udar. Não acredito que Vince concorde

com as crueldades do tio. E não esqueças que ele j á salvou tua vida um a vez, aqui m esm o, em York.

Apesar das palavras da andarilha, o ódio por Vince não dim inuiu. De qualquer form a, era

inútil argum entar com Shannon. Ela lutaria até o fim para defender o hom em que a im pressionava.

— Vou procurar teus pais, se é o que queres... — Obrigada! — sorriu a j ovem antes de sum ir depressa pelo corredor. Thom as pensava tam bém em avisar Mark De Durham . Não foi m uito longe. Estava

atravessando um j ardim interno, procurando um a saída para o pátio principal, no instante em que se viu rodeado por um grupo de guardas.

— O que fazes aqui, garoto? — perguntou um deles. Se estivesse na presença de um núm ero m enor de guardas, poderia tentar dom inar suas

m entes, com o j á fizera antes. Não era um processo difícil, desde que a pessoa se deixasse dom inar. Fugir tam bém não era um a boa saída. Cham aria a atenção de todo m undo e acabaria outra vez nas m ãos de Hugues De Angelis. Ainda procurava a m elhor desculpa possível na hora em que ela caiu do céu.

— Então tu estás aqui! — disse um rapaz que surgiu à sua direita. — Este é nosso irm ão, m eus caros guardas, um andarilho com o nós — acrescentou outro

j ovem , que se plantou à esquerda de Thom as.

— Ele não veste roupas coloridas — retrucou o guarda. Eram os gêm eos Leo e Teo, que usavam e abusavam de cores extravagantes, o m odo com o

os andarilhos que frequentavam a corte costum avam se apresentar.

— É que ele não teve tem po de se trocar — j ustificou um dos irm ãos. — Nós o perdem os

nesta confusão toda. O castelo parece um form igueiro!

Com o o guarda ainda desconfiava de Thom as, o gêm eo tirou do bolso três bolas e atirou-as

para o rapaz. Ele as agarrou no ar para executar o truque batido de j ogá-las para o alto, trocando as m ãos de lugar agilm ente. O guarda ficou satisfeito.

— Vam os vos escoltar até o aposento onde estão os outros andarilhos — disse. — O arcebispo

não ficará nada feliz se encontrar um de vós perdido por aí.

Thom as aceitou a escolta sem protestar. Foram para um aposento abafado, próxim o ao

grande salão onde Arnon e o arcebispo receberiam os convidados. O local j á estava tom ado por outros andarilhos, ocupados dem ais em ensaiar truques para as apresentações que com eçariam em breve. Um m enestrel afinava o alaúde, sentado sobre um tam borete. Quando o rapaz se virou para a porta, ela se fechou quase em cim a dele. A entrada estava m uito bem guardada.

— Depressa, Thom as, coloca estas roupas — disse um dos gêm eos, em purrando-o em direção a um baú.

— Espera! Tu és o Leo ou és o Teo?

— Sou o Leo — riu o rapaz.

— Precisas te vestir depressa. Podem desconfiar de nós — disse Teo enquanto separava algum as peças do baú.

— O que vós fazeis aqui? — perguntou Thom as. — Arriscais vossas vidas!

— Shannon é nossa am iga, m oleque.

— Mas ela não quer ser salva.

Os gêm eos fitaram -no, espantados.

— É verdade! Acabei de falar com ela.

— Ainda não nos contaste com o fugiste da prisão — cortou Teo. — Pensam os que tu tivesses sido enforcado.

— E quase fui. Um am igo m e aj udou a fugir. Voltei para aj udar Shannon, m as ela não quer sair daqui. Está apaixonada por Vince De Angelis.

— Ela e todas as m ulheres de Britany a — debochou Leo. — As j ovens dam as rezam para se tornar a esposa do bonitão.

— Mulheres! Quem vai entendê-las? — filosofou o irm ão. — Hum ... Um a vez que entram os no castelo, que tal aproveitarm os a oportunidade para ganhar algum as m oedas de ouro?

— Por falar nisso, com o vós conseguistes entrar? — quis saber Thom as. — Só os andarilhos fam osos participam de um a festa com o esta...

— Dem os nom es falsos — piscou Leo.

— E Sabina? E Jon?

— Convencem os os dois a nos esperarem fora da cidade. Estão seguros — garantiu Teo. — Agora, deves trocar de roupa. A propósito, ainda te lem bras de algum truque?

— Pensam os em m ostrar alguns m alabarism os com tochas de fogo — com pletou o irm ão.

— Não, nada de fogo para m im — dispensou Thom as.

— Fica apenas ao nosso lado, sem arrum ar confusão — sugeriu Teo.

— Podem os usar m áscaras. O que achais? — perguntou Leo, agora rem exendo no baú.

Thom as vestiu um im enso blusão verm elho, quase duas vezes m aior do que ele, e ocultou o rosto com um a m áscara m ulticolorida, feita de couro. Escondeu os cabelos escuros num a boina, tam bém verm elha, enfeitada por um a exagerada pena roxa. Bem , usar aquilo não era sua m elhor definição para passar despercebido. O plano era, na verdade, m uito sim ples. Acom panharia os andarilhos até o salão e fingiria algum truque até o fim da festa. Depois iria em bora com os gêm eos e encontraria Jon e Sabina para cum prir a prom essa que fizera a Shannon. Durante o torneio, daria um j eito de m andar um recado para Mark, desobrigando-o de resgatar a andarilha. “Então, é só pegar Pégasus e ir para o Monastério”, pensou o rapaz, tranquilizando-se. Poderia até encontrar Tenorius na estrada. Tudo daria certo.

Dem orou bastante até que os andarilhos fossem conduzidos ao salão am plo e confortável, j á tom ado pelos convidados nas várias m esas disponíveis. Arnon estava num a cadeira m ais alta do que os dem ais, no m elhor ponto da m esa principal. Mark sentara-se ao lado direito do rei, enquanto Hugues ocupava o esquerdo. Thom as procurou por Erin. A j ovem , com seu vestido rosa, bebericava um a caneca de vinho, analisando cada detalhe ao redor sem dem onstrar interesse. “Bem típico dela”, pensou Thom as. O intragável Vince, com seu eterno tédio, olhava superficialm ente para as pessoas. Sua m ente devia estar a quilôm etros de distância. Thom as sentiu um a pontada de ciúm e ao descobrir que o cavaleiro se sentara ao lado de Erin.

O m enestrel, convocado para o salão antes dos andarilhos, parou de tocar. As apresentações

com eçaram de m odo sim ultâneo. Enquanto Teo e Leo esbanj avam talento ao j ogar tochas de fogo um para o outro, fazendo m alabarism os no ar, outros dois andarilhos andavam sobre um a corda esticada entre cavaletes de m adeira. Mais três equilibravam várias pilhas de pratos. Thom as pegou as três bolas de couro e ficou reinventando o velho truque que j á m ostrara aos guardas.

Depois de alguns m inutos, ouviu a gargalhada estridente de Rouen De Larc atrás de si. Na

prim eira oportunidade, virou-se ligeiram ente para observá-lo. O cavaleiro ruivo estava m ais feio do que se lem brava. Envelhecera m al. O nariz largo parecia ainda m aior.

— Ei, andarilho, não sabes fazer outra coisa? — gritou para Thom as. De onde estava, o rapaz

podia sentir o cheiro forte de vinho que ele exalava. — Estou falando contigo, andarilho!

O rapaz interrom peu o núm ero e fez-lhe um a reverência, afastando-se o m ais discretam ente

que conseguiu. Já dera três passos quando a m ão pesada de Rouen agarrou-o pelo om bro.

— Não tens língua? — gritou, girando Thom as com o a um boneco. O rosto naturalm ente verm elho do cavaleiro estava da cor púrpura. O salão ficou em silêncio.

Era m elhor responder.

— Que truque desej as ver, senhor? — perguntou o rapaz, hum ildem ente, num tom baixo de

voz.

— Ah, tem os aqui um andarilho da tua terra, Mark De Durham ! — gritou Rouen. — Nunca

entendi por que tua gente fala com esse sotaque esquisito. Nosso am ado rei devia proibi-lo por agredir a tão graciosa sonoridade da língua britã.

Thom as escutou alguns com entários. Além de Mark, havia outros nobres da Ilha Média entre

os convidados. Erin olhava para o rapaz, um tanto confusa. Quando seus olhos encontraram os dele, ela em palideceu. Reconhecera-o.

— Minha gente fala cantado, sr. De Larc, porque tem alegria no coração — disse Mark,

sorrindo, apesar do olhar furioso.

— Pena que os andarilhos da Ilha Média não sej am tão bons quanto os nossos. Este aqui só

sabe brincar com bolinhas. Ou estou enganado, hein, rapaz? Sabes fazer outra coisa?

— Ele tem um a ótim a pontaria no arco e flecha — disse Leo, tentando salvar a noite. Todos no salão, inclusive os andarilhos, acom panhavam a cena. “Isso não vai dar certo...”,

pensou Thom as.

— Um arqueiro! Que interessante! — exclam ou Rouen. — Será que existem bons arqueiros

em tua terra, sr. De Durham ?

— Os m elhores, sr. De Larc — respondeu Mark, que ainda não reconhecera Thom as. —

Deixa o rapaz te m ostrar.

Arnon assistia tranquilam ente à cena, com ar divertido. O arcebispo, em pertigado,

dem onstrava total indiferença. Vince bocej ou, j ogando as costas para trás.

— Preciso de arco e flechas — ordenou o cavaleiro ruivo. Em segundos, dois criados

trouxeram o m aterial. — Só falta o alvo...

Seus olhos m aliciosos recaíram sobre Erin.

— Já que o sr. De Durham confia tanto nos arqueiros da Ilha Média, com certeza confiará sua filha ao talento de um deles.

— O que pretendes, sr. De Larc? — gritou Mark ao se levantar da m esa, nada contente com a sugestão.

— Não te preocupes, pai — disse Erin, sem perder a calm a. — Aceito o desafio do nobre senhor da Grande Ilha.

— Não quero que te m achuques, Lady Erin — preocupou-se o rei. — Todas as brincadeiras têm lim ites.

— Esta não deixa de ser interessante, m aj estade — com entou Vince, agora desperto para o que acontecia no salão. — És m esm o tão coraj osa, senhora?

Erin sorriu e contornou a m esa para ir até Thom as.

— Onde queres que eu fique, sr. De Larc? — perguntou.

— Lá, próxim a à porta — resm ungou o hom em . A distância era relativam ente grande de onde estavam . — Mas, antes, segure isto na m ão. Será o alvo — acrescentou ele ao lhe atirar um a m açã que estava em outra m esa.

Com seus m odos rudes, o cavaleiro ruivo posicionou Thom as ainda m ais distante, quase em frente ao rei. O rapaz testou a flexibilidade do arco e avaliou as flechas. O m aterial era de qualidade. Arm ou o arco no m om ento em que Erin parou j unto à porta e se virou para ele, segurando a m açã ao lado do om bro. Thom as procurou não pensar em nada, principalm ente no frio em sua barriga. A tensão no am biente era terrível.

Mirou o alvo e atirou. A flecha disparou através do salão, pregando a m açã contra a porta de m adeira. No m esm o segundo, a fruta rachou ao m eio. Um a parte caiu, enquanto a outra se m anteve pendurada à seta de m etal.

Palm as e vivas alegraram o salão, principalm ente da parte dos nobres da Ilha Média. As m ãos de Thom as estavam úm idas.

— Isso não tem graça! — gritou Rouen, nervoso. — Acho que podem os com plicar a situação. Que tal se o arqueiro ficar de olhos vendados?

— Já chega, sr. De Larc — dispensou Arnon, com dureza.

Rouen engoliu a hum ilhação. Erin voltou sem pressa ao seu lugar.

— Meus cum prim entos, Lady Erin — disse o rei, novam ente sim pático. — Representaste m uito bem a coragem dos nobres da Ilha Média.

Os convidados daquela região de Britany a aplaudiram com entusiasm o suas palavras.

— Quanto a ti, andarilho, acredito que farias m elhor se estivesses a m eu serviço, j unto aos arqueiros reais.

— Agradeço-te o convite, m aj estade, m as agora devo partir — disse Thom as, com um a reverência a Arnon. Mark ficou transtornado. Finalm ente reconhecia sua voz.

O rapaz sentiu o bafo de Rouen atrás dele. Tentou se desvencilhar, m as o cavaleiro segurou-o outra vez pelo om bro.

— Ninguém nega nada ao m eu rei, andarilho — rosnou ele, arrancando a m áscara e a boina de Thom as. — Nem tam pouco esconde o rosto.

O rapaz olhou direto para o arcebispo, m al controlando o pânico. Ouviu a risada abafada de Vince. Hugues estava boquiaberto.

— Deixa o garoto em paz, Sr. De Larc — disse o rei, em tom am igável. — Para de provocar o sr. De Durham e vem tom ar com igo outra caneca de vinho.

O cavaleiro ruivo soltou o rapaz e cam baleou até o banco. Era a oportunidade de Thom as para

sair de cena.

— Música, m enestrel! — pediu um dos nobres. Em instantes, retornaram a conversa e a anim ação nas m esas. Os andarilhos reiniciaram as

apresentações. Thom as bem que tentou sum ir dali o m ais rápido possível. Quando pisou no corredor, dois guardas barraram -lhe a passagem .

— Estava esperando por ti, Thom as, filho de Alix e Erec — disse Hugues De Angelis, surgindo

atrás dele.