O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
11 - Herança
CAPÍTULO 11
Herança
M ark não conseguia entender o que ocorrera no castelo quase duas noites antes. Lutara
pessoalm ente contra as cham as j unto com outros nobres e vários guardas, na tentativa frustrada de controlá-las. Tam bém aj udara a retirar várias pessoas da ala leste. Felizm ente, ninguém se m achucara com gravidade. Restara apenas o pânico generalizado que o desaparecim ento súbito do incêndio provocara.
O cavaleiro não queria aceitar o fato de Erin e Thom as terem perecido entre as cham as.
Arnon, afetado pelos acontecim entos, j á dava com o certa a m orte dos j ovens, bem com o a do arcebispo. Vince tam bém desaparecera de York. Fora visto pela últim a vez num a taberna, em com panhia de um a j ovem . Havia ainda Rouen De Larc, encontrado m orto próxim o ao calabouço. Um m istério que ninguém se atrevia a resolver.
O burburinho típico de um dia no m ercado de York não m elhorava o ânim o de Mark. Com a
m orte de Hugues De Angelis, talvez agora pudesse conversar com Arnon sobre as dúvidas que o incom odavam há anos, desde que descobrira que Erec participava de um a m issão m isteriosa. Mark ficara realm ente surpreso quando o rei lhe dissera que, involuntariam ente, o aj udara a encontrar seu segundo neto. Com o Arnon descobrira isso? Mark tam bém se surpreendera ao saber que Vince e William De Sutter eram a m esm a pessoa. O que m ais Arnon sabia e não lhe contara? Será que ele conhecia a existência de Savac e de um a guerra inevitável com outro m undo?
O cavaleiro parou em frente a um a barraca de frutas. Não pensava de estôm ago vazio.
Depois que pagou por m eia dúzia de pêssegos suculentos, viu-se cercado por dois rapazes exatam ente iguais.
— Sr. De Durham ? Eu sou Leo e este é m eu irm ão Teo — disse um deles. — Um a am iga
nossa precisa falar contigo sobre o andarilho Thom as e tua filha.
O cavaleiro seguiu os rapazes até o portão sul da cidade e, de lá, por um a longa trilha pela
floresta que desem bocava num a clareira tom ada por velhos carroções de m adeira. Não sabia o que esperar daquela situação inusitada. Analisou com cautela o grupo m altrapilho de andarilhos que o aguardava.
— Este é Jon, nosso líder — disse Leo, indicando um hom em m agro e desconfiado, com cara
de vilão.
O rapaz continuou apresentando o restante do grupo. Havia a m ãe dos gêm eos, um a m ulher
esquisita cham ada Narcisa, e Sabina, a esposa de Jon. Por fim , Mark conheceu um a j ovem m uito atraente, Shannon, o pivô da disputa que envolveu Rouen, Vince e Thom as.
Jon convidou o cavaleiro a se sentar com eles j unto à fogueira. Já estava anoitecendo. — Senhor, não creio que te lem bres de m im — disse Sabina. — Há alguns anos, salvaste
Shannon e Thom as da m orte certa nas m ãos do sr. De Larc.
— Eu?! — reagiu Mark, com espanto. As palavras da andarilha tam bém surpreenderam as
outras pessoas do grupo, principalm ente Jon.
— O sr. De Larc acusou as crianças de roubarem sua tenda... — Ah... — sorriu o cavaleiro. Por que Thom as nunca lhe dissera que ele e o garoto m agricela que conhecera naquela ocasião eram a m esm a pessoa?
— Gostaria que tu soubesses o que aconteceu conosco na noite do incêndio.
A m ulher narrou sua prisão, a tortura que sofrera nas m ãos de Hugues e, por últim o, a cena dram ática na torre leste.
— Um raio atingiu o arcebispo, senhor, e incendiou a torre — explicou ela. Mark percebeu que a m ulher hesitava em lhe contar algum detalhe. — Há outra coisa, senhor. No m om ento de m inha execução, Thom as surgiu do nada e im pediu o guarda de m e m atar. Ao m esm o tem po, ele estava longe, na torre. Com o isso foi possível?
O cavaleiro pôde sentir o quanto o fato atem orizava os andarilhos, com exceção de Shannon. Sabina explicou com o a im agem duplicada de Thom as desaparecera a seguir. Houvera depois o raio que atingira o arcebispo e a luta desesperada do rapaz para não despencar da torre.
— Agora é a m inha vez, senhor — disse Shannon.
A j ovem recordou o encontro com Erin no castelo e sua fuga de Rouen.
— Quando eles com eçaram a lutar, eu saí para procurar aj uda. Encontrei Thom as e m inha m ãe. Ele foi aj udar tua filha. Pouco tem po depois, m inha m ãe e eu vim os os dois fugindo a cavalo do castelo. Seguim os o conselho de Thom as para te procurar, senhor.
Mark sentiu-se m ais tranquilo. A m orte do cavaleiro ruivo agora fazia sentido. E o m elhor de tudo: Erin e Thomas estavam vivos!
— Gostaríam os de saber se podes nos aj udar — disse Jon, que perm anecera calado durante toda a conversa. — Aquele m oleque m eteu-nos nesta confusão sem saída. Não podem os trabalhar, pois tem em os ser atacados novam ente.
— A culpa não é dele — retrucou o cavaleiro.
— Perdoa-m e a insistência, senhor, m as um garoto m aldito que se introm ete em questões do dem ônio só pode acabar m al, além de envolver gente inocente em suas bruxarias.
Mark levantou-se, indignado.
— Devias pensar antes de abrir a boca, andarilho — am eaçou ele. — Estás falando de Thom as De Sutter, príncipe de toda a Britany a e segundo neto de Arnon, nobre de Brusk, herdeiro direto do rei Arthur!
Suas palavras causaram im pacto sobre os andarilhos. Jon ficou verm elho, roxo e, finalm ente, branco com o a neve. Mark falara sem pensar. No entanto, não se arrependia. Estava cansado de tantos segredos. Além disso, podia apostar seu castelo na suposição de que aquela gente atorm entara Thom as com prazer durante anos, com exceção, claro, de sua m ãe e irm ã adotivas. Não deixava de ser interessante im aginar o que cada um pensava naquele m om ento.
— Tenho certeza de que o rei Arnon ficará feliz em conhecer os andarilhos que cuidaram tão bem de seu neto — ironizou o cavaleiro. — A partir de agora, vós estais sob m inha proteção.
Sabina era a única que sorria.
...
Thom as m ergulhou a cabeça na água. Estava exausto. O banho revigorava-lhe o corpo ainda enfraquecido. Ainda não se recuperara direito do ataque no alto da torre leste. Durante a viagem até o Monastério, Dines m ostrara-se bastante preocupado com a saúde do rapaz. Ainda assim , obrigara-os a um ritm o extenuante, quase sem paradas. Não queria perder tem po. Trocaram várias vezes de cavalos, o que obrigara Thom as a se separar de Pégasus. Dines deixou recom endações com um ferreiro de confiança para que o anim al chegasse a salvo às m ãos de Mark De Durham . Seria um sinal para que o cavaleiro soubesse que os j ovens estavam bem .
Tam bém não houvera tem po para as respostas que Thom as esperava receber. Ele contara
tudo o que acontecera em York para Dines, que se lim itou apenas a dizer que encontrara Tenorius e que arrancara dele toda a verdade. O rapaz preferiu não confirm ar a suspeita de que seu últim o professor não sobrevivera ao interrogatório. Todas as explicações seriam dadas quando estivessem seguros no Monastério.
Quando chegaram , Erin m ostrou-se m aravilhada com o lugar. E Michel, exultante com o
retorno de Thom as, providenciava seu prato preferido enquanto os recém -chegados se preparavam para o j antar. Thom as tem ia desapontá-lo, pois voltara a não sentir fom e. Um a dor de cabeça contínua tam bém o incom odava. Quando tentava dorm ir, nos raros m om entos em que parara durante a viagem , tinha sem pre o m esm o sonho: a cidade das ruínas, onde estava Menethrrah. A culpa tam bém o consum ia. Não conseguia se esquecer das palavras de Vince sobre Kirian De Sutter.
A água j á estava fria quando resolveu sair da tina. Vestiu-se devagar, colocando as roupas que
Michel trouxera para ele. Ao deixar a cela, encontrou-se com Erin, que parecia outra depois do banho. O m onge destinara a ela roupas m asculinas, com o pedira. Havia algo m ais...
— Teus cabelos! O que fizeste com eles? — surpreendeu-se o rapaz. — Não gostaste? — perguntou ela, decepcionada. — Pedi ao irm ão Michel que os deixasse na
altura das orelhas. Aquela trança m e incom odava.
— Acho que estão m ais curtos do que os m eus — sorriu Thom as, adm irando-lhe a coragem .
Nunca vira um a m ulher de cabelos curtos. Os dela exibiam um corte reto, sem franj as. Os fios lisos e loiros acom odavam -se perfeitam ente em torno do rosto. — Estás m ais bonita.
Ela retribuiu o sorriso e, de m ãos dadas, os dois foram para a cozinha. Oz recebeu-os com os
olhos verm elhos de sono. Já estava de barriga cheia, descansando tranquilam ente perto do fogão.
— Senta, Thom as, deves estar m orrendo de fom e — convidou Michel. O m onge espalhou pratos diferentes sobre a m esa, para a alegria de Erin. O rapaz forçou-se a
tom ar algum as colheres de sua sopa predileta, m as desistiu logo depois.
— Tua cabeça dói? — perguntou Michel, encostando a palm a da m ão na testa do rapaz. —
Tens um pouco de febre. Falaste sobre isso a m estre Dines?
— Ele não disse nada — com entou Erin, apreensiva. — E tam bém m al se alim entou desde
que partim os de York.
Agora eram dois contra ele. Thom as m anteve a boca fechada. Estava cansado dem ais até
para se defender.
Mais de um a hora depois, os j ovens foram cham ados à biblioteca, estranham ente vazia àquela
hora do dia. Erin espantou-se com a quantidade de livros.
— Com o m eu pai foi perder tudo isso aqui? — perguntou ela. Thom as não respondeu, atento a Dines, parado a poucos m etros deles, na entrada da
passagem secreta. O abade fez sinal para que os dois o acom panhassem pela escada de pedra até o salão subterrâneo.
Erin ficou boquiaberta ao descobrir as pedras de energia. Por m ais detalhes que o rapaz j á
tivesse lhe passado sobre elas, a garota não pôde esconder a surpresa que a lum inosidade estranha provocava no am biente. Dines apontou para duas cadeiras e se acom odou num a terceira. A j ovem escolheu um a delas e sentou-se.
— Prefiro ficar em pé — decidiu Thom as, inquieto dem ais para relaxar.
Dines não insistiu. Seu aluno continuava o m esm o garoto de sem pre.
— Há m uitas coisas que devo vos contar — disse o abade, enigm ático. — Acho que vou com eçar pela lenda de Gotihan.
Thom as franziu as sobrancelhas. Todo m undo agora parecia acreditar em contos de fadas!
— Ele foi o líder de um povo não hum ano, os m y rhans, que habitavam um m undo além da fenda espacial, no Quadrante Taurus — continuou ele, olhando para o rapaz. — Há m ais de dois m ilênios os m y rhans enfrentaram um a guerra terrível contra os nergals. Houve m ilhões de m ortos em vários planetas. Gotihan uniu povos de diferentes culturas, espalhados pelo universo, e derrotou o inim igo, usando o poder das perenthis, esferas de energia que pertenceram a povos m ais antigos do que os m y rhans e m ais ainda do que os hum anos. As lendárias perenthis de Alzabir fazem parte de um a tecnologia alienígena desconhecida até para os m y rhans.
— Com o são estes nergals? — interrom peu Erin, sem conter a curiosidade.
— São seres sim bióticos, isto é, criaturas que precisam dos corpos de outras para sobreviver. Não é qualquer ser vivo que pode ser utilizado com o hospedeiro. E os nergals têm um a consciência única.
— Com o assim ?
— Eles estão ligados entre si e tam bém a um a liderança que nem m esm o Gotihan pôde destruir. Quando a am eaça foi afastada de seu m undo, ele m anteve a aliança entre os povos e estabeleceu um processo de paz, hoj e m antido a custo. Antes de m orrer, j á m uito velho, Gotihan previu alguns acontecim entos.
— A profecia...
— Sim , são suas palavras. Ele prom eteu voltar para aj udar seus am igos se a guerra recom eçasse. É nesse ponto que entram os hum anos.
Dines finalm ente falaria da Era do Caos?
— Aqui, o hom em sofria as consequências da tecnologia usada com irresponsabilidade. O planeta estava em desequilíbrio, o que am eaçava a existência de todos. E ainda havia guerras internas, conflitos étnicos, m iséria... A esperança estava nas estrelas. Havia tecnologia suficiente para procurar vida em outros planetas. Um prim eiro contato foi feito, quase sem querer, com os m y rhans, que exploravam o universo deste lado da fenda espacial. E assim os hum anos tiveram acesso às pedras de energia. O processo revolucionou o que se conhecia aqui. As disputas internas, entretanto, puseram tudo a perder. Um a guerra bacteriológica foi iniciada, extinguindo todas as etnias hum anas que não fossem brancas. Foi o início da Era do Caos. Só escapou quem estava entre o grupo que, um pouco antes, partira do planeta com os m y rhans para um a m issão de paz. Eram fam ílias inteiras, de vários pontos deste planeta.
Dines respirou fundo para recuperar o fôlego. Thom as não se m exeu, tentando aparentar algum a tranquilidade. A dor de cabeça piorava a cada m inuto.
— A Terra m ergulhou em um período de caos sem precedentes. Tudo estava fora de controle. Foi abandonada à própria sorte.
— E por que os m y rhans não aj udaram ? — espantou-se Erin.
— Eles tentaram , só que seus esforços foram em vão. Decidiram que era m elhor dar asilo ao grupo de voluntários hum anos. No outro lado da fenda espacial, estas fam ílias foram instaladas em um planeta, batizado de Gaia, e lá criaram um a nova civilização, sob a influência dos m y rhans ou antigos, com o passaram a ser cham ados pelos hum anos. Os m y rhans eram um povo especial. Alim entavam crenças na vida após a m orte e na força espiritual, relegando os bens m ateriais a um segundo plano. Suas aspirações estavam ligadas à evolução infinita de cada ser. Quando sentiram que sua m issão estava term inada, partiram para as estrelas, deixando os hum anos com o substitutos na Aliança dos Povos, criada por Gotihan séculos antes. Hoj e, m uitos em Gaia pensam que os m y rhans não passam de personagens de histórias infantis. Alguns hum anos seguiram os ensinam entos dos antigos, form ando um a casta influente e poderosa.
— E Hannah?
— Ela foi a últim a sacerdotisa dessa casta. Antes é preciso explicar o que aconteceu em Gaia,
há quarenta e quatro anos. Alguns hum anos, contrários à influência cultural e, podem os dizer, religiosa dos m y rhans, sentiram -se cada vez m ais am eaçados com o poder da casta. A perda da liberdade individual foi o passo seguinte. Instalou-se o Novo Conselho em Gaia, autoritário e m aterialista. A casta só desconfiou da aliança de alguns hum anos com os nergals quando era tarde dem ais. Os sacerdotes foram covardem ente assassinados, assim com o os guardiões.
— Guardiões?
— Sim , Erin, j á vou explicar. Os guardiões são seres altam ente treinados para defender os
interesses da casta. Eu não os definiria com o guerreiros ou soldados, apesar de dom inarem m étodos de ataque e defesa. Eles lutam pela liberdade. Hoj e, seu obj etivo principal é destruir os nergals. Há bem poucos de nós...
— És um guardião? — ela quis confirm ar.
— Fui treinado por Tolkien, o único guardião que escapou do m assacre prom ovido pelo Novo
Conselho. Minha m issão é cuidar deste planeta, m ais especificam ente, de Britany a.
— E por que Hannah veio para cá?
— A sacerdotisa teve um sonho, há m uito tem po. Nele, Gotihan pedia-lhe que viesse para este
m undo, pois encontraria aqui o Herdeiro. E lhe m ostrou a im agem de Kirian e da região de Sutter. Ela j ulgou que o cavaleiro fosse o Herdeiro, m as estava enganada e pagou um preço alto pelo erro.
O silêncio dom inou o am plo salão por alguns m inutos. — Arthur fazia parte da casta? — retom ou Erin para que Dines explicasse o nascim ento do
reino de Britany a.
— Ele pertenceu à casta durante um a época, há m ais de oitocentos anos. Seu sonho era
resgatar o planeta Terra. Então, ele convenceu outros sacerdotes a acom panhá-lo até aqui, o que provocou um a cisão na casta. Arthur recriou Cam elot. Ou um a adaptação dela na Terra. Cam elot foi o centro de um a lendária saga hum ana, onde prevaleciam valores nobres e sim ples que Arthur considerava indispensáveis para a felicidade de todos, fossem sacerdotes — os novos nobres — ou hum anos perdidos na Era do Caos — o povo da futura Britany a. Claro que, com o tem po, seu sonho cedeu espaço a um a sociedade ignorante e repressora que, com certeza, ele rej eitaria se tivesse vivido para conhecer. Eu o consideraria m ais um sonhador do que um lunático.
— Eu não entendo um a coisa, m estre. Se esses sacerdotes dom inavam tanto conhecim ento,
por que isso não foi m antido entre seus herdeiros? Quer dizer, hoj e a m aioria dos nobres é tão ignorante quanto o povo. Mal sabe ler ou pensar.
— Não tenho m uita certeza. Acredito que o nascim ento da religião britã tenha a ver com isso. Com o tem po, reter conhecim ento passou a significar ter poder. Os padres concentraram inform ações e tornaram -nas secretas. Por outro lado, os descendentes dos nobres foram se afastando da filosofia m y rhan. Houve um a pessoa que Hannah considerava um a exceção: Kirian De Sutter.
— Com o era ele?
— Um hom em de coragem , inteligente e am bicioso — disse o abade, com tristeza. — Hannah e ele j á tinham um filho quando cheguei aqui, atendendo a um pedido de Tolkien. A princípio, realm ente acreditei que Kirian era o Herdeiro. Ele dom inava poderes m aiores do que os da própria Hannah. Havia apenas a questão das perenthis. Por m uitos séculos, Mithrrah e Menethrrah foram guardadas pela casta, à espera do retorno de Gotihan. A terceira esfera, que ninguém sabe o nom e, foi perdida durante a últim a batalha contra os nergals. Hannah trouxe as duas esferas para este m undo. Escondeu um a e, com a outra, pretendia encontrar o Herdeiro. A perenthis brilhou quando Kirian a pegou pela prim eira vez, convencendo a sacerdotisa de que estava no cam inho certo. Mas o processo de transferência de energia nunca se com pletou. Algum a coisa estava errada. Quando Erec tinha três anos, seu pai sum iu num a das batalhas que os cavaleiros do rei travavam nos lim ites das Terras Erm as. Kirian reapareceu som ente nove anos m ais tarde. Nunca soubem os o que realm ente aconteceu com ele naquele período. Tivem os apenas um a certeza: ele tivera contato com os nergals.
Dines procurou o olhar de Thom as.
— Tu não atingiste teu avô naquela noite, na torre, m as Savac, o nergal que habita seu corpo.
— Com o assim ? — perguntou o rapaz, confuso.
— Kirian concordou em se tornar m ais poderoso, Thom as. Já vos contei que esses seres lum inosos não travam um a relação sim biótica com qualquer um . É preciso algum as condições básicas, com o a vontade da própria criatura que cede o corpo. É por isso que eles agem lentam ente, m inando as bases de cada povo que conquistam . Não partem para um ataque direto sim plesm ente porque precisam preservar seus futuros hospedeiros. E escolhem os m elhores, os m ais resistentes e habilidosos. Para eles, a história de Gotihan é tão real quanto eu. Afinal, lutaram contra ele. Através de Kirian, souberam que o Herdeiro surgiria neste m undo, ligado aos nobres de Sutter. Talvez um descendente, capaz de reunir os poderes do cavaleiro e de Hannah. Resolveram esperar. Os nergals não têm pressa. Já viram m uitas civilizações nascerem e m orrerem . E procuram as perenthis há m ilênios. Com elas e com o Herdeiro, o único que sabe acioná-las, serão invencíveis.
— Com o Hannah m orreu, m estre? — questionou Erin, antecipando a próxim a pergunta de Thom as.
— Sei apenas o que Erec m e contou. Aconteceu na noite de tem pestade em que o pai de Erec, j á um hospedeiro nergal, regressou a Sutter. Kirian quis convencer Hannah a se unir ao poder ilim itado que descobrira. Os dois brigaram e se enfrentaram , num a luta inacreditável para os hum anos que a presenciaram . Não houve vencedores. Hannah m orreu nos braços de Erec, atingida pelos próprios raios que dom inava. Kirian, fraco e doente, definhou até m orrer. Pelo m enos, era no que todos acreditavam . Eu orientei Erec a procurar a proteção dos vizinhos, os nobres de Durham . Mark tinha estudado aqui. Sabia que era um hom em de bem . Erec cresceu, treinado pelo hologram a de Hannah para ser um guardião. E se tornou m elhor do que o próprio Tolkien. Esteve diversas vezes nas Terras Erm as, participando de batalhas e vigiando de perto um a possível aproxim ação dos nergals. Quando Hugues chegou a Britany a, alegando vir da região de Angelis, na Grande Ilha, Erec ficou desconfiado. E com eçou a achar que o próprio pai usava algum truque para enganá-los. Pedi que não se arriscasse, m as ele estava envolvido dem ais para ser prudente. Eu não sabia com exatidão o que provocou o ataque a Sutter até poucos dias, ao encontrar Tenorius. E soube de m ais detalhes depois, quando m e contaste tudo o que aconteceu contigo, Thom as. Hoj e acredito que, ao tom ar a perenthis para si, Erec atraiu a fúria dos nergals. Savac salvou William , ou Vince, com o preferirem , pensando na possibilidade dele ser o Herdeiro, e destruiu qualquer prova de sua presença em Sutter. Desde então, vem m anipulando Arnon e m antendo Britany a sob seu controle.
— Com o ele pode ter tanto poder sobre o rei? É algum a bruxaria? — perguntou a j ovem ,
levantando-se da cadeira.
— Savac trouxe a paz para o reino, introduzindo o pó am arelo entre os bárbaros. Foi teu pai
quem descobriu isso, desconfiado há anos do m otivo real que levara os bárbaros a aceitarem a paz. E quase m orreu por essa inform ação. Mark foi perseguido por um nergal no Pântano do Terror, m as eu o encontrei a tem po de salvá-lo. Quase m orri na luta contra a criatura. Os nergals são praticam ente invencíveis, até para um treinado guardião e sua arm a de energia. Tive sorte, acho. Isto aconteceu na época em que tu conheceste Mark, Thom as. Ele se recuperava dos ferim entos que sofrera no pântano.
— O que é este pó am arelo? — disse Erin, surpresa pela vida dupla do pai. — O próprio Savac desenvolveu-o, j unto aos nergals. Causa euforia e dependência. Os
bárbaros consom em a droga em grandes quantidades. Ela destrói o organism o, debilitando a m ente no processo. Com o consequência, os bárbaros são facilm ente dom inados. Eles não conseguem sobreviver sem a droga e fazem qualquer coisa para obtê-la. O problem a é que alguns nobres tam bém com eçaram a consum i-la, com o Rouen De Larc, e estão ficando fracos ou perigosos. Outros estão vendendo a droga, cuidando de seus próprios interesses. O rei perde lentam ente o controle sobre alguns senhores das Terras Erm as. Pensa que pode resolver a situação fazendo alianças políticas através de casam entos...
— Com o o do m eu pai com Claire De Roths.
— Exatam ente. Brincar com drogas pode trazer consequências im previsíveis para todos os
envolvidos.
Erin voltou a se sentar. Havia um volum e im enso de inform ações, problem as dem ais para
lidar sozinha.
— O que vam os fazer? — perguntou para Thom as. — Nada.
Dines e Erin fitaram -no, incrédulos.
— Eu não sou esse Gotihan e não quero ter poder nenhum ! — explodiu o rapaz. — Estou
cansado de ficar doente por culpa dessas visões que m e apavoram . Sem pre quis ter um a vida norm al, com o qualquer um , e não ficar por aí incendiando torres!
O m al-estar veio com a dor de cabeça tenebrosa e deixou-o tonto. Ele fechou os olhos,
tem endo perder o equilíbrio. Lem brou-se vagam ente da voz do hologram a dizendo-lhe que a dor e o sofrim ento vinham do fato de que ele tentava evitar as m anifestações. Era necessário deixá-las fluir, sem resistência, perm itir que a velha e dolorosa sensação de m orte tom asse o controle.
— Gotihan finalm ente m e encontrou, Moriarty, após anos de espera. Agora é preciso reunir m inhas irm ãs — disse sua própria voz, em um tom estranho.
— Quem está falando? — perguntou Dines.
— Tu não m e conheces? Sou Mithrrah.
— Mithrrah?! — repetiu Erin.
— O tem po é precioso. Os nergals reúnem forças rapidam ente. Só o Herdeiro pode detê-los. Deves cuidar de Thom as. Ele apenas tem e o que desconhece, m as há coragem em seu coração. Ele decidirá com sabedoria quando o m om ento chegar.
Thom as caiu de j oelhos, trem endo de frio. Reproduzira o m esm o tom de voz que usara no dia em que falara a profecia para Mark e Erin. Abriu os olhos, arrancou do pescoço o cordão com a pedra opaca e j ogou-a longe. Ela bateu contra a parede e rolou para o chão, j unto com a aliança de Alix. Inesperadam ente, do interior da pedra, surgiu um ponto de luz que cresceu até o tam anho de um a m açã e flutuou para ficar diante do rapaz, com o j á fizera antes.
— Mithrrah... — disse ele, sem fôlego.
A esfera girou sobre o eixo, e seu brilho aum entou até desaparecer. Qual era m esm o sua sim bologia? A força oculta e intuitiva de cada um . De algum a form a que Thom as desconhecia, aquela perenthis exercia um a influência sobre ele através da pedra opaca, aguçando sua intuição e percepção dos fatos. Talvez a pedra tivesse a m esm a relação com as outras duas esferas perdidas. Através dela, Mithrrah e suas irm ãs agiam para serem encontradas, sej a conduzindo-o em transes ao passado, sej a alertando-o sobre o futuro por m eio de prem onições. Ou até falando através dele.
Thom as sentiu-se usado de m odo covarde e traiçoeiro. Ergueu-se com cuidado, fazendo o possível para não desm oronar outra vez. Queria a todo custo evitar o olhar de Dines.
— Tom , vem descansar — sugeriu Erin, gentilm ente, passando os braços com firm eza ao redor de sua cintura.