O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
3 - Andarilha
CAPÍTULO 3
Andarilha
- Vê com o é bela... — m urm urou Rouen De Larc, com um m eio sorriso.
Só então Vince De Angelis reparou na j ovem andarilha que arrancava aplausos da
m ultidão reunida na praça principal de York, por onde os dois hom ens circulavam após tom ar algum as canecas de cervej a num a taberna próxim a. Sim , realm ente era um a j ovem m uito bonita. O rapaz adm irou o corpo sedutor, o rosto alegre, de traços delicados, e os cabelos negros que atingiam a cintura. O velho m enestrel que a acom panhava com eçou a tocar um a nova m úsica. A andarilha ergueu os braços e, seguindo o ritm o da m elodia, m exeu o corpo em m ovim entos perfeitos. Sua dança era capaz de hipnotizar qualquer m ortal. O cavaleiro ruivo, ao lado de Vince, estalava a língua de prazer.
— Ela será m inha — cobiçou ele.
— Estás enganado, Rouen. O sobrinho do arcebispo leva a preferência — com eçou o rapaz, rindo.
O ruivo não gostou da brincadeira. Vince recuou. Conhecia bem dem ais seu gênio ruim .
— Vam os apostar — sugeriu, tirando do bolso um par de dados de m adeira.
Rouen concordou, som brio. Vince j ogou os dados no chão, obtendo um seis e um cinco. Tinha boas chances. Já pensava num a m aneira de abordar a bela andarilha quando o am igo conseguiu dois seis.
Vince engoliu em seco. O outro hom em arreganhou os dentes de satisfação. A m ultidão aplaudiu m ais um a vez. A m oça, sorridente, fez um a reverência para agradecer.
...
No fim do dia, o m ovim ento na praça dim inuiu. Shannon parou de dançar e se abaixou para m assagear os pés doloridos. Jon j untou-se a ela, sorrindo de satisfação. A apresentação perm itira arrecadar um a considerável quantidade de m oedas.
— Podes conseguir ainda m ais dinheiro se quiseres, andarilha — disse um garoto m agricela e sardento.
— Que queres dizer? — perguntou Shannon, estudando-o.
— Meu senhor quer vê-la im ediatam ente — sussurrou ele ao colocar um a m oeda de ouro em sua m ão.
— O que está acontecendo? — quis saber Jon.
— Nada, m eu pai — disse ela após devolver o dinheiro. — Diz ao teu senhor que não sou o que ele pensa.
O garoto pareceu apavorado. Olhou para trás e depois pegou-a pelo cotovelo.
— Tu não entendeste. Ele te quer!
— E eu não o quero! — disse ela ao se libertar.
— Afasta-te de nós, m oleque! — avançou Jon, verm elho de raiva.
O garoto desapareceu em segundos. Jon puxou-a pelo braço para tirá-la rapidam ente da praça. A noite com eçava a cair. Shannon j á havia recebido propostas com o aquela antes, m as sem pre conseguira recusar sem problem as. Algum a coisa na expressão de pânico do garoto, entretanto, deixou-a preocupada.
Num a das ruas, os dedos de Jon, num reflexo provocado pelo m edo, apertaram o braço da
filha. Da penum bra, um grupo de cinco guardas avançava em direção a eles, enquanto tirava as espadas da bainha. Shannon reconheceu nos uniform es a rosa prateada sobre listras azuis e brancas. “Rouen De Larc!” Um a velha que cam inhava por perto viu o grupo e, assustada, entrou na prim eira porta que encontrou aberta, fechando-a em seguida. Ninguém iria aj udá-los, ninguém iria contra os hom ens do poderoso cavaleiro do rei. Os dois andarilhos estavam cercados.
Um dos hom ens atacou Jon com a espada, quase lhe cortando a barriga. Shannon pulou sobre
o agressor para defendê-lo. No m esm o segundo, várias m ãos im obilizaram -na. O guarda voltou a atacar Jon, que segurava debilm ente um a faca enferruj ada. Não teria qualquer chance contra a lâm ina que se preparava para m atá-lo.
Nesse instante, um a flecha atravessou o cam po de visão de Shannon e atingiu o guarda em
pleno pescoço. Ele cam baleou, o sangue escorrendo, e tom bou no chão. O guarda ao lado da andarilha gritou, atingido por outra flecha na altura do coração. Um a terceira atravessou um dos hom ens. Aproveitando a confusão, Shannon soltou-se e correu até o pai. Ele olhava fixam ente para o alto, sem reação. A andarilha acom panhou seu olhar. Em cim a de um dos telhados, um j ovem arqueiro atacava os guardas sem lhes dar tem po para defesa.
Um dos hom ens que restavam agarrou Shannon, tocando-lhe o pescoço com a espada. — Desce daí, arqueiro! — berrou ele.
Em segundos, o rapaz estava a poucos passos do grupo. — Coloca esse arco no chão! — ordenou o guarda. Foi obedecido. A andarilha estrem eceu. Sabia quem era aquele j ovem . Ele crescera, estava m ais alto e forte,
m as ela reconheceria seus olhos em qualquer lugar do m undo. Naquele m om ento, o olhar negro era aterrador. Um ódio indescritível alim entava-o. Outro guarda atacou-o, golpeando-o com a espada. Ágil com o um a fera, o arqueiro agarrou-o pelo pulso, que torceu com facilidade. A espada voou para longe antes que seu dono fosse j ogado pesadam ente contra o solo, recebesse um soco e ficasse inconsciente. A lâm ina no pescoço da j ovem quase a cortou. Seu agressor estava com m edo.
O rapaz deu um passo em sua direção.
— É m elhor que tu a soltes — disse o arqueiro, num tom de voz frio. — Nós sabem os que teu
senhor não a quer m orta nem tam pouco ferida. Siga teu cam inho em paz.
O guarda hesitou.
— Se não levá-la, m eu senhor m e m atará!
— Se não soltá-la agora, eu te m atarei.
O arqueiro sorriu, am eaçador. Shannon sentiu m edo. Com eçou a duvidar de que aquele
j ovem fosse realm ente o garoto assustado que conhecera. A pressão sobre sua garganta desapareceu. O hom em ainda segurava a espada, m as ela pendia de sua m ão, inofensiva.
— Esquece o que aconteceu aqui — continuou a voz sem em oção. — Vós fostes atacados por
ladrões. Há m uitos aqui na Grande Ilha...
— Sim , há m uitos ladrões — repetiu o guarda, apático. — E não encontraram nenhum andarilho.
— Nenhum andarilho...
— Leva teu com panheiro e vai em paz. Ele tam bém esquecerá o que aconteceu aqui.
O guarda passou pelo rapaz e abaixou-se para pegar o outro hom em , que segurou pelo tronco e arrastou para longe.
Quando os dois sum iram de vista, Shannon encarou o arqueiro. Não havia m ais sinais de fúria. Era apenas um rapaz com um que os fitava, inseguro. Jon, que assistira a tudo sem se m over, trem ia de ódio e pavor.
— Com o tem ia, m oleque, tu te transform aste em um bruxo! — disse ele.
Thom as, aborrecido, desviou o rosto.
— Ele salvou nossas vidas, pai — reforçou a j ovem . — Vam os, devem os retornar ao acam pam ento o m ais depressa possível.
...
Já era noite quando os três alcançaram o acam pam ento, m ontado na clareira – a m esm a que o grupo sem pre ocupava em York. Os carroções estavam organizados em sem icírculo, com o o rapaz se lem brava. Os cavalos pastavam adiante, à esquerda. Ao centro, um a fogueira ardia, cozinhando algum ensopado dentro da m esm a panela grande e am assada. Os olhos de Thom as procuraram em vão pela presença do velho Tuc, cochilando encostado à roda de sua carroça velha.
Os gêm eos estavam conversando. Tinham se transform ado em adultos grandes e desengonçados. Com o era m esm o o nom e deles? Thom as gastou alguns segundos para se lem brar. “Teo e Leo”, pensou, am argo. Sofrera m uito nas m ãos daqueles dois. Narcisa, a m ãe deles, m exia a panela com um a com prida colher de m adeira. O rapaz saberia, m ais tarde, que o m arido dela m orrera um ano antes. O irm ão de Jon e a esposa, tam bém parte do grupo, haviam se unido a outros andarilhos. Ao lado de Narcisa, o rapaz reconheceu sua m ãe adotiva.
Ao ver as expressões assustadas do m arido e da filha, Sabina foi, com pressa, ao seu encontro. Os gêm eos e a m ãe tam bém se aproxim aram para saber m ais sobre o estranho que trazia pelas rédeas um adm irável cavalo negro.
— O que aconteceu? — perguntou Sabina.
Ela envelhecera bastante. Vários cabelos brancos substituíam os fios escuros. A vida dura dos andarilhos consum ira-lhe a j uventude. Nesse m om ento, ela reparou na presença do rapaz.
— Mas... quem é este?
— Tu não o reconheces, m ãe? — sorriu a filha.
Sabina estreitou os olhos. Thom as abaixou a cabeça. Não queria pensar na possibilidade de Sabina ter se esquecido dele.
— Thom as? Oh, m eu Deus, não pode ser! — exclam ou, radiante, pendurando-se nele para abraçá-lo.
Em ocionado, o rapaz retribuiu o carinho.
— Com o cresceste! — disse Sabina, na ponta dos pés para alcançá-lo. — Pensei que estiveste no Monastério. Com o está m eu irm ão?
— Michel está bem .
— Onde roubaste este cavalo? — perguntou um dos gêm eos.
— O nom e dele é Pégasus.
O gêm eo tentou tocar o anim al, que recuou, altivo. — Tens um sotaque estranho — reparou Narcisa, desconfiada. — Estiveste na Ilha Média? O
povo de lá fala assim , m eio cantado.
Sabina afastou-se para avaliá-lo. Thom as nem pensou em responder. Foi Jon quem veio em
seu socorro.
— Isso não im porta. Devem os partir im ediatam ente. — Por quê? — perguntou Sabina.
— O m oleque m atou três guardas há pouco, na cidade. — Os andarilhos, apreensivos, tiveram
a certeza de que o garoto voltara para trazer m ais desgraças ao grupo. — Ele fez isso para nos defender. Um dos guardas ia m e m atar.
Thom as olhou para ele, surpreso com a defesa inesperada. — E por que um guarda te atacaria? — perguntou um dos gêm eos. — Recusei um convite para encontrar o sr. De Larc — explicou Shannon, com o rosto
verm elho. — O cavaleiro não aceitou e m andou seus hom ens atrás de nós. Meu pai tentava m e defender, m as foi Thom as quem nos salvou.
Os andarilhos ficaram em silêncio por alguns instantes, digerindo a gravidade da situação. O
outro gêm eo foi o prim eiro a falar.
— Tens razão, Jon. Nossa m elhor chance é cair na estrada e nos m isturarm os a outros
andarilhos na Grande Ilha.
— Concordo — disse o irm ão. — Rouen pode vir atrás de Shannon. Aquele hom em é o diabo.
Não acho que vá desistir tão facilm ente.
Em m inutos, o acam pam ento foi desarm ado. O grupo, então, escapou pelo cam inho de terra
para fora dos lim ites de York, atravessando a escuridão da noite que nascia sem lua.
Viaj aram por quase um dia sem parar. Seguiam para o norte, atrás da proteção oferecida
pela grande e m ovim entada Brusk. Thom as estivera lá algum as vezes com o grupo, num a época em que não podia im aginar o quanto aquela cidade fora im portante para o passado de seus pais. Seria interessante revê-la. Por outro lado, pressentia que Rouen De Larc faria outra tentativa para tom ar Shannon. Precisava estar por perto.
Rever Shannon despertara nele sentim entos antigos. Sem pre fora fascinado pela andarilha.
Quando criança, fazia-lhe todas as vontades, m esm o correndo o risco de levar um a surra de Jon se acabasse m etido em algum a encrenca, o que quase sem pre acontecia. A beleza da j ovem tam bém conquistara os gêm eos, com o o rapaz j á reparara.
O grupo fez um a pausa para um alm oço rápido na floresta. Thom as aproveitou o intervalo
para cuidar de Pégasus. Evitava perm anecer j unto aos andarilhos. Tam bém não queria ficar a sós com Sabina. Haveria m uitas perguntas sobre sua saída do Monastério a que ele não gostaria de responder.
Um m ovim ento atrás dele alertou-o sobre o perigo. Apostando na agilidade, virou-se a tem po,
desviando com a m ão o soco dirigido a suas costas. Com um chute, derrubou as pernas do gêm eo que o atacava, arrem essando-o contra a terra. O irm ão pulou em cim a de Thom as, que se j ogou para o lado, desequilibrando o andarilho. Nem precisou golpeá-lo. Apenas em purrou-o para cim a do outro que tentava se levantar.
— Vós ainda não aprendestes nada diferente? — perguntou Thom as ao cruzar os braços. O cavalo relinchou, encostando carinhosam ente a cabeça negra em seu om bro. Aquele tipo de ataque era o que os gêm eos costum avam usar quando queriam am edrontá-lo na infância. Chegavam por trás, aproveitavam sua distração e socavam -lhe as costas. Fora num a daquelas oportunidades que os irm ãos haviam se apossado do livro de capa azul que Thom as herdara de Alix e que lhe ensinara a decifrar as letras do alfabeto.
— Queres o livro da m am ãe? Então vem pegá-lo! — gritara-lhe um dos gêm eos antes de j ogar o obj eto na fogueira.
Lem brava-se de ter se debatido com o louco, lutado m uito para se livrar do outro gêm eo que lhe prendia os braços. Este só o soltara depois que o livro se desm anchara sob a ação do fogo.
— Agora acredito que tenhas m atado três hom ens — disse o prim eiro gêm eo que o atacara, rindo, enquanto m assageava os j oelhos doloridos.
— Onde aprendeste a lutar dessa m aneira? — resm ungou o outro, zonzo.
Thom as controlou a raiva que aum entava dentro dele. Não queria arrum ar m ais confusão. Voltou-se para Pégasus e acariciou a cabeça do anim al.
— Ora, am igo, ainda sentes falta daquele livro? — perguntou um dos gêm eos. — Fizem os um favor! Aquilo era um obj eto proibido. Costum am enforcar quem m antém um desses dentro de casa, sabias?
— Éram os crianças! — j ustificou o outro. — Só queríam os te ensinar a se defender.
A conversa foi interrom pida por Sabina, que cham ou os irm ãos para aj udarem Jon com um a carroça. Quando os rapazes sum iram de vista, a andarilha plantou-se diante de Thom as.
— Não achas que é hora de conversarm os? — perguntou, prendendo-o pelo queixo.
— O que queres saber?
— Por que deixaste o Monastério?
— Não posso te dizer — disse Thom as, sem olhar para ela.
— Está bem , se é o que queres... Mas não gostarias de m e fazer perguntas sobre tua m ãe, agora que voltaste?
— E o que há para perguntar sobre ela? Já não m e contaste tudo?
Sabina tirou do bolso do vestido um anel de ouro.
— Existe isto — disse ao lhe entregar a j oia.
Era um a aliança. No lado interno, havia um a inscrição gravada no m etal: Alix e Erec, verão de 817. Possivelm ente, a época do casam ento de seus pais.
— Alix am ava teu pai. Mesm o passando fom e, ela se recusou a vender esta j oia. Não acredito que tenha roubado este anel, nem o livro e a pedra.
— Com o sabes o nom e dela? — perguntou o rapaz, aturdido. Sabina era analfabeta, com o o restante dos andarilhos. Nunca poderia ter lido a inscrição na aliança.
— Naquela noite terrível, tua m ãe m e contou algum as coisas. Coisas que nunca repeti a ninguém , com o prom eti a ela. Nem Jon sabe deste anel. Se descobrisse, j á o teria vendido há m uito. O obj eto pertence a ti, com o pertence apenas a ti o que vou te contar. Esperei que tu crescesses o suficiente para entender...
Sabina afastou-o do acam pam ento. Quando teve certeza de que ninguém escutaria a conversa, recordou os fatos que colocaram Alix em sua vida.
— O dia em que nasceste am anheceu frio. Lem bro-m e de que estávam os a poucas horas de Brusk. Eu estava cozinhando para o j antar um caldo de galinha, um a iguaria que tínham os conseguido no últim o vilarej o que tínham os visitado. Havia apenas um dia que eu enterrara m eu bebê, m orto depois de sofrer com a febre e a diarreia...
Thom as enlaçou-a pelos om bros. Ela fraquej ava. — Com eçava a anoitecer. Shannon era pequena e estava brincando com Tuc perto de um dos
carroções. O cheiro da sopa ia longe, acho que isso atraiu Alix. Ela tam bém se dirigia para Brusk. Cam inhava assustada pela estrada, suj a e enrolada num a enorm e capa de viagem . Tua m ãe, Thom as, era um a m ulher quase tão baixinha quanto eu. Ela se aproxim ou para pedir com ida. Estava m uito m agra e abatida, com um a aparência doentia. Shannon foi até ela, oferecendo-lhe um pedaço de pão. Jon apareceu na hora. Sabes que ele não tolera que entreguem os o pouco alim ento que tem os aos m iseráveis. São m uitos, não podem os cuidar de todos. Jon gritou com Alix para expulsá-la do acam pam ento. Narcisa tam bém veio para cham á-la de ladra. Para eles, Alix estava roubando o pão de um a criança! Jon virou um a fera. Não houve tem po para defender tua m ãe. Ela com eçou a passar m al. Só naquele m om ento percebi que Alix estava nos últim os dias de gravidez. Tinha sangue escorrendo por suas pernas. Algum a coisa estava m uito errada...
Sabina continuou se apoiando no rapaz com o se fosse bem m ais velha. — Ninguém quis m e aj udar a socorrê-la. Todos estavam com m edo. Aquele era um dia
m aldito e havia sangue no acam pam ento. A noite chegou. Então, Tuc e eu a levam os para a floresta, apesar da escuridão à nossa volta. Teu parto durou horas e foi m uito difícil. Reconheço que fiquei com m edo por estar na floresta, não apenas pelo fato de ser a Noite dos Mortos, m as porque tem ia o ataque de algum anim al selvagem . Mas o luar nos protegeu. Era m eia-noite quando te segurei pela prim eira vez nos m eus braços. Eu soube no m om ento em que te vi que eras um a criança especial. Tua m ãe lutou m uito para te trazer ao m undo. Ela te am ava dem ais. E só se entregou à m orte depois que te deu a vida. Acho que Alix sabia que ia m orrer. Estava m uito doente...
Thom as controlava-se para não chorar. A últim a vez em que havia chorado fora no dia em
que soubera da m orte de Lady Jane.
— Antes de m orrer, tua m ãe disse algum as palavras para m im e para Tuc. Contou-nos que se
cham ava Alix e que tinha enfrentado um a j ornada difícil. Ela escolheu teu nom e e pediu para que te entregássem os o anel, o livro e a pedra. E que falássem os o quanto ela te am ava e o quanto am ara Erec, teu pai. E ainda fez outro pedido: queria que nós te deixássem os com Moriarty , no Monastério das Terras Erm as.
— No Monastério? — repetiu o rapaz, surpreso. — Há alguém com este nom e por lá? — N-não.
— Estranho, pensei que este hom em te reconheceria... Talvez tenha ido em bora. De qualquer
form a, nunca tivem os a oportunidade de te levar antes dos teus sete anos. Um a viagem com o essa sai caro. E m e afeiçoei a ti. Era com o ter m eu filho de volta. Além disso, ainda havia tanto leite em m eu peito... Não consegui aceitar a ideia de deixar um bebê nas m ãos de um bando de m onges insensíveis.
O rapaz afastou-se da m ãe adotiva, virando o rosto para a floresta. Seu peito doía
terrivelm ente.
— Ela falou com o o pai dela se cham ava? — perguntou Thom as, num a voz que soou distante. — Não, ela m orreu antes de m e explicar tudo o que queria. Mas há um a ideia que sem pre m e torturou. Naquela m esm a época, o castelo da filha do rei Arnon, na Ilha Média, foi atacado por salteadores. Nunca vi a princesa, m as sabia que o nom e dela era Alix e que seu m arido se cham ava Erec. Este eu vi, um a vez, num torneio. Era um cavaleiro que adotava a cor negra e que lutava de m odo excepcional. O povo adorava-o. Tuc achou que devíam os procurar o rei e lhe m ostrar os obj etos que estavam com tua m ãe. Eu ri da ideia. O que achas que fariam conosco se aparecêssem os com um livro em baixo do braço? Além disso, com o um grupo de andarilhos m altrapilhos consegue um a audiência com o rei? Se Alix fosse m esm o a princesa, não estaria peram bulando sozinha por aí. Se ela tivesse sobrevivido ao ataque a seu castelo, teria procurado abrigo entre os vizinhos, não achas? Era um a possibilidade m uito absurda para ser verdadeira. Toda vez, entretanto, que olho para esta aliança, um a j oia que som ente os nobres usam , im agino se não tom ei a decisão errada.
Thom as não sabia o que responder. Talvez se Sabina e Tuc tivessem procurado o rei para lhe m ostrar ao m enos a aliança... Os dois não sabiam ler a inscrição, m as Arnon... Por outro lado, havia Savac, próxim o dem ais ao m onarca em seu papel de poderoso arcebispo. Ele m atara o pai do rapaz, seu irm ão e, claro, tam bém iria m atá-lo. A perm anência com os andarilhos salvara a vida do segundo filho de Alix.
— Ainda tens a pedra? — perguntou Sabina.
O rapaz tirou a corrente que Erin lhe dera. A m ulher não pôde deixar de adm irá-la. Thom as tam bém notara que suas roupas cham avam a atenção. Apesar de suj as e em poeiradas pela longa viagem desde Durham , denunciavam que ele vivera em um am biente rico. Sua aparência física tam bém contrastava com a m agreza do povo, provocada pela m iséria. Habilm ente, Sabina abriu o fecho e pendurou o anel na corrente. A seguir, recolocou-a ao redor do pescoço do rapaz.
O som de cascos de cavalos, vindo do acam pam ento, assustou os dois. Com raiva de si m esm o, Thom as lem brou que deixara o arco e as flechas na sela de Pégasus. Tam bém esquecera a adaga.
— Fica aqui, Sabina.
A m ulher ia protestar, m as Thom as não lhe deu tem po ao correr até o acam pam ento. Não conseguiu chegar perto de Pégasus. O anim al relinchava, louco para se livrar de três guardas que o dom inavam . Shannon, Jon, Narcisa e os gêm eos, cercados por m ais de trinta hom ens, estavam esprem idos uns contra os outros.
Escondido atrás do tronco de um a árvore, o arqueiro avaliou seus inim igos. Pelo uniform e, não eram hom ens de Rouen De Larc e...
Do nada, a lâm ina afiada de um a espada tocou-lhe a nuca. Fora descoberto.
— Por que ficar espiando se tu podes participar da nossa festa? — zom bou a voz rouca que pertencia ao dono da arm a.
Thom as girou lentam ente a cabeça para a esquerda. O m ovim ento custou-lhe um corte na nuca e um filete de sangue que escorreu até o pescoço. Seus olhos encontraram o rosto cínico de quem o surpreendera por trás: um cavaleiro que não devia ter m ais de vinte anos, alguém m ais alto e bem m ais forte do que ele. Sem alternativa, Thom as foi obrigado a obedecê-lo.
...
— Este é o arqueiro que te atacou, Grey son? — perguntou o cavaleiro para um dos guardas. O novo prisioneiro cam inhava à sua frente, a lâm ina da espada ainda próxim a dem ais à sua cabeça para qualquer tentativa de defesa.
Todos olharam para os dois. Grey son era o m esm o hom em que am eaçara Shannon em York.
E o único que vestia o uniform e com as cores do cavaleiro ruivo.
— N-não, senhor, não é ele...
— Acho que estás enganado. Tam bém disseste que esta não é a andarilha que o sr. De Larc
convidou para j antar, m as eu sei que é ela. E este velho a acom panhava na cidade — disse o cavaleiro, apontando a m ão livre para Jon. — Acredito que estej as m entindo para m im .
— Não, m eu senhor, não é m entira!
— Queres apostar quanto que aquele cavalo negro pertence a este garoto? As flechas são do
m esm o tipo daquelas que encontram os encravadas nos corpos dos três infelizes.
— Foram ladrões que nos atacaram , senhor.
O cavaleiro riu, sem perder o controle sobre Thom as. Um cutucão da lâm ina o m andou
interrom per o passo, além de lhe tirar m ais sangue.
— Este garoto tem um cavalo caro e usa roupas que um andarilho não teria condições de
com prar — disse para o guarda de Rouen. — Meu palpite é que ele não passa de um escudeiro, a serviço de algum nobre abastado. Com quem m ais aprenderia a m anej ar o arco e as flechas?
Depois, com o tom de zom baria que reservava a Thom as, acrescentou em voz baixa: — Diz-m e, arqueiro, o que fizeste com a cabeça deste pobre hom em e do com panheiro? O
outro tam bém insiste num ataque de ladrões. Lançaste algum feitiço? Pois saibas que não tenho m edo de bruxos...
— Mas, sr. De Angelis... — tentou explicar o guarda. — Cuidado, Grey son — disse o cavaleiro, entre dentes. — Não m e provoques! Apavorado com a am eaça que vislum brava nas entrelinhas, o guarda não abriu m ais a boca.
Então aquele cavaleiro era Vince De Angelis...
— Este arqueiro irá conosco. E ela tam bém ! — disse ele, com um sorriso m aldoso, indicando
Shannon. — Os outros ficam .
Jon tentou proteger a filha, m as foi em purrado quando os guardas a agarraram . Shannon foi
am arrada e j ogada sobre um dos cavalos. Um dos hom ens aproxim ou-se de Thom as e prendeu-lhe os pulsos e tornozelos com um a corrente de ferro. O rapaz tam bém foi içado para cim a de um dos anim ais. Não havia nada que pudesse fazer sem arriscar a vida de Shannon e dos andarilhos.
— Quanto a vós, eu vos perdoarei por dar abrigo a estes assassinos — avisou o cavaleiro para
os andarilhos, enquanto m ontava em seu cavalo. — Mas estais proibidos de ir a York. Pagareis com a vida qualquer desobediência às m inhas ordens.
Vince De Angelis esporeou sua m ontaria para sum ir na estrada. A im agem do garoto que
salvara Thom as de ser atropelado por um a carruagem , havia anos, veio à m ente do arqueiro. Sim , aquele era o escudeiro de Rouen De Larc. Um garoto que se tornara um cavaleiro cruel e arrogante. “O sobrinho de Hugues De Angelis”, lem brou Thom as.
Finalm ente conheceria Savac, o assassino de sua fam ília.