O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

Epílogo

Líder

M aria quase desm aiou de susto assim que os três j ovens entraram na cozinha, após atravessarem

os j ardins do castelo de Durham . Ela se encheu de felicidade ao ver Erin viva, apesar do estado lastim ável em que a pobrezinha se encontrava. Thom as era o que tinha a pior aparência. Perdera bastante peso e estava m uito abatido, com o se tivesse sido vítim a de um a doença devastadora. O rapaz bonito que os acom panhava parecia bem m elhor do que os dois, m esm o estando tão im undo quanto eles.

— Olá, Maria! — disse Erin. — Onde está m eu pai? A m ulher respondeu que Mark e a esposa deveriam regressar naquele m esm o dia de um a

viagem a um a região vizinha, onde foram assistir ao casam ento do filho dos senhores de Nell.

— Preciso da tua aj uda — continuou Erin. — Podes pedir para que alguém providencie água

quente e roupas lim pas para nós?

A j ovem exam inou com atenção o rapaz bonito ao seu lado. — Acho que as roupas de Thom as não servirão no sr. De Angelis — disse. — Tu poderias

pedir a algum criado que pegue algum as peças do baú do m eu pai? Vão ficar enorm es no nosso convidado, m as...

— Não tens nada m elhor do que isso? — criticou ele, com desdém . A j ovem não levou o com entário a sério e prosseguiu com os pedidos. — Podes tam bém providenciar algum a com ida? Estam os fam intos! — Ainda é cedo, senhora, nem com eçam os a preparar o alm oço. Posso separar pão e

queij o...

— É m elhor do que nada — resm ungou o rapaz bonito ao pegar um a pera da cesta de frutas

sobre a m esa.

— Devo m andar alguém ao encontro do sr. De Durham para avisá-lo sobre vossa chegada? — Não. Quero fazer um a surpresa! — disse Erin, sem se esquecer de um a piscadela.

...

Thom as resistiu à vontade de se j ogar sobre a cam a e dorm ir por anos. Apesar do cansaço,

dispensara os criados, com o costum ava fazer, e tom ou banho sozinho. Ao sair de seu aposento, o quadro de Alix De Brusk atraiu-o no corredor. O rapaz estava pensando no quanto sua vida m udara nos últim os dias quando sentiu Erin se aproxim ar para abraçá-lo. Num gesto cheio de desej o, ele a roubou para si e a beij ou. Com o sentira falta do toque de seus lábios, de seu corpo j unto ao dele!

— Eu te am o, m inha senhora De Sutter. Morri um pouco ontem , quando pensei que te

perderia.

— Savac ia ter m uito trabalho para m e separar de ti! De m ãos dadas, desceram até o salão principal. Vince, com os cabelos soltos e m olhados

sobre os om bros, estava sentado no tapete, j unto à lareira, àquela hora do dia ainda apagada. Ele usava um im enso blusão cinza sobre a calça com prida preta, igualm ente folgada. Estava descalço, com as pernas cruzadas e esticadas para a frente. Thom as, que sem pre o vira aparecer em público im pecavelm ente vestido, duvidou que aquele rapaz desleixado e o cam peão do rei fossem a m esm a pessoa. Havia pratos com pães, queij o e frutas ao seu redor. Distraído, ele bebia um a garrafa de vinho direto do gargalo.

— Não preferes com er na m esa? — perguntou Erin, reparando na bagunça que ele fazia.

— Mandei os criados deixarem tudo por aqui m esm o. É m ais confortável, vós não achais?

— Concordo contigo — disse Thom as, sentando-se ao seu lado para se servir de um a fatia de pão.

Erin desistiu da bronca para acom panhá-los. Em pouco tem po, os três j á estavam rindo alto, de estôm ago cheio, em balados pelo vinho e pelas histórias engraçadas que Erin e Thom as sabiam sobre o povo passional da Ilha Média.

Um a gostosa sonolência foi dom inando Thom as. O rapaz aj eitou-se sobre o tapete, apoiando a cabeça num a alm ofada m acia, e adorm eceu lentam ente, enquanto ouvia Vince e Erin se prepararem para um j ogo de cartas.

— Eu nunca perco — gabou-se ele. — Não terás nenhum a chance contra m im .

— E o que pretendes apostar? — disse ela.

— Se eu ganhar, tu terás que te com portar com o um a dam a por um m ês. Deverás ser obediente, fazer bordados perfeitos e, ainda por cim a, usar vestido.

— Se tu perderes, quero que deixes teus cabelos m ais curtos do que os m eus.

— Fechado!

“Pobre cavaleiro!”, pensou Thom as, antes de se entregar a um sono profundo. “Vai acabar careca!”

...

— Esta bagunça tinha de ser obra tua, andarilho im prestável!

Sonolento, Thom as levantou-se, esfregando os olhos. Os gritos de Arla, que acabara de chegar trazendo pelas m ãos os gêm eos de Mark De Durham , acordaram -no. Fora do castelo, o sol escondia-se atrás da cadeia de m ontanhas, espelhando seu perfil sobre o lago tranquilo do Vale de Durham . Os dois loirinhos, com pouco m ais de dois anos, olhavam para os três j ovens. Erin, acom odada na poltrona preferida do pai, e Vince, esticado sobre o tapete, tam bém despertaram .

— O que Lady Claire vai pensar ao descobrir esta bagunça? — lam entou a aia, verificando com desespero o tapete m anchado de vinho, os restos de com ida e os pratos suj os, entre outros detalhes do lanche.

— Tam bém é bom te ver, Arla — disse Thom as enquanto se espreguiçava.

A aia quase engasgou ao reparar em Vince.

— E este aí, quem é? Algum infeliz que encontraste na estrada? — disparou, indignada. — Abusas da bondade do sr. De Durham , andarilho!

— Quem é esta m ulher tão gentil, Tom ? — quis saber Vince, abafando um sorriso.

— A aia — respondeu ele, divertido.

— Pensei que ficarias m ais feliz em saber que estou viva, Arla, do que em im plicar com Thom as — disse Erin. Nem se dera ao trabalho de deixar a poltrona.

Neste m om ento, Claire e sua discreta barriga de sete m eses de gravidez entraram no salão. Ela sorriu ao encontrar Thom as e Erin que, ao notar a m adrasta, plantou-se de im ediato ao lado dele.

— O sr. De Durham ficará im ensam ente feliz em saber que vós estais vivos — disse ela. Seu

rosto, porém , ilum inou-se no exato segundo em que pôs os olhos em Vince. — Sr. De Angelis! Que prazer te rever!

Vince levantou-se e fez-lhe um a reverência. Arla, em choque, acabava de descobrir que

ofendera o m ais fam oso cavaleiro de Britany a.

— É um a honra te receber na casa de m eu m arido, senhor — disse Claire. — Oh, m as j á é

tão tarde e a hora do j antar está tão próxim a! Se m e perm ites, irei providenciar um j antar especial. És nosso convidado!

Sem esperar resposta, a esposa de Mark sum iu rum o à cozinha. A aia optou por um a saída

estratégica, arrastando as crianças para o andar de cim a.

— Lady Claire tam bém ...? — perguntou Erin, puxando a m anga do blusão de Vince. — Não, ela nunca foi um a pretendente. Eu a considero um a irm ã. Tem os quase a m esm a

idade e crescem os praticam ente j untos.

Erin ia retrucar, m as sua atenção foi desviada pela entrada do pai. Voou para se pendurar

nele. Thom as prendeu a respiração. Mark viera acom panhado por Arnon.

O rosto do rei em ocionou-se ao rever os netos. Com os olhos úm idos, foi até eles e uniu-os no m esm o abraço.

...

A sós com o rei e Mark De Durham no grande salão, os j ovens relataram os acontecim entos

que envolveram o incêndio em York, a j ornada na Floresta Escura, a busca de Menethrrah nas ruínas e, por fim , a dura prova em Sutter. Quando Erin explicou por que fora obrigada a m atar Rouen De Larc, Vince adm irou a coragem da j ovem . Nunca im aginara que a m orte do cavaleiro partira dela.

— O que vós nos contastes sobre os nergals m uda, e m uito, m inha opinião sobre eles — disse

Arnon. — Vej o que a prom essa de Kirian de que nosso m undo seria poupado não passou de m entira. Ao m esm o tem po, carrego agora um peso no coração. Não vej o alternativas. Britany a e seu povo estão condenados.

— Podem os procurar essa alternativa, senhor — sugeriu Vince. — Os nergals têm aliados em

Gaia, é verdade, m as tam bém têm inim igos, com o os guardiões. Poderíam os procurá-los e unir nossas forças.

— Pretendes voltar para Gaia?

— Eu irei tam bém , senhor — acrescentou Thom as. — Se existe um a esperança para os

britons, ela não pode m ais ser encontrada neste m undo.

Não agradava a Arnon a ideia de se separar outra vez dos netos. — Vou para Gaia j unto com eles — decidiu Erin. — Não podes! — gritou Mark, alarm ado. — Não irei perm itir que m inha filha parta num a

m issão tão arriscada!

— Sabes que irei de qualquer m aneira, pai. Não vou deixar Thom as sozinho. Mark com eçou a gesticular, m as um sinal do rei o im pediu de continuar a discussão. — Não tens poder sobre o coração desses três j ovens, m eu velho am igo — disse. — Já escolheram o próprio cam inho, contrário aos planos que eu fiz para eles. Respeitarei a decisão de cada um e gostaria que tu fizesses o m esm o.

O pai de Erin bufou de raiva.

— Com o vós pretendeis entrar em contato com estes guardiões? — perguntou Arnon.

— Há um velho m estre, senhor — disse Thom as. — Sei com o achá-lo, m as devo ir antes ao Monastério.

— E quando pretendes partir?

— Depois de am anhã.

— Não acho que estej as em condições de viaj ar tão cedo — disse Vince, avaliando a aparência abatida do irm ão. — Estás fraco por tudo o que te aconteceu.

— Ele pode se recuperar m ais rápido do que im aginas — sorriu Erin.

O cavaleiro não acreditou m uito em suas palavras. Se dependesse dele, o irm ão não ficaria novam ente exposto a tantos perigos.

— Há algum antídoto contra o pó am arelo, senhor? — perguntou Thom as a Arnon.

— Não conheço nenhum .

— Existe sim ... — disse Vince, relutante. — Meu tio usou-o para m e livrar do vício.

O avô ficou chocado.

— Tu viraste dependente daquela droga m aldita?

— Muitos nobres britons m isturam o pó am arelo ao fum o — adm itiu o rapaz. — No m eu caso, com eçou com o um a brincadeira inconsequente, há uns dois anos.

— Quem m ais utiliza o pó?

— Walter De Nell, John De Sands, Victor De Wins e alguns outros.

— Todos tão j ovens — lam entou o rei. — Toby as De Roths tam bém ?

— Não, às vezes ele se lem bra de que tem cabeça para pensar. Toby as só vende a droga...

— Vender? — gritou Arnon. — Com o esse nobre ousa espalhar o m aldito pó entre nossa própria gente?

Vince encolheu-se. Conhecia m uito bem o tem peram ento do avô, um hom em que podia ser m uito calm o, desde que não o provocassem . Já estava arrependido por ter aberto a boca.

— Quando descobri o pó am arelo, desconfiei de que isto poderia acontecer um dia — disse Mark.

— A sugestão de Kirian de usar a droga para dom inar os bárbaros m e pareceu aceitável, há alguns anos — disse tristem ente Arnon. — A guerra contra os bárbaros j á tinha feito tantas vítim as, tantos parentes e am igos m ortos para proteger Britany a... Eu só queria garantir um futuro de paz para nossos filhos e netos.

— Onde posso conseguir um pouco desse antídoto? — perguntou Thom as para o irm ão.

— Há um vidro no gabinete do m eu tio, em York. Podem os passar lá antes de ir para o Monastério. O que pretendes fazer com ele?

— Descobrir sua com posição. Posso realizar essa análise com o com putador de m estre Dines e, depois, m ostrar ao irm ão Michel com o preparar o antídoto em grandes quantidades.

Vince concordou com a cabeça.

— Seria um a form a de consertar as consequências do m eu erro, filho — m urm urou o rei. — Não posso deixar que um a droga acabe com a vida de j ovens nobres.

— Devias pensar nos escravos tam bém . Eles são tua responsabilidade. Arnon endireitou-se na cadeira. A figura de seu neto caçula, em pé j unto à lareira, pareceu

crescer.

— Já é hora de te im portares com as pessoas que não nasceram da descendência de Arthur e

seus cavaleiros — prosseguiu. — Elas dependem de ti m ais do que im aginas. Há séculos que reis e nobres negam ao povo o direito de conhecer a própria história, o direito de pensar e decidir. Ignorância gera m ais ignorância, além de violência e m iséria. O povo tem que ser preparado para a Grande Guerra, descobrir que existem outros povos, diferenças que precisam ser conhecidas e respeitadas. Enquanto condenares um ser hum ano à m orte sim plesm ente por abrir um livro, estarás no nível de um nergal, que atribui a si o direito divino de decidir quem m erece viver ou m orrer. O conhecim ento não pode ser guardado por um a m inoria, m as deve estar acessível a todos, assim com o um rei deve guiar seu povo e não dom iná-lo. Essa é a verdadeira natureza de um líder.

O fogo que Vince viu brilhar nos olhos do irm ão desapareceu aos poucos. Thom as

transform ara-se, revelando um a parte fascinante de seu espírito. O rapaz tím ido dera lugar a um hom em forte e coraj oso. Por um instante, Vince vislum brou o grande líder, o ser capaz de m obilizar m undos diferentes, de unir raças inim igas para perseguir um único obj etivo: a paz. Sim , Thom as era Gotihan, não havia m ais dúvidas. Ele talvez não tivesse consciência de seu verdadeiro dom , m as o exercera agora, im pressionando a todos na sala, inclusive seu irm ão. O rapaz sentiu, pela prim eira vez, que daria a vida para proteger aquele líder. Finalm ente entendera seu papel na profecia. Ele deveria ficar ao lado de Thom as, aj udá-lo a lutar contra os perigos inim agináveis que Gotihan ainda enfrentaria.

Arnon sorriu para o neto caçula.

— Tens razão — disse. — Mark, é necessário que partas com igo para Brusk. Quero reunir

nossos nobres o quanto antes. Eles precisam conhecer a m onstruosa am eaça que pesa sobre Britany a.

...

Thom as acordou tarde na m anhã seguinte. Recuperara as forças, com o Erin previra. Depois

de pegar algum as frutas na cozinha, foi até o alto da torre do castelo, onde costum ava treinar. Ficou lá por algum tem po, adm irando a paisagem do Vale de Durham . Não tinha certeza de que algum dia retornaria àquela região. Sua nova viagem revelava perspectivas tão am plas que o rapaz preferia não antecipar o que encontraria pela frente. Preocupava-se por levar Erin a um a j ornada que prom etia ser m uito m ais perigosa do que a busca por Menethrrah. Além disso, havia Vince De Angelis, em quem ainda não confiava. Algo lhe escapulia, com o se o cavaleiro lhe escondesse algum a inform ação im portante.

Era quase hora do alm oço quando Thom as desceu da torre e atravessou os j ardins para ir ao

estábulo. Desde que chegara, ainda não tivera a oportunidade de rever Pégasus. As vozes de Vince e Claire fizeram -no parar no m eio do cam inho.

— Sabes que parei de fum ar? — perguntou o cavaleiro, sentado no gram ado j unto com as

crianças. Ele as aj udava a equilibrar alguns cubos de m adeira. A esposa de Mark estava acom odada em um dos bancos de pedra dos j ardins que adorava cuidar.

— E o pó?

— Já m e livrei disso tam bém , Claire.

— Estás livre para decidir tua própria vida. Já chega de destruir a si m esm o, não achas?

— Hum ?

— Eu te conheço, Vince. Tu precisas de orientação e apoio. Quantas confusões eu te vi arrum ar? E para quê? Apenas pelo sim ples prazer de provocar. Quantos inim igos tu conquistaste por bobagens?

— Está bem , m am ãezinha. Eu prom eto m e com portar daqui para frente.

— Vês com o ages? Levantas um m uro de ironia e sarcasm o à tua volta. Que proteção! Só perm ites que alguém se aproxim e de ti quando não há m ais por onde escapar.

— Estou brincando contigo.

— E onde term ina a brincadeira e com eça a verdade?

— Com o está tua vida com este tal de Mark De Durham ?

— Estás m udando de assunto!

— Vais m e responder ou não?

Claire suspirou. Tanto ela quanto Vince não tinham notado que Thom as os assistia à distância, m as perto o suficiente para escutar o que conversavam .

— Estás enganado em relação a Mark. Ele não é o m onstro que acreditas que sej a. É um hom em bom e atencioso, que m e faz m uito feliz.

— E a filha detestável? Ela te odeia.

— Erin só tem ciúm e. Afinal, estou ocupando o lugar da m ãe dela. É natural que não m e aceite.

— Por que não a afogas no lago?

— Faço de tudo para m e aproxim ar dela. Procuro adm inistrar tão bem este castelo quanto a própria Lady Jane faria. Cuido de todos os detalhes para que a vida aqui em Durham sej a perfeita. Ah, Vince, não sei m ais com o agir!

— Já te dei m inha sugestão. Talvez pudesses j ogá-la do alto de algum a torre. Eu m esm o tive vontade de fazer isso ontem — resm ungou o cavaleiro ao tocar nos cabelos.

Só então Thom as reparou que ele cortara os fios bem curtos, deixando-os levem ente repicados. Ganhara a aparência de um adolescente, m uito distante do cavaleiro esnobe que adorava se m ostrar com o adulto. Perdera a aposta para Erin.

— Falo sério, Vince.

— Está bem , está bem . Acredito que, por seres a esposa e m ãe perfeita, tu a provocas.

— Com o assim ?

— Erin não pensa com o as nobres britãs que conhecem os. Ela está m uito além deste m undo conservador. Anseia por liberdade, pelo direito de ser o que bem entender. Deves deixar claro que tu gostas de ser a m ãe e esposa ideal, que preferes adm inistrar a casa e cuidar de filhos a sair por aí brandindo um a espada. E, ao m esm o tem po, m ostrar que respeitas a escolha dela em ser diferente. Erin é orgulhosa dem ais para adm itir que precisa da tua am izade e do teu apoio.

Vince parecia conhecer a filha de Mark bem dem ais, pensou Thom as, cium ento. Neste instante, um dos gêm eos o viu e correu até ele, largando a m ontagem com os cubos de m adeira.

— Tom , quer brincar! — disse ele.

— O que queres fazer, Erec? — perguntou o rapaz, com um sorriso, abaixando-se para pegá-lo no colo.

— Pégasus!

— Queres dar um a volta nele?

O loirinho concordou com a cabeça, abrindo um sorriso cativante. Aquela era a brincadeira

de que m ais gostava. Thom as costum ava colocá-lo com cuidado sobre a sela quando m ontava, levando-o para passear pela cidade. Já o irm ão, o pequeno William — que todos cham avam de Billy — adorava as histórias que o rapaz contava para ele. Sua preferida era sobre um garoto e sua espada m ágica, Excalibur.

— Agora é hora de com er, Erec — disse Claire, com suavidade. De m odo curioso, ela

lem brava Lady Jane.

— Ah, m ãe! — protestou o m enino.

— Tom pode te levar para passear m ais tarde. — Tua m ãe está certa. Pégasus tam bém vai alm oçar — acrescentou Thom as. — Ele vai?

— Claro!

— Eu quer passear j unto! — gritou Billy, sem desviar os olhos dos cubos que Vince

equilibrava para ele.

— Mais tarde. Vem com a m am ãe para a cozinha — pediu Claire ao pegá-lo pela m ão. — Erec, gostaria de te pedir um favor — disse Thom as. — Vou viaj ar de novo. Poderias

tom ar conta de Pégasus para m im ?

O m enino, em polgado por ter o cavalo só para si, aceitou a responsabilidade sem piscar.

Thom as colocou-o no chão para que ele pudesse ir até a m ãe.

— Por que não m ostras a cidade para o sr. De Angelis, Tom ? — pediu Claire antes de se

afastar com as crianças. — Pensei em deixar o alm oço para m ais tarde hoj e. O sr. De Durham , Lady Erin e o rei Arnon ainda não retornaram .

— Onde eles foram ?

— Cavalgar pelo vale.

Thom as concordou, sem saída. Deixaria a visita ao estábulo para m ais tarde. — Tua cara está m elhor hoj e — reparou Vince. — Não posso dizer o m esm o da tua.

— Nem m e lem bres! Erin trapaceou. Ninguém pode ter tanta sorte no j ogo. Lady Claire fez o

m elhor que pôde com m eu cabelo, m as não evitou que eu ficasse com a cara de um adolescente de quinze anos.

— Acho que foi este o obj etivo dela.

O cavaleiro cerrou as sobrancelhas e depois riu. — Não sabes que é feio ouvir escondido a conversa dos outros? — Eu não pretendia...

— Ah, tudo bem ! Escuta, o que tem de interessante para se ver nesta cidade sem graça?

...

Os dois zanzaram pelas ruas m ovim entadas de Durham . Thom as decidira levá-lo para

conhecer os pães deliciosos que o velho Matias vendia no m ercado. Vince caiu de am ores pelo pão doce, recheado com crem e de leite.

— Esta delícia não existe nem em Gaia — elogiou Vince, com a boca cheia.

— Quando estiveste lá?

— Fui um as três ou quatro vezes com m eu tio nos últim os cinco anos. Aí ele achou que era a m inha hora de estudar um pouco aquele m undo e m e m andou sozinho para lá no ano passado. Fiquei na casa daquele hospedeiro nergal que conheceste.

— Stuart?

— É, ele m esm o. Passei alguns m eses em Gaia e voltei no com eço deste ano porque...

O cavaleiro parou de falar ao descobrir algo que o intrigava, num a das ruas próxim as ao m ercado. Thom as olhou na m esm a direção e viu três carroções fechados, parados j unto a um a fonte. Um grupo de andarilhos preparava-se para viaj ar.

Vince devorou o restante do pão e cutucou o irm ão para acom panhá-lo. Thom as tam bém reconhecera os andarilhos.

Sabina foi a prim eira a avistar Thom as e o recebeu com um abraço em ocionado.

— O sr. De Durham falou-nos sobre teu retorno, filho. Eu queria te encontrar no castelo, m as Jon achou que isso poderia ficar para depois...

— O sr. De Bask quer que nos apresentem os am anhã à noite em seu castelo e ainda tem os m uitas horas de estrada até as terras dele — explicou o gêm eo Teo. — Graças a ti, Thom as, nossa vida m elhorou m uito. Olha só para nós! O sr. De Durham deu-nos roupas novas, bons cavalos e até carroças decentes!

— Serem os recebidos em todos os castelos da Ilha Média — com pletou Leo, tão em polgado quanto o irm ão. — Tem os um a recom endação especial do rei, que adorou nosso talento.

Realm ente, os andarilhos ao redor de Thom as e Vince em nada lem bravam o grupo m iserável que vagava pela Grande Ilha. Shannon, que só enxergava o cavaleiro, estava linda em um vestido colorido.

— Não pretendes contar ao rei o que nós...? — com eçou Narcisa, que se m antivera distante de Thom as.

O rapaz sabia a que ela se referia. Arnon não devia nem sequer suspeitar do tipo de tratam ento que o neto caçula recebera na infância. Jon, encostado contra um dos carroções, não se m ovia. Apenas fitava Thom as com sua costum eira expressão de ódio e desprezo. Devia ser difícil para ele aceitar toda a atenção que o m oleque agora recebia do rei.

— Não há o que dizer — encerrou o rapaz. Narcisa suspirou, aliviada, e deu-lhe as costas para cuidar dos últim os preparativos da viagem .

— Estás feliz, andarilha? — perguntou Vince.

— Sou livre, senhor.

— Não tive oportunidade de te agradecer por cuidar de m im quando estive doente

E tom ou-lhe a m ão para beij á-la. Shannon estrem eceu com o toque de seus lábios.

— Tu és talentosa, enfeitiças o m undo com tua dança.

Thom as despediu-se de Sabina, de Shannon e dos gêm eos, com o se fosse revê-los em breve. Preferia não contar nada sobre a j ornada que com eçaria no dia seguinte.

Deixou o grupo para trás e, quando contornou um dos carroções para retornar ao m ercado, Jon bloqueou-lhe a passagem . De onde estavam , os dois não podiam ser vistos pelos dem ais.

— Podes enganar quem quiseres, m oleque, m as não a m im — disse Jon ao bater na própria perna o chicote que costum ava utilizar em Thom as. — Tu sem pre serás a criança am aldiçoada que tirou a vida da própria m ãe na Noite dos Mortos.

— Sai do m eu cam inho — disse Thom as. A agressão verbal pegava-o de surpresa, trazendo à

tona os fantasm as de sua infância.

— E se eu não sair? O que farás?

— Ele não precisa fazer nada — disse Vince, friam ente, logo atrás do irm ão. Escutara todo o

diálogo.

Jon recuou, com os olhos esbugalhados. Thom as virou-se para o cavaleiro e reconheceu a

im agem cruel do sobrinho do arcebispo.

— A vida é realm ente algo m uito frágil — continuou ele, com seu sorriso am eaçador. — Não

devias brincar com a tua...

A um sinal do cavaleiro, o chicote voou da m ão de Jon para a dele. O andarilho, em pânico,

escapou velozm ente para a proteção oferecida por seu grupo.

— Não m e olhes com esta cara de espanto — disse Vince após entregar o chicote a Thom as.

— Eu nunca fui bonzinho e não é agora que vou com eçar a ser.

Deu alguns passos em direção ao m ercado, m as parou ao ver que Thom as não saíra do lugar.

Ele ainda olhava para o chicote entre seus dedos, relem brando o quanto sofrera. Tudo parecia ter acontecido há tanto tem po...

Já era hora de apagar essa parte de sua vida. Thom as cham ou pelo fogo e ele nasceu

tim idam ente na ponta do chicote, espalhando-se sem pressa até queim á-lo por com pleto.

O arqueiro estava livre. Seus fantasm as da infância tinham partido. — Vem , Tom — convidou Vince ao retroceder para buscá-lo. Com o um velho am igo agiria,

ele apoiou o braço sobre os om bros do irm ão caçula. — Vou te pagar um a cervej a.

Após atravessar a penum bra nos corredores do Monastério, Thom as cruzou o pátio aberto para alcançar o gabinete de Dines. Acom panhado por Vince e Erin, que carregava Oz no colo, seguiu até a porta de carvalho. Hesitou. Aquele lugar trazia-lhe m uitas lem branças.

Ao entrar, constatou m ais um a vez que tudo estava exatam ente com o se recordava: a m esa, as cadeiras e a estante com seus livros acom odados cuidadosam ente sobre as prateleiras. Thom as entrelaçou os dedos da m ão antes de estalá-los, agitado, ao se aproxim ar do estranho espelho oval, fixo num a das paredes do aposento. Olhou para Erin e Vince antes de dedicar toda a atenção à superfície brilhante do obj eto.

Chegara o esperado m om ento de entrar em contato com Tolkien.