O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
7 - Jornada
CAPÍTULO 7
Jornada
Aestrada de pedra continuava do m esm o j eito. Nas suas m argens, árvores altas e frondosas
encobriam parcialm ente a claridade do dia. Chovera na noite anterior e as pedras estavam escorregadias. O cavalo que Thom as m ontava era cauteloso e respondia bem ao seu com ando. Mark surpreendera-se com a destreza do com panheiro de viagem . O garoto e o cavalo entendiam -se às m aravilhas, ao contrário dele e do anim al arisco que Dines lhe em prestara.
— Quando chegarm os à Grande Ilha, com prarei cavalos decentes para nós — resm ungou
Mark. Os anim ais seriam deixados em um estábulo próxim o ao porto, antes da travessia, para serem devolvidos ao m onges.
Thom as não disse nada. Já era a terceira vez que o hom em reclam ava da m ontaria. Apesar
disso, o hum or de Mark m elhorara sensivelm ente desde que com eçara a respirar o ar livre do cam inho. Haviam deixado a praia e o Monastério horas antes. Já o estado de espírito de Thom as era o pior possível. Os m onges estavam na m issa na hora em que partiu. Apenas Michel despedira-se dele, com um im enso abraço apertado.
— Então queres ser m onge? — perguntou Mark, tentando puxar conversa. — Eu? Ah, não! — respondeu Thom as, fazendo careta. Tudo o que queria naquela viagem era
perm anecer quieto com os próprios pensam entos.
— Com o estes m onges conseguem transform ar crianças em pequenos adultos som brios? Qual
tua idade?
— Doze.
— E por quanto tem po m oraste naquele lugar? — Quatro.
— Tem po dem ais! Crianças têm necessidade de correr, de brincar. Não devem ficar presas
entre livros e rezas.
O garoto não tinha vontade de discutir as vantagens e desvantagens de viver no Monastério.
Encerrou a tentativa de conversa com um duradouro silêncio. Sem dúvida, aquela seria um a viagem longa dem ais.
Passou os dois dias seguintes respondendo laconicam ente a novas perguntas. Não, não vinha
de fam ília nobre. Sim , era um andarilho. Não, não detestava o Monastério, m as tam bém não queria ser m onge. Não, ainda não tinha planos. Sim , tinha um assunto para resolver na Grande Ilha. Não, não queria com entar coisa algum a sobre o assunto.
O cavaleiro desistiu de conversar. Quando a noite do terceiro dia surgiu, os dois acam param
num a curva da estrada, sob o abrigo de um carvalho. Mark acendeu um a fogueira e perm aneceu vigilante. Thom as ainda não o vira dorm ir. Enrolou-se em sua capa de viagem e acom odou-se perto das raízes da árvore. Estavam no início de dezem bro e as baixas tem peraturas retornavam à região. Mark pretendia chegar ao seu destino antes da prim eira geada.
Thom as j á estava sonolento no m inuto em que um pressentim ento o despertou, fazendo que se
sentasse, alerta. O ar estava parado. Havia um terror invisível que deixava sua nuca arrepiada. Mark tam bém notara algum a coisa estranha, erguera-se com a espada em posição de defesa. Os cavalos estavam inquietos.
— Sobe na árvore — sussurrou o cavaleiro. — Rápido!
Thom as pegou o arco e as flechas que descansavam a seus pés e, em segundos, estava escondido entre os galhos m ais altos. Concentrou-se no que seu ouvido poderia captar, enquanto deixava a flecha em posição de ataque. Mark perm anecia no m esm o lugar, protegendo os cavalos.
Sons assustadores encheram o am biente. Criaturas estranhas, m eio hom ens, m eio lobos, deixaram a escuridão. As cham as da fogueira revelaram seus corpos, equilibrados sobre as duas patas traseiras e cobertos por pelos negros. Os focinhos quadrados saltavam do rosto m edonho, m ostrando dentes enorm es e pontiagudos. “Lupus!”, deduziu Thom as antes de fazer pontaria. Além de saber que eram criaturas carnívoras, conhecia pouco sobre eles. Alim entavam -se tam bém dos infelizes que ousavam atravessar a Floresta Escura. O garoto e o cavaleiro, no entanto, seguiam outro percurso, considerado seguro para os viaj antes.
Nada preocupado com lim ites territoriais, o grupo de feras cercou o carvalho, devagar. Rosnavam . Eram quase da altura de Mark. Os cavalos, assustados, lutavam para soltar suas rédeas presas a arbustos. O suor escorria pela testa do garoto, apesar do frio da noite. Ele havia contado treze lupus.
Não esperou sinal algum de Mark para atacar. A prim eira flecha passou zunindo entre as folhas da árvore e atingiu a criatura m ais próxim a na altura do pescoço. Ela urrou de dor. Um a segunda a fez tom bar de lado, im óvel. Os outros lupus atacaram , ainda m ais ferozes. A espada do cavaleiro refletiu o luar ao obter altura para o prim eiro golpe. Thom as derrubou m ais dois com flechas certeiras. Faltavam dez.
O cavaleiro feriu um a das criaturas, espalhando m ais sangue sobre as pedras da estrada. A fera uivou, cam baleante, antes de cair. Thom as lançou novas flechas e atingiu três. Desesperado, percebeu que a m unição acabara. Quatro lupus cercavam Mark, que se protegia bravam ente com a espada. Um deles abocanhou-lhe o braço. Os dem ais avançaram , aproveitando o segundo de hesitação do hom em . Este, porém , reagiu após dispensar seu atacante com um chute no focinho.
Thom as tentou dom inar o m edo e deslizou para o solo. Dois lupus atacavam o cavalo que o garoto trouxera do Monastério. Não notaram o m om ento em que ele os contornou para retirar dois gravetos da fogueira.
— Volta para a árvore! — m andou Mark, aflito.
Um dos lupus decidiu atacar Thom as. O m ais rápido que pôde, o garoto enfiou os gravetos em cham as direto nos olhos da criatura e pulou para a esquerda. Ela urrou, caindo. Thom as dobrou o j oelho com força sobre a coluna do anim al, enquanto sua m ão enterrava-lhe um a adaga com prida no pescoço. Outro lupus saltava em sua direção. Um dos cavalos estava m orto. O outro, o anim al arisco de Dines, defendia-se loucam ente do ataque, dando coices inúteis no adversário. Mark derrubara m ais um .
Seguindo o instinto, Thom as rolou no chão para ir contra o atacante. O m ovim ento surpreendeu a fera, dando tem po ao garoto de lhe chutar as pernas e derrubá-la. Ensandecida, ela dirigiu suas garras para ele, atingindo-lhe o rosto. Thom as m irou a adaga no pescoço da criatura, m as errou o alvo. Os dentes afiados rasgaram -lhe a m ão. “Preciso desequilibrá-la...” Num gesto preciso, chutou o corpo do anim al, obrigando-o a se curvar. Seu sangue quente espirrou nos olhos do garoto quando a adaga lhe cortou o pescoço.
Ofegante, o m enino viu Mark enterrar a espada no corpo de um a das feras. A outra aproveitou
a chance e derrubou-o. O lupus que atacava o cavalo desistiu da presa ao avistar Thom as, que corria para aj udar o cavaleiro. Cruzou em segundos a curta distância que os separava. O garoto só pressentiu o ataque quando era tarde dem ais. Os dentes afiados perfuraram -lhe o om bro esquerdo. Thom as fechou os olhos. A dor dilacerante im pedia-o de pensar. A respiração do anim al pesou-lhe sobre o pescoço. O garoto debateu-se, com o louco, procurando se soltar, m as as garras rasgavam -no, provocando m ais dor. O pesadelo que tivera dias antes se concretizava. Ia m orrer.
— Não! Eu não vou m orrer! — decidiu, com raiva. Estava im obilizado pela criatura, que hesitou ao ver seu rosto. Os olhos dela eram
esbugalhados e verm elhos, com o sangue. Os dentes, por fim , tocaram o pescoço de Thom as. De repente, ela ganiu e relaxou. O garoto acabava de afundar-lhe a adaga entre as costelas.
Apesar da dificuldade, ele se livrou do peso sobre si. O lupus que Mark ferira havia pouco
conseguira ganhar novo fôlego e agora o atacava. O outro, o que o arrem essara ao chão, j azia m orto.
Apesar da dor, o garoto conseguiu se levantar. Estava desarm ado. Tentara, sem sucesso,
arrancar a adaga do corpo da fera. Mark resistia, em visível desvantagem . O anim al, m esm o ferido, era ágil.
Thom as virou-se para a fogueira e constatou, alarm ado, que o vento frio a apagara. Sem
saída, abaixou o olhar para o piso da estrada. Foi então que se agachou, pegou um a das pedras soltas e a atirou contra a cabeça do lupus. Isto o distraiu, a oportunidade de que Mark precisava. Com um golpe seco, ele arrancou a cabeça do anim al, que voou rolando até cair aos pés de Thom as. Este não segurou o vôm ito. Tom bou de quatro, trem endo de m odo descontrolado. O pânico finalm ente dom inara-o ao lhe m ostrar todo o horror que se desenrolara naquele canto deserto. Os treze lupus estavam m ortos.
— Coloca tudo para fora, garoto — disse o cavaleiro, ao se aproxim ar. — Isto te fará bem . Com suavidade, tocou a nuca do garoto que não tinha m ais nada para vom itar. Thom as lutava
agora para m anter os sentidos despertos.
— Vej o que as aulas no Monastério foram extrem am ente proveitosas para ti. Terei de rever
m inha opinião — brincou Mark. — Vam os sair deste cenário deprim ente.
A voz do cavaleiro pareceu distante. O garoto quis se levantar, sem sucesso. Não sentiu seu
corpo bater contra o chão.
...
Algum a coisa pastosa esquentava a pele de Thom as. Seu om bro doía bastante. Abriu os olhos,
confuso. Os viaj antes estavam em outro trecho da estrada, longe o suficiente da curva onde ocorrera o ataque. A poucos m etros, o cavalo arisco devorava, tranquilo, um punhado de capim .
— Falta pouco para am anhecer — com entou Mark. Ele passava um tipo de pasta na superfície de algum as folhas e as usava para cobrir os
ferim entos do garoto. Este viu que seu com panheiro de viagem tam bém exibia um a grande folha am arrada contra o braço m ordido pelo lupus.
— Não sou tão bom quanto Dines, m as sei m e virar quando é preciso fazer um curativo — disse o cavaleiro, bastante atrapalhado. A folha que segurava caiu com a pasta virada para o chão. — Diabos! Esta m eleca gruda nos dedos!
Thom as achou a cena m uito engraçada: aquele hom em enorm e, com m ãos gigantes extrem am ente ágeis num a luta, parecia um garotinho aprendendo a espalhar geleia no pão. Tentou rir, m as o lado direito de seu rosto, logo abaixo do olho, doeu terrivelm ente.
— Não te m exas. Um a daquelas criaturas m alditas cortou teu rosto — disse Mark. Conseguira equilibrar, de m aneira desastrada, a folha entre os dedos para aplicá-la sobre o corte. — Acho que ficarás com um a bela cicatriz para im pressionar as m eninas.
A pasta tinha um efeito analgésico. Thom as relaxou. Mais m eio dia de cavalgada e estariam no porto.
— Senhor... — m urm urou, descobrindo que precisava se esforçar bastante para falar. — Ainda pretendes m e levar até a Grande Ilha?
Mark ficou em dúvida.
— Achas que podes cavalgar? — perguntou, após alguns m inutos. Thom as assentiu, m as o cavaleiro continuou indeciso. — Levaríam os tem po dem ais para retornar ao Monastério. Tu não resistirias ao esforço. Pensei em ficarm os na estalagem , no porto, até te sentires bem para em barcar.
— Esperarias por m im , senhor?
— Prom eti ao abade que te levaria, não foi? — respondeu ele, rindo. — Dines arrancará m inhas tripas se eu não cuidar de ti com o a um filho.
Depois, m ais sério, olhou im pressionado para o garoto.
— És bem m ais forte do que aparentas. Nunca vi ninguém da tua idade lutar desse j eito.
— Os lupus não deveriam atacar só na floresta?
— É o que todos dizem . Acho que este grupo audacioso decidiu ir m ais longe atrás de com ida. Quero te agradecer por salvar m inha vida. Não teria sobrevivido sem tua coragem .
Thom as desviou o olhar. Não se sentia um herói. Matar lupus e arrancar cabeças eram coisas que preferia varrer da m em ória para sem pre. Mark guardou o restante da pasta num a pequenina bolsa de couro, fechando-a a seguir com um cordão.
— Isto aqui é m aravilhoso contra m ordidas e arranhões de lupus — adm itiu ao fitar o rem édio. Logo depois, lem brou-se de algum a coisa e com eçou a resm ungar. — Aquele velhaco do Dines sem pre adivinha tudo. Só m e deixou sair do Monastério depois que guardei este rem édio no bolso.
...
A estalagem era um lugar m ovim entado. Recebia viaj antes de todos os pontos de Britany a, principalm ente com erciantes que m antinham acesa a econom ia naquele canto do m undo. Os lim ites do reino, nas Terras Erm as, eram protegidos por nobres vassalos que detinham o controle sobre feudos em regiões estratégicas. Com o esses senhores e exércitos direcionavam suas energias contra a invasão dos bárbaros, seu sustento era garantido pela renda gerada pelo povo das ilhas. Apesar disso, não levavam um a vida tranquila. Thom as passara os prim eiros anos da infância ouvindo histórias sobre os m onstros terríveis que habitavam lugares m alignos nas Terras Erm as, evitados por qualquer ser hum ano com um pouco de j uízo. Após sua experiência com os lupus, não ficaria surpreso se encontrasse criaturas piores do que aquelas. Era, no entanto, um a longa época de paz, o que incentivava a presença de tantos viaj antes na região rem ota e tão perigosa.
Thom as estava na j anela do quarto que dividia com Mark, no andar de cim a da estalagem ,
observando as em barcações que chegavam e saíam do porto. Acordara havia quase um a hora, sentindo o corpo pesado. Os ferim entos no om bro e no rosto ainda o incom odavam bastante.
— Bom dia, garoto! Pensei que não acordarias m ais — saudou Mark ao entrar. Trazia um pão
redondo, fresco e cheiroso, que atirou para Thom as. Num m ovim ento instintivo, ele o agarrou no ar, sem esforço. — Teus reflexos continuam ótim os. Sabes quanto tem po dorm iste?
O m enino não tinha m uita certeza. Lem brava-se de que a cavalgada até a estalagem fora
dolorosa. As im agens confundiam -se em sua m ente. Após despertar, dem orou a perceber que não estava m ais protegido pelas paredes do Monastério.
— Quase um dia e m eio! — continuou Mark. — Os m onges nunca te deixavam dorm ir? Thom as não podia acreditar que dorm ira tanto. Efeito, com certeza, do rem édio espalhado por
todo o corpo. Deu um a m ordida no pão e cam inhou com dificuldade até a cam a e seu colchão m uito duro.
— Ainda não tens condições de enfrentar um a j ornada solitária pela Grande Ilha — constatou
Mark. — Que achas de ir com igo direto para a Ilha Média? Minhas terras ficam lá. São dois dias para a travessia de barco e m ais três a cavalo até Durham . Então, poderás dorm ir o quanto quiseres. Há outra coisa que m e preocupa. O clim a está piorando. Daqui a pouco, será im possível encontrar um dia bom para cruzar o m ar.
Em sua vontade desesperada de deixar o Monastério, o garoto não contara com o inim igo
natural dos viaj antes: o inverno. Além disso, se ficasse algum tem po em Durham , teria a oportunidade de saber m ais sobre o cavaleiro e seu passado. E talvez descobrir se certo torneio em Brusk acontecera de verdade...
— Posso passar o inverno em Durham ? — perguntou, inseguro. — Com certeza! Nem precisas de convite. Na prim avera, prom eto que te levo para a Grande
Ilha. O que achas?
O garoto concordou com um m ovim ento lento de cabeça. Algo lhe dizia que o cavaleiro não
teria a oportunidade de cum prir a prom essa.
...
Era difícil para Mark gostar daquele garoto estranho. Jam ais conhecera um a criança tão
m elancólica. E tam bém tão séria. Ainda não vira Thom as esboçar nem sequer um sorriso, apesar de todas as tentativas de fazê-lo rir. Era um garoto coraj oso, sem dúvida, e sabia com o agir sob pressão. Mas aquele excesso de silêncio não era nada com um para alguém tão j ovem .
Riu sozinho ao pensar que Dines sabia tão pouco quanto ele sobre Thom as. Era im possível
acreditar na descrição que o abade fizera: um aluno voluntarioso, cabeça-dura o suficiente para se m eter em encrencas. Para Mark, o garoto era sim plesm ente apático.
— É im portante m antê-lo ocupado. Thom as tem m uita energia — aconselhara Dines. O cavaleiro perguntava-se se o m estre não estava querendo lhe pregar um a peça. O garoto
nem se m exia! Passara os dois dias da travessia de barco cochilando o tem po inteiro. Não m ostrara interesse nem pela paisagem costeira da Ilha Média, exposta em sua beleza por um a m anhã excepcionalm ente clara.
Mark não conseguia se afeiçoar a Thom as, apesar de ter pena dele. Era visível que o m enino guardava algum tipo de sofrim ento, algo que devia atorm entá-lo. Um sentim ento que se agravara após o terrível encontro com os lupus. “Todos têm seus fantasm as”, pensou Mark, enquanto m irava o sol da tarde gelada. Ao longe, nuvens carregadas tom avam o céu com velocidade.
Difícil m esm o era acreditar em tudo o que ocorrera nos últim os dias nas Terras Erm as, principalm ente no ataque no Pântano do Terror. A lem brança dava-lhe calafrios. E Dines, que se negava a lhe confiar qualquer segredo, fazia a situação parecer pior. Mark sem pre preferiu encarar os adversários, decifrando-lhes os pontos fortes e fracos. Mistérios, m eias verdades, significados ocultos... Isso, com certeza, não era para ele.
Em instantes, desabaria um tem poral. O cavaleiro esperava chegar à Estalagem Verde antes das prim eiras gotas. Fez sinal a Thom as para acelerar a cavalgada e, a seguir, esporeou a m ontaria. Com prara dois cavalos fortes quando desem barcara, pela m anhã. As patas pesadas dos anim ais levantavam a terra do cam inho, dim inuindo sensivelm ente a distância até a estalagem , num a colina.
Por sorte, a chuva só despencou no instante em que os dois viaj antes, carregando as m ochilas, entraram pela porta principal. Um m oleque de uns oito anos j á levara os cavalos para o estábulo.
— Sr. De Durham , sê bem -vindo! — gritou um a m ulher de cabelos verm elhos e rosto sardento, vindo ao seu encontro.
— Boa tarde, Fiona! — respondeu Mark, com um sorriso largo. — Hoj e eu trouxe um am igo para conhecer a refeição m aravilhosa que som ente tu sabes preparar.
Fiona agradeceu o elogio e, ao reparar em Thom as, m ostrou-se preocupada com o curativo no lado direito de seu rosto.
— Um pequeno acidente — esclareceu o cavaleiro. — Há quartos para nós?
— Claro, m eu senhor. Devo m andar esquentar água para um banho?
— Depois, m ulher, depois! Estou fam into!
Sem perda de tem po, Fiona acom odou-os j unto a um a m esa. Rapidam ente trouxe um a caneca im ensa de cervej a para Mark e espalhou sobre a m esa generosos pedaços de pão preto. Para Thom as, separou um a caneca de leite.
— Ainda és m uito j ovem para a cervej a, certo? — disse, com um a piscadela.
A seguir, sum iu em direção à cozinha para retornar logo depois, carregando inúm eros pratos. O arom a apetitoso fez o estôm ago de Mark rosnar.
— Experim enta esta carne, garoto. Aposto que j am ais com este nada tão saboroso — sugeriu o cavaleiro ao depositar um a im ensa porção no prato de Thom as. — Ah, Fiona, um dia desses vou te levar para Durham ... Cozinhas m elhor do que as criadas de m inha casa. E que elas nunca descubram que eu te confessei isso!
Os dois riram alto. Nesse m om ento, m ais dois viaj antes entraram na estalagem , encharcados pela chuva. Fiona pediu licença e foi atendê-los. Pelo canto do olho, Mark observou Thom as, que, perdido no m eio de tanta com ida, segurava o garfo de um j eito bastante indeciso. “Ele não sabe nem com er direito”, pensou, desanim ado. Não tinha ideia de com o lidar com aquele m enino. E ele iria passar um inverno inteiro em seu castelo!
Mark repetiu o prato duas vezes antes de se dar por satisfeito. Só então percebeu que a atenção do garoto estava focada no que acontecia num dos cantos da sala. Um a cachorra am arela e branca am am entava vários filhotes, m as arreganhava os dentes para um cachorrinho que, desastradam ente, tentava se aproxim ar. O coitado, cam baleante em sua aparência fam inta, j á dera um a dúzia de voltas, na expectativa de driblar a vigilância da m ãe. Ela, no entanto, não cedia e continuava a afastá-lo.
— É o m ais fraco da ninhada — explicou Fiona, que enchia novam ente a caneca de Mark. —
Por isso, foi rej eitado.
Thom as virou para ela seus olhos expressivos. Estava chocado. — Um a m ãe que rej eita o próprio filho?
— Já vi acontecer antes. O filhote está doente. Eu m esm a j á tentei alim entá-lo, m as ele não
consegue com er. Não vai durar m uito.
O garoto espiou outra vez o cachorrinho, que escapava de um a nova m ordida m aterna. Era
um filhote m uito frágil e pequeno, de pelo branco e m anchas m arrons. As orelhas triangulares caíam , desaj eitadas, ao redor do focinho.
Thom as deixou o banco e chegou m ais perto do cachorrinho. Gentilm ente, colocou-o no colo
e ofereceu-lhe m inúsculos pedaços de carne que levava na m ão. Para surpresa de Fiona, o filhote devorou tudo e queria m ais.
— Dou m inha palavra de que ainda hoj e cedo tentei lhe dar o que com er! — disse ela,
coçando a cabeleira ruiva.
Ainda com ele no colo, o garoto retornou à m esa e cortou m ais alguns pedaços de carne. — Este é um j ack russel terrier, um a raça antiga m uito com um aqui, na Ilha Média —
explicou-lhe Mark. — Fiona, m anda preparar um banho para m im e outro para o garoto. E deixa no quarto um a caneca de leite e um pouco de carne crua para o cachorro. Ele ficará conosco.
Surpreso, Thom as virou o rosto para ele. Depois, abriu um sorriso im enso, que ilum inou todo o
seu rosto. Mark, finalm ente, estabelecera contato.
...
Após o banho, Mark trocou de roupa e foi bater à porta do quarto de Thom as, ao lado do seu.
O garoto tinha um a aparência ótim a. Tam bém j á se lavara e vestia roupas lim pas. No rosto, apenas um a pequena cicatriz, logo abaixo do olho direito, lem brava o ataque, ocorrido apenas cinco dias antes.
— Aquela m eleca que Dines m e obrigou a trazer foi m esm o m ilagrosa contigo! — exclam ou
o cavaleiro. — Meus ferim entos nem com eçaram ainda a cicatrizar.
— Talvez a pasta saiba que tens m á vontade com o abade — brincou Thom as. — É, talvez — sorriu o hom em , satisfeito com o bom hum or do m enino. — Seria a cara de
Dines m e entregar um rem édio que não funcione com igo apenas com o obj etivo de m e irritar.
Ele se sentou na cam a e se pôs a acariciar a cabeça do cachorrinho que dorm ia sobre o
travesseiro.
— E teu om bro, com o está?
— Não dói m ais, senhor — respondeu Thom as. — Eu gostaria de agradecer por tua
gentileza...
— Que gentileza?
— Deixar que eu ficasse com Oz.
— Então este é o nom e do filhote! É bem estranho.
— Oz é um a terra m ágica. Um a m enina e seu cãozinho foram parar lá, um a vez.
O cavaleiro não entendeu nada. Thom as apenas sorriu.
— É um a história, senhor. Está em um livro que li no Monastério.
— Ah, sim — disfarçou Mark. Ele sem pre detestara livros e, na época em que estudava no Monastério, costum ava passar longe da biblioteca. — Sabes que este bichinho está doente, não?
A perda do anim al era um a possibilidade concreta. Esticado sobre o travesseiro, ele respirava com dificuldade. Os ossos eram visíveis sob o pelo m altratado.
— Ele vai ficar bom — garantiu Thom as.
Mark adm irava a fé infantil no im possível. Pelo bem do garoto, torcia para que o filhote se recuperasse. Os dedos de Thom as tocaram com cuidado o corpo do anim al. “Crianças e cachorros foram feitos um para o outro”, pensou o cavaleiro.
...
Mark decidiu esperar m ais um dia na estalagem antes de seguir viagem . Thom as am anhecera febril e vom itara duas vezes. O cachorrinho, ao contrário, renascera. Anim ado, corria de um canto a outro do quarto. Latia, j ogava-se no chão e m ordia um a das botas do garoto, j ogada em baixo da cam a, sem se cansar. Só parou na hora em que Thom as o pegou no colo para alim entá-lo. Um m inuto depois, de barriga cheia, lam beu-lhe as m ãos e adorm eceu ao seu lado.
Na m anhã seguinte, os três finalm ente puderam partir. O garoto tivera um a rápida m elhora. Na verdade, não tinha qualquer vestígio do m al-estar que o derrubara horas antes. Um a chuva fina im pedia-os de cavalgarem com m ais rapidez. A estrada estava enlam eada e a paisagem , envolvida por um denso nevoeiro. Eles atravessavam cam pos arados em um im enso vale verde de um a beleza que o cavaleiro lam entou não poder adm irar. A Ilha Média era um lugar excepcional.
— Levas j eito com os anim ais — disse, analisando Thom as e o novo cavalo, que se com portavam com o velhos am igos. Escondido no bolso da capa de seu dono, Oz descobria, com curiosidade, o m undo ao redor.
— É só respeitá-los, senhor. São seres inteligentes.
— Erec tam bém pensava assim .
— C-com o disse, senhor?
A água da chuva espirrou no rosto de Mark, apesar da proteção oferecida pelo capuz. Ele passou o braço sobre os olhos e tentou m ais um a vez enxergar através do nevoeiro. Se os dois chegassem antes do anoitecer ao outro lado do vale, poderiam dorm ir na casa do m oleiro.
— Quem é Erec? — insistiu o garoto.
— Ah, perdoa-m e. Meus pensam entos voaram . Erec foi m eu escudeiro e m eu m elhor am igo. Sua fam ília tam bém era daqui, da nossa am ada Ilha Média. Perceberás que nosso povo difere daquela gente m al-hum orada que vive na Grande Ilha. Som os alegres e fortes. Am am os a vida.
— Erec tam bém era assim , feliz?
Mark não respondeu de im ediato.
— Ele perdeu os pais quando era criança — disse, após quase um m inuto. — Às vezes, ficava triste. Em outras, era alegre e gostava de rir, com o é costum e entre nosso povo.
— Seu escudeiro... Ele j á m orreu?
— Sim , garoto, há alguns anos.
Calou-se. A chuva tornou-se m ais forte, im pedindo-os de conversar. No seu íntim o, Mark
agradeceu aos céus. Não queria se lem brar de fatos tão terríveis.
...
O povo da Ilha Média era realm ente especial. E barulhento. A casa do m oleiro estava cheia
de crianças, filhos do hom em barrigudo e alegre que recebera os viaj antes na porta de casa. Elas passaram a noite em volta de Thom as, brincando com Oz. Com o o m arido, a esposa tam bém falava alto. Mark riu m uito com os dois, que conheciam todas as fofocas m ais recentes da região.
Quando am anheceu, apesar do aguaceiro que caía, os viaj antes seguiram cam inho. Pararam
para um lanche rápido algum as horas depois e só descansaram à noite. Dorm iram ao relento, debaixo de um a chuva fina. Não era possível nem acender um a fogueira. Nada disso abalava o ânim o de Mark, que se com portava com o se estivesse em um sim ples passeio pelo cam po. Oz, im paciente por passar o dia inteiro no bolso da capa, divertia-se em pular as poças d’água. Quando se cansou, procurou o colo do garoto e adorm eceu.
Aquela j ornada era m uito diferente de qualquer experiência que Thom as tivera até o
m om ento. Passara m uitos anos confinado na tranquilidade do Monastério e no silêncio da vida que os m onges tanto am avam . Mark falava sem parar, geralm ente contando velhas histórias de sua gente. Não tocara m ais em nenhum assunto relacionado a Erec, para desespero do garoto. Ouvir o nom e do cavaleiro negro era a com provação de que seus transes o transportaram para um a história real, que acontecera em algum ponto do passado. Precisava de m ais provas concretas para decifrar o quebra-cabeça e, enfim , entender seu envolvim ento com aqueles personagens.
Alcançaram o Vale de Durham na tarde seguinte. O tem po estava seco, sem qualquer sinal de
chuva. Um a cadeia de m ontanhas verdes descia até eles, num a form ação em m eia-lua, com o num a ousada tentativa de im pedir a passagem de viaj antes m ais coraj osos. A fortaleza de Durham ficava entre duas colinas, antes do sem icírculo. Entre ela e a cadeia m ontanhosa, um lago gigantesco refletia a luz do sol. Adiante, um rio descia em curvas para desaparecer rum o ao oceano. Parte dele, num a traj etória curiosa, corria sob a fortaleza que se estendia para a esquerda. O local era m uito bem protegido. Havia guardas circulando pelas torres e m uralhas. Algum as pessoas atravessavam a ponte levadiça para conduzir ovelhas. De um lado e do outro, fora da fortificação, viam -se am plos cam pos arados.
— É um belo lugar, senhor — elogiou Thom as. Mark sorriu e esporeou o cavalo.
— Vam os! Não vej o a hora de chegar em casa! Quando cruzaram o portão principal da fortaleza, Mark foi saudado por seus guardas e por
todos que encontrava pelo cam inho. As paredes das m uralhas escondiam um a cidade pequena, m as m ovim entada para o final de tarde. Os dois passaram por ruas largas, pavim entadas por pedras, e viraram para a esquerda, direto para o castelo. O cavaleiro acenou para o vigia em um enorm e pátio interno. Thom as reduziu a velocidade do cavalo e acom panhou-o.
No local, algum as pessoas aguardavam ansiosas a chegada de seu senhor. Estavam na entrada de um edifício am plo, de dois andares, ladeado por j ardins. Mark saltou do cavalo para abraçar um a m enina loira, m uito parecida com ele, que corria para recebê-lo. O garoto aproxim ou-se devagar. Inquieto, Oz rem exeu-se no bolso da capa.
— É m elhor ficares escondido — sussurrou Thom as.
Um a dam a, elegante em um vestido verde, cam inhou até Mark, contendo-se para não correr. Devia ter uns trinta anos. Era alta, bonita, com cabelos loiros presos num a trança longa. Thom as j á a vira antes em algum lugar... Ele desceu da m ontaria e esperou. O cavaleiro abraçou e beij ou a dam a, ainda com a m enina no colo. Cum prim entou os criados e, a seguir, virou-se para ele.
— Thom as, estas são m inha filha Erin e m inha esposa Jane, as duas m ulheres m ais im portantes da m inha vida — apresentou, feliz. O garoto sentiu a cor sum ir de seu rosto. Acabara de reconhecer a dam a. Era Jane, a prim a da princesa Alix. — Meninas, este é um aluno do Monastério que o bom abade pediu que ficasse sob m inha proteção.
Thom as fez-lhes um a reverência.
— És um nobre? — perguntou Jane, encantada com seu gesto.
— Não, senhora — disse ele, hum ilde.
A dam a m ostrou-se um pouco decepcionada. Sem perder m ais tem po, cham ou os criados, despej ando ordens para que os recém -chegados recebessem cuidados. A m enina loira, outra vez no chão, m al escondia a curiosidade em relação ao garoto. Devia ter a idade dele e era da m esm a altura.
— És da Grande Ilha? Nunca conversei com alguém de lá.
Ele assentiu. Um a m ulher idosa aproxim ou-se das crianças, a passos ligeiros.
— Eu cuidarei de ti, m enino. Segue-m e! — ordenou ela.
Thom as procurou por Mark, m as ele sum ira de vista. Ao pensar que o m enino hesitava, a m ulher exam inou-o de cim a a baixo. Não parecia acostum ada a ter suas ordens questionadas.
— É m elhor que a acom panhes — sorriu Erin, zom beteira. — Arla quer te preparar para o j antar.
O garoto franziu a testa e seguiu a m ulher para dentro do castelo. Não pôde conter a com paração entre ela e Jon.
...
Arla conduziu-o por um longo corredor à direita, afastando-o de Erin e do restante das pessoas. Subiram um a escada e continuaram o cam inho por outro corredor. Thom as passou por tapeçarias de um a beleza ostensiva, um im enso tapete e diversos quadros pendurados nas paredes. Mark era um senhor poderoso e a decoração da casa, escolhida pela esposa, refletia sua posição e riqueza. Quando a aia virou novam ente à direita, o garoto parou, confuso. Diante dele, um a pintura pendurada na parede retratava um a conhecida j ovem de cabelos escuros e seu sorriso cheio de vida: a princesa Alix De Brusk. “Ela é real”, descobriu Thom as, com o coração apertado.
Im paciente, Arla pigarreou. Ele abaixou a cabeça e foi encontrá-la. Não era o m om ento para perguntas.
— Não deves tocar na m obília desta casa — recom endou a m ulher, num tom rude.
E repetiu a m esm a frase quando entraram em um dos quartos de hóspedes, tão luxuoso quanto
os dem ais aposentos. A cam a grande, protegida por cortinas, ficava ao centro. Um criado apareceu trazendo dois baldes cheios de água quente, seguido por um a j ovem que carregava roupas lim pas para o hóspede.
— Logo ali encontrarás um a tina — disse Arla. — Quero que tires esta roupa im unda. Vou te
dar um banho.
— Sei m e lavar sozinho, aia.
A m ulher ignorou o com entário e m andou o criado despej ar a água na tina para só então
arregaçar as m angas do vestido e avançar em direção a Thom as, pronta para lhe tirar a capa. Nesse instante, Oz pôs a cabeça para fora do bolso, latindo furiosam ente. Com o susto, ela pulou para trás.
— Não preciso de aj uda — disse o garoto. — Obrigado. Ela se recom pôs. Lançou um olhar de ódio para o filhote e, depois, para Thom as. — Tenho ordens de Lady Jane para te deixar lim po e apresentável. — Pois Lady Jane terá um hóspede lim po e apresentável — disse o m enino, depositando a
m ochila no chão. — Trago com igo algum as roupas suj as que precisam ser lavadas. Posso confiá-las a ti?
Arla bufou. O criado, que j á enchera a tina, pareceu surpreso com a situação. Era incom um
ver alguém enfrentando a aia.
— Depois do banho, deixarei tam bém as roupas que uso agora. Podes pedir para alguém vir
buscar tudo m ais tarde? — perguntou Thom as, m irando-a direto nos olhos. Ela estava cedendo, apesar da raiva. — Tu j á podes sair. Agradeço-te a gentileza.
O garoto, então, se pôs a aj udar Oz, que lutava para sair do esconderij o. A m ulher ficou
parada por uns instantes, indecisa. Finalm ente saiu, acom panhada pelos dois criados. Antes de fechar a porta, porém , dirigiu um a expressão de desdém para o hóspede. Ele ganhara apenas a prim eira batalha.
...
Quando Thom as desceu, dirigiu-se para o salão principal, onde encontrou a fam ília pronta
para o j antar. Mark acom odou-se no assento principal, na ponta da m esa com prida, enquanto Jane ocupou o outro lado. Erin e o garoto sentaram -se um de frente para o outro. Em instantes, os criados depositaram sobre a m esa um a im ensa travessa oval com carne assada, acom panhada por tigelas de batatas cozidas, verduras e legum es, além de j arras de vinho. Tam bém despej aram generosas porções no prato de seu senhor. A um sinal de Jane, serviram as crianças, para deixá-la por últim o.
— Onde está o filhote, Thom as? — perguntou Mark, após tom ar um interm inável gole de
vinho.
— Deixei-o no quarto, senhor.
— Pois m anda buscá-lo! Há sem pre cachorros espalhados pela casa — disse, indicando com
o queixo os dois cãezinhos peludos que dorm iam a seus pés.
Thom as ia se levantar, m as foi detido por um gesto de Jane. Arla, a m eio m etro da m esa,
enviou um criado para cum prir a ordem . O garoto concentrou-se na refeição, à procura do garfo e da faca. Som ente um a colher estava ao seu alcance.
— Algum problem a? — perguntou Jane ao notar seu constrangim ento.
— Senhora — disse, em voz baixa —, preciso de um garfo e de um a faca.
Jane virou-se para Arla, interrogando-a com o olhar. Sem escolha, a aia tirou os talheres do bolso do avental para entregá-los a Thom as.
— Deduzi que um garoto que não tem sangue nobre com esse com as m ãos, com o é costum e entre o povo. Achei que teria dificuldade até com um a colher.
— Thom as é m eu convidado, Arla — reforçou Mark. — Deve receber o m elhor tratam ento possível.
— E será assim , senhor — disse ela, fingindo-se m agoada.
— Meu m arido m e contou que fazias parte de um grupo de andarilhos — com entou Jane, esboçando um sorriso para Thom as.
— Andarilhos? Tão poucos aparecem aqui, em Durham ! — lam entou Erin. — Sabes fazer alguns dos truques circenses que eles dom inam tão bem ?
— Lem bro-m e de algum a coisa — sorriu Thom as.
— E podes m e ensinar?
— Com prazer.
— Teus pais tam bém vivem na Grande Ilha? — perguntou a senhora.
— Meus pais m orreram há anos — disse Thom as. — Fui levado para o Monastério pelos andarilhos. Minha m ãe adotiva tem um irm ão que é m onge, por isso fui para lá.
— E por que esse grupo de andarilhos nunca veio até nossas terras? — quis saber a m enina.
Thom as rem exeu os legum es com o garfo.
— Existe m uita m iséria entre o povo da Grande Ilha — respondeu, por fim . — Há m ais alim entos nesta m esa do que m eu grupo de andarilhos consegue ver em m eses. Viagens longas custam m uito dinheiro e nem sem pre se conseguem m oedas suficientes para sobreviver.
— Existe fom e tam bém ao norte da Ilha Média — com pletou Mark. — Vivem os num a região privilegiada. Em outros lugares, os altos im postos que pagam os para m anter as fronteiras do reino em pobrecem cada vez m ais o povo.
— Senhor, sem pre tive curiosidade em relação aos bárbaros. Com o eles são? — arriscou o garoto. Já descobrira que seu anfitrião não gostava de tocar em assuntos que o entristeciam .
Mark descansou os talheres sobre o prato e apoiou os cotovelos na m esa, entrelaçando as m ãos. Jane tam bém parou de com er.
— Estive vezes sem conta nas Terras Erm as, principalm ente no período anterior à longa paz que tem os agora — disse o cavaleiro, em tom som brio. — Já com bati os bárbaros, m atei vários para defender Britany a, fui ferido por eles e quase m orri. Mesm o assim , até hoj e não posso dizer que os conheço. O que posso te falar, Thom as, é que eles são violentos, filhos de um a m iséria inim aginável para nós. Não têm um líder único, com o o rei Arnon, m as vários. Atacam ferozm ente, com o anim ais. Às vezes, penso que não são m ais seres hum anos. Erec explicava que os bárbaros são com o pessoas fam intas e abandonadas que cobiçam um banquete exuberante através do vidro de um a j anela, im pedidas de usufruir dele. Para elas, Britany a é este banquete.
Erin olhava para o pai com um m isto de espanto e preocupação. Seu m undo perdera parte da beleza. Existiam outras realidades além das terras de Durham .
O silêncio não durou m uito. Oz, com seu latido fino e o rabo balançando de entusiasm o, acabara de chegar, o que devolveu o tom alegre ao prim eiro j antar de Thom as em um m undo que ele aprenderia a am ar.
...
Após o j antar, a fam ília reuniu-se j unto à lareira para j ogar cartas. Thom as perdeu todas as
j ogadas de que participou.
— Não sabes blefar! — ria Erin, im batível no baralho. Jogava m elhor até do que o próprio pai. Jane, tão ruim no j ogo quanto Thom as, resolveu tecer um a tapeçaria, acom odada em um
tam borete. Oz, cansado de brincar com os cãezinhos peludos, dorm ia perto das crianças, no chão. Mark cochilava esparram ado num a im ensa poltrona, com as pernas esticadas para a frente.
— Bati! — gritou a m enina, em polgada com a quinta vitória da noite. Thom as sentia-se cansado. A refeição e o calor da lareira deixaram -no sonolento.
Apreensivo, reparou que Jane tinha os olhos verm elhos e respirava com dificuldade.
— Não devias m exer em lã — disse. — Esse m aterial te faz m al. Jane m ostrou-se surpresa com o com entário.
— Já estou acostum ada — respondeu, sim pática. — Devias tirar as tapeçarias e os tapetes. Eles acum ulam poeira e m achucam teus pulm ões
— insistiu ele, articulando lentam ente as palavras. Um leve torpor am eaçava sua m ente.
— Mark contou-te que sofro com m eus pulm ões? O cavaleiro não com entara nada sobre o assunto, m as Thom as entendera os sintom as. O que o
preocupava eram os sinais fortes, terríveis, que pairavam com o um a som bra sinistra. Piscou, aturdido. Mas a som bra ainda estava lá, ávida para sugar a vida de Jane. Ele estrem eceu ao reconhecer a presença da m orte naquele am biente feliz.
— Tu estás bem ? — perguntou Erin ao cutucar-lhe o braço. Thom as espantou o torpor. Foi Arla, sem pre arrogante, quem encerrou a noite. — Senhora, peço perm issão para colocar as crianças na cam a. Já passou, e m uito, da hora de
dorm ir.
...
Thom as dorm iu m al. Acordou antes de o dia nascer e ficou deitado, olhando para o teto. Oz,
encostado em sua barriga, tam bém j á despertara. Lam beu-lhe o rosto e se pendurou na beirada da cam a m uito alta para ele. Certo de que evitava algum acidente, Thom as deixou-o no chão e levantou-se.
Algum tem po depois, j á no corredor, foi atraído pelo quadro de Alix De Brusk. Ela continuava
lá, m irando quem ousasse encará-la. Thom as calculou que a j ovem estivesse com uns quinze anos. Usava os cabelos soltos, enfeitados por um a tiara de pérolas. E sorria, m uito doce em seu vestido branco, delicadam ente bordado. Devia ter sido difícil para ela, sem pre tão envergonhada, expor-se para que o pintor a retratasse.
Thom as sentiu alguém atrás dele e virou-se, apreensivo. — Esta é m inha pintura preferida — m urm urou Erin. Curioso... a m enina estava de calça
com prida e não de vestido.
— Quem é? — perguntou ele, quase num sussurro.
— É a princesa Alix De Brusk, um a prim a distante de m inha m ãe. As duas foram criadas j untas quando m eus avós m orreram . Eram com o irm ãs.
— E onde ela está agora?
— A princesa j á m orreu. Queria m uito tê-la conhecido. Minha m ãe adorava-a.
— E com o ela m orreu?
— Meus pais não gostam de falar no assunto. Mas descobri que o castelo da princesa e do m arido, em Sutter, foi atacado por salteadores. Todos m orreram .
— E o m arido dela era Erec, o grande am igo do teu pai.
— Com o sabes?
— Escutei isso em algum lugar.
Erin não ficou m uito convencida com a explicação.
— Vam os tom ar o desj ej um ! — convidou, puxando-o pela m ão.
Em m inutos, estavam na cozinha. Um enorm e fogão queim ava várias toras de lenha para assar pães cheirosos. Os criados serviram o desj ej um , sem se esquecerem de alim entar Oz, que corria de um lado para o outro. Erin, entusiasm ada para m ostrar ao novo am igo o restante do castelo, engoliu a refeição com pressa. E Thom as, claro, não via a hora de com eçar a explorar o local.
No pátio, teve um a surpresa. Não percebera que, durante a noite, a prim eira geada chegara a Durham , cobrindo tudo de branco. Ele ia perguntar algum a coisa a Erin quando um a pesada bola de neve am assou-lhe o nariz.
— Ora, sua... — com eçou ele, tirando o gelo do rosto. Abaixou-se para pegar o m aior punhado de neve que cabia na m ão e fazer pontaria na garota que escapava, rindo.
Erin era rápida e, deslizando na neve, escapou da boa m ira de Thom as. Ele ia pegar m ais neve, porém teve que se j ogar no chão para desviar de um a nova bolada.
— Aposto que não m e acertas! — provocou a garota.
Oz latiu sob o batente da porta da cozinha, incentivando-o. Ainda criava coragem para avançar sobre o gelo.
Com raiva, Thom as am arrou a cara. Não ia perder para um a garota! Rapidam ente, pegou um a nova porção de neve e am eaçou atirar. Erin correu para a esquerda e, ao descobrir que o garoto tentava enganá-la, agachou-se a tem po de escapar m ais um a vez de um golpe certeiro. “Ela é m esm o boa”, adm itiu, contrariado. Após quase m eia hora de tiroteio, os dois, cobertos de neve e cansados de tanto rir, j á nem lem bravam m ais quem com eçara a guerra.
...
— Este aqui é um dos m eus lugares preferidos — anunciou Erin, pendurando a m etade do corpo para fora de um a j anela.
Os dois estavam num a parte incom um do castelo. Ao longo de um a ponte, haviam sido construídos vários aposentos, anexos ao edifício principal, que estava em terra firm e. Isso causava um efeito engraçado: parte do prédio ficava sobre o rio.
— Dá para subir para o telhado, pelo lado de fora? — quis saber o garoto, tam bém pendurado, estudando a parede externa do aposento. A geada da noite anterior deixara as pedras escorregadias. Abaixo, o rio batia contra as colunas que sustentavam a ponte.
— Hum , tentei um a vez. Não fui m uito longe.
Oz, que estava no bolso do blusão de Thom as, escapuliu para o peitoril da j anela, atraído por
um a pom ba branca que cochilava em um nicho externo.
— Oz, volta aqui! — pediu o garoto, esticando-se para capturá-lo. Mas o cachorrinho escapou ao pular para um a saliência na parede, grande o suficiente apenas
para com portá-lo. Thom as colocou todo o corpo para fora e pendurou-se no peitoril. Procurou um apoio para os pés na parede externa e escorregadia, sem sucesso.
— Vou tentar pegá-lo pela j anela do lado — avisou a m enina. O garoto tentou de novo apoiar os pés. O direito encontrou um vão apertado entre duas pedras,
o que lhe forneceu o apoio para que se aproxim asse de Oz. Nesse instante, Erin saiu pela j anela próxim a, tam bém pendurando-se no peitoril. O cachorrinho latiu para ela, balançando o rabo. A pom ba acordou assustada e, batendo as asas, passou voando pela cabeça de Thom as. Ele se desequilibrou, escorregando para o rio que parecia aguardá-lo.
Num m ovim ento rápido, com um a de suas m ãos agarrou a pedra lisa, conseguindo m anter
um equilíbrio delicado, com o corpo colado à superfície gelada. Thom as olhou para cim a e viu que Erin puxava Oz pelo rabo. O filhote protestou. O garoto m oveu lentam ente os pés suspensos, em busca de um novo ponto de apoio. Para sua sorte, aquele trecho da parede tinha um buraco, fundo o bastante para lhe dar um a oportunidade de retornar à segurança da j anela.
Erin m antinha Oz preso em um dos braços, j unto ao peito. Com cuidado, ela equilibrou
m etade do corpo sobre a j anela e em purrou o filhote para dentro do aposento. Agora era fácil para o m enino subir até lá. “O pior j á passou”, pensou, calculando o próxim o m ovim ento. Nesse instante, um grito assustou-o. Erin acabara de perder o equilíbrio e, indefesa, caía no rio.
Sem pensar, Thom as m ergulhou logo atrás dela. Não estava preparado para a violência das
águas. Afundou alguns m etros com o peso das roupas de inverno, engolindo bastante água. Era im possível enxergar qualquer coisa debaixo de tanta turbulência. Tentou nadar; a correnteza j ogou-o para o lado oposto ao que pretendia alcançar. Com m uita dificuldade, conseguiu em ergir, encher os pulm ões e m ergulhar num a nova busca. Não vira nenhum sinal de Erin na superfície.
Não foi m uito longe. A correnteza lançou-o de novo para o fundo, im pedindo-o de nadar.
Engoliu m ais água. Sem força, afundou m ais e m ais. Não conseguia se m exer. Foi no últim o segundo que alguém agarrou seu pulso e guiou-o para fora daquele turbilhão. Logo pôde sentir o ar invadindo seus pulm ões ao retornar à superfície.
Erin sorriu para ele e continuou a puxá-lo, dessa vez para a m argem direita do rio.
Agarraram -se à vegetação, saíram da água e, cam baleando, deitaram -se no chão.
O garoto tossiu várias vezes, engasgado. Trem ia desesperadam ente de frio. Erin tam bém
estava congelando.
— Acho que não precisavas ser salva...
— Nado neste rio desde pequena — explicou a m enina, nada preocupada com o resultado da
travessura. — Conheço todos os segredos da correnteza.
Os dois riram , fracos dem ais para sair do lugar. Foi então que ouviram gritos vindos da ponte.
Arla, em um a das j anelas, gesticulava enfurecida para eles.
As crianças foram carregadas de volta ao castelo por dois guardas, cada um a diretam ente
para seu quarto. Thom as, sem protestar, acabou m ergulhado num a tina de água quente por um dos criados. Oz, instalado sobre a cam a, espiava-o, com cara de culpado. Erin tivera o m esm o destino, m as ficara com a pior parte. Era a aia quem cuidava dela. O garoto sabia que tam bém não escaparia de um longo serm ão e, com certeza, de algum castigo. Quando o banho term inou, secou-se, vestiu-se correndo e fugiu para o corredor, seguido por Oz. Deu três passos e acabou frente a frente com Mark De Durham . Perm aneceu de cabeça baixa, sem coragem de enfrentá-lo.
— A senhora quer te ver — com unicou o adulto.
Em silêncio, eles se dirigiram até o salão principal. Cham as acolhedoras crepitavam na lareira, aquecendo Erin. Arla, de m odo brusco, trançava seus cabelos ainda úm idos. Jane, em sua poltrona, acom panhava tudo em silêncio. Oz viu o que o aguardava e, com o rabo entre as pernas, desapareceu sorrateiram ente.
— Ai, m achucas m inha cabeça! — reclam ou a m enina. — Mãe, por que não posso cortar m eus cabelos? Eles são finos dem ais e o pente sem pre m e m achuca.
— Pelo m esm o m otivo que não deves ficar por aí, pendurada nas j anelas — disse Jane, com a voz cansada. — Não és um m enino.
Thom as afligiu-se com a aparência pálida da senhora e suas olheiras profundas.
— Minha filha m e contou que salvaste a vida dela — disse Jane para o garoto. — Quero te agradecer.
Ele ia desfazer a confusão, m as a m enina o im pediu.
— Nosso hóspede tentou m e avisar sobre os perigos de m e pendurar na j anela. Acabei escorregando e deu no que deu! — explicou Erin, com um olhar significativo para Thom as. — Aprendi a lição, m ãe, e peço perdão por m inha im prudência.
— Estás perdoada.
— Devias castigá-la, senhora! — criticou Arla. — Ela deve aprender a se com portar com o um a dam a e não com o um m oleque.
Um olhar severo da senhora fez a outra m ulher fechar a boca.
— Aj uda-m e, aia, gostaria de retornar ao m eu quarto — disse Jane, por fim . — Alm oçarei hoj e lá em cim a.
— Não preferes que te leve no colo? — sugeriu Mark.
— Não, m eu querido, não será necessário. Andar m e fará bem .
Apoiando-se em Arla, Jane cam inhou devagar para fora do salão. Quando as duas estavam longe dem ais para ouvi-lo, Mark voltou-se para as crianças.
— Afinal, quem salvou quem ? — perguntou, rindo.
— Ela m e salvou — disse Thom as, espantado com aquela reação.
— Quando vier a prim avera, eu m esm o te ensinarei a m ergulhar no rio, com o ensinei m inha princesa.
Erin enlaçou o pescoço do pai para lhe dar um beij o estalado na bochecha.
— O que acham de irm os até a cozinha arrum ar algum a coisa para com er? — convidou Mark, com um a piscadela. — Um m ergulho sem pre abre o apetite.
Sem a senhora por perto, a postura do cavaleiro era bem inform al. Na cozinha, ele abriu tam pas de panela, reclam ou que a galinha estava salgada e, com fom e, sentou-se à m esa protestando contra a quantidade insuficiente de batata assada que a criada colocara em seu prato. Depois, sim pático, elogiou a aparência do bolo de frutas à sua frente, pronto para virar sobrem esa.
Os criados pareciam acostum ados com as broncas de Mark. Thom as descobriu que esse
sentim ento ia além : eles sim plesm ente adoravam o senhor e se desdobravam para fazer todas as suas vontades. Mark tinha um charm e especial que atraía as pessoas. E elas confiavam no hom em sem pre pronto a arriscar a vida para protegê-las.
— Lady Jane tom a algum rem édio para com bater a doença? — perguntou Thom as para ele,
depois de com er m etade de um a fatia de bolo de frutas, logo após o alm oço. Oz, de barriga cheia, dorm ia com as patas para cim a, j unto a seus pés.
— Um padre, que cuida de doentes na corte do rei, esteve aqui no últim o verão — explicou o
cavaleiro, com tristeza. — Mas as crises pioram nos dias de inverno, quando fica im possível buscar alguém na Grande Ilha. Minha senhora tom a chás que o padre receitou.
— Feito de que ervas?
Erin esticou o braço e abriu a gaveta de um arm ário de m adeira, m ostrando ao garoto um a
bolsa de couro. Em seu interior, havia várias folhas secas.
— É Arla quem prepara os chás — contou. — Ela pode te contar com o faz. — Não é preciso — dispensou Thom as ao estudar as ervas. Após alguns segundos, separou
três tipos diferentes sobre a m esa. O restante, depositou na bolsa.
— Estas três não servem para nada — explicou para a garota e o pai que, curiosos, não
entendiam por que ele fizera aquilo. — Elas am enizam o poder curativo das dem ais. E falta tam bém um elem ento principal. Senhor, onde posso encontrar folhas do m ago?
— Não faço ideia — disse Mark, ainda intrigado. — Para que queres isso? — Para secar e m oer. O pó das folhas do m ago, m isturado ao chá, libera os brônquios e
estim ula a respiração. No Monastério, eu costum ava preparar esse rem édio para as crises de asm a do irm ão Augustus.
Mark coçou a cabeça.
— Folhas do m ago? Nunca ouvi falar.
— Com o elas são? — perguntou Erin.
— São com o um a erva daninha, que atrapalha o crescim ento das verduras. As folhas são
arredondadas, com o caule arroxeado...
— Folhas da preguiça! — decifrou um a das criadas, que escutava a conversa enquanto m exia
um caldo no fogão. — Conheço a erva, m eu senhor, é com um no norte, onde m oram m eus prim os.
— Posso encontrá-la aqui em Durham ? — perguntou Thom as, levantando-se da m esa. — Vi algum as na estufa, hoj e cedo. Ia arrancá-las depois do alm oço. Estão acabando com os
pés de alface.
— Eu te levo até a estufa — ofereceu Erin, tam bém pulando da m esa. As crianças j á estavam na porta da cozinha quando Thom as se dirigiu a Mark. — Senhor, tenho tua perm issão para preparar o rem édio e m inistrá-lo à tua esposa? Mark hesitou. Era difícil acreditar que um garoto de doze anos conhecesse m ais sobre
m edicam entos do que o padre que servia à corte do rei Arnon. Por outro lado, Thom as estudara no Monastério e Dines era especialista em rem édios esquisitos, m as eficazes.
— Prepara o rem édio. A senhora decidirá se o tom a ou não. O m enino abriu seu m elhor sorriso e agradeceu, sum indo no encalço de Erin.
...
— Com o disseste que se cham a esta erva? — perguntou Jane, bastante enfraquecida.
Ela estava em seu quarto, acom odada na cam a, com as costas apoiadas em vários travesseiros. A crise respiratória im pedia que se deitasse.
— Folhas do m ago. Aqui, na Ilha Média, são conhecidas com o folhas da preguiça — respondeu Thom as, incom odado com a falta de circulação de ar no aposento. As j anelas estavam fechadas para proteger a paciente da nevasca. Havia ainda tapeçarias de lã e tapetes pesados em todos os cantos.
— Se queres saber m inha opinião, senhora, sou contra a presença deste andarilho em teu quarto — disse Arla, instalada perto da senhora. — E não acho que devas confiar em um rem édio feito com ervas daninhas.
Jane fez de conta de que o com entário da m ulher não ocorrera. Continuava a fitar Thom as, aj oelhado próxim o a ela. Erin estava em pé, logo atrás dele.
— Mãe, este rem édio te fará bem — incentivou a m enina.
Thom as não ousou afastar os olhos do olhar penetrante de Jane. Ela o analisava, decidindo se poderia ou não confiar nele. Havia um sentim ento grande de am or naquela m ulher, um a vontade de se agarrar à vida e continuar j unto à fam ília que tanto valorizava.
— Este rem édio devolverá m inha força para respirar?
— Eu te prom eto que sim .
Jane, enfim , concordou e Thom as, cuidadoso, aj udou-a a beber da caneca de chá. Arla resm ungou qualquer coisa, irritada.
— Tem um gosto horrível! — disse Jane.
Ela pediu a Erin que sentasse na cam a ao seu lado e esticou a m ão para Thom as. O garoto sentiu seus dedos gelados e estrem eceu, lem brando-se da som bra da m orte que vira na noite anterior. “Não deixarei que a leves!” E desej ou do fundo do coração que os sintom as m alignos abandonassem a senhora. “Vinde até m im !”, ordenou, fechando os olhos. Erin acariciava os cabelos da m ãe, que logo adorm eceu.
Era noite quando Thom as despertou, bastante enj oado. Erin adorm ecera abraçada à m ãe. Arla cochilava, sentada, ereta, num a cadeira. O garoto soltou a m ão de Jane e se levantou, m oído de dor. Estivera aj oelhado durante horas, com a cabeça e os braços acom odados sobre o colchão. Aproxim ou-se do rosto da senhora e verificou, aliviado, que ela respirava com facilidade, estava corada e parecia bem . Tivera sucesso em afastar a som bra m aligna.
O garoto cam inhou m eio tonto até a porta e saiu do quarto. Oz recebeu-o, abanando o rabo. Arla não deixara o cachorro entrar e ele perm anecera no corredor, à espera do dono. Thom as, no entanto, não lhe deu atenção. Correu com a pouca energia que ainda lhe restava para o pátio externo. Ali, sob a neve que ainda caía, vom itou. Dobrou-se de dor, respirando com dificuldade. Seu estôm ago ardia. Perm aneceu um bom tem po sem se m exer. Só se levantou ao sentir Oz, inquieto, cutucando seu braço com o focinho.
— Estou bem , am igo — m entiu.
Cam inhando com dificuldade, Thom as rum ou até seu quarto. Sabia que estava novam ente ardendo em febre.
...
— Bebe tudo! — ordenou Arla ao lhe em purrar o conteúdo de um a caneca enorm e. Thom as obedeceu. Um líquido com gosto azedo escorreu por sua garganta. Estava deitado na
cam a, fraco dem ais para rechaçar qualquer atitude da aia.
— Este é o preço que se paga por um m ergulho nas águas daquele rio — continuou ela. —
Minha pequena senhora é que é forte. Não será um banho gelado que derrubará sua saúde de ferro.
O garoto tossiu, sentindo o peito doer. Depois, fez um esforço para perguntar sobre o estado da
senhora.
— Lady Jane está totalm ente recuperada. Teu rem édio é m esm o eficaz — adm itiu a m ulher,
contrariada.
— Ela deve tom á-lo outra vez agora pela m anhã. Deixei o restante do pó com Erin. Podes dar
o rem édio para a senhora por m im ?
— Qual é a quantidade?
— Um a colher de sopa. É preciso m isturar o pó com o chá feito com as ervas da bolsa de
couro.
— Sei, sei — concordou a aia, fazendo o garoto engolir m ais m eia caneca do líquido horrível.
Mostrava um prazer indescritível ao ver seu sofrim ento. Oz, com m edo, enfiou a cabeça debaixo do travesseiro.
...
A m anhã seguinte surgiu fria e indiferente. Pelo vidro da j anela m ais próxim a, Thom as
adm irou as terras de Durham cobertas de branco. Tinha um a visão com pleta do lago congelado e das m ontanhas. Realm ente, de tirar o fôlego.
O garoto lavou-se, trocou de roupa e desceu para o salão principal. A febre abandonara-o
havia horas e sua força voltara. Oz foi na frente, latindo para os cãezinhos peludos. A fam ília, que tom ava o desj ej um , não esperava encontrá-lo tão bem . Bastante constrangido, o m enino parou, indeciso em ocupar um lugar à m esa.
— Arla nos fez crer que estavas à beira da m orte — riu Mark. — Estás corado e disposto! — Senhor, eu quis dizer... — tentou explicar a criada. Erin escondeu um sorriso. — Não há explicação, aia. Thom as tem um a capacidade de recuperação surpreendente. — Junta-te a nós, m eu am igo — convidou Jane. O garoto obedeceu, ainda sentindo as bochechas arderem . — Com o estás, senhora? — perguntou, tentando controlar a tim idez. — Curada, graças ao teu rem édio.
— Não estás curada, senhora. Tuas crises podem retornar se não tom ares alguns cuidados... Jane abriu a boca, m as não disse nada.
— Deves tirar os tapetes e as tapeçarias do teu quarto — prosseguiu ele. — As cortinas de tua
cam a, com o os lençóis, devem ser trocados e lavados todos os dias. Tam bém não podes m ais fazer trabalhos m anuais com lã ou outro tipo de m aterial que acum ule pó...
— Por Deus! — riu a senhora. — Nem o padre m e deu tantas recom endações! — É para teu bem .
— E estes conselhos evitarão que m inha doença retorne?
— Eles aj udarão bastante.
— Então, farei o que m e pedes. Arla, poderias providenciar agora o que m eu pequeno conselheiro sugere?
A aia assentiu e cham ou dois criados para aj udá-la na tarefa. Thom as sorriu, num esforço para esconder a tristeza inexplicável que rondava seu coração. Usaria tudo o que estivesse ao seu alcance para m anter a m orte afastada da j ovem senhora.
...
Várias nevascas atingiram Durham com um a violência incom um . Mark quase não parava em casa, desdobrando-se em esforços para proteger sua gente do rigor do inverno. Estava em todo lugar, ora para m obilizar pessoas na reconstrução de um telhado atingido, ora para aj udar a desobstruir o cam inho tom ado pela neve. Ele era o prim eiro a arregaçar as m angas, sem pre m antendo o bom hum or.
Thom as j á se acostum ara com aquele lugar barulhento. Os criados falavam alto, sem pre rindo e brincando. Até a cara feia de Arla não os im pressionava. Só se m ostravam m ais discretos na presença elegante e sim pática de Jane.
Na cidade, que o garoto visitava diariam ente com Erin, o povo tam bém era bem hum orado. Usufruindo da posição de convidado do sr. De Durham , Thom as era tão paparicado quanto Erin, a pequena senhora, com o a cham avam .
A neve não im pedia as crianças de se divertirem pelas redondezas. Aproveitavam cada dia de céu lim po para patinar no lago congelado, um passatem po que o garoto aprendera a adorar, com o Erin. Ela o ensinara a se equilibrar sobre duas lâm inas presas em um pedaço de couro, um a am arrada em cada pé. Era fascinante deslizar sobre o gelo, criando m ovim entos cada vez m ais com plicados.
Thom as cum priu a prom essa de m ostrar à garota alguns truques dos andarilhos. Ela ficou encantada com a possibilidade de se andar sobre um a corda, com o o velho Tuc o ensinara.
— Tam bém quero aprender a escalar as m uralhas — pediu a garota.
— Posso te ensinar na prim avera. Não quero que quebres o pescoço.
O Natal foi um a ocasião m aravilhosa para Thom as. Nunca, em sua vida, passara a data em m eio a tanta festa. Junto com Mark, Jane e Erin, visitou cada m orador em Durham . O cavaleiro deixava um punhado de m oedas para os m ais pobres. Sua esposa oferecia pães e biscoitos para as crianças. A fam ília era sem pre recebida com cervej a e m uitos sorrisos.
A ceia tam bém foi especial. Mark e Jane dividiram a m esa com todos os criados, servindo-os pessoalm ente. As crianças aj udaram , com prazer. Antes da m eia-noite, cada criado ganhou um presente.
— Tudo isso é pouco perto do que todos representam para m im e para a m inha fam ília — disse o cavaleiro, sem esconder a em oção.
Foi aplaudido de pé. Muito vinho e cervej a circularam pela m esa, aum entando a alegria. Não dem orou para que todos cantassem as fam osas canções da Ilha Média, até m esm o a sisuda Arla. A senhora, sóbria com o as crianças, divertia-se com as brincadeiras.
Aos poucos, as pessoas foram se retirando. Quando Jane se viu a sós com o m arido e as crianças, fez aparecer alguns presentes. Entregou o prim eiro para Oz, que, sem conter a em polgação, ficou em pé, apoiado nas patas traseiras. Era um bolo de carne, assado em form ato de osso. O cachorrinho vibrou.
Erin, que ganhou um bonito vestido azul, bordado com fios prateados, teve dificuldade em
esconder sua decepção. Ela detestava usar saia. A m ãe sorriu, m ostrando-lhe um segundo presente. Ansiosa, a m enina desenrolou de um tecido brilhante um arco de m adeira flexível e um a dúzia de flechas.
— Agora Thom as pode te ensinar com o usá-lo — disse Mark. — Espero que tenhas um a
pontaria tão boa quanto a dele.
A garota pendurou-se no pescoço dos pais. Thom as, aturdido, descobriu que havia um
pequeno em brulho para ele. Não se lem brava de ter recebido algum presente antes. No Monastério, o Natal era com em orado com m issa, orações e um a ceia m ais caprichada. Não havia troca de presentes nem tam pouco cervej a e canções.
— Teria te feito um blusão para o frio, m as m eu conselheiro m e proibiu de chegar perto da lã
— brincou Jane antes de lhe entregar o presente.
Era leve dem ais. Ao abri-lo, o garoto encontrou as rédeas de um cavalo. Não conseguiu
entender o que ganhara.
— Teu presente está lá fora — explicou Mark, em purrando-o gentilm ente para o pátio gelado. Erin e a m ãe pararam na porta, abraçadas para se protegerem do frio noturno. Um criado
segurava um m agnífico cavalo negro, de pelo reluzente. Era um anim al de raça, j ovem e altivo. Thom as aproxim ou-se dele, ainda sem acreditar. Tocou-lhe o focinho, m irando-lhe os olhos espertos.
— Pégasus... — m urm urou, com um sorriso.
— Esse era o nom e do m eu cavalo preferido — surpreendeu-se Mark. Thom as piscou e virou-se para o cavaleiro.
— Não sei com o te agradecer, senhor.
— Que tal m e agradecer indo para dentro? Vam os congelar aqui fora. Mark apoiou a m ão em seu om bro e reconduziu-o para o conforto do castelo.
...
Dezem bro foi em bora e j aneiro trouxe um inverno m ais am eno, o que deu a Mark algum
tem po livre para se dedicar às crianças. Num a m anhã tranquila, ele as levou até o alto de um a das torres voltadas para o lago. Era um lugar am plo, cercado por um a m uralha de pedra quase da altura de Thom as. O garoto ficou em pé sobre ela, olhando para baixo. Erin ia im itá-lo quando o pai a segurou pelo cotovelo.
— Thom as, desce daí! — m andou. — Não te trouxe para brincares com a m orte. Sabes qual é
a distância daqui até o chão, lá em baixo?
Apesar de considerar exagerada aquela preocupação, o garoto obedeceu. Outra vez anim ado,
Mark m ostrou duas espadas de m adeira que escondia sob o casaco de lã.
— Irem os lutar, pai? — perguntou Erin, eufórica. — Sim , m inha princesa. Claro que tua m ãe desconfia do que fazem os aqui em cim a, m as ela
sabe o que penso. Lady Jane quer te educar para ser um a grande senhora, com belos m odos. E eu prefiro que sej as um a grande senhora que saiba se defender!
Mark j ogou um a das espadas para Thom as, que a agarrou no ar.
— Não devias ensinar um andarilho a usar a espada com o um cavaleiro — disse o garoto.
— Conhecim ento nunca é dem ais. Não é o que m estre Dines pensa?
O garoto sorriu. Pensar no Monastério invocava ótim as lem branças. Além disso, sentia falta da com panhia de Dines e Michel.
Com a segunda espada, Mark dem onstrou m ovim entos básicos de ataque e defesa. Fascinada, Erin não perdia nada. O pai, então, entregou-lhe a espada de m adeira e pediu que repetisse tudo. A garota, sem errar, m ostrou que sabia bem m ais do que o cavaleiro im aginava. Ela crescera assistindo a seu treino diário e, com o ele desconfiava, devia praticar os m ovim entos em segredo.
— Agora é tua vez — disse Mark para Thom as.
O garoto tivera oportunidade para m em orizar a sequência de exercícios. Repetiu tudo com certa facilidade. Im pressionado, o cavaleiro achou que j á era hora de fazer um a sim ulação de com bate.
— Só não abusem da força. Não quero ninguém m achucado — recom endou, afastando-se. As crianças, viradas um a de frente para o outra, seguraram as espadas com firm eza.
Erin atacou prim eiro. Ágil, o garoto pulou para a direita, pensando em desequilibrá-la. Ela resistiu, à procura de um ponto fraco no adversário. Certa de que iria acertá-lo, investiu sua força num golpe que pretendia pegá-lo de surpresa. Thom as sim plesm ente j ogou-se no chão, derrubando-a com as pernas. Erin caiu de costas, com um estrondo.
— Perdoa-m e! — pediu o garoto, preocupado em socorrê-la.
Ela dispensou a aj uda e se sentou, m assageando as costas doloridas.
— Preciso aprender a lutar desse j eito.
Ao constatar que a filha estava bem , Mark dirigiu sua desconfiança para o garoto.
— Quem te ensinou a lutar assim ?
Thom as não sabia o que responder. Não queria m entir, m as tam bém não podia entregar o segredo que Dines lhe pedira para guardar.
— Foi aquele abade, não foi? — riu Mark. Ele se sentou no chão, entre as crianças. — Até hoj e, só conheci dois hom ens com dom ínio sobre esse tipo de luta: Dines e Erec.
Um a suspeita cresceu na m ente de Thom as.
— Seu am igo Erec... Ele tam bém estudou no Monastério?
— Não. Ele aprendeu a ler e a escrever com a m ãe. Era um a m ulher que sabia até com o lutar. Im pressionante, não?
A pedra, escondida sob a roupa de Thom as, esquentou sua pele. Num im pulso, ele a pendurara ao pescoço som ente naquela m anhã, antes de descer para o salão principal. Desde a partida do Monastério, m antinha o obj eto sem pre escondido em algum bolso, com receio de usá-lo.
Bruscam ente, o garoto levantou-se para se desviar da atenção que recebia de Mark e Erin. A cabeça estava zonza, o corpo pesava. Olhou para a inacreditável vista do lago e respirou fundo, lutando para m anter a lucidez. A velha sensação gelada e m ortal apossava-se dele. Ouviu Erin cham ando seu nom e, m as não conseguiu responder. Ela se ergueu, m as foi im pedida por Mark de se aproxim ar.
Envolvido pela escuridão, Thom as não conseguiu se m exer. Um a voz clara e profunda ressoou em seus ouvidos.
— Brilho e poder sem eiam m orte por onde passam . O ódio os m ove, seres destruidores de
estrelas. A esperança deve ser protegida até que o Herdeiro chegue.
— A guerra virá a este m undo? — perguntou Mark. — Ela não tardará, apesar da aliança de Savac. — Com o podem os evitar a guerra?
— O cavaleiro negro falhou. O destino dos inocentes está nas m ãos do Herdeiro. — Quem é Savac?
— O inim igo da Sacerdotisa Hannah e do Guardião Moriarty . — Com o vou saber quem ele é?
— Saberás quando o pássaro cruzar a noite de lua cheia. Thom as respirou fundo novam ente. Chacoalhava de frio e a pedra fazia sua pele arder no
ponto em que a tocava. Ele caiu de j oelhos, fraco dem ais, desesperado em evitar o vôm ito. Os braços de Mark am pararam -no, aj udando-o a se sentar, e depois cobriram -no com o casaco de lã que tirou do próprio corpo. Ainda trem endo, Thom as criou coragem de olhar para ele, que o observava com um a expressão indecifrável.
— O que quiseste dizer com essas palavras? — perguntou Erin, assustada. — Que palavras? — m urm urou Thom as.
— Ora, o que acabaste de falar sobre guerra e um tal de Savac. — Eu falei?!
Foi então que Thom as entendeu. Era dele a voz estranha que ouvira.
...
A sensação de enj oo foi sum indo sem pressa. Thom as continuou encostado à m uralha por
quase um a hora. O desespero tom ava conta dele. De esguelha, viu Mark m irando o horizonte. Erin brincava com as m ãos, distraída. O garoto tinha certeza do que iria acontecer. Seria rej eitado por ser estranho, por falar palavras que não pertenciam a ele. Teria de deixar o lar tranquilo que encontrara em Durham . Doía-lhe im aginar o rosto horrorizado da senhora ao descobrir tudo.
O cavaleiro abaixou-se e tocou de leve o braço de Thom as. — Estás m elhor? — perguntou. — Quando com eçaste a falar coisas estranhas? — Desde que era pequeno — disse o m enino, sentindo o olhar am edrontado de Erin. Não
aguentaria por m ais tem po aquela situação. Ele se levantou, tirou o casaco e o devolveu a Mark. — Senhor, prom eto partir de Durham ainda hoj e.
— Por quê?
— Porque sou m aldito! — explodiu. — Não entendes, senhor, que sou diferente? Eu nasci à
m eia-noite, na Noite dos Mortos! Vej o e falo coisas estranhas desde que com ecei a andar. Os andarilhos tinham m edo de m im e m e hostilizavam , dizendo que eu era filho do dem ônio.
Andava de um lado para o outro, agitado. Erin e Mark nunca o tinham visto daquele j eito. — Por que achas que os andarilhos m e deixaram no Monastério? — continuou o garoto,
desesperado. — Porque queriam se ver livres da m aldição que trago com igo. Tive sorte durante os anos que passei com os m onges. As visões deixaram -m e em paz. Mas, antes do m eu últim o aniversário, elas voltaram . Eu estava na m issa quando previ com o seria a terrível sensação de ser atacado por um lupus.
— Por isso deixaste o Monastério? — perguntou o cavaleiro. — Mestre Dines sabia das tuas visões?
— Não, nunca contei nada. Ele m e expulsaria se soubesse.
— Se tivesses falado, ele te diria que tens um talento raro e quase desconhecido.
O garoto parou de andar, estupefato. Erin, de boca aberta, não perdia nenhum detalhe da conversa.
— Tens apenas o azar de viver num a época de ignorância, com um povo infeliz e supersticioso.
— U-Um talento?!
— Um talento que j á foi m uito apreciado pelos poderosos. Dizem que nosso prim eiro rei, Arthur, o criador do reino de Britany a, não saía de seu castelo sem consultar as profecias de seu conselheiro.
— Era um padre? — perguntou Erin.
Mark olhou-a com o se a visse pela prim eira vez. Esquecera-se de sua presença.
— Não exatam ente. Era um tipo de feiticeiro. Um a pessoa que possuía o dom de falar com o lado oculto da vida.
— Thom as pode falar com espíritos?
— Talvez. Não sei de onde vem esse talento. Ele apenas existe. Não é bom nem ruim .
Thom as sentou-se, agora m ais calm o. O cavaleiro dera-lhe m uito em que pensar.
— Senhor, com o posso lidar com isso? — perguntou.
— Gostaria de te aj udar. Não sei m ais nada.
— E que guerra é esta que tanto te am edronta?
— Não posso dizer, pois é um segredo que não m e pertence. Agora, filho, deixa de tolices e esquece esta história de ir em bora. Já está na hora de alm oçarm os, isso sim ! É m elhor descerm os antes que a senhora m ande nos procurar. E quanto a ti, Erin, não com entes com ninguém o que ocorreu aqui. Nem m esm o com tua m ãe.
— Isto é óbvio, m eu pai — sorriu a m enina, estendendo a m ão para Thom as.
...
Janeiro tam bém deixou as terras de Durham , assim com o fevereiro. No m eio de m arço, a prim avera decidiu, enfim , m ostrar seus prim eiros sinais. O tem po m elhorou sensivelm ente. Para Thom as, foram m eses felizes. As visões deram -lhe um a trégua. Mark e Erin não com entaram m ais nada sobre o episódio. Era com o se nunca tivesse acontecido.
Mark levou as crianças outras vezes para a torre, com a ideia fixa de ensiná-las a se defender com o cavaleiros, m as as aulas não aconteciam com o previa. Os velhos golpes que dom inava, em geral, caíam por terra com a agilidade e destreza de Thom as. Erin era um a aluna aplicada e aprendia rápido, tanto os m étodos antigos do pai quanto a luta que Thom as utilizava, com seus golpes inusitados para desequilibrar o adversário.
— Não uses a força, Erin — defendia Thom as. — Se és m ais fraca do que teu inim igo, deves descobrir um a m aneira de vencê-lo. Para atacar, ele usará algum a parte do corpo com o apoio. Encontres esse ponto e o derrube.
Eram horas divertidas. Às vezes, Oz seguia os três até a torre. Ele não crescera m uito.
Continuava sendo o m enor dos cachorros em Durham .
Num a m anhã, ainda nos prim eiros dias de prim avera, Mark e Jane, acom panhados por alguns
guardas, prepararam -se para viaj ar. A senhora estava ansiosa para visitar um a am iga em Bach que tivera um bebê na época do Natal. Thom as e Erin ficariam no castelo, sob os cuidados de Arla.
O garoto despertara com dor de cabeça, a m esm a que o atacara havia tem pos no Monastério.
Ele sentiu um a tristeza im ensa ao ver Jane e os hom ens a alguns m etros do portão que os levaria para fora da fortaleza. Teve m edo de decifrar o que a intuição lhe dizia.
— Senhora! — gritou, correndo alucinado até ela. Preocupada, Jane segurou as rédeas de seu cavalo. O garoto tom ou-lhe um a das m ãos. — Não vás, por favor! — pediu, engolindo a vontade de chorar. — Thom as, é apenas um a viagem curta — explicou ela. — E fica tranquilo quanto à doença.
Levo m eus rem édios, inclusive aquele pó que sem pre m e preparas, e tenho certeza de que m eus am igos não se im portarão em rem over tapetes e tapeçarias no quarto onde pretendem m e acom odar.
Ainda hesitante, o garoto libertou-a. Jane, com suavidade, dobrou-se na sela e deu-lhe um
beij o na testa.
— Fica com Deus — m urm urou ela antes de se afastar.