O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

1 - Bruxa

CAPÍTULO 1

Bruxa

Ano 829 da Era Arthur

Am úsica enchia toda a rua pela m anhã. Casas altas, feitas de m adeira, brigavam por espaço nos

dois lados do cam inho, coladas um as às outras. Eram velhas e suj as, cobertas por telhados de

colm o. A m aior parte da m adeira parecia podre.

O ritm o alegre vinha da praça m ovim entada, onde ficavam as barracas dos com erciantes. Os m oradores de York, curiosos, aproxim avam -se, atraídos pelos sons encantados que Jon extraía das cordas de seu alaúde. E poucos eram os que conseguiam tirar os olhos da m enina de nove anos que dançava logo à frente, agitando no ar pandeiros coloridos. Ela girava com grande habilidade os braços e as pernas, em m ovim entos suaves e cativantes. Os cabelos negros, que desciam cheios de cachos por seus om bros, estavam enfeitados por flores do cam po.

— Quando crescer, esta garota dará um trabalho... — com entou um hom em barrigudo, de olhos lascivos, que não perdia nenhum dos giros de Shannon.

Thom as fechou as sobrancelhas para o hom em . Não entendeu direito o que ele quis dizer, m as, de qualquer form a, não gostou do que ouviu. O m enino, então, avançou sem pressa para a m ultidão, estendendo o chapéu de Jon para ganhar algum as m oedas. A m iséria, porém , era enorm e; m uitos m orriam de fom e. Se não tinham dinheiro nem para com er, quem diria para pagar a apresentação de um grupo m altrapilho de andarilhos. O hom em barrigudo ignorou Thom as, que deu de om bros e continuou, sem se esquecer de afundar o calcanhar no pé descalço do barrigudo.

— Ai, m oleque estúpido! — rosnou ele.

Thom as, apesar de pequeno e m agricela, era ágil e, num segundo, estava do outro lado da m ultidão. Shannon sorria, hipnotizando os presentes. “Ela é m esm o m uito bonita”, suspirou o garoto antes de sentir o olhar furioso de Jon. “Já vou, j á vou!” Ele deu m eia-volta, m as não foi m uito longe.

— Enforcai a bruxa! — berrou alguém .

A m ultidão agitou-se nervosam ente, em purrando Thom as para o chão. O chapéu tom bou de suas m ãos e as m oedas espalharam -se pelo chão. Jon parou de tocar e tentou correr até o m enino, m as havia gente dem ais entre os dois. Shannon sum iu do cam po de visão de Thom as. “As m oedas!”, preocupou-se o garoto enquanto apalpava a terra ao redor. Não conseguiu recuperá-las. Mãos m ais rápidas j á tinham vasculhado o local.

— Jon não m e perdoará — m urm urou baixinho, j á sentindo o chicote em suas costas.

— Morra, filha de Satanás! — gritou outra voz.

Foi então que o m enino entendeu o que estava acontecendo. Alguns hom ens arrastavam um a m ulher idosa, vestida com trapos, que se debatia para fugir.

— É a bruxa de York — explicou um a adolescente com o nariz suj o ao lado de Thom as. Ela m exia nos bolsos da túnica, com um olhar enviesado.

— Ei, devolva-m e as m oedas! — exigiu o m enino.

Nesse m om ento, um novo tum ulto quase o derrubou. A velha conseguira se soltar e corria, escapando de várias m ãos que se colocavam no cam inho para detê-la. Alguém a chutou, e ela, para não cair, agarrou-se às roupas de Thom as. Seus olhos se encontraram . Os dela eram azuis e bondosos. Havia am or naquele ser, um a vontade im ensa de aj udar, de fazer o bem . Seguindo um im pulso, Thom as procurou as m ãos da bruxa e apertou-as contra si. A m ulher sorriu com a boca enrugada e sem dentes.

No m esm o instante, seus olhos se arregalaram , e ela gritou, arrancada à força pelos

perseguidores. Thom as foi em purrado para longe. “Ela não é m á...” As lágrim as vieram , em baralhando-lhe a visão, enquanto ele corria atrás dos carrascos que a levavam para fora das m uralhas de York.

Havia xingam entos, insultos, invocações à j ustiça de Deus e, principalm ente, com entários

sobre os feitiços da m ulher. Ela seria am ante do dem ônio, que se transform ava em um gato preto para visitá-la durante a noite. De dia, podia ser vista rastej ando pela floresta à procura de ervas para preparar poções diabólicas.

Após atravessar um dos im ensos portões de m adeira da cidade, a m ultidão parou para assistir

ao que viria. Thom as deu várias cotoveladas e avançou para a prim eira fila. Com o coração apertado, viu a bruxa, de pulsos am arrados, em cim a de um a carroça velha, diante de um a im ensa árvore averm elhada. Ela não reagia m ais.

— Tu, viúva Couchet, és acusada de bruxaria! — berrou um velho que parecia ter bastante

autoridade sobre o povo. — Tu, com teus poderes dem oníacos, am eaças a vida de todos os hom ens tem entes a Deus!

Couchet ergueu a cabeça repleta de fios brancos e correu o olhar pela m ultidão. Ao descobrir

o m enino, sorriu com doçura para ele. Não tinha m ais m edo da m orte. A um sinal do velho, um a m ulher aproxim ou-se da bruxa e colocou um a corda ao redor de seu pescoço. Depois, a outra ponta foi pendurada no galho m ais resistente da árvore.

— Bruxa m aldita! Reza ao diabo para que ele leve tua alm a danada deste lugar! — gritou o

velho.

— Morte à bruxa! — endossou a m ultidão.

O velho, então, avançou para a carroça. Desesperado, Thom as disparou até ele. — Não podes fazer isso! Ela não é o que dizes! — Mas... O quê?! — surpreendeu-se o velho. Thom as segurou-o pela túnica. — Não podes, entendes? Ela é inocente! As ervas são para curar os doentes, e o gato preto é

só um bichano preguiçoso. Ela não desej a m al a ninguém .

As palavras brotavam na m ente do m enino. Ele não podia entender com o sabia dessas coisas.

Apenas sabia. A surpresa do velho deu lugar à irritação.

— O garoto foi enfeitiçado! — decretou e, dirigindo-se aos dem ais, abriu os braços de form a

dram ática. — Não olhai para o rosto da bruxa!

Num m ovim ento brusco, agarrou o garoto pelas roupas e o levantou no ar. — O espírito m aligno da bruxa dom ina a alm a deste inocente! A raiva cresceu dentro de Thom as. Já não se im portava com m ais nada. Queria tirar sua nova

am iga dali, queria j ustiça. Tentou golpear o velho várias vezes, sem êxito.

— O m enino está com a bruxa — gritou um a voz m asculina. — Enforca-o tam bém ! Pertencia ao hom em barrigudo, que exibia um sorriso m aldoso. De repente, as m ãos soltaram

o garoto. Ele caiu sentado, a tem po de ver Shannon batendo com os punhos nas costas do velho.

— Deixa m eu am igo em paz! —gritava ela.

— Estas crianças pertencem ao diabo! — guinchou o velho ao prendê-la pelos pulsos.

Thom as se pôs em pé num salto. Já se preparava para chutá-lo quando a voz desesperada de Jon o im obilizou. Ele em purrava as pessoas à sua frente e avançava com m uita dificuldade até eles.

— Esperai, por favor! Estas crianças não sabem o que dizem !

— Estas crianças são tuas?

— Sim , m eu senhor — respondeu Jon, trêm ulo, assim que se j ogou de j oelhos diante do velho. — Eu te peço clem ência, senhor. Som os andarilhos, e estas crianças não conhecem os costum es de teu nobre povo. Elas se deixaram levar pela em oção...

— Ele diz a verdade — confirm ou um rapaz no m eio da m ultidão. — Eu o vi tocando na praça. As crianças estavam com ele.

— Sim , é verdade — disse um a m ulher gorda que dera duas m oedas quase sem valor a Thom as.

O velho olhou em volta, adorando cada m inuto de atenção. Na carroça, a bruxa estava apática, de cabeça baixa, contem plando os pés descalços.

Assum indo um ar m isericordioso, o velho dirigiu-se a Jon:

— Se é assim , deves levar estas crianças daqui o m ais rápido possível.

Jon fez m il reverências e, puxando os braços de Thom as e Shannon, arrancou os dois dali em segundos. Rum aram para a floresta.

O m enino olhou para trás, resistindo ao m áxim o. Viu quando o velho deu a ordem para alguém puxar o pangaré atrelado à carroça.

— Tu precisas salvá-la. Ela é inocente!

— Cala-te, pequeno im becil! — rosnou Jon.

— Mas ela é inocente...

O povo continuava a exigir a m orte da viúva Couchet. Agindo im pulsivam ente, Thom as tentou se soltar pela últim a vez. Só percebeu a dor no lado esquerdo do rosto ao cair. A m ão de Jon era pesada.

O silêncio, de repente, dom inou o m undo. Com as pontas dos dedos, Thom as retirou as lágrim as quentes que o im pediam de enxergar a cena j unto ao portão da cidade.

O corpo da bruxa de York balançava, pendurado à grande árvore averm elhada.

...

Thom as não ofereceu m ais resistência. Deixou-se arrastar até o acam pam ento dos andarilhos, na floresta. Shannon ia de cabeça baixa, espiando atentam ente seus m ovim entos.

Eles contornaram um a colina e tom aram um a trilha íngrem e até um a clareira. No local, os carroções dos andarilhos form avam um sem icírculo. Eram todos fechados, com telhados de m adeira, e serviam com o um tipo de casa am bulante. Havia roupas coloridas estendidas em um varal à direita, próxim o a um grupo de cavalos m agricelas que pastava com tranquilidade. Os andarilhos estavam espalhados pelo acam pam ento. À esquerda, dois hom ens treinavam m alabarism o com pequenas bolas. Perto deles, um velho cochilava encostado à roda de um a carroça desbotada enquanto três m ulheres tagarelavam alegrem ente ao seu lado. Os gêm eos, de doze anos, se engalfinhavam num a luta para descobrir quem era o m ais forte.

Um a fogueira fora acesa. Se não estivesse tão perdido nos próprios pensam entos, Thom as

perceberia o cheiro de sopa escapando de um a panela grande e am assada sobre o fogo. Quando os três chegaram , os andarilhos interrom peram o que faziam . A expressão furiosa de Jon e o rosto inchado de Thom as não deixavam dúvidas. O m oleque aprontara um a nova confusão. E desta vez parecia ser algo bem sério.

— O que aconteceu, Jon? — perguntou, aflita, um a das m ulheres. Era Sabina, a andarilha de

rosto redondo e bochechas coradas, agora pálidas de preocupação. Ela usava um vestido com prido e folgado, de cores fortes, que apertava nervosam ente num a das m ãos.

Jon perm itiu que Shannon se afastasse e j ogou Thom as contra o chão de terra. Ignorando

Sabina, foi até um dos carroções para pegar o chicote que usava para controlar os pangarés durante as viagens. Thom as escondeu o rosto entre os braços, à espera da surra. “Desta vez não vou chorar”, m urm urou enquanto ouvia as risadinhas abafadas dos gêm eos. Cerrou os dentes para lidar com a dor que não veio.

— Sai da frente, Sabina! — ordenou Jon, furioso. — Não, m arido, tu não irás tocá-lo! Ele é pequeno e m agro para a idade. Não irá aguentar a

surra que pretendes aplicar com tua ira descontrolada.

— Eu te disse para sair!

Thom as, apavorado, viu Jon levantar o braço para desferir um golpe contra ela. Os andarilhos,

que não perdiam nenhum detalhe, prenderam a respiração. Após alguns segundos de hesitação, ele controlou a raiva e se afastou. Nunca a agredira e não seria daquela vez, por culpa de um garoto ingrato, que m achucaria a m ulher que am ava.

— Não entendes, Sabina... Ele colocou a vida de nossa filha em perigo. E ainda perdeu nosso

dinheiro!

O grupo pareceu chocado. Os gêm eos riram alto. Sabina voltou-se para Thom as e se agachou

perto dele.

— Conta-m e o que aconteceu, filho...

Thom as ia explicar tudo, m as engoliu as palavras. A fúria retornava com força total ao rosto

de Jon. Ele j ogou o chicote longe, quase atingindo o velho que assistia a tudo j unto à carroça.

— Filho?! Com o ousas cham á-lo assim ? Ele não é nosso filho! — despej ou, furioso. — O

nosso m orreu ainda bebê, após dias de febre, nos m eus braços.

Depois girou o rosto para Thom as, cuspindo cada palavra com um prazer indisfarçável. — Teu leite, m ulher, pode ter alim entado este infeliz, m as isso não faz dele m eu filho. Este

aqui é cria daquela ladra, um a m iserável que invadiu nosso acam pam ento há sete anos para roubar com ida.

Os m urm úrios dos andarilhos endossaram as palavras do líder. Elas feriam Thom as m ais do

que se tivesse levado as tão costum eiras surras.

— E o que a ladra trazia no ventre? Este pequeno traste! — disse Jon, apontando para o

m enino. — Aposto com o teu pai foi algum vagabundo, desses com quem nos deparam os todos os dias pelas estradas.

— Já chega, Jon — pediu Sabina.

— Um garoto que nasce na Noite dos Mortos só pode ter um pacto com o diabo. Os andarilhos rem exeram -se. Não gostavam de se lem brar daquela data sinistra que evocava o m edo antigo dos britons por bruxarias.

— Tua m ãe m orreu naquela m esm a noite, de desgosto — continuou o hom em , sorrindo. — Teu pai nunca apareceu para te buscar... Só contaste m esm o com a com paixão de Sabina. Devias ser grato e não cuspir em nossas caras! Shannon poderia ter m orrido hoj e. Só tenho a ela. É m eu único tesouro!

O ódio do líder andarilho crescia na m esm a proporção em que Thom as arrum ava m ais confusão. Às vezes, eram fatos sem im portância, com o na noite em que o m enino derrubara sem querer o prato de com ida sobre a cam isa lim pa de Jon. Em outra oportunidade, deixara cair a antiga harpa no chão, o que fez um a das cordas se arrebentar. Foi surra na certa. A reação m ais violenta, entretanto, ocorrera três sem anas antes, logo depois de Thom as ter dividido o pouco pão que eles guardavam na carroça com um a fam ília de m iseráveis que m endigava na estrada. O chicote fez tantos estragos que o garoto teve febre por dois dias.

Satisfeito com a hum ilhação, Jon resolveu dar o assunto por encerrado. Convocou a filha para ensaiar a nova coreografia que pretendia apresentar durante o torneio do dia seguinte. Antes que Sabina percebesse, Thom as escapuliu para o lugar m ais distante que conhecia naquela região m iserável.

...

York era um a cidade cercada por m uralhas de pedras escuras. Do alto do precipício onde se sentara, Thom as avistou os telhados das casas e algum as ruas. Ao centro, ficava o im pressionante castelo, com seus torreões am eaçadores. No ponto m ais alto, o vento estendia um estandarte verm elho com a im agem de um dragão dourado. Era o sinal da presença do poderoso rei Arnon e de sua corte. O castelo era cercado por um a m uralha im ponente, com pedras pintadas de am arelo, a cor sím bolo da cidade. Um a ponte levadiça o isolava das ruas tortuosas. Vultos cam inhavam sobre os baluartes, guardas a vigiar a m ovim entação que tom ava conta da cidade. O dia seguinte daria início a um torneio que reuniria os m elhores cavaleiros de Britany a em batalhas espetaculares.

O evento atraíra gente de todos os cantos. Com erciantes, nobres, padres, cam poneses, andarilhos, todos queriam aproveitar a ocasião para se divertir e, claro, ganhar dinheiro. Grandes negócios, desde a venda de m ercadorias até acordos que envolviam dotes e casam entos, eram realizados nessas ocasiões. Fora da cidade, na direção oposta à floresta, o vale, outrora tranquilo, dera lugar a um a agitação incrível: paj ens e escudeiros trabalhavam com o form igas, cavalos pastavam , vigiados de perto por cavalariços, pessoas circulavam atrás dos próprios interesses. Artesãos desdobravam -se para m ontar um a arquibancada im ensa de m adeira, que receberia um público barulhento. Logo atrás, as tendas dos cavaleiros, listradas e coloridas, refletiam a luz do sol m uito quente para o com eço daquela tarde de prim avera.

O calor não conseguiu evitar que Thom as se encolhesse sob o im enso blusão cinza. Teve a im pressão de ver um raio cruzar um a noite escura e, em seguida, cham as que devoravam a torre m ais alta do castelo. Piscou e olhou para os pés, protegidos por um par de botas velhas herdadas de Shannon, assim com o sua túnica e a calça com prida, as duas velhas e surradas. Além de m ais velha, a garota era m aior do que ele e perdia roupas com rapidez conform e crescia. “Estou sonhando acordado”, pensou, tentando afastar a estranha im agem que teim ava em ficar na sua m ente. Desviou o olhar para a área atrás das tendas, onde alguns cavaleiros treinavam golpes uns contra os outros.

Instintivam ente, segurou a pequena pedra que trazia pendurada j unto ao peito, presa por um a

corda fina. O garoto preferia m antê-la escondida, apesar de saber que não atrairia a cobiça de ninguém . A pedra era fina e irregular, insignificante em seu tom cinzento, sem vida. Para Thom as, contudo, ela era especial. Sua m ãe usava-a quando invadira o acam pam ento dos andarilhos. Pertencera a ela. Apertou a pedra com m ais força para sentir sua superfície fria e depois respirou profundam ente. Lem brou-se, com tristeza, do livro de capa azul. Ele tam bém viera com sua m ãe.

— Livros são perm itidos apenas aos hom ens de Deus — ensinara-lhe Sabina. — Quem possuir

um desses será punido com a m orte.

Apesar disso, ela o deixava folhear o livro, e Jon, m esm o preocupado, não se opunha

abertam ente. Aos quatro anos, Thom as conseguiu decifrar os sím bolos gravados nas várias folhas am areladas pelo tem po. Descobriu, com prazer, que os sím bolos contavam histórias sobre reinos distantes, dragões ferozes e príncipes coraj osos. Num a noite, entretanto, tudo fora consum ido pela fogueira, resultado de um a brincadeira cruel dos gêm eos.

— Melhor assim ! — com entou Jon, quando os gêm eos im pediram o garoto de salvar seu

tesouro.

Thom as ainda fitava os próprios pés quando sentiu a presença de Sabina bem atrás dele. — Preciso conversar contigo — disse, ofegante após ter subido o cam inho cheio de pedras até

o alto do precipício. — O que Jon disse há pouco não é verdade...

— Que parte não é verdadeira, Sabina? — perguntou Thom as com um a m ágoa crescente que

quase lhe fechava a garganta. — Minha m ãe era um a ladra, todos dizem isso. E tu m esm a m e falaste que não tenho pai, pelo pouco que ela te contou antes de m orrer.

Sabina curvou-se e, com suavidade, prendeu o queixo do garoto, forçando-o a encará-la. — Tua m ãe era j ovem , talvez não tivesse m ais do que vinte anos. Era bonita, apesar de estar

m uito m agra e fraca. Sabes que ela não m e contou nada sobre si, nem sobre a vida que levava. Mas te digo que aquela m ulher passou por m uito sofrim ento. E, se tentou conseguir com ida com os andarilhos, foi por não ter outra saída.

— E Jon a pegou no ato, não foi? Roubando o pão “que alim entaria a pequena Shannon”,

com o ele sem pre faz questão de repetir.

— Vi bondade em tua m ãe, e tam bém m uito do m edo que trazia. Cuidei dela nas horas em

que ficou com igo, até tu nasceres...

“E ela m orrer”, com pletou Thom as, em palavras que só existiam em seus pensam entos.

Culpava-se por estar vivo e sua m ãe, m orta. Crescera escutando os com entários sobre o bebê que nascera m isteriosam ente saudável, na tem ida Noite dos Mortos, enquanto a m ãe definhava.

— Não existe m al em ti, Thom as.

Sabina sacudiu-o com o se procurasse acordá-lo de um pesadelo. O garoto, porém , escapou de

seus braços e desceu correndo o longo cam inho de volta ao acam pam ento. Tinha certeza de que a m ãe adotiva, com suas pernas curtas, dem oraria m uito para alcançá-lo. Fez um a curva e entrou na área m ais densa da floresta. Ia atravessá-la para chegar à clareira no m om ento em que duas m ãos agarraram seu braço direito. O garoto deu um pulo para fugir, m as se desequilibrou e caiu sentado. À sua frente, Shannon riu de sua cara assustada.

— Perdoa-m e — disse ela. — Só queria brincar contigo.

— Pensei que eram os gêm eos. Eles não perderiam a oportunidade de deixar m eu dia ainda m ais feliz.

— Não sei por que m eu pai tem tanta raiva de ti.

Thom as preferiu não pensar m ais no assunto. Ergueu-se e analisou a m enina bonita, pressentindo de onde poderia vir seu próxim o castigo.

— Não deverias estar treinando novos passos de dança com ele?

— Sim e não. Eu disse a ele que m eus pés doíam e que precisava descansar. Fui para o carroção. Quando tive um a chance, escapei. E te digo que foi bem fácil... Oh, Thom as, quero tanto ver os cavaleiros de perto!

— Verás am anhã, quando o torneio com eçar.

— Tu viste as tendas lá de cim a do precipício, não? E todas as pessoas, as dam as com seus criados e os cavaleiros exibindo seus cavalos... — A m enina sorriu. Thom as sabia que não poderia resistir por m uito tem po. — Ninguém sentirá nossa falta.

— Não dará certo, Shannon. Se teu pai...

— Ele não saberá de nada, eu te prom eto. Serem os rápidos!

— Mas...

— O que pode dar errado? Ainda falta m uito para anoitecer. E voltarem os bem antes do j antar.

O garoto tentou um a últim a vez, apesar de j á ter aceitado a nova travessura.

— Não acho que sej a um a boa ideia...

— Tens m edo, não é? — provocou a m enina, sem paciência com a aparente indecisão dele. — Pensei que tu fosses m eu am igo!

Se ela ia se m eter em encrenca, era m elhor contar com a aj uda de um cúm plice. Quanto a Jon, o garoto tinha certeza de que nada que o hom em lhe dissesse naquele dia poderia ser pior do que aquilo que ouvira. Ao im aginar o chicote atingindo seu corpo, o pequeno andarilho estrem eceu. “É o preço a se pagar por um pouco de aventura”, concluiu antes de pegar na m ão da am iga para acom panhá-la até York.

...

O m elhor cam inho era atravessar prim eiro York, entrando pelo portão sul, por onde as crianças tinham passado com a m ultidão pela m anhã. Para Thom as, foi m uito difícil enfrentar a árvore averm elhada. O corpo da viúva Couchet ainda balançava, pendurado no galho. Shannon cobriu os olhos do garoto e o em purrou depressa para a cidade.

Atingiram o lado norte após cruzar as ruas apinhadas de gente e alcançar o im enso portão de ferro. Além dele, um a antiga ponte de pedras e m adeira era a única passagem sobre um rio de águas barrentas. A m enina suspirou, ansiosa. Já dava para avistar a arquibancada de m adeira.

O ar abafado tornou-se ainda pior com o sol quente. Shannon ia à frente, guiando Thom as entre dezenas de pessoas, carroças e anim ais que tom avam a ponte naquele m om ento. De repente, puxou-o para a esquerda, evitando que dois porcos o atropelassem .

— Meus porcos! — gritava um a m ulher, presa entre o vai e vem de pessoas. — Alguém segure m eus porcos!

Para continuar avançando, ela acertou sem querer um a cotovelada em um a adolescente. Esta

perdeu o equilíbrio e soltou as galinhas que carregava pelas patas. Foi o suficiente para voarem penas em todas as direções. Um grupo barulhento de cam poneses apareceu pela direita, esprem endo Shannon e Thom as contra a m ureta baixa.

— Cuidado ou irás cair no rio — avisou a m enina após apertar-lhe a m ão com m ais força. Os dedos de Thom as doeram , m as ele não se queixou. Queria chegar ao final da ponte o

quanto antes. A barulheira era infernal. Um garoto alto, ao lado dele, tropeçou e quase caiu em cim a de Shannon.

A situação, de súbito, tornou-se pior.

— Deixai o arcebispo De Angelis passar! — berrou um guarda que vinha a cavalo no sentido

contrário.

Com um chicote, acertava quem ousasse ficar em seu cam inho. O pânico aum entou o caos.

Quando o hom em passou, Thom as foi j ogado sem querer para a frente. Seus cotovelos dim inuíram o im pacto da queda, o que protegeu o rosto contra o piso. Rapidam ente, o m enino colocou-se de pé, bem a tem po de ver as patas de dois cavalos brancos, assustados com a aparição repentina, girarem sobre sua cabeça. Hipnotizado pela cena, ele não se m exeu. Os anim ais conduziam um a reluzente carruagem negra e fechada; o cocheiro não dem orou a controlá-los. Ia atropelar Thom as se um puxão não o arrancasse da m orte certa.

A carruagem voltou a avançar com dificuldade pela m ultidão e, a poucos passos de Thom as,

novam ente foi obrigada a parar. Agora era a vez de os porcos atrapalharem a passagem . Foi então que o m enino viu o passageiro atrás do vidro das j anelas. Seus olhos escuros e poderosos corriam de pessoa para pessoa, ao m esm o tem po que pareciam não notar ninguém .

O m enino não foi capaz de desviar o olhar daquela criatura. Ela lhe inspirava um m isto de

pânico e ódio, um sentim ento que não entendia. Do nada, um a dor violenta acertou-o. Suas m ãos ardiam em cham as.

Desesperado, o pequeno andarilho m ergulhou na escuridão.

...

— Estás m elhor? — perguntou Shannon, preocupada. Thom as ergueu as pálpebras e dem orou a se acostum ar com a claridade do dia, que lhe

parecia intensa dem ais. Estava longe da ponte, deitado à som bra de um a árvore. E não havia nenhum a m arca de queim adura em suas m ãos.

— Para m im , ele parece m uito bem — disse um a voz rouca à esquerda. Thom as reconheceu o garoto alto que, havia pouco, quase caíra em cim a de Shannon. Ele

devia ter uns dez anos. Os cabelos castanho-claros estavam presos num rabo de cavalo j unto ao pescoço. O rosto tinha traços suaves, bem -feitos. O nariz era fino, o que realçava os olhos castanhos. Ele usava roupas boas e caras.

— Se não fosse por m im , estarias em pedaços! — garantiu o garoto com um sorriso. Fora ele

quem , agilm ente, livrara Thom as de ser esm agado pelos cavalos. — Agora devo ir. Preciso pensar num a boa desculpa para j ustificar m inha dem ora.

— Nós te agradecem os, rapaz — disse a m enina com um sorriso adorável.

— Reza por m im ! Meu senhor é um suj eito bem nervoso... — disse, rindo, enquanto se afastava.

— Estás m elhor? — repetiu Shannon. — O que te deu, afinal?

— Viste o hom em dentro da carruagem ? — perguntou Thom as, sentando-se devagar. A cabeça ainda doía.

— Todo m undo viu! Ele ficou lá, espiando a confusão que seus hom ens aprontaram , divertindo-se m uito com nossa desgraça. Sabe quem é?

— Não.

— O garoto m e contou que é o tem ido arcebispo Hugues De Angelis.

— Esse arcebispo... Ele m e viu?

— Ver-te? Ora, Thom as, ele nem sabe que existim os!

O tum ulto durara segundos que, para o garoto, pareceram horas. Após a dona dos porcos retirá-los do m eio da ponte, o cocheiro conduzira a carruagem com a m aior velocidade possível para dentro da cidade.

O garoto, pensativo, encostou a cabeça contra o tronco da árvore. Então, resolveu contar o que som ente ele vira.

— Senti m inhas m ãos em cham as... Mas não aconteceu nada, não é? Achas que sou louco?

— Não, não acho — respondeu Shannon, escolhendo as palavras. — Acho que és diferente.

— E isso é ruim ?

— Não sei. Às vezes teu com portam ento m e assusta, e não sei com o te aj udar.

Thom as baixou a cabeça. Apenas um idiota poderia ter pesadelos tão m alucos quanto os dele. A m enina sorriu.

— Não penses nisso agora. Viem os aqui para ver os cavaleiros, lem bras?

Ela apontou para o cam po aberto, tom ado por hom ens e seus cavalos, e para as tendas que, àquela distância, pareciam pontos m inúsculos.

...

Shannon ficou fascinada ao assistir aos vários cavaleiros dem onstrando seus m elhores golpes. Alguns estavam a cavalo, acertando alvos de m adeira. Outros brigavam entre si, a pé. Muitos riam , com o se não passasse de pura brincadeira. Um ou outro provocava os adversários, num a tática que pretendia deixá-los ainda m ais nervosos para o dia do torneio. Thom as anotava m entalm ente cada detalhe: das pesadas arm aduras de m etal até os m ovim entos de cada guerreiro. “Com o podem ser ágeis com todo aquele peso?”, raciocinava, intrigado. Os hom ens eram rápidos, equilibrando o corpo e m edindo habilm ente a força de cada golpe. As crianças perm aneceram m uito tem po acom panhando o treinam ento.

— Nunca entrei num a tenda antes... — com eçou Shannon. — O que achas que tem lá dentro?

— Encrenca! — respondeu prontam ente o garoto.

— Pareces m inha m ãe falando.

Com um beicinho, ela largou o am igo para tom ar a direção das tendas.

— É perigoso, Shannon.

— Se queres ficar, fica. Eu vou. Não tem perigo. Os cavaleiros vão treinar a tarde inteira.

Thom as olhou de novo para os cavaleiros. “É, ela está certa. Eles devem dem orar...” Alcançou-a em segundos. Com cautela, os dois se aproxim aram de um a tenda branca e azul. À frente, um estandarte fincado no chão trazia um a rosa prateada. Um guarda, distraído, fum ava um cigarro de palha. As crianças passaram rapidam ente por ele e entraram .

O local, im enso, apresentava um tom m aj estoso. Havia poucos m óveis, m as eles traziam

detalhes em ouro esculpidos na m adeira, o que revelava a riqueza do proprietário. A um canto, um a cam a de m adeira escura exibia um lençol de seda branco. Havia alm ofadas sobre ele. Ao lado, um a côm oda guardava várias peças de roupas caras. Sobre ela, descansava um a bacia grande e um j arro, am bos de ouro. As crianças, m aravilhadas com tudo, chegaram perto da cam a. Um punhal com cabo de m arfim , j unto a um escudo, estava sobre o lençol.

— Onde diabos está m eu escudeiro? — gritou a voz de um hom em no lado de fora da tenda. Shannon e Thom as, assustados, entreolharam -se. — Onde se m eteu aquele garoto irresponsável? — continuou a voz, am eaçadoram ente m ais

próxim a.

Não havia tem po a perder. O garoto em purrou Shannon para debaixo da cam a, j ogando-se

em seguida à sua esquerda. No m esm o instante, um cavaleiro enorm e apareceu, pisando pesadam ente os tapetes bordados. Largou a espada atrás de um baú e atirou o elm o perto da cam a, quase em cim a do rosto de Thom as. O m enino descobriu, então, um a cara verm elha e perigosa, coroada por fios curtos, espetados e ruivos. O nariz gordo e largo era desproporcional ao queixo quadrado. Logo atrás dele, apareceu um j ovem paj em , m uito nervoso.

— Perm ita-m e te aj udar, senhor.

— Onde está m eu escudeiro? O lugar dele é com igo, aprendendo com m eu treinam ento, e

não batendo perna pela cidade — rosnou o cavaleiro. Perm itiu que o paj em lhe tirasse a longa cota de m alha, várias placas m etálicas am arradas ao corpo, luvas, um resistente gibão de couro e, por fim , um a cam isa de linho.

Thom as surpreendeu-se com a quantidade de coisas que podiam existir entre um cavaleiro e a

arm adura. O hom em ficou nu da cintura para cim a. Seu corpo era peludo, coberto de fios tão ruivos quanto os cabelos. Fazendo barulho, sentou-se na cam a para que o paj em pudesse retirar as esporas.

O pior aconteceu. Um dos pés, calçado por um a resistente bota de couro escuro, atingiu a m ão

de Shannon. Ela não conteve um grito de dor. De um salto, o cavaleiro se pôs em pé. A parte inferior da arm adura, porém , pesou-lhe de form a desigual, o que lhe tirou o equilíbrio. Thom as saiu voando de baixo da cam a, puxando Shannon com rapidez. Viu pelo canto do olho o m om ento em que o cavaleiro caiu de quatro no chão, com a boca escancarada.

— Malditos ladrões! — berrou.

Faltava pouco para cruzar a abertura da tenda. Foi nesse instante que o paj em chutou as

pernas de Thom as, derrubou-o e j ogou seu corpo sobre ele para im obilizá-lo. Shannon tam bém não foi m uito longe. Alertado pelos gritos do cavaleiro, o guarda conseguiu segurá-la.

Com bastante esforço, o cavaleiro levantou-se. Thom as foi arrastado para fora, j unto de

Shannon. O cavaleiro, espum ando em fúria, tam bém saiu da tenda.

— Im becil, o que fazias aí? Dorm ias? — vociferou para o guarda. Apavorado, o guarda desviou o olhar para o chão, tem endo o pior. O m au hum or de seu am o

não se detinha em palavras rudes. Shannon, ao perceber que ele trem ia, aproveitou a oportunidade. Seus dentinhos pontiagudos agarraram -lhe com vontade a m ão, que autom aticam ente a libertou. Ágil, ela com eçou a correr.

— Pegai a m aldita criança! — m andou o cavaleiro, girando os braços no ar.

Shannon não se afastou m uito. Sabina, desesperada, vinha até ela. Thom as sentiu o coração na garganta. Mãe e filha abraçaram -se.

— Minha espada! Onde está m inha espada?

— Para que queres tua espada, sr. De Larc? — perguntou um a voz conhecida.

No lado oposto ao de Thom as, o garoto elegante que lhe salvara a vida cam inhava tranquilam ente até o grupo.

— Quero que pegues m inha espada! — ordenou-lhe o cavaleiro. — Afinal, és ou não és m eu escudeiro?

Rouen De Larc era um dos hom ens m ais poderosos do reino. Guerreiro coraj oso e cam peão do rei, era tem ido pelo gênio endiabrado e pela espada im placável.

— Pretendes usar tua nobre espada contra esta gente? — duvidou o garoto. Seus olhos divertiam -se com a situação.

— Deves m e obedecer, Vince De Angelis! Teu tio m e confiou tua educação e tu não podes...

— Questionar tuas ordens? Ora, m eu caro senhor, só gostaria de entender o que m ove tua atitude — argum entou o garoto, irônico. — Sabes, m inha educação de cavaleiro deve ser com pleta. Para isso, preciso entender cada detalhe à m inha volta.

Preocupada, Sabina olhava para Thom as, preso pelas m ãos do paj em . Ao notar que o garoto recém -chegado parecia ganhar tem po, ela deixou Shannon para se aj oelhar diante de Rouen De Larc.

— Senhor, eu só peço piedade!

Ao se virar, Rouen quase trom bou com a m ulher e, por um triz, não perdeu outra vez o equilíbrio. Vince cobriu a boca com um a das m ãos para abafar um a risada. Foi o suficiente para atiçar o tem peram ento violento do cavaleiro ruivo.

— Guarda! — gritou. — Vai buscar m inha espada!

O guarda disparou para o interior da tenda. Sabina desesperou-se ainda m ais e quase agarrou as pernas de Rouen para detê-lo.

— Meu senhor, por favor, tenha piedade! — im plorou ela, chorando.

Thom as viu a m orte nos olhos de Rouen. Sabina, com sua teim osia, m orreria j unto com ele. Shannon, a alguns m etros de distância, teria algum a chance se fugisse naquele m inuto, m as a garota não saía do lugar. “Tudo culpa m inha”, dizia seu rosto transtornado. Na tenda, o guarda ainda procurava pela espada.

— Talvez queira usar a m inha espada, sr. De Larc... — disse um a voz forte atrás de Thom as.

— Ora, Mark De Durham , não devias te m eter em assuntos que não te dizem respeito! — dispensou o enfurecido Rouen.

A situação ridícula parecia não ter fim . Para o cavaleiro, cortar algum as cabeças era a m elhor solução para qualquer problem a. E aquele estava ficando m uito com plicado para a sua esquentada cabeça ruiva.

— Se m e perdoas a franqueza, o j ovem sr. De Angelis está correto — continuou o outro cavaleiro. — Um a espada m agnífica com o a tua pertence à glória de nosso rei, para com bater nossos inim igos.

Thom as só conseguiu enxergar Mark De Durham quando esse passou à sua frente. Montado em um im ponente cavalo negro, o hom em gastara horas treinando em cam po aberto, com o provava sua arm adura salpicada de barro. A cabeça, sem o elm o, m ostrava um rosto duro, m arcado por m uitas batalhas. Mark era calvo, m as havia fios brancos e dourados cortados rente às orelhas.

— Dem onstras m uito interesse por estes ladrões — com entou Rouen, forçando um a calm a

aparente para enganar o eterno rival.

— E o que eles roubaram ? — perguntou Mark. O cavaleiro ruivo virou-se para o escudeiro. Vince parecia m ais interessado no voo de dois

pássaros que brincavam , alheios a tudo, entre os galhos de um a árvore ao fundo da tenda. Para piorar, o guarda não dava sinais de ter encontrado a espada.

— Se te im portas tanto com eles... — gritou Rouen para Mark. — Então que fiquem contigo! Neste instante, o guarda, sorridente, apareceu com a arm a. Com um pontapé, Rouen

em purrou-o e retornou para a tenda. O paj em soltou Thom as e correu atrás do am o. Vince sorriu para Shannon, apavorada dem ais para agradecer.

— Devo auxiliar m eu nobre professor — lam entou o garoto, entediado. — Eu teria o m aior prazer em treiná-lo, sr. De Angelis — disse Mark, fazendo um a reverência

com a cabeça para o escudeiro. Ou m elhor, para o sobrinho do arcebispo Hugues De Angelis.

— Meu tio não gosta de ti, sr. De Durham — respondeu o garoto, dando de om bros. — Um a

pena! Para m im , és o m elhor guerreiro do reino, apesar de estares velho. Mas o serás até o rei Arnon m e nom ear cavaleiro. Então, desse dia em diante, eu serei o m elhor.

Despreocupado, o garoto tam bém entrou na tenda. Sabina abraçou Thom as com m edo de que

o m enino escapasse outra vez.

— Sai daqui o m ais rápido possível, andarilha — sugeriu Mark. — Rouen De Larc não tem

piedade no coração. Há quem acredite que tam pouco tenha coração.

Sem esperar qualquer com entário ou agradecim ento, deu m eia-volta e sum iu de vista.