O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
1 - Sinais de tempestade
CAPÍTULO 1
Sinais de tempestade
Ano 834 da Era Arthur
Alguns dias após a m orte de Lady Jane, Thom as e Erin descobriram que teriam um professor.
Irm ão Tenorius, tão sisudo quanto Arla, chegara carregando m alas num dia claro, sem nuvens
no céu. Ele devia ter m ais de trinta anos, era m agro e ossudo. O garoto j á o conhecia do Monastério, onde o m onge trabalhava com o copista. Entretanto, não se lem brava de ter trocado m ais de duas palavras com ele.
As aulas eram bem diferentes daquelas que tivera com m estre Dines. As crianças tinham poucos livros à disposição e não contavam com as pedras de energia, um a tecnologia restrita ao salão subterrâneo e secreto. Apesar destas lim itações, as aulas conquistaram os alunos. Tenorius era inteligente e sabia com o estim ular sua curiosidade. Claro que o conhecim ento de Erin era bastante lim itado, principalm ente em com paração a Thom as. Mas a m enina aprendia depressa, para satisfação do m onge. E, quando ela descobriu que podia se dedicar à m atem ática e à física, decidiu abandonar definitivam ente os bordados que Arla insistia em ensiná-la.
Parte do dia a dia das crianças era ocupada pelas aulas. Havia tem po livre para brincar e, com certeza, para o treinam ento no alto da torre. Às vezes, Mark acom panhava-os. Ainda não superara totalm ente a m orte precoce da esposa. Era difícil para ele m anter o interesse por algum a atividade. Estava sem pre em m ovim ento, andando para cim a e para baixo em seus dom ínios.
Duas vezes por sem ana, Thom as escapulia secretam ente para a Praia dos Pelicanos. Hannah cum pria a prom essa de ensiná-lo a lidar com as estranhas m anifestações que o atorm entavam desde pequeno.
— Elas estão fora de controle agora porque vives a fase da puberdade — explicou o hologram a, na segunda vez em que o encontrara. — A adolescência é um processo de transform ação. Com o és m ais sensível, ele se torna m ais intenso e doloroso.
A recom endação era para que o m enino controlasse a ansiedade e buscasse concentração. Thom as passou a aprender técnicas de m editação e exercícios de relaxam ento, o que era um a verdadeira tortura para ele. As idas à praia só ficaram m ais interessantes quando conseguiu que Hannah concordasse em lhe m ostrar novas técnicas de luta.
Às vezes, Erin acom panhava-o, apesar de o hologram a ser abertam ente contra sua presença. Thom as, entretanto, descobria que o program a não era tão difícil assim de se dobrar. Se era proj etado para ter as reações da Hannah original, então talvez a feiticeira não fosse um a m ulher tão inflexível.
A alegria do povo de Durham foi retornando aos poucos. Afinal, a m elancolia não fazia parte de sua natureza. Até Mark m ostrava-se m enos deprim ido. Voltara a falar alto e a m exer nas panelas da cozinha, resm ungando o tem po todo quando não conseguia o que queria. Erin intercalava m om entos alegres com outros tristes. Às vezes, Thom as flagrava-a chorando baixinho. Nestas ocasiões, deixava a tim idez de lado e abraçava-a. Sabia o quanto a garota precisava dele. E confortá-la era m ais im portante do que qualquer coisa.
Quando o final de outubro chegou, Thom as passou a ficar inquieto. Nem as técnicas de m editação de Hannah aj udaram -no a relaxar.
O dia 31 com eçou de m aneira inesperada. Logo que acordou, o garoto recebeu de Erin um
presente.
— Feliz aniversário! — exclam ou ela, com um sorriso ansioso. O m enino nem sabia com o reagir. Nunca, em treze anos, ganhara um presente naquele dia
tão agourento.
— Abre! — encoraj ou a garota.
Ele desenrolou o tecido que envolvia um a corrente de ouro. — Erin, tu não podes...
— Pertenceu à m inha m ãe. Tenho certeza de que ela gostaria que ficasse contigo. Agora,
em presta-m e aquela pedra esquisita.
Habilm ente, Erin substituiu o cordão de couro pela corrente, pendurando-a no pescoço do
garoto. Thom as sorriu, ainda desconcertado.
No final da m anhã, nuvens escuras invadiram o céu, prom etendo um a tem pestade que só veio
no início da noite. As crianças passaram a tarde com o irm ão Tenorius, num a aula que pareceu interm inável a Thom as. Olhava a todo instante pela j anela, com o se esperasse que algo acontecesse.
O povo de Durham era tão supersticioso quanto os outros habitantes de Britany a. O velho
padre que m orava na cidade celebrou um a m issa especial, com o obj etivo de fortalecer a vontade de seu rebanho contra o m al que dom inava a Noite dos Mortos. Erin e Thom as não com pareceram , assim com o Mark, ocupado dem ais em vistoriar suas terras para detectar possíveis prej uízos trazidos pela tem pestade.
Raios cruzavam o céu quando Thom as escapuliu da cam a, antes da m eia-noite, louco para
respirar ar puro. Vestiu-se sem fazer barulho para não acordar Oz. A ansiedade queim ava-lhe o estôm ago.
Foi até o alto de sua torre preferida. A chuva caiu pesadam ente sobre ele, reforçada por
raj adas de vento, m as o garoto não se im portou. Um raio cortou o vazio, sem assustá-lo. Thom as sabia que era m eia-noite.
Ele respirou fundo, pensando em Alix e Erec. Exatam ente um ano antes, im plorava por
inform ações sobre seus pais. Desde então, tivera estranhas visões, conhecera Mark e sua fam ília, as ruínas de Sutter e, finalm ente, Hannah. Thom as sorriu. Nunca, em seus sonhos m ais m alucos, pudera adivinhar que encontraria a avó em form a de hologram a. E não era um a m ulher idosa, de cabelos brancos, m as um a j ovem atrevida, com o a verdadeira Hannah fora na j uventude. Ele lam entou a m orte daquela m ulher especial, atingida por um raio com o o que surgira havia pouco. Adoraria tê-la conhecido.
Thom as ficou sob a chuva durante m uito tem po, até que as nuvens resolveram partir para trás
das m ontanhas. Quando desceu, não tom ou o corredor até o quarto. Saiu do prédio principal, atravessando o cam inho de pedra que conduzia à entrada do castelo. O ar da m adrugada estava gelado, o que lhe fez bem . A inquietação abandonara-o.
Desistiu de voltar para o quarto ao ouvir o som de cascos de cavalos. Protegido pela escuridão,
esgueirou-se pelo j ardim para descobrir quem eram os três recém -chegados. Parado no m eio do pátio, Mark recebia-os. O garoto tentou escutar o que o cavaleiro e um dos visitantes, o único que descera da sela, diziam em voz baixa, m as não entendeu as palavras.
A um sinal de Mark, os outros dois hom ens guiaram os cavalos para o estábulo. Thom as estrem eceu. O visitante que sobrara e o cavaleiro vinham em sua direção. Rapidam ente, escondeu-se atrás de um grupo de arbustos. Os dois hom ens passaram por ele, sem trocar um a palavra. Iam para a cozinha. Assim que desapareceram , o garoto seguiu-os, colando-se ao batente da porta, do lado de fora.
— És m aluco em vir até aqui, m eu am igo, com esta tem pestade — dizia a voz forte de Mark.
— Precisava te ver — respondeu outra voz que Thom as não reconheceu. — Aproveitei m inha viagem às Terras Erm as para passar prim eiro pela Ilha Média. Minha com itiva está a cam inho de casa. Vim apenas com dois guardas para não despertar atenção.
— Vou preparar um chá quente. Há pão fresco, queij o e frutas sobre a m esa. E ainda este bolo divino que sobrou do j antar.
O visitante riu, satisfeito.
— Estou fam into! Viem os cavalgando desde cedo, m al param os para o alm oço.
— Faz anos que não vinhas a Durham , não é m esm o?
— Lem bras de quando éram os crianças? Eu sem pre passava os verões nesta terra m aravilhosa.
— E eu não perdia um a oportunidade de te visitar na Grande Ilha.
— Tem pos inocentes, Mark. E eu, o caçula de três irm ãos, herdei um a responsabilidade que não era destinada a m im ...
— Muitos j ovens m orreram nas Terras Erm as, defendendo Britany a. Meus irm ãos tam bém foram vítim as dos bárbaros, com o os teus.
— A paz saiu vitoriosa, afinal, m as pagam os um preço alto dem ais por ela. Ainda hoj e enfrento m inha própria consciência.
Os dois pararam de falar por alguns m inutos. Foi o visitante quem quebrou o silêncio.
— Estou para vir até aqui desde a m orte de Lady Jane. Preocupo-m e contigo. Não participaste do Torneio da Prim avera.
— Já estou velho. Não tenho m ais ânim o para participar dessas coisas.
— Velho, tu? — brincou o outro. — Im agino-te, com m ais de cem anos, ainda em punhando um a espada e desafiando o inim igo, enquanto tua outra m ão se apoia num a bengala. Por Deus, Mark, tu és a criatura m ais briguenta que j á conheci!
— Um velho de bengala e careca — divertiu-se o cavaleiro. — Estou bem perto disso. Já tenho quase cinquenta anos!
— Três m otivos m e trazem a Durham , na verdade. O prim eiro é saber com o estás.
— Triste, m eu am igo, e com m uitas saudades dela — m urm urou o cavaleiro. — Os nobres casam -se m ovidos por alianças políticas e econôm icas. No m eu caso, tive o privilégio de ganhar o am or de um a m ulher especial.
— Lady Jane era um a pessoa adorável. Sei com o te sentes. Tam bém perdi pessoas que m e eram queridas. O segundo m otivo tem a ver com um a nova aliança política.
— Queres dizer... Um novo casam ento?!
— Sim , sabes que decidir estas alianças entre os nobres é um a das m inhas obrigações, por m ais que eu deteste fazer isso.
— Queres que eu case de novo?
— Exatam ente.
— Não, não e não! Com os diabos, Arnon, não pretendo colocar outra m ulher na m esm a
cam a que foi de Jane!
Arnon, o todo-poderoso rei de Britany a, estava ali, na cozinha do castelo de Durham , a
quilôm etros de sua terra, Brusk! Thom as nunca suspeitara que o soberano e Mark fossem tão am igos. Só que isto não era m otivo para o pânico que ganhava espaço em seu espírito. Ele estava a apenas alguns passos do pai de Alix De Brusk!
Arnon esperou tranquilam ente que o cavaleiro enum erasse todos os m otivos que o levavam a
perm anecer viúvo.
— Ela se cham a Claire e m ora nas Terras Erm as. É filha de Francis De Roths. — E por que eu? Não existe nenhum j ovem nobre que precise de um a esposa? Quantos anos
tem esta garota?
— É dois anos m ais velha do que tua filha.
— O quê? Estás m aluco, com certeza!
— Preciso de ti, Mark — retrucou Arnon, com firm eza. — O terceiro m otivo está relacionado
a esta aliança política. Sabes que m inha posição é frágil j unto aos senhores das Terras Erm as e que Francis é um dos m eus poucos aliados.
— Este casam ento te fortaleceria.
— Acredito que...
Um espirro de Thom as denunciou seu esconderij o. A roupa encharcada fazia que trem esse de
frio. O garoto nem se m oveu. Não adiantava fugir de Mark. Bastaram alguns segundos para que o cavaleiro viesse buscá-lo, em purrasse-o gentilm ente para o calor aconchegante da cozinha e servisse-lhe um a caneca de chá quente.
Thom as fitou o conteúdo da caneca que apertava entre as m ãos. Não tinha coragem de
encarar o avô.
— Quem é este? — perguntou Arnon. O garoto sentiu seu olhar, m as perm aneceu im óvel.
Ainda estava em pé, a centím etros da m esa que ele ocupava.
— Seu nom e é Thom as — apresentou Mark. — Ele está sob m inha proteção. — A Noite dos Mortos não é a ocasião ideal para ficares peram bulando por aí — zom bou o
rei. — Devias estar na cam a com o um bom m enino.
— Um bom m enino? Ah, esta é interessante! — sorriu o cavaleiro, espalhando com a m ão os
cabelos m olhados do garoto. — Thom as não é um a criança com um .
Mark conduziu-o até a m esa, obrigando-o a se sentar de frente para o rei que agora o estudava
com curiosidade.
— Ele parece bem com um para m im — disse Arnon. — Tens língua, garoto? Thom as desviou lentam ente o olhar da caneca para Arnon. Sentia o rosto quente, apesar do
frio da noite. Um a raiva inexplicável tom ava conta dele. Não desej ava ser alvo de piadas naquele m om ento tão difícil. Queria o im possível. Queria receber o carinho da prim eira pessoa de sua fam ília que conhecia na vida. Não havia m ais ninguém tão próxim o, tão ligado a ele no m undo. Reconheceu traços de Alix no rosto envelhecido do hom em . Os m esm os olhos grandes e negros, os m esm os cabelos escuros, agora tom ados por inúm eros fios brancos. Arnon sorria, irônico. Para o rei, ele não passava de um garoto irresponsável que vagava pela m adrugada para escutar conversas atrás da porta.
— Tenho língua e bons ouvidos — disse Thom as, entre dentes.
— Palavra, Mark! Onde encontraste este garoto? — perguntou Arnon ao descobrir a fúria em seus olhos.
— Nas Terras Erm as. Um am igo m e pediu que tom asse conta dele. Acreditarias se te contasse que Thom as m atou vários lupus, sozinho, usando apenas flechas e um a pequena adaga?
O rei abriu a boca, pasm o.
— Qual é tua idade? — quis saber.
— Treze.
Mark, que puxava um a cadeira para se sentar, voltou-se, surpreso, para Thom as. Pela sua cara, o garoto podia apostar que ele acabara de se lem brar do seu aniversário.
— E quantos lupus m ataste?
— Não contei.
— Enfrentar aquelas criaturas j á é um a proeza e tanto — com entou o rei, sorrindo. Depois, dirigiu-se a Mark. — Ainda há m uito o que conversar. E quero partir antes do dia nascer. Sabes que não desej o ser reconhecido.
O cavaleiro deu um tapinha cam arada no braço do garoto.
— É m elhor que tu vás direto para a cam a, Tom .
Este deixou o banco e saiu da cozinha.
O coração doía de raiva e frustração.