O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
Prólogo
Hannah
Ano 794 da Era Arthur
B ritany a era m uito diferente do que Hannah im aginara. Antes de ir para aquele m undo distante e
atrasado, estudara cuidadosam ente todo o m aterial que os guardiões tinham reunido após anos e
anos de observação. Mas, desde que chegara, percebera que a realidade ultrapassava suas previsões. Sua m aior dificuldade ainda era o idiom a. O m inúsculo tradutor sim ultâneo, instalado sob seu ouvido, não estava com pleto nem atualizado. Hannah suspirou e tentou novam ente entender o que o com erciante lhe dizia enquanto sinalizava com duas m oedas estendidas sobre a palm a da m ão. “Ah, sim , ele quer m ais dinheiro.” Entregou-lhe outra m oeda. A j ovem pegou as frutas que com prara e desceu a rua, passando pelas barracas coloridas do m ercado.
Brusk intrigava-a. A cidade m ais im portante do reino ostentava um a riqueza que Hannah não encontrara em nenhum lugar da Grande Ilha. As construções conservadas destacavam -se nas ruas lim pas e cheias de gente. A j ovem ainda não vira nenhum m endigo, presença inevitável nas estradas e nos vilarej os que j á percorrera.
Ficara fascinada com a beleza da Grande Ilha, com suas florestas extensas e m ontanhas inexploradas. O m ar, que conhecera havia alguns dias, após deixar as Terras Erm as, tam bém a conquistara. “Com o podem cham ar este planeta azul de Terra, com toda esta água incrível cobrindo sua superfície?”
A j ovem não tinha um destino definido. Viera até Britany a seguindo um sonho estranho, desacreditado pelos outros sacerdotes. Agora estava sozinha. Todos haviam sido m ortos. Hannah pensou em Tolkien, o últim o dos guardiões. Sabia que o rapaz tam bém carregava um a responsabilidade im ensa. Talvez não conseguisse cum prir a m issão que ela lhe confiara, pois a liberdade em seu m undo fora acorrentada pelo Novo Conselho. E ainda havia os nergals. A j ovem estrem eceu ao pensar na am eaça distante, um a prom essa de extinção para tantas raças.
Após entrar num a rua estreita e deserta, franziu o nariz para as paredes que a cercavam , sem reconhecer o cam inho. Tom ara a direção errada para a estalagem . Já ia dar m eia-volta quando ouviu risadas infantis vindas do alto. Dois m eninos brincavam em cim a de um dos telhados.
— Enfrenta-m e, cavaleiro! — gritou um deles, em punhando um pedaço de m adeira que fazia o papel de um a espada.
— Sou o grande senhor De Durham . Não podes m e derrotar! — respondeu o outro, um loirinho que pareceu a Hannah ser bem travesso.
O prim eiro m enino avançou com a espada de m entira, tocando o am igo na altura da cintura.
— Estás m orto, cavaleiro! — com em orou.
Talvez não tivesse m ais do que onze ou doze anos. Era m oreno, com cabelos castanho-escuros e com pridos.
— Não pretendo m e entregar! — respondeu o garoto loiro. Devia ser m ais novo do que o outro. Era gordinho, com bochechas verm elhas que realçavam a pele clara.
Hannah ficou algum tem po parada, adm irando a alegria das crianças. No seu m undo, elas tam bém se divertiam , inocentes, sem desconfiar do futuro. Os garotos pularam para o telhado vizinho, ainda em polgados com a luta im aginária. A j ovem seguiu seu cam inho, alcançando em m inutos um a rua m ovim entada. Andou m ais um pouco, deu m ais um a volta e virou um a rua à esquerda, sem m uita certeza de ter acertado o traj eto. Após três passos, ela parou, preocupada. Logo adiante, esprem idos em um beco m al ilum inado pela claridade do dia, os dois m eninos, os m esm os que há pouco brincavam sobre o telhado, eram am eaçados por um hom em im undo.
— Já vos disse que quero todo o dinheiro que trazeis nos bolsos — disse ele, com raiva,
apontando um a faca para as crianças.
— É com o te expliquei. Nós não tem os nem um a m oeda — respondeu o garoto m oreno. — Mentira! Usais roupas boas e botas novas! Talvez algum a m oeda de ouro apareça se eu
furar um de vós, hein?
— Meu conselho é deixar estas crianças em paz — disse Hannah enquanto cam inhava até os
três.
O garoto m oreno aproveitou a distração e pulou sobre o hom em , lutando para desarm á-lo. A
reação veio im ediatam ente. Ele bateu no m enino e o em purrou para o chão.
— Deixai este ladrão com igo! — gritou Hannah. O loirinho não a ouviu. Levantou o braço e, com toda a força, atacou o hom em com a espada
de m adeira, atingindo-o na barriga. Ele berrou de dor. Decidido, o m enino avançou, pronto para desferir outro golpe. Mas o ladrão, ágil com a faca, fez um rasgo em seu braço antes de voltar a atenção para a j ovem que o alcançava.
— Fica fora disto, m ulher! — rosnou ao lhe m ostrar a faca. A j ovem parou diante dele e sorriu. Num m ovim ento rápido, apossou-se de seu pulso e
torceu-o com firm eza.
— Maldita! — xingou ele.
Sem se abalar, continuou torcendo o braço do ladrão, um suj eito quase duas vezes m aior do
que ela. Sem poder se soltar, ele ficou de j oelhos. A faca caiu de sua m ão. Hannah só o liberou após escutar o som de ossos estalando.
— Quebraste m eu braço... — choram ingou ele. — Som e daqui! — sussurrou ela, m irando-lhe o rosto com frieza. Apavorado, o hom em levantou-se com dificuldade antes de desaparecer em segundos. Os
m eninos estavam boquiabertos.
— Obrigado — disse o garoto m oreno.
— Tam bém te agradeço — sorriu o am igo loiro. Não parecia m uito abalado com o perigo que
correra. — Meu nom e é Mark. E este é Arnon. Com o te cham as?
— Sou Hannah — respondeu ela, enquanto exam inava o corte no braço de Mark. Para seu
alívio, ele fora atingido de raspão. — Onde estão vossos pais?
— Na m issa. Nós fugim os de lá. Só queríam os dar um passeio pela cidade. A j ovem tirou algum as folhas de um a bolsa de couro. Separou duas e depois as esprem eu
contra o corte. Um líquido verde pingou sobre a pele ferida.
— Ai, isto arde! — reclam ou Mark.
— É para teu bem — disse ela, ríspida. Nunca tivera m uita paciência com crianças. —
Devem os sair logo do beco. Esse tipo de ladrão sem pre tem am igos.
— És um tipo de curandeira? — perguntou Arnon, desconfiado. — Podes dizer que sim . Pesquiso as plantas do teu... deste m undo. — Tu vieste das Terras Erm as? — perguntou Mark, ainda com dor. — Falas de um m odo tão esquisito...
— Tenho algum sotaque? — disse a j ovem , decepcionada. O tradutor realm ente não funcionava direito. Mas, pelo m enos, entendia quase tudo o que as crianças falavam .
— Eu vou para as Terras Erm as em breve — resm ungou Mark, fechando a cara. — Meus pais vão m e m andar para o Monastério. Eles querem que eu vire um m onge. Bah!
— Precisas ver m eu pai — pediu Arnon. — Ele está m uito doente e os padres não sabem com o tratá-lo.
Hannah pensou duas vezes. Não viera de tão longe para cuidar de doentes. Seu obj etivo era encontrar os sinais de seu sonho e realizá-lo. O garoto de olhos grandes e tristes, no entanto, esperava ansioso por um a resposta. “Hannah, tu tens o coração m ole.”
— O que teu pai tem ?
— Ninguém sabe. Tem o pela vida dele.
Menos de um a hora depois, os três cruzaram os portões do castelo de Brusk. Nenhum guarda im pediu-lhes a passagem . Eles seguiram pela entrada principal e cruzaram vários corredores até um grande salão. Hannah surpreendeu-se com a riqueza que encontrou naquela construção, repleta de tapeçarias finas, m óveis trabalhados em m adeira e obj etos de ouro. Criados e nobres passaram por eles, sem im portuná-los. O pai de Arnon devia ser um hom em poderoso.
A j ovem arregalou os olhos ao ouvir o arauto anunciá-los, à porta do salão.
— Príncipe Arnon, sr. Mark De Durham e um a convidada! — gritou ele para o grupo de pessoas que rodeava um hom em abatido, sentado em um trono de m adeira m aciça, no alto de alguns degraus. Todos pararam de conversar para descobrir quem era a estranha.
Hannah em pinou o queixo, pronta para enfrentar a situação inesperada. Para quem pretendia atravessar a Grande Ilha sem cham ar a atenção, ela ia de m al a pior. Sim plesm ente, estava cam inhando até Jam es, o rei de Britany a. Sentiu os olhares de adm iração sobre ela. Achava que sua beleza atrapalhava sua vida, que desej ava que fosse a m ais discreta possível.
— Senhor, trouxem os um a pessoa que pode aj udar tua saúde — disse Arnon, depois de fazer um a reverência ao pai. — Esta é Hannah, um a estudiosa de plantas m uito fam osa nas Terras Erm as.
A j ovem espiou o m enino, surpresa com as palavras que ele inventava para obter a atenção paterna.
— Um a curandeira? — perguntou, num tom depreciativo, um hom em gordo e careca, vestido de púrpura, que se esticava à direita do rei. As pessoas ao redor se entreolharam , apreensivas.
— Não, arcebispo De Wins. Ela é exatam ente o que eu te disse — respondeu secam ente o m enino.
O hom em ficou verm elho e esperou pelo apoio do rei. Este, porém , sorria, apesar da aparência esgotada. Devia ter um fraco por m ulheres bonitas.
— Vem , m inha j ovem . Vê de perto este ferim ento...
Hannah obedeceu e, de j oelhos, exam inou a perna que Jam es m antinha esticada à frente, sobre um tam borete. Ela ouviu alguns com entários em voz baixa. Esquecera-se de fazer a reverência ao rei.
— O que aconteceu exatam ente, m aj estade?
— Um a criatura estranha m e m ordeu na últim a vez que estive nas Terras Erm as, lutando contra os bárbaros. Era um ferim ento pequeno, não dei m uita im portância. Só que ele cresceu, trazendo m uita febre e um cansaço indescritível.
— A criatura parecia um rato, só que m aior — explicou um rapaz, tam bém ao lado do rei. Hannah girou o queixo para ele, com um a pergunta em m ente, m as apenas engoliu saliva. O
rapaz era alto e forte, com a pele bronzeada pelo sol. Os cabelos eram loiros e o olhar brilhava em um charm oso tom de azul. Não fora a beleza do nobre que a im pedira de falar. A j ovem reconhecera-o. Ele fazia parte do sonho que tivera havia anos, quando ainda era um a m enina ansiosa para dom inar os segredos da casta.
— Acho que se assem elhava m ais a um gato. Era um a criatura m uito grande e arisca — disse
Jam es, com um suspiro. — Ela entrou na m inha tenda um a noite e provocou este estrago ao m e atacar.
Ainda sem se levantar, a j ovem tirou da bolsa várias ervas e espalhou-as sobre o chão, ao pé
do trono. Refletiu por alguns segundos antes de escolher algum as folhas e guardar as restantes.
— Tu foste atacado por um ser m utante, m aj estade — disse a j ovem , calm am ente. — Há um
tipo de veneno em sua m ordida que pode levar à m orte.
— Conheces um rem édio? — perguntou Jam es, esperançoso. Hannah assentiu. Sem se preocupar com a im ensa curiosidade que despertava, sentou-se em
um dos degraus abaixo do trono, colocando sobre os j oelhos um a pequena tigela que tirou da m ochila. Rapidam ente am assou as folhas com um a colher para transform á-las em um estranho crem e am arelado.
— Maj estade, é m eu dever te avisar sobre o perigo que corres ao ficares sob os cuidados
desta m ulher desconhecida — protestou o arcebispo.
— Sr. De Wins, esta m oça sabe o que faz.
Com cuidado, ela espalhou a pasta sobre o ferim ento. No m esm o instante, o hom em respirou
aliviado.
— Deus te trouxe aqui, m inha j ovem — m urm urou, ignorando a expressão irada do
arcebispo. — Este rem édio m e alivia o sofrim ento...
Arnon e Mark sorriram para Hannah, que piscou para eles. O rapaz não tirava os olhos dela.
Os dem ais cochichavam entre si, com exceção do arcebispo, que continha sua raiva com m uito esforço. A j ovem desconhecida obtivera m ais sucesso do que os m elhores padres treinados nas artes da cura.
— Esta pasta deve ser aplicada três vezes por dia, durante um a sem ana — orientou Hannah,
colocando-se novam ente em pé.
— Cuidarias de m im durante esse tem po? — quis saber Jam es. — Sim , m aj estade.
— Podes tom ar conta desta j ovem para m im ? — Dirigia-se ao rapaz que im pressionara
Hannah. Ele assentiu, sem conseguir disfarçar a felicidade que aquelas palavras produziam nele. — Hannah, este é Kirian De Sutter, o m elhor cavaleiro de Britany a. Creio que apreciarás a com panhia dele.