O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

3 - Noite dos Mortos

CAPÍTULO 3

Noite dos Mortos

Ano 833 da Era Arthur

Dines surpreendia-se cada vez m ais com a inteligência de Thom as. Seu raciocínio era rápido e

m uito precoce. O garoto nutria um interesse especial por História, Geografia e Biologia,

detestava Quím ica e suportava bem Física e Matem ática. Só não era bom em expor ideias no papel: distraía-se com facilidade e ficava perdido em questões com o a grafia correta das palavras. Para com pensar, tinha sem pre um a pergunta na ponta da língua, argum entando e questionando as instruções do m estre. O abade adm irava a esperteza daquela m ente aberta a novidades. “Ele lem bra m inha Mareen”, pensava, com tristeza e saudade.

Thom as m udara m uito desde a chegada ao Monastério, quatro anos antes. Crescera bastante e estava alto para os seus onze anos. A alim entação saudável que Michel em purrava todo santo dia para o m enino — que não se preocupava m uito em com er — e os exercícios diários haviam contribuído diretam ente para a m udança. O m estre era rígido em relação ao treinam ento, o que, na verdade, não era necessário. Thom as tinha dificuldade de perm anecer parado. Sua energia, portanto, era canalizada para atividades diversas, que iam desde escalar m uralhas até praticar arco e flecha. O garoto tam bém aprendera a lutar. O abade ensinara-o a tirar vantagem de sua agilidade instintiva, passando segredos para desequilibrar o adversário e derrubá-lo. O tem peram ento do garoto, antes m elancólico, estava m ais expansivo e confiante.

O abade sonhava com dias ensolarados quando Thom as o trouxe à realidade. Era m adrugada e os dois estavam no am plo salão subterrâneo.

— Quando m e contarás sobre a Era do Caos? — perguntou, sem desviar os olhos de um a pequena tela de cristal em que tentava resolver um a com plicada questão m atem ática.

O abade não respondeu. Levantou-se para ir até o outro lado da m esa, onde tocou distraidam ente as m inúsculas pedras brilhantes. Ali, entre seus dedos, restava a últim a lem brança de um a tecnologia extinta naquele m undo. As pedras tinham funções variadas, com o arm azenagem de inform ações e geração de energia. Um a delas, azulada, fornecia energia suficiente para a tela plana de Thom as, um com putador de m ão que funcionava com o leve toque de dedos.

— Já não sou tão criança agora, m estre.

— Ainda não estás preparado. Ensinei-te m uito sobre este m undo, desde as teorias de sua criação até a Era da Tecnologia. Não posso te revelar ainda os acontecim entos posteriores a essa época.

— Porque estão diretam ente relacionados ao nosso presente, não é?

— Sim . Esse conhecim ento é perigoso.

Thom as retom ou o problem a m atem ático. Os cabelos castanho-escuros estavam despenteados. Vários fios rebeldes caíam -lhe sobre a testa. Os traços do rosto eram bonitos, em harm onia com o nariz grande. A pele m orena estava bronzeada, acostum ada à vida ao ar livre. Subitam ente, o m enino arregalou os olhos.

— Queres sem pre m e enganar! — disse, rindo. — Este resultado nunca dará o núm ero dez.

— E que resultado tens?

— Oito.

— Muito bem . Agora parta para o próxim o exercício. O garoto coçou a cabeça. A questão seguinte devia ser ainda m ais difícil. Dines abriu um

surrado livro de Astronom ia. Não conseguiu se concentrar na leitura, preocupado com Mark De Durham .

...

Horas m ais tarde, Thom as ainda sonhava com fórm ulas m atem áticas no sono profundo em

que m ergulhara durante a m issa m atinal. Acordou quando a cabeça caiu para a frente, pesada. Abriu os olhos com dificuldade. Michel, à sua direita, entoava um texto em latim , j unto com outros m onges. Thom as estava encostado à parede, de j oelhos com o os dem ais. Autom aticam ente sua cabeça reencontrou a dureza da pedra que, naquele m om ento, fazia o papel de um confortável travesseiro. Fechou os olhos e se encolheu sob o casaco. A m anhã de outono estava fria e cinzenta. Os m onges term inaram o canto. As palavras de irm ão Augustus, que conduzia a cerim ônia, ecoavam pela igrej a.

Thom as sentiu o corpo pesado e se encolheu ainda m ais. O ar tornou-se m ais e m ais gelado. O

garoto fez um esforço para se m exer. O corpo, porém , não obedeceu. Um a dor dilacerante atingiu seu om bro esquerdo, com o se dentes afiados lhe perfurassem a carne. Thom as reprim iu um grito e lutou para erguer as pálpebras. De im ediato, um a respiração ofegante pesou sobre seu pescoço. Garras rasgaram -lhe a pele, o que provocou m ais dor. Um a dor que o arrastava para a m orte.

Com m uito esforço, o garoto conseguiu recuperar o autocontrole. Irm ão Augustus ainda

declam ava em latim e os m onges, concentrados, prestavam atenção em cada palavra. Thom as trem ia de frio e m edo. Suas visões tinham voltado.

...

As aulas com eçavam , invariavelm ente, em torno da m eia-noite. Logo após o j antar, recolhia-

se para dorm ir um pouco. O dia era sem pre corrido, m as o garoto não reclam ava, acom panhando com tranquilidade o ritm o puxado. Entretanto, desde a visão extenuante, não conseguia m ais aproveitar um a boa noite de sono. Im agens confusas vinham -lhe à m ente, transform ando-se, m uitas vezes, em pesadelos. O efeito era devastador para o seu organism o.

— Tu andas doente? — perguntava Michel, após checar as olheiras profundas e o aspecto

abatido que não o abandonavam m ais.

— Estou bem — desconversava.

O antigo m edo de ser considerado louco o atorm entava. Ver e sentir coisas estranhas eram a

j ustificativa para a repulsa que os andarilhos nutriam contra o garoto m aldito.

O rendim ento durante as aulas com Dines tam bém caiu bastante. Thom as procurava se

concentrar em cada ensinam ento, evitando ao m áxim o distrair sua m ente, o que era difícil. A cada m om ento, um torpor am eaçava a lucidez, forçando-o desesperadam ente a se ocupar com cálculos e núm eros.

— O que tu tens, Thom as? — perguntou o abade, um a noite. — Minha cabeça dói.

Era verdade. Tinha terríveis dores de cabeça, principalm ente durante o dia.

— E j á falaste com o irm ão Michel? Ele m e disse que quase não te alim entas, m as não m encionou nada sobre esse problem a.

— Não quis preocupá-lo. Já preparei um rem édio com as ervas da estufa.

— E o rem édio faz efeito?

— Às vezes — m entiu Thom as. — Ficarei bem logo.

O abade foi procurar algum a coisa na pilha de livros velhos. Thom as abaixou a cabeça e colocou de lado a tela plana do pequeno com putador. Não teria coragem de m entir por m ais tem po. Espiou Dines, que estava agachado, espalhando um a parte dos livros pelo chão. “Será que posso contar tudo a ele?”

Os dois tinham um a espécie de pacto não verbal. Um não perguntava sobre a vida do outro. Dessa form a, Thom as não conhecia a história pessoal de Dines. Evitava fazer perguntas, pois, se as fizesse, daria o m esm o direito ao m estre. Nunca com entara nada sobre as circunstâncias de seu nascim ento, m uito m enos que tipo de vida tivera antes de m orar no Monastério.

Do nada, um a forte dor no peito atingiu Thom as, seguida por um a angústia que im obilizou seus m ovim entos. Ele lutou para não fechar os olhos quando um a luz intensa quase o cegou. Piscou e então viu que estava entre os destroços do que antes era um a cidade no deserto. Havia corpos m utilados, um cheiro horrível de carne queim ada. Apesar da claridade excessiva, distinguiu o sol. Na verdade, havia dois deles. O calor era insuportável.

Tentou sair daquele cenário deprim ente, sem sucesso. À sua direita, havia um hom em diferente de tudo que conhecia, de pele pálida, quase translúcida, e cabelos averm elhados que m al cobriam as orelhas estranham ente grandes e com pridas.

A dor e a angústia pertenciam àquele hom em . Aj oelhado, ele chorava a m orte de um a m enina estendida em seus braços.

— Thom as, o que há contigo? — cham ou Dines ao segurá-lo pelo om bro.

O m enino rapidam ente se pôs de pé para fugir ao toque. O hom em estranho... Era o abade.

Thom as atravessou correndo o salão até atingir a escada. Precisou usar o m áxim o de sua força de vontade para controlar o pânico e desistir da fuga insana. Trêm ulo, apoiou-se contra a parede. “Não pode ser ele, não pode!”, pensou, aflito. “Vi um a criatura estranha e não um ser hum ano. Desta vez estou louco...” Dines aproxim ava-se.

— Nunca te vi deste j eito — disse ao parar, ainda distante da escada. Não queria que o m enino fugisse.

— Tive... Tive um pesadelo. Peço tua perm issão para sair, m estre.

— Não queres conversar sobre teu pesadelo?

Com certeza, ganharia um inim igo quando o abade descobrisse que ele, em seus sonhos m alucos, o transform ara em um m onstro orelhudo! Thom as balançou negativam ente a cabeça.

— Então, vai.

O garoto escapou voando pela escada, com um a nova preocupação na cabeça. Acabara de lem brar que estava nas prim eiras horas do dia em que com pletava doze anos.

...

Pela m anhã, Michel acordou-o de um sono leve e tranquilizador. As lem branças do que ocorrera algum as horas antes, porém , retornaram com intensidade. Thom as ignorou o pão e o leite que Michel preparara para ele e, apesar dos protestos do am igo, seguiu em j ej um para a m issa. Sentou-se no canto de sem pre, insone dessa vez. Sentiu o olhar de Dines em sua direção, m as não se m exeu. Não dem oraria a enfrentar a Noite dos Mortos.

Pesquisara m uito para encontrar a origem do m edo que envolvia a data. Nos livros da

biblioteca, que agora tinha autorização para frequentar, descobrira referências a um a festa, realizada por um povo antigo que habitara as terras de Britany a m uitos m ilênios antes. De acordo com o calendário criado por essa gente, o ano term inava exatam ente em 31 de outubro. Para com em orar, eles acendiam fogueiras pelos cam pos e prom oviam grandes festas. Era um a noite especial para rever seus antepassados, levados pela m orte. Com o crescim ento do poder religioso e da crença no Deus único, a festa passou a ser associada a bruxarias e rituais dem oníacos. Na Era da Tecnologia, a data ganhou um a aura de brincadeira. As crianças saíam às ruas, fantasiadas de m onstros, para pedir doces entre a vizinhança. A Era do Caos, no entanto, term inara com a alegria infantil.

As horas arrastavam -se. Pela prim eira vez em vários dias, a chuva afastou-se, abrindo espaço

para um dia seco. A dor de cabeça de Thom as desapareceu, o que m elhorou seu estado de espírito. Na hora do alm oço, Michel obrigou-o a com er um a refeição reforçada, com peixe e legum es cozidos. O m enino, com o estôm ago em brulhado, desistiu de se alim entar após algum as garfadas.

No final da tarde, não apareceu no alto da torre norte, onde costum ava treinar sob a

orientação de Dines. Preferiu andar pelos rochedos próxim os ao m ar. Quando a noite finalm ente nasceu, largou o j antar — para total desespero de Michel — e resolveu cam inhar sob a lua cheia que se erguia deslum brante no céu.

A poucos m inutos da m eia-noite, Thom as escalou a m uralha que se virava para o oceano.

Estava sozinho. Só o barulho das ondas que batiam nas rochas da ilha lhe fazia com panhia. O garoto sentou-se antes de fitar o céu escuro, repleto de estrelas. A lua encarava-o. Thom as ficou esperando até que ela atingisse o ponto m ais alto. Meia-noite, a hora exata de seu nascim ento. Do outro lado do oceano, na Grande Ilha, o povo lotava as igrej as, im plorando por proteção contra os espíritos m aléficos, livres naquela noite sinistra. Os andarilhos deviam estar suspirando aliviados pela ausência da criança m aldita. Sabina e Shannon talvez pensassem nele. O velho Tuc, com o Thom as pressentira, falecera logo após sua partida para as Terras Erm as.

Se era verdade que a noite de 31 de outubro abria um a porta para o m undo dos m ortos,

Thom as iria descobrir naquele m om ento. Tirou a pequena pedra que carregava j unto ao peito e a apertou com firm eza antes de se erguer para ficar na ponta dos pés. Muito abaixo de onde estava, a espum a branca das ondas respingava no ar. O garoto levantou a cabeça, dirigindo-se ao infinito.

— Mãe, preciso de ti — disse, com a voz baixa e trêm ula. O silêncio continuava a envolvê-lo.

— Mãe, preciso da tua aj uda. Eu tenho que saber, eu devo saber tudo sobre m eu passado, sobre ti e sobre m eu pai...

Engoliu em seco, agoniado. Repetiu o pedido m ais um a vez e esperou. Nada aconteceu. A lua

m antinha o garoto sob vigilância. Ele se sentou novam ente sobre a m uralha. Abraçou as pernas e encostou a testa nos j oelhos, apertando ainda m ais a pedra entre os dedos. Não conseguiu evitar o choro. “Não sei nem teu nom e, m ãe.”

Só retornou para cam a quando o sol apareceu no horizonte. Por sorte, não encontrou Michel, que j á tinha se levantado. Desabou sobre os lençóis e dorm iu um sono profundo, com o há m uito não experim entava.

Na hora em que despertou, o sol j á estava alto. Thom as lavou-se e trocou de roupa. Depois, seguiu até a cozinha, pronto para enfrentar as perguntas inevitáveis de Michel. O am igo, entretanto, não disse nada. Apenas deixou um prato de sopa, a preferida do garoto, na frente dele. Os aj udantes cuidavam de pilhas de louça suj a. Thom as perdera o alm oço dos m onges e ignorara a tarefa de cuidar da m esa e servir o vinho. Negligenciara o trabalho e até os estudos com Dines.

Ao colocar a prim eira colher de sopa na boca, descobriu instantaneam ente que estava m orto de fom e. Sob o olhar satisfeito de Michel, repetiu o prato e devorou várias fatias de pão preto. Ao final da refeição, saboreou um a m açã rosada com o se fosse a prim eira vez que provava a fruta.

— Podes m e aj udar na horta? — perguntou o m onge.

Thom as seguiu-o e passou horas agradáveis. Há m uito tem po não dava tanta risada. Michel divertia-o com histórias m alucas de sua infância, da época em que fazia m alabarism os para sobreviver com a fam ília. Quando a tarde chegou ao fim , a conversa recebeu um tom sério.

— Filho, tenho um recado do m estre para ti — disse Michel, enquanto tirava algum as cenouras da terra. — Ele partiu hoj e, logo cedo, e estará ausente por alguns dias.

Thom as ficou surpreso. Dines não costum ava sair do Monastério.

— Claro que teu treinam ento só será retom ado com sua volta. Ah, o m esm o vale para aquelas aulas noturnas que achas que desconheço — piscou o m onge, j ovial.

...

As visões reapareceram dois dias m ais tarde. Vieram com suavidade, com o em sonho. Thom as estava na biblioteca, acom panhando o trabalho dos copistas após desistir de ler um livro chato sobre Genética. Invej ava a letra bonita dos m onges e a paciência que som ente eles possuíam para dedicar horas e horas a trabalhos detalhados e com plexos em m eio a pincéis e tintas.

Irrequieto, pendurou-se na j anela para espiar o m ar. Era um a tarde bonita de novem bro, excepcionalm ente quente. Fitou seu reflexo no vidro. “Será que m e pareço com m inha m ãe?”, perguntou para si, reparando m elhor nos traços de seu rosto. Quando piscou, viu que sua im agem dera lugar ao reflexo de um a m enina sorridente, tam bém de cabelos escuros, que acenava para ele. No m esm o segundo, ela desapareceu. Thom as olhou em volta, apreensivo, m as os m onges continuavam se dedicando, inabaláveis, ao trabalho. Som ente ele percebera a presença da garotinha na superfície do vidro. Instintivam ente, apertou a pedra sob a roupa. Um calor estranho em anava do obj eto.

A segunda visão apareceu na hora do j antar. Thom as recolhia os últim os pratos e talheres suj os no refeitório. Michel e os aj udantes seguiam para a cozinha, cada um carregando parte da louça. Os olhos do m enino se detiveram por um instante na cham a de um a vela suspensa por um castiçal, do outro lado da m esa com prida onde os m onges faziam as refeições. Pensava novam ente na im agem da garotinha. De certa form a, ela se parecia com ele. Tinha os m esm os olhos grandes, os m esm os cabelos escuros. “Adoraria ter te conhecido, m ãe”, desej ou, enquanto contem plava os m ovim entos suaves da cham a.

— Alix, tu estás atrasada para o torneio! — avisou alguém dentro da cabeça de Thom as. Assustado, o garoto confirm ou o óbvio: estava sozinho no refeitório. Por baixo da cam isa, a

pedra opaca esquentava sua pele.

Som ente após term inar suas tarefas é que pôde ir para a cela, onde se sentou no chão duro.

Sob a luz de um a vela, analisou a pedra que pertencera à sua m ãe. Não havia qualquer alteração no obj eto. Até a tem peratura retornara ao norm al.

Um a possibilidade atorm entava o m enino, ao m esm o tem po que alim entava um a ponta de

esperança. “Será que posso controlar estas visões?” As duas que tivera, naquele m esm o dia, só apareceram porque seu coração, de algum m odo que desconhecia, cham ara por elas.

Com a respiração ofegante, escutou o ronco de Michel na cela ao lado, abafado pelo som de

trovoadas. Em m inutos, um a tem pestade atingiria o Monastério. Desde a partida de Dines, o garoto tinha as noites livres. Haveria m uito tem po para tentar...

Thom as apertou a pedra contra a palm a da m ão e procurou relaxar. Acreditava ter

encontrado algo que parecia fazer sentido em m eio a tantas coisas sem explicação. Aos poucos, os sons tão próxim os pareceram distantes, com o se a tem pestade tivesse desistido de cair, e Michel, de roncar. O m enino libertou os pensam entos para encontrar um a paz que raram ente sentia.

Agora tinha um nom e. “Alix, onde estás?”, cham ou, lutando contra o m edo. A fam iliar

sensação de m orte invadiu seu corpo.

Desesperado, tentou respirar, m as afundou no vazio.