O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

15 - Savac

CAPÍTULO 15

Savac

Nem as surras que Jon lhe aplicara na infância tinham causado aquele efeito. O corpo de

Thom as doía por igual, com o se tivesse sido esm agado por um rochedo. Deitado sobre a terra, tentou se m exer, sem sucesso. Os raios do sol forte ardiam em seu rosto. Escutou vozes.

— Pensas em m e trair, Vince? — questionava Hugues. — Tu m e pareces m uito confuso.

Fiquei feliz por teres feito com teu irm ão. Afinal, espero unir a força dos dois. Mas estás tom ando a direção errada. Tu deves orientar Thom as e não o contrário!

— Ainda não m e disseste com o m e achaste — insistia Vince. Thom as abriu os olhos, com dificuldade. Viu quando o arcebispo pegou o braço do cavaleiro e

lhe m ostrou o próprio pulso.

— Instalei um m inúsculo localizador sob tua pele, quando tinhas três anos. Foi a m elhor coisa

que fiz. Tu és irresponsável dem ais para se confiar totalm ente. Nunca deixei de saber onde te escondias nas horas em que fugias da aula.

— Tu m e rastreaste...

— Im aginei que perseguirias m eu suposto assassino. Claro que não planej ei isso. Thom as

atacou-m e com tanta violência que precisei de algum as horas para m e recuperar. Surpreso, descobri que tu estavas nas Terras Erm as. Teu irm ão e a filha de Mark De Durham eram dados com o m ortos. Era óbvio que os três estavam j untos. E por quê? Mithrrah forçaria Thom as a procurar sua irm ã, tão próxim a dela neste planeta azul. Apenas esperei. Na noite em que vi teu sinal m udar da Floresta Escura para outro continente em questão de segundos, adivinhei que Moriarty estava convosco, usando o teletran. Então, foi só m e teletransportar, com m eus am igos, para vos encontrar.

— Moriarty está...?

— Sim , eu o m atei. Já não era m ais útil. Além de m im , Moriarty era o único que poderia

encontrar o Herdeiro. Por isso, deixei-o viver por tanto tem po.

Thom as sentou-se com dificuldade. Dines estava morto. O rapaz sufocou duram ente a vontade

de chorar. Ao sentir o olhar de Erin, ele a procurou. Ela estava de j oelhos, distante e cercada pelos dois am igos do arcebispo. Sua aparência dem onstrava que tam bém estava exausta. Sua energia fora sugada pelos nergals, assim com o a de Vince, que m al conseguia se m anter em pé, tão fraco quanto eles.

O barulho das ondas do m ar quebrando contra rochedos era o único som da natureza ao redor.

Neste instante, um calafrio m ostrou a Thom as para onde tinham sido levados. As ruínas de Sutter contem plavam -no.

— Que bom que acordaste! — exclam ou o arcebispo. — É hora de conversarm os. — Deixa-o em paz — disse Vince, entre dentes. — Se não o quê, garoto? — perguntou um dos hom ens ao lado de Erin. — Tu devias m atar

este teu sobrinho, Savac. Ele não passa de um encrenqueiro insolente. Só arrum ou confusão nos m eses que passou com igo em Gaia.

— Estou m agoado, Stuart. Sem pre pensei que gostasses da m inha com panhia — provocou

Vince.

— Nem para ser um hospedeiro ele presta. Sabes disso há tanto tem po e ainda insistes em educá-lo. Quanta perda de tem po!

Vince enfrentou-o, desafiador.

— Já sei com o vou arrancar esse sorriso estúpido do teu rosto, garoto — continuou o tal Stuart. — Quando retornar a Gaia, vou visitar teus am igos. Tem a filha do Yam ato... Ky oto, não é? E o baterista Skipper, daquela casa noturna onde passavas tuas noites...

O cavaleiro parou de sorrir.

— O que queres, Stuart? Que eu peça desculpas?

— Quero que não atrapalhes os assuntos de Savac.

— Já chega, Stuart — disse o arcebispo. — Vince é im portante para Kirian, com o j á te expliquei várias vezes. O garoto conhece o lugar dele. Não irá m ais interferir.

Vince olhou para Thom as com o se tentasse lhe dizer algum a coisa e afastou-se para espiar o oceano, visto em toda a sua beleza do alto daquele precipício.

Hugues dirigiu novam ente a atenção para Thom as.

— Sabes o que é isto? — perguntou ao m ostrar um cilindro em sua m ão.

Thom as balançou a cabeça, sem entender.

— Estive na Praia dos Pelicanos — prosseguiu ele. — Vivi aqui tanto tem po com Hannah e nunca im aginei que ela escondia um program a holográfico nas m inhas próprias terras. Foi através dele que aquela m ulher envenenou a alm a de Erec contra m im . Quero que com preendas que não abandonei m eu filho porque quis, Thom as. Quando Hannah e eu nos enfrentam os, fiquei gravem ente ferido. Tive de sum ir para m e recuperar, m udar de aparência. Gastei anos nesse processo. Nunca poderia im aginar que, no m eu retorno a Britany a, teria Erec com o inim igo, um traidor de seu povo e de seu rei. Fui obrigado a m atá-lo.

“Então é dessa form a que ele contou sua história a Vince”, deduziu o rapaz.

— Este cilindro é o program a holográfico. Eu o encontrei escondido naquela caverna. Só preciso da tua voz para ativá-lo agora.

Por que o arcebispo desej aria ver a im agem de sua inim iga m ortal?

— Hannah... — cham ou Thom as, em voz baixa.

Um m ilésim o de segundo m ais tarde, a j ovem surgiu entre ele e Hugues.

— Tu és a im agem que guardo de Hannah. Linda e orgulhosa, enfeitiçando todos os britons na corte do rei Jam es — disse o arcebispo, m aravilhado.

Só então Thom as entendeu o quanto aquele hom em poderoso am ara a sacerdotisa. E ainda am ava. Quando o hologram a notou que Vince o observava, ignorou o arcebispo e foi direto até o j ovem .

— William ... És tu, não és? — sorriu. — Não te lem bras de m im ?

Vince parecia aturdido.

— Claro que não podes te lem brar! Eras apenas um bebê na época em que Erec te levava até m im , na Praia dos Pelicanos, sem que tua m ãe soubesse. Ele te colocava para brincar na areia, enquanto m e contava teus progressos. Dizia que, felizm ente, o filho herdara a inteligência da m ãe e não o gosto do pai pelas arm as. Erec tinha m uito orgulho de ti, William . Sofria por te ver tão pouco, culpa das viagens constantes que era obrigado a realizar. Ele prom eteu que, por ti, lutaria até a m orte para evitar a Grande Guerra. Queria um futuro de paz, em que pudesses ser feliz. Lem bras-te dele?

— Não — respondeu Vince, com os olhos verm elhos. — Não te cham ei aqui para j ogares m eu neto contra m im ! — disse Hugues, furioso. — O que desej as, afinal? — perguntou o hologram a. — Apenas rever a im agem de Hannah. Sabes o quanto eu a am ava? Foi um a pena que ela

tenha desprezado o em briagante poder dos nergals. Não m e deu alternativa a não ser m atá-la.

— Tam bém não gostarias de rever teu filho?

A im agem de Erec, vestido totalm ente de negro, apareceu diante de Vince, que recuou,

confuso. Thom as não escondeu a alegria inesperada. Dava-lhe força reencontrar a im agem do pai, o j ovem coraj oso que desafiara Savac.

— Maldito program a! — m urm urou o arcebispo, apertando, possesso, o cilindro entre os

dedos.

No m esm o segundo, o obj eto foi arrancado de sua m ão e voou rápido em direção a Vince. O

cavaleiro cham ara-o para si.

— Eu te im ploro, tio — pediu, desesperado. — Não os destrua m ais um a vez... Hannah e Erec desapareceram no ar. Hugues fitou o rapaz, contendo a raiva aos poucos. A

aparência vulnerável do neto m ais velho com overa-o.

— Estam os perdendo tem po — disse um dos hom ens ao lado de Erin. — Tens razão, Motik — disse o arcebispo. — Sabes por que nós o trouxem os aqui, Thom as? — Não creio que pretendas m e m atar.

— É verdade. Tua vida é m uito preciosa para nós. Só que ela está incom pleta. Stuart levou até eles um a caixa transparente que fora m antida oculta atrás de um a das pedras

calcinadas. Dentro dela, um ponto de luz m ovia-se com um a espantosa rapidez no pouco espaço existente.

— Um nergal? — perguntou Thom as, de queixo caído. — Sim , antes da sim biose. Os nergals não podem se desenvolver plenam ente enquanto não

encontrarem um hospedeiro que m ereça o privilégio de sua integração total. Unidos, eles queim am etapas na evolução natural. Poder, Thom as. Poder ilim itado. Será assim quando Gotihan se unir a Sirry us, o nergal que ocupa agora esta caixa. Sirry us é um ser poderoso, digno de Gotihan. Os dois enfrentaram -se no passado e...

— E ele perdeu para o líder m y rhan. Acho que este nergal tão poderoso não passa de um

incom petente — provocou Thom as, sentindo o sangue ferver.

Quando ficava com raiva, deixava a prudência e o m edo para trás e se esquecia até da

tim idez crônica.

— Todos os descendentes de Kirian têm esta língua afiada? — rosnou Stuart. O outro nergal,

Motik, exibia um olhar assassino. Hugues m anteve-se calm o.

— És j ovem ainda, Thom as, não entendes o que quero dizer — disse. — Eu não quero ser nenhum hospedeiro. A integração só se com pleta se o hospedeiro desej ar,

não é m esm o?

— Tu irás aceitá-lo.

Hugues deixou Thom as para ir até Erin. Sabia exatam ente com o convencê-lo.

...

Erin estrem eceu quando Hugues postou-se diante dela. Thom as levantou-se para im pedi-lo, m as Stuart em purrou-o de volta ao chão. Estava fraco dem ais para se defender.

O arcebispo esticou o braço para que um a luz estranha, vinda de um a arm a desconhecida, envolvesse a j ovem . O corpo dela, j á dolorido pelo ataque dos nergals, foi golpeado por um a sensação ainda m ais terrível. Era com o receber chutes violentos por todos os lados. Erin gem eu, sentindo-se esm agada por dentro.

— Por que não gritas, Lady Erin? Thom as precisa saber o quanto sofres.

“Não vou gritar!”, prom eteu ela. Não percebeu que Vince tentava derrubar o tio com a força da m ente. Apenas sentiu um relaxam ento da tortura. Quando conseguiu que seus olhos reencontrassem o foco, descobriu que o cavaleiro era surrado covardem ente pelos outros dois hospedeiros nergals.

— Eu j á vos disse para deixá-lo em paz! — gritou Hugues, sem , no entanto, detê-los.

Thom as ergueu-se, cam baleante, e rum ou para cim a deles. Ao vê-lo em pé, os dois largaram o cavaleiro para atacá-lo.

— Eu concordo em ser o hospedeiro de Sirry us — disse Thom as, obrigando-os a retroceder. — Há apenas um a condição: quero Vince e Erin livres.

A j ovem esforçou-se para gritar, dizer a ele que nada no m undo valia aquele sacrifício, m as a voz não lhe obedeceu. Horrorizada, acom panhou o passo seguinte do processo de integração. Hugues abriu a caixa transparente para liberar o sinistro ponto de luz.

Sem se m over, Thom as esperou que o nergal se aproxim asse até desaparecer. Ele se desequilibrou e, sem conseguir se m anter sobre as duas pernas, desabou novam ente.

...

Vince m al conseguiu se levantar. Calculava que os nergals haviam lhe quebrado um as duas costelas. Perdera tam bém um dos dentes de trás. “Quando voltar a Gaia, terei de m arcar um horário no dentista”, pensou. Sua vida continuaria do m esm o j eito que sem pre fora, pelo m enos enquanto a Grande Guerra não viesse até os hum anos. Não havia com o resistir ao poder dos nergals.

Evitou olhar para Thom as. Anoitecera e seu irm ão continuava inconsciente. Às vezes, trem ia, com o se fosse prisioneiro de algum pesadelo.

Vince podia prever o que aconteceria. Thom as iria se transform ar em um nergal invencível, aliado de Savac e dos outros. A Grande Guerra chegaria em breve, devastando m undos e m atando m ilhões. Apenas os m ais fortes sobreviveriam . O rapaz não tinha certeza de que o tio o protegeria por m ais tem po. Agora Hugues De Angelis contaria com Thom as, o Herdeiro com que tanto sonhara, e poderia dispensar sem hesitação o neto que sem pre o desapontara.

Vince foi até onde Erin estava deitada. O estado lam entável da j ovem abalou-o bastante. Era doloroso ver aquela garota cheia de vida j ogada com o um trapo. Ele se abaixou, tirando a capa e dobrando-a para acom odar-lhe a cabeça. Ela desviou os olhos úm idos que m antinha fixos em Thom as e o enxergou. Ainda havia esperança em seu olhar. Vince não sabia o que dizer. Não adiantava lutar contra o inevitável. O arqueiro que ela conhecera estava perdido para sem pre. O cavaleiro tem ia agora pela vida da j ovem . Os nergals a poupariam , depois de tudo que presenciara?

Sem coragem de enfrentá-la por m ais tem po, Vince aproxim ou-se do arcebispo, que o

vigiava. Motik e Stuart conversavam anim adam ente, à beira do penhasco.

— E, então, quanto tem po m ais? — perguntou Vince. — Falta pouco para a integração total. O rapaz não oferece resistência. Isso é bom . — E ela? Irás m atá-la?

— Sirry us fará isso. A j ovem representa a fraqueza de Thom as e nosso general quer garantir

que nada sej a capaz de interferir no poder de Gotihan.

Vince fitou as próprias m ãos, im potente. Um sentim ento de m elancolia arrastou-o para o

passado, para as lem branças reconfortantes de sua infância com Alix, naquele m esm o lugar onde hoj e só existiam ruínas.

— Com tantas j ovens apaixonadas neste m undo e em Gaia, tu escolheste para am ar a única

que não se interessa por ti — sorriu Hugues, com preensivo.

— O que queres dizer?

— Exatam ente o que ouviste. Vej o em ti os sinais de um grande am or, Vince. Eu te conheço

m uito bem . Só um sentim ento assim te m overia a agir com o um tolo, tentando m e im pedir com o fizeste há algum as horas.

— Estás dizendo tolices, tio.

Vince ia retornar para perto de Erin, distante dem ais para escutá-los. Não queria deixá-la

sozinha. O arcebispo prendeu-o pelo cotovelo.

— Não tentes im pedir Sirry us, senão ele tam bém te m atará — avisou. Vince soltou-se, sem se im portar com o futuro. Sim , ele m orreria para protegê-la. Não tinha

m ais certeza de que conseguiria viver sem ter a filha de Mark De Durham ao seu lado.