O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

8 - Ruínas

CAPÍTULO 8

Ruínas

Um a onda veio na direção de Mark e estourou perto de seus pés, trazendo-lhes espum a. Ele não

se abalou. Era interessante observar o Monastério daquele ângulo, nos rochedos j unto ao m ar.

Viu Dines saindo pelo portão para descer o cam inho estreito até o atracadouro.

Em m inutos, o abade, com seu sorriso m aroto, estava à sua frente.

— Eu te disse para não voltares às Terras Erm as — lem brou, estendendo-lhe a m ão.

— Não queres saber notícias do teu aluno? — perguntou Mark ao retribuir o cum prim ento.

— Por que não sobes para alm oçar conosco?

— Tenho pressa, Dines. Deixei m inha esposa e m inha escolta em Bach, na Ilha Média, e pretendo regressar o quanto antes.

Mark estava preocupado com Jane. Ela dem onstrava boa saúde quando a deixara, m as o hom em não esquecia a reação desesperada de Thom as, dias antes, na partida de Durham . Descobrira o quanto era im portante confiar na intuição do garoto. Pensou em Erin, a única filha que a senhora conseguira lhe dar. Houvera outros bebês, em épocas diferentes, m as ela não conseguira levar as gestações até o fim . A exceção fora um recém -nascido que vivera apenas algum as horas. Sem pre foi o sonho de Mark ver a casa repleta de crianças. O destino, o m esm o que lhe negara esse desej o, deixara em suas m ãos um garoto surpreendente com o Thom as. Finalm ente entendia por que o abade dem onstrava tanto interesse por ele.

— E com o está Thom as? Já partiu para a Grande Ilha?

— Então sabes que ele foi com igo para a Ilha Média?

Dines tinha o próprio sistem a para se m anter inform ado. Mark encarou-o, m uito sério. Sabia que suas próxim as palavras o surpreenderiam . E queria saborear cada detalhe da expressão chocada que ele faria.

— Brilho e poder sem eiam m orte por onde passam . O ódio os m ove, seres destruidores de estrelas. A esperança deve ser protegida, até que o Herdeiro chegue.

Dines ficou ainda m ais pálido do que j á era. Mark não aguentou e caiu na gargalhada. Ele conseguira, enfim , abalar aquele hom em sem pre tão seguro de si.

— O-Onde ouviste isto?

— É a tão secreta profecia, certo?

— Sim , é parte dela. Não devias rir de assuntos tão perigosos.

— Tens razão.

— Onde ouviste estas palavras antigas?

— Thom as recitou-as para m im .

— C-com o é possível?

— Não sabias que teu aluno entra em transe e fala com o um m aldito oráculo grego?

O abade desviou o rosto para o m ar. Parecia ter encontrado explicação para algum as coisas.

— Não, não percebi. Crianças costum am ter pesadelos...

— Mas elas não têm prem onições! Esse garoto possui o m esm o talento de Merlin, filho de Arthur, com o contam as lendas. E Thom as fugiu de ti, achando que irias expulsá-lo se descobrisses tudo.

Mark teve pena de Dines. Seu aspecto atorm entado m ostrava a culpa pela falta de

sensibilidade e de experiência para lidar com o pequeno andarilho.

— Ele está bem . Não te preocupes — garantiu o cavaleiro. — Achas que não irá m ais para a Grande Ilha? — Penso que foi um a desculpa que arrum ou para deixar esta vida sem graça de rezas. Dines sorriu, ainda apreensivo.

— Seria m elhor que ele voltasse para cá.

— Talvez depois de algum tem po. Thom as é um a criança carente de atenção. Acho que j á

sofreu m uito na vida. Em Durham , tem um a fam ília que o adora. É bem tratado e pode dispor de todo o carinho e am or de que precisa.

— Ele deve continuar os estudos.

— Livros e livros! Com os diabos! Só isso não basta para um a criança se desenvolver e ser

feliz! — gritou Mark, sem paciência. O abade não ia lhe tirar Thom as de j eito nenhum !

Foi a vez de Dines cair na gargalhada.

— Ainda m e lem bro do quanto reclam aste no dia em que pedi para levares o garoto em tua

viagem . Hoj e, tem es que eu o tire de ti.

O cavaleiro tam bém não pôde deixar de rir. Agora seria m uito difícil viver sem aquele garoto

inteligente por perto.

— Thom as tem um a m ente brilhante, Mark, que não deve ser desperdiçada — explicou o

abade, com a m ão erguida para que o outro lhe perm itisse term inar o raciocínio. — Farem os o seguinte: em alguns dias, m andarei um dos m eus m onges para Durham . Ele deverá ser o professor de Thom as. Tua filha tam bém será beneficiada, se não te opuseres.

Mark coçou o queixo. Seria divertido ter um m onge carrancudo em suas terras. Arla detestaria

ver am eaçado seu poder sobre Erin. E a filha adoraria aprender assuntos diferentes. Era um a garota esperta.

— Não irás m e explicar o sentido da profecia? — arriscou Mark, certo de que não obteria

nenhum a explicação. Era m ais fácil obrigar um a parede a falar.

— Esquece o que ouviste. E garante que Thom as nunca m ais repetirá as palavras antigas.

...

Erin pulou cedo da cam a, antes que Arla viesse cham á-la. Seus pais estavam fora há quase

quatro sem anas e ela não aguentava m ais de saudades. Claro que Thom as era um ótim o am igo, sem pre pronto para brincar. Mesm o assim , seu coração ficava apertado, principalm ente ao pensar na m ãe. Thom as não explicara sua atitude no portão, no dia da partida. Passara as horas seguintes quieto, contem plando as cham as da lareira. A m enina tem era que ele se com portasse do m esm o m odo estranho do outro dia, m as nada acontecera. Um dia depois, j á estava bem de novo, correndo com ela pelos cam pos de Durham .

A m enina adorava a prim avera. A região ficava tom ada pelas flores, assim com o os j ardins

de que a m ãe cuidava tão bem , na entrada do castelo. Além disso, nessa estação ela com pletaria treze anos.

— Nasci em 1º de m aio. Faço aniversário prim eiro! — dissera um a vez para Thom as,

provocando-o. Mas ele achara graça em ser o caçula. Nunca se dera conta disso.

Seu am igo não conseguia perm anecer quieto por m uito tem po e sem pre inventava algum a coisa diferente para fazer. Com a chegada do tem po bom , passara a escalar as m uralhas da fortaleza, para desespero dos guardas. Erin não ia tão alto quanto ele. Era apenas um a aprendiz e conhecia seus lim ites. Os dois nunca brigavam , o que era estranho para a m enina. Ela achava que, se tivesse um irm ão, arrum aria, pelo m enos, um a briga por dia. Adorava ser filha única. Com Thom as, não se sentia am eaçada. Era um grande com panheiro de aventuras. E a m enina o adm irava.

Quando desceu o corredor, pensando em ir à cozinha, viu o am igo diante do quadro da princesa Alix. Estava tão envolvido em algum pensam ento que não se m exia. Oz latiu, feliz em vê-la. Só nesse instante que o garoto voltou de onde estava e se surpreendeu com sua presença.

— Há um a coisa que tenho que te perguntar... — com eçou ela, indecisa.

— E o que é?

— Lem bras de todas as palavras que disseste naquele dia, no alto da torre?

O garoto fez um a careta, depois assentiu.

— Falaste que um tal de Savac era inim igo da Sacerdotisa Hannah...

— É, eu sei.

— Sabes com o se cham ava a m ãe do escudeiro de m eu pai, Erec De Sutter?

— Queres dizer...

— Quero dizer que pode ser a m esm a m ulher.

Thom as pareceu assustado e, logo depois, sorriu. “Ele é um garoto bonito”, pensou Erin.

— Vem com igo! Aqui não é um lugar seguro para conversarm os — sugeriu a m enina, arrastando-o pelo cotovelo.

O lugar seguro nada m ais era do que o alto da torre onde treinavam , cercada pela paisagem da Ilha Média.

— Cresci escutando histórias fantásticas sobre um a fam osa feiticeira. Seu nom e era Hannah — explicou Erin, ansiosa. Um a ideia para um passeio divertido agitava sua cabeça.

— Nunca ouvi ninguém falar sobre ela desde que cheguei aqui.

— Meus pais não gostam destas histórias e nos proíbem de com entá-las. Queres ou não ouvir?

O garoto apoiou os braços na m ureta de pedra, com o se estivesse cansado. Oz, deitado no chão, distraía-se em roer um graveto.

— Dizem que Hannah tinha poderes incríveis. Podia controlar os raios durante um a tem pestade e desaparecer quando bem entendesse. Há pessoas que falam que era um a bruxa do bem , pois sem pre cuidava de pessoas doentes. Vivia m etida na floresta, à procura de ervas que só ela conhecia.

A garota beliscou o braço do am igo.

— Estás m e escutando?

— Estou.

— Pois bem . Hannah era a senhora De Sutter, esposa do poderoso nobre Kirian, o m elhor cavaleiro do rei Jam es, pai do nosso Arnon. Contam que, num a noite, um a violenta tem pestade de raios caiu sobre o castelo deles. Dava para ver daqui.

— Com o assim ?

— Ora, Tom , Sutter fica do outro lado destas m ontanhas!

O garoto, pálido, prendeu a respiração.

— Meu pai e Erec eram vizinhos — prosseguiu ela, agora preocupada com ele. — Hannah foi

atingida por um dos raios e m orreu. Kirian ficou cego de desespero e definhou até m orrer. Erec era criança quando tudo aconteceu. Meu pai ficou com pena dele, trouxe-o para m orar aqui, em Durham , e o treinou com o escudeiro. O rapaz tornou-se um grande cavaleiro...

— No torneio, em Brusk.

— É. Com o sabes?

— E o rei Arnon ofereceu a m ão da filha em casam ento. — Exatam ente! Alguém te contou esta história? — Não. Eu vi parte dessa história.

Thom as buscou algum a coisa dentro da roupa. Erin viu um a pedra sem graça, pendurada por

um cordão de couro.

— Um a vez, no Monastério, ouvi a voz de um a aia cham ando a princesa Alix para se

apressar, senão ela perderia o torneio — explicou Thom as, m irando-a com olhos penetrantes. Erin estrem eceu. Havia fogo naquele olhar, algo capaz de aterrorizar um adversário. — Horas antes, tinha visto o reflexo de Alix, ainda criança, no vidro da j anela da biblioteca. À noite, desej ei m uito ter um a visão. Sabes, ter algum controle sobre ela. Cham ei por Alix e m ergulhei na escuridão. Quando despertei, estava em Brusk, no dia do torneio que Erec venceu. Erin, eu o vi vencer! Vi tua m ãe, j unto a Alix! E vi teu pai, apresentando seu escudeiro ao rei Arnon...

O garoto arrependeu-se do que dissera quase sem tom ar fôlego. Despej ara as palavras sem

pensar. Erin pressentiu que era a prim eira pessoa a escutar o desabafo. Sorriu.

— Aqui, na Ilha Média, os m ais velhos acreditam no Livro do Tem po. Thom as m eneou a cabeça, sem entender.

— É um tipo de registro que existe além do alcance de nossa visão, ninguém sabe bem onde.

Deus anota tudo o que está acontecendo, m inuto após m inuto. Assim , o registro perm anece para quem tem o poder de consultá-lo. Acho que, de algum a form a, tu fazes isso. Olhas o livro e vês todo o passado que está escrito nele.

— O livro tam bém traz o futuro? Não acredito que nosso destino j á estej a traçado. O futuro é

um a decisão que depende de cada um .

— Talvez ele m ostre apenas possibilidades do que pode acontecer — refletiu. — Já viste esta pedra antes? — perguntou o garoto, m ostrando-lhe o obj eto que segurava. A

am iga balançou a cabeça de m odo negativo. — Erec a deu a Alix, no dia em que a pediu em casam ento.

— E com o foi parar na tua m ão?

Thom as sentou-se no chão. Erin fez o m esm o. Então, ele lhe contou sobre a m ãe ladra que

tivera, seu nascim ento na Noite dos Mortos e os obj etos que herdara — o livro de capa azul e a pedra opaca. Depois, lem brou em detalhes tudo o que vira e ouvira nos dois transes. Quando term inou, fitou a am iga, aflito pela reação dela. Parecia abandonado, perdido. Erin sentiu orgulho por m erecer sua confiança. Ela tam bém experim entou um forte sentim ento de ternura. Teve vontade de abraçá-lo, de protegê-lo. Tocou de leve os cabelos escuros que caíam em sua testa, colocando-os para trás. O cachorrinho desistiu de brincar com o graveto e pulou para o colo do dono, abanando o rabo.

— Sem pre te achei parecido com a princesa Alix. Acho que és filho dela. — Não, não sou. O filho dela era um garoto loiro. Não sei o que m e liga à história dessa gente.

— Alix estava grávida, não é? Um bebê que deveria nascer no com eço de novem bro, m as que pode m uito bem ter vindo ao m undo no dia 31 de outubro.

— Erin, a princesa m orreu naquele incêndio.

— Tu a viste m orrer?

— Não exatam ente...

— Tu a viste desaparecer nas cham as.

— Achas que ela sobreviveu? Tolice, ela nunca sairia de lá. A não ser...

Os olhos do garoto brilharam .

— ... que houvesse um a passagem secreta! — com pletou a m enina. — Castelos sem pre têm passagens secretas. Escuta, acho que Alix escapou por algum túnel subterrâneo que term inava na Praia dos Pelicanos. Este devia ser o plano de fuga de Erec.

— Faz sentido. De lá ela seguiu para a Grande Ilha, à procura desse tal Moriarty .

— Pensa, Tom . Alix era um a princesa criada entre as paredes de um castelo. Não sabia se virar sozinha. Estava com m edo, desesperada. Deve ter se perdido, passado fom e, roubado para sobreviver...

— E acabou m orrendo no acam pam ento de um grupo de andarilhos. É um a história um tanto m aluca, não achas?

— Tanto quanto ter um am igo que consulta o Livro do Tem po!

Thom as riu da com paração. Depois, m ais sério, apertou as m ãos da m enina contra as suas.

— Preciso ir até Sutter.

— Eu te levarei am anhã cedo. Fica a m eio dia de cavalgada daqui, cruzando um a trilha nas m ontanhas — explicou a garota, em polgada. — Já estive lá um a vez, com m eu pai. Ele não gostou m uito de m e levar, m as eu não o deixei em paz até m e m ostrar as ruínas.

— Poderei descobrir se há m esm o algum a passagem que ligue o castelo até essa praia.

— A praia é um lugar inacessível. Não existe um a passagem conhecida. Só os pelicanos m oram por lá.

— Há um problem a: precisam os pensar em um a m aneira de sair sem Arla perceber...

A solução caiu do céu. Arla foi cham ada às pressas para aj udar no parto da esposa do m oleiro, que ganharia o nono filho. Ficaria, no m ínim o, quatro dias ausente. Para os criados, as crianças inventaram a desculpa de que iriam passar o dia no lago, num a agradável pescaria. Partiram nas prim eiras horas da m anhã.

Pégasus era um cavalo rápido, assim com o a égua castanha de Erin. Eles contornaram parte do lago e, a seguir, tom aram um a trilha estreita de pedras, oculta entre a vegetação. Era um cam inho praticam ente tom ado pelo m ato. Os cavalos tiveram dificuldade para avançar. A trilha subia j unto à encosta de um a das m ontanhas, em curvas perigosas que exigiam toda a atenção das crianças. Erin parou na borda, estudando o abism o que, a centím etros de sua m ontaria, dava a im pressão de despencar para o infinito.

— Não olhes para baixo — aconselhou Thom as. A m enina não tinha a m esm a fascinação que ele por lugares altos.

Seguiram em silêncio, redobrando os cuidados. Um a pedra rolou sob um a das patas de Pégasus, am edrontando-o. Thom as segurou com firm eza as rédeas para acalm á-lo, enquanto escutava o eco da pedra rolando pelo desfiladeiro. Oz, protegido no bolso de sua capa, rem exeu-se e voltou a dorm ir. Erin m ostrou-se indiferente, m as o garoto sabia que ela controlava o m edo m uito bem . O cenário era pior do que os dois im aginaram . O cam inho m al dava passagem para os cavalos, obrigados a seguir um atrás do outro. Acim a deles, as m ontanhas zom bavam , inatingíveis, da audácia das crianças.

— Eu estava com oito anos quando m eu pai m e trouxe aqui. Vim na sela do cavalo dele e não

m e lem bro deste traj eto estar tão abandonado — j ustificou a m enina, com a voz trêm ula.

Thom as fitou o céu azul, tranquilo e lim po, além dos picos m ontanhosos. “Pelo m enos não vai

chover”, tranquilizou-se. A trilha tornou-se m ais fácil no instante em que atingiram seu ponto m ais alto e com eçaram a descer. Thom as ficou apreensivo. A qualquer m om ento, em algum a curva, ele veria as terras de Sutter pela prim eira vez.

Quando as ruínas surgiram , ele sentiu um a pontada no coração. Elas revelavam que, outrora,

um castelo im enso e poderoso existira ali, à beira de um im ponente precipício. Quilôm etros abaixo, o m ar batia furioso contra os rochedos. O barulho das ondas veio trazido pelo vento. Um lugar inóspito, am aldiçoado, solitário. Por que Alix gostava tanto desse m undo assustador? “Talvez porque lhe trouxesse a paz que tanto am ava”, pensou o garoto, adm irando cada detalhe do cenário quase selvagem . Notou, sem evitar o m edo, que não havia gaivotas no céu ou qualquer outro ruído que revelasse a existência de vida em Sutter.

Os cavalos continuavam a descer a trilha. Era m ais de m eio-dia quando as crianças se

aproxim aram do que restou do antigo castelo. Quase não havia nada em pé, exceto poucas paredes, sem idestruídas, e pedras de tam anhos variados em alguns pontos do local.

— Olha, Tom , daqui sai um a trilha para um a praia, ali em baixo — apontou Erin logo que

desceu de sua m ontaria. — Aposto que Alix levava o filho até lá para brincar.

Thom as tam bém desm ontou. O cachorrinho, incom odado por passar tanto tem po no bolso,

choram ingou. Assim que foi solto, saiu correndo. Com tristeza, o garoto procurou recriar m entalm ente os aposentos, os corredores, a escada e o salão principal que percorrera durante o transe.

— Aquela não é a Praia dos Pelicanos — continuou Erin. — Ela fica para o sul, em direção a

Durham .

Um tipo de vegetação seca cobria o lugar em vários pontos. Nada florescera ali; nem o m ato

conseguira se m anter. A atm osfera era tão opressiva que Thom as teve a im pressão de que poderia tocá-la. Erin j untou-se a ele, tam bém apreensiva.

— Lem bras de com o era este local? — perguntou a m enina. — Acho que o salão principal ficava atrás daquele m onte de pedras... — disse ele, sem m uita

convicção.

Os dois deram a volta e pararam . Nenhum a pedra parecia ter sido parte, um dia, de um salão.

O filhote cheirava tudo ao seu alcance. Escalou facilm ente um punhado de pedregulhos am ontoados e, im paciente, com eçou a escavar com as patas, j ogando terra para os lados. Erin e Thom as entreolharam -se, esperançosos.

— O que tens aí, am igo? — perguntou o garoto. Ele em purrou algum as pedras pequenas, aj udando o cachorro em sua busca. Então, seus

dedos tocaram um a superfície lisa e dura. Involuntariam ente, Thom as recuou. Oz, m edroso, escondeu-se atrás de suas pernas. Parte de um crânio hum ano surgira para intim idá-los.

— Viem os de tão longe para os dois terem m edo de um a sim ples caveira? — zom bou Erin. Com raiva, o garoto segurou um a resposta m alcriada. Não tinha tem po para brincar. Ele, ao contrário da garota, passara os últim os anos no m eio de adultos. Além disso, sentia a cobrança de Dines para que se com portasse com o um . Às vezes, esquecia que Erin era apenas um a m enina de quase treze anos e tão gozadora quanto Mark De Durham . Quando os dois se uniam , Thom as sem pre virava o alvo das brincadeiras. Era difícil para ele encarar a vida com tanto bom hum or e de m aneira tão despretensiosa.

Com a cara am arrada, atravessou para o outro lado, procurando se concentrar em um a parede que devia ser um pouco m ais alta do que ele. Se pudesse encontrar os degraus da escada que Alix descera aquela noite, talvez...

Oz latiu para o crânio, ainda assustado. Thom as virou-se e viu Erin cam inhando até o cachorrinho para tentar acalm á-lo. Ela avançou sobre um a laj e...

— Erin, não! — gritou ele, correndo para im pedi-la.

Tarde dem ais. A garota sum iu, com um grito desesperado.

A laj e, frágil dem ais para aguentar seu peso, rachara ao m eio. Thom as aj oelhou-se, tom ando cuidado para não forçar a base de pedra. Esticou o corpo para o buraco que surgira, sentindo os pedaços da laj e cederem alguns centím etros. Não conseguiu ver o fundo, tom ado pela escuridão.

— Erin? — gritou. Só teve o eco com o resposta.

Desesperado, cham ou a m enina de novo. Dessa vez, teve a certeza de ouvir um gem ido.

— Vou descer!

O m ais rápido que pôde, foi até Pégasus. Retirou um a corda de sua m ochila e voltou correndo. Oz aguardava-o, dando voltas ao redor da laj e. Thom as am arrou, firm em ente, um a ponta da corda em um pedregulho, j ogando o restante dentro do fosso escuro.

— Fica aqui, Oz. Vou buscá-la. E não arrum es m ais nenhum a confusão!

O cachorrinho, am uado, choram ingou. O garoto passou parte da corda sob um dos braços, enlaçando a cintura. Quando os pés tocaram a base de pedra, ela estalou. Ele a contornou com cuidado, deslizando, enfim , para dentro do fosso. Os pés logo acharam apoio nas paredes de pedra, cobertas de lim o.

— Erin?

Não teve resposta. Ele tossiu, enquanto o cheiro de m ofo penetrava-lhe nos pulm ões. Estava m ais do que arrependido por tê-la arrastado até Sutter. Era óbvio que o lugar era perigoso dem ais para ela.

— Tom ? — m urm urou um a voz logo abaixo dele.

Agradeceu aos céus, aliviado. Ela estava viva!

— Onde estás?

— Aqui...

Thom as desceu m ais um pouco. Os pés tocaram num a reentrância. E depois outra. E m ais outra. “Degraus!”, descobriu, entusiasm ado. Encontrara um a escada subterrânea. Desceu, ainda seguro pela corda, e cham ou novam ente pela am iga.

— Aqui — respondeu ela, a m enos de um m etro.

Tateando no escuro, encontrou-a, esprem ida num a curva da escada.

— Estás bem ? — perguntou, aflito.

— Acho que torci m eu pé.

— Consegues sentar?

— Consigo.

O garoto aj udou-a a erguer parte do corpo, am parando-lhe as costas. Logo depois, apalpou

seu pé, com cuidado. A m enina gem eu.

— Não conseguirei te seguir pela escada, nem voltar para a superfície — disse ela, engolindo

a vontade de chorar. — Deves m e deixar aqui e procurar aj uda.

— Há um a opção.

Ele pousou as m ãos sobre o pé m achucado e esperou. Sabia que, de m odo inexplicável,

poderia reverter a situação. Bastava apenas transferir a dor da m enina. Então, em seu próprio corpo, ele travaria um a luta, com o j á acontecera em outras oportunidades. Não tinha ideia de com o fazia aquilo, apenas que fluía instintivam ente dentro dele.

Aos poucos, a dor e o cansaço de Erin invadiram seu organism o. Ele estrem eceu, sentindo-se

m uito pesado. Lentam ente, encostou-se na parede e fechou os olhos.

— Tom , o que aconteceu?

— Preciso de alguns m inutos. Apenas isso — sussurrou, com esforço. Iria enfrentar a pior

fase do processo.

Foi de quase m eia hora o tem po que levou para se recuperar. Seus olhos j á tinham se

acostum ado à escuridão.

— Estás m elhor?

— Estou curada, sabes disso — respondeu a m enina. — Foi o que fizeste com m inha m ãe, não

foi? Aquele pó de folhas de não-sei-o-que não é tão bom assim !

— O rem édio é m uito eficaz! — defendeu Thom as, querendo m udar o rum o da conversa. — Tu entendes m uito bem o que quero dizer. Livraste m inha m ãe da crise com o acabaste de

fazer com igo agora. E depois, quando todo m undo achava que estavas doente por ter caído no rio, tu apenas te recuperavas por tê-la aj udado.

Não havia m ais o que esconder.

— Não m e peças para explicar o que faço — disse ele, nervoso. — Apenas... acontece! Erin não insistiu. Ergueu-se para analisar o percurso sinistro que a escada fazia para baixo. — Trouxeste a tocha? — perguntou.

De um bolso da capa, Thom as tirou um pedaço de m adeira, envolto em tecido, além de

pedrinhas para fazer o fogo.

— Ah, antes que eu m e esqueça... — disse a m enina, pronta para a aventura. — Obrigada por

m e curar.

...

Após m ais de um a hora de descida, a escada desem bocou em um piso plano, de pedra. O

túnel era apertado, suficientem ente alto e largo apenas para a passagem de um adulto por vez. Thom as ia na frente, seguido por Erin.

— Percebeste que não há ratos? — perguntou ele, expressando em voz alta sua preocupação. — Ratos? — repetiu a garota, estridente.

— É, ratos! Passagens subterrâneas estão cheias deles. Assim com o baratas, form igas e outros

insetos...

Erin apertou-lhe o braço com força.

— Lá em cim a, não há gaivotas, nem qualquer outro sinal de vida — continuou ele, sem reparar no m edo que a garota sentia. — Achas que é algum tipo de m aldição?

— N-não sei. Contam histórias terríveis sobre este lugar. Nunca acreditei nelas.

— Que histórias?

— Já te falei da feiticeira. Na época em que ela vivia no castelo, aconteciam fatos estranhos, com o o surgim ento de luzes e estrondos noturnos. Quando Hannah e Kirian m orreram , o lugar foi abandonado. Anos depois, Alix pediu para vir para cá quando m eus pais se casaram . Acho que queria ficar perto da m inha m ãe. Tudo foi reform ado e am pliado para receber a princesa. E, então, houve o ataque e o castelo acabou destruído. Todos m orreram , Tom . E havia soldados, criados, pescadores e m uitas fam ílias aqui.

— A fortaleza não era tão grande quanto a de Durham .

— É verdade, m as abrigava dezenas de pessoas. Muita gente trabalhava com a captura e a venda de pescados para outras regiões da Ilha Média. Sutter j á foi m uito próspera. Era considerada tam bém um a região estratégica, que oferecia proteção contra um possível ataque inim igo vindo do m ar.

Erin parou para tom ar fôlego. O ar abafado dificultava a cam inhada.

— Dizem que a feiticeira é responsável pela desgraça que se abateu sobre Sutter. Que ela veio num a noite escura para se apossar das alm as de todos os que tentavam viver neste lugar am aldiçoado.

— Já te contei o que aconteceu de verdade — resm ungou Thom as, sem paciência. Agora que com eçava a aceitar a possibilidade de Hannah ser sua avó, não queria pensar nela com o um ser m aligno.

— Fatos que som ente tu sabes. Não sobrou ninguém para contar o que aconteceu. Claro que o povo tem que inventar suas próprias histórias! — j ustificou Erin. — Há algo que descobri sobre aquele conselheiro do rei Arthur...

— O que fazia profecias?

— Sim . Sabes que terras ele ganhou por seus serviços?

— Sutter?

Erin sorriu. “Todos os cam inhos do m undo levam a Sutter”, pensou o garoto, irônico. As crianças seguiram em silêncio por m uito tem po. A cham a da tocha ardia sem pressa. Apesar do am biente opressivo, um a leve corrente de ar incentivava a j ornada. Em certo ponto, o piso inclinava-se para baixo, escorregadio com o lim o.

— Segura-te em m im — pediu a Erin. A garota obedeceu, prendendo-se à sua m ão.

Com cuidado extrem o, os dois avançaram m ais alguns m etros. A m ão livre do garoto buscava apoio na parede. De repente, seu pé direito derrapou. Erin segurou-o, com firm eza, im pedindo-o de cair. Thom as tentou se concentrar novam ente, um passo de cada vez. A parede era frágil dem ais.

Um pouco adiante, os pés do garoto escorregaram . Erin tam bém se desequilibrou e os dois deslizaram pelo túnel cada vez m ais inclinado. As costas de Thom as bateram contra a parede de um a curva. Com o im pacto, parte do chão se abriu, j ogando-os buraco adentro. A tocha apagou-se.

As m ãos do garoto procuraram desesperadam ente um a form a de im pedir aquela descida vertiginosa. Sem sucesso, elas apenas arrancavam pedaços das paredes. Erin tam bém caía, bem atrás dele. Num baque, ele tom bou contra o chão duro e foi arrem essado para o vazio. Caiu de barriga sobre um a superfície de terra. Com um grito, Erin espatifou-se ao lado dele. Um barulho ensurdecedor vinha logo atrás.

Rápido, Thom as agarrou os braços da garota e puxou-a para longe. Em segundos, um a

avalanche de pedras, vindas do túnel, cobriu o local onde haviam aterrissado.

— Parece que vivo caindo, não é m esm o? — m urm urou Erin. Espiava, incrédula, a pilha de

pedras que, por pouco, não esm agara os dois.

Estavam sentados no m eio de um a caverna am pla e surpreendentem ente ilum inada. Thom as,

ainda sem fôlego, olhou Erin com atenção. Um corte fundo sangrava em sua testa. Outro m enor m arcava o canto dos lábios e ainda havia um hem atom a na bochecha direita. A garota estava im unda. Na altura do j oelho, a calça com prida rasgara, expondo pequenas escoriações. Thom as tam bém sabia que não estava m uito m elhor.

— Perdoa-m e por ter te colocado nesta situação — disse, baixinho. Ele tocou o ferim ento na

testa da am iga, estancando autom aticam ente o sangue. Ia tocar-lhe os lábios no segundo em que a garota o deteve.

— Tom , eu estou bem — garantiu. — Posso aguentar! Essa história de ficares curando todo

m undo acaba com tua saúde. Não quero te carregar depois.

O garoto riu.

— És m uito coraj osa. Um a verdadeira guerreira! — elogiou, adm irado. Ela estava se saindo

m uito bem naquela aventura perigosa.

— Desde que eu não tenha que enfrentar ratos... Agora vam os! Precisam os descobrir de que

lugar vem a luz que ilum ina esta caverna.

Eles se ergueram com um pouco de dificuldade. Desolado, Thom as avaliou a abertura do

túnel por onde tinham escorregado.

— Não podem os voltar — disse. A passagem fora obstruída por dezenas de pedras. O teto da caverna era baixo. Um adulto teria de atravessá-la levem ente encurvado. As

crianças andaram vários m etros em direção à luz, que se tornava cada vez m ais forte. Thom as descobriu, à esquerda, que o cam inho revelava outra passagem , só que esta os levaria para um túnel escuro. A esperança cresceu na m ente dele. Talvez tivessem um a opção para sair daquele lugar. O barulho de ondas precedeu a visão de um a m inúscula praia de rochedos negros e areia branquíssim a: a Praia dos Pelicanos. Um a brisa refrescante recebeu-os do lado de fora. No céu, alguns pelicanos batiam as asas contra o sol. Thom as calculou que fosse por volta de 4h da tarde.

Erin foi até o m ar azul-claro, de águas transparentes. Lavou as m ãos, com cuidado. Depois,

retornou para perto do garoto e entregou-lhe a água doce que carregava num a garrafa de m etal.

— Bebe prim eiro — disse ele, e tam bém foi lavar as m ãos no m ar. Elas arderam , esfoladas.

Havia um corte num a delas.

A m enina tom ou o líquido e, a seguir, passou a garrafa para Thom as. Os dois sentaram -se na

areia e esticaram as pernas para a frente.

— Eu trouxe um lanche — avisou a m enina, risonha. Do bolso, tirou pães, frutas secas e

queij o, acondicionados num a bolsa quadrada. — Acho que só está um pouquinho am assado...

Erin, com o o pai, adorava com er. Devia ter sido um sacrifício para ela ficar até aquela hora

sem colocar nada no estôm ago. Thom as deu apenas um a m ordida no pão, ansioso dem ais para se interessar por com ida. Sua m ente im aginava Alix naquela m esm a praia, anos antes, olhando desesperada para o m ar.

— Acho que ela pensou em se afogar...

— Pode ser — concordou a am iga, seguindo-lhe o pensam ento. — Acho que ela pensou em ti, ainda na barriga dela, e resolveu lutar para viver. Tu lhe salvaste a vida.

— E depois a tirei, na Noite dos Mortos.

— Tom , sê obj etivo! — disse a garota, sacudindo os om bros dele. — Fatalidades com o essa acontecem . Quando eu tinha dez anos, m inha m ãe quase m orreu durante um parto. Meu irm ãozinho não teve sorte e viveu apenas algum as horas.

O garoto respirou fundo, tentando relaxar.

— Alix deve ter vindo até aqui — disse. — Descansou um pouco e, então, seguiu viagem .

— Erec disse que havia roupas, provisões e dinheiro na praia, não foi?

— Sim . Acho que j á sei que cam inho ela tom ou.

Novam ente de pé, Thom as foi até a abertura da caverna. Ia entrar, m as parou, espantado. Algo lhe cham ara a atenção. Um a cavidade profunda na superfície rochosa revelava a form a de um obj eto m uito fam iliar. Curiosa, Erin levantou-se para observá-lo. Ele retirou o cordão de couro e fitou durante alguns segundos a pedra opaca. Depois, encaixou-a na cavidade. No m esm o instante, a pedra abandonou a aparência sem graça e foi se tornando cada vez m ais brilhante e poderosa.

Um arrepio percorreu o corpo do garoto. Atrás das crianças, j unto ao m ar, um a j ovem deslum brante dirigia-lhes palavras que não entendiam .

Ela falava um idiom a desconhecido. Vestia um a blusa negra, de gola alta e m angas longas. A calça com prida, j usta e da m esm a cor, era coberta parcialm ente por um par de botas de couro, de salto fino. Os cabelos loiros e ondulados quase atingiam os cotovelos. Apesar das roupas esquisitas, o que m ais im pressionou Thom as foram os olhos: azuis e assustadores. Ela era atraente, com traços perfeitos, um tipo de beleza estonteante que o garoto nunca vira.

A j ovem avançou para as crianças. Na defensiva, Erin apontou-lhe um a adaga. A outra parou e riu, zom bando de sua atitude.

— Não creio que ela nos fará m al — disse o garoto, pedindo que a am iga abaixasse a arm a.

— Mas Tom ...

— Confia em m im , Erin.

Enquanto as crianças falavam , a j ovem cerrou as pálpebras.

— Britany a, sotaque da Ilha Média. Já o garoto usa um sotaque m isto, com elem entos distintos da Grande Ilha e das Terras Erm as — disse a j ovem , fitando-os novam ente. — Muito bem , agora que j á aj ustei o idiom a podem os conversar. O que fazeis aqui?

— Viem os pela passagem secreta do castelo de Sutter e saím os por esta caverna — explicou Thom as, cada vez m ais fascinado.

— Não é isso que estou perguntando. Quero saber quem vos m andou!

Erin e Thom as entreolharam -se, sem entender.

— Com o conseguiste esta pedra, garoto? — intim ou a j ovem , im paciente, apontando para o brilho que vinha da parede externa da caverna.

— Pertenceu ao m eu pai.

— E com o ele a conseguiu?

— Era da m ãe dele, um a m ulher cham ada Hannah.

A j ovem ergueu um a sobrancelha.

— Em que ano estam os?

— Em 834 da Era Arthur.

— Se estás aqui, então é porque Erec falhou. Ele m orreu? As crianças assentiram . A j ovem , pensativa, cruzou os braços. — Então, és o neto de Hannah?

— Sou.

— E sabes o que sou? — continuou, desafiante. — Não és real — m urm urou Thom as, com um sorriso. Já vira pequenas im agens holográficas, geralm ente reproduções de anim ais e plantas, no salão

subterrâneo do Monastério, m as nada com parado àquela tecnologia. A j ovem parecia real, com m ovim entação extrem am ente convincente. O garoto, porém , podia sentir a ausência de vida na im agem que se m ostrava tão verdadeira. Se ele se aproxim asse, não poderia tocá-la. A m ão atravessaria o vazio, através do corpo dela, com o acontece quando se brinca com fum aça.

— És um a proj eção, gerada por algum program a de com putador, que eu acionei ao encaixar

a pedra de Hannah na parede.

Erin abriu a boca, sem com preender o que ele dizia. Arregalou os olhos e fitou-o, m ordendo

os lábios.

— Sabes m uito sobre tecnologia — disse a j ovem , surpresa. — És o único ou o m undo

ignorante de Britany a se abriu para o conhecim ento neste tem po em que estive aqui?

— Sou um a exceção.

— E quem te ensinou tudo isso?

— Um professor inteligente que conserva parte de um a tecnologia extinta. — Não respondeste a m inha prim eira pergunta. Quem vos m andou? — Viem os sozinhos, à procura de respostas.

— E quem é ela? — perguntou a j ovem , com desprezo, ao se referir a Erin. A m enina

em pertigou-se, orgulhosa.

— É um a am iga.

— Ela não entendeu nada do que dissem os. É ignorante e descartável. Erin avançou contra ela. Thom as deteve-a com dificuldade. — É um a garota inteligente, que aprende rápido. Quanto a ti, és um hologram a, um a im agem

da Hannah verdadeira — apostou. — Só não entendo por que ela te deixou aqui.

— O plano B — disse Erin, ainda com raiva. — Hannah deixou um a parte dela para trás, caso

seu plano, qualquer que fosse, falhasse.

— A pedra é um tipo de chave — deduziu Thom as. — Hannah deixou-a com Erec para que

ele continuasse o que ela com eçou.

— Sim , eu treinei Erec durante m uito tem po — adm itiu o hologram a. — Ele sem pre vinha até

aqui. Esse é o m eu trabalho. Sou um program a de com putador, criado à sem elhança de Hannah, a sacerdotisa, para dar continuidade à sua m issão. Tenho tam bém sua personalidade, seu padrão de com portam ento e suas reações, além de poder de decisão, baseado no tipo de raciocínio que a m ente de Hannah desenvolvia.

— Mas tu não tens sentim entos... — disse Thom as. — Tens razão. Sou um program a holográfico. — Alix sabia da tua existência?

— A esposa de Erec? Não, claro que não.

— Então tu não a viste na noite em que o castelo de Sutter foi atacado?

— Na últim a vez em que vi Erec, ele m e pediu para identificar um obj eto...

— A perenthis? — perguntou Thom as, ansioso.

Tudo se encaixava. Seu pai, após com prar o estranho obj eto do servo de Hugues De Angelis, fora conversar com o program a holográfico para ter certeza do que trazia. Depois, deve ter feito o cam inho secreto até o castelo, onde encontrou um a noite de sofrim ento e m orte.

— O que sabes sobre as perenthis? Isto é inform ação altam ente confidencial.

— São m ais de um a? — disse o garoto, sem pensar. Hannah reservou-lhe um olhar inquisidor. Acabara de descobrir que Thom as sabia m uito pouco para dar continuidade à conversa.

Sorriu, com desdém . O garoto não estava preparado para substituir Erec. Ela deveria aguardar até que a pessoa certa a procurasse.

— Deves partir, garoto, com tua am iga, e esquecer o que viu e ouviu nesta praia.

— E quem m ais achas que está preparado para vir até aqui, Hannah? — gritou Erin. — Thom as é o único...

— Não repetirei o que vos disse.

— Posso te fazer um a pergunta? — pediu Thom as. A im agem iria desaparecer em segundos.

— Não.

— Por que eu anunciei um a profecia, sem nunca ter lido ou ouvido nada a respeito dela?

Hannah, que observava o m ar, distraída, voltou-se para ele.

— Por que eu vej o fatos do passado, que aconteceram antes de eu nascer? Por que tenho prem onições? — insistiu Thom as, com eçando a se desesperar. Tinha m edo, depois de chegar tão perto, de retornar para Durham sem um a única explicação.

O hologram a não quis responder. Apenas fixou os olhos nos do garoto, com o se quisesse lhe arrancar a alm a.

— E quando essas coisas acontecem com igo, eu passo m al, vom ito, tenho dor de cabeça... — disse ele.

— Tu evitas e tem es essas m anifestações. Claro que elas acabam te fazendo m al. Precisas aprender a lidar com isto.

— E o que são exatam ente essas m anifestações? E... com o consigo curar doentes e feridos?

— Tudo no universo está conectado entre si. Há um a ligação que vai desde a estrutura de um m inúsculo grão de areia até a estrela de um a galáxia distante. De form a inconsciente, decifraste essa conexão.

— E por que fico doente?

— Disseste que era apenas um a pergunta. Já fizeste seis — reclam ou ela. — Por que não transferes o que extrais de teus pacientes para um obj eto?

— N-não sei com o fazer...

— Por que não o ensinas? — perguntou Erin.

— Não é responsabilidade m inha — respondeu Hannah.

— Se ele não aprender a lidar com essas, essas m anifestações, com o cham as, o que irá acontecer?

— O garoto m orrerá.

— Se Thom as tem a pedra e veio até aqui, com o podes dizer que isso não é tua responsabilidade? Ele é herdeiro da sacerdotisa Hannah e precisa da tua aj uda. Que belo program a sei-lá-o-que tu és! Não serves para nada!

A j ovem girou o rosto para a m enina.

— Um a avó abandonaria o neto? Hannah faria isso? — insistiu Erin. A brisa do m ar soprou com m ais intensidade. Um grupo de golfinhos surgiu ao longe, m as

ninguém se interessou por eles.

— És realm ente o neto de Hannah. A pedra só funciona para quem carrega os genes da

sacerdotisa — m urm urou a j ovem . — Erec sabia qual era a m issão, conhecia o que estava em risco. Só posso transm itir essa inform ação para quem está autorizado.

— E quem pode m e autorizar? — perguntou Thom as, com o coração batendo m ais forte. —

Moriarty ?

— Sim , apenas ele. Tu o conheces?

— Não.

— Então não posso fazer nada por ti, exceto te ensinar a lidar com as m anifestações. Queres

com eçar agora?

O garoto sentiu-se tentado a aceitar o convite. No entanto, hesitou. O sol avançava para o

oeste, logo o dia chegaria ao fim . E ainda precisavam sair daquele lugar.

— Posso voltar outro dia?

Hannah fez um sinal afirm ativo com a cabeça e sum iu no ar. A pedra, presa à parede, parou

de brilhar.

...

A passagem na caverna dava para outro túnel, m ais curto do que o prim eiro. Cerca de um a

hora de cam inhada m ais tarde, as crianças encontraram facilm ente um a segunda caverna, m enor e esprem ida, abaixo de um a queda-d’água. Passaram pela água, saindo para a floresta. O rio continuava, batendo nas várias pedras que surgiam abaixo, com o um a escadaria natural.

— Esta é a nascente do rio de Durham — constatou Erin, feliz. — Estam os a um a hora a

cavalo de casa. Tanto trabalho à toa! Poderíam os ter descoberto antes esta passagem .

— Tem os de buscar Oz e os cavalos.

— Tu te lem bras do Joe, o hom em que cuida do m oinho, logo adiante? — Sei.

— Posso pedir para ele ir a Sutter pela trilha nas m ontanhas. Joe m e deve um favor. E é de

confiança.

Thom as aceitou a sugestão. Olhou para o céu, que com eçava a receber as nuvens escuras da

noite.

— Precisam os correr... — disse, com um m au pressentim ento.

...

Já era noite quando as crianças entraram pela cozinha, im undas e cheias de arranhões, cortes

e m achucados. Tinham voltado o m ais rápido possível, sem trocar nenhum a palavra durante o percurso. Só havia um a criada no local. Ela chorava, debruçada sobre a m esa.

— O que está acontecendo, Maria? — perguntou Erin.

— Lady Jane...

Sem esperar qualquer explicação, a m enina disparou para o quarto da m ãe.

— O que tem Lady Jane? — quis saber Thom as, tem endo a resposta.

— Ela teve um a crise em Bach, na casa dos am igos. Cham aram um padre, m as ele não conseguiu salvá-la. O senhor acabou de chegar, trazendo-a de volta para as terras que tanto am ou...

O garoto seguiu os passos de Erin. A porta do quarto de Jane estava entreaberta. Deitada sobre a cam a, a senhora j azia, pálida. Os cabelos soltos estavam espalhados sobre o travesseiro. Em pé, Mark De Durham , com o rosto transtornado, abraçava Erin. A m enina soluçava. Thom as fez um m ovim ento para sair, m as o cavaleiro o deteve, cham ando-o com um gesto. O garoto aproxim ou-se, lentam ente. Mark passou o braço livre sobre seus om bros e puxou-o contra si. Só então Thom as perm itiu que a tristeza o consum isse.

Afundou o rosto nas roupas do cavaleiro e libertou as lágrim as que sufocava desde a m anhã em que soubera que a m orte finalm ente venceria um a luta desigual.