O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

4 - Fogo

CAPÍTULO 4

Fogo

Oretorno para York foi doloroso para Thom as. Não apenas pela hum ilhação de estar preso por

correntes e ser prisioneiro de Vince De Angelis, m as pela culpa que o atorm entava. Com etera

vários erros, com o deixar para trás as flechas que utilizara no ataque aos guardas de Rouen De Larc. E não parara por aí. Jam ais passaria despercebido usando roupas caras em um am biente m iserável. Trouxera um anim al de raça com o Pégasus para a Grande Ilha, cham ando a atenção do m undo... Devia, de algum a m aneira, ter colocado Shannon a salvo. Falhara. Pelo m enos, aparecera a tem po para evitar sua m orte. No últim o transe, vira-a ser acidentalm ente m orta pela espada de um dos guardas que atacavam Jon.

York não m udara m uito. Ainda era um a cidade de casas am ontoadas um as nas outras, ruas estreitas e m alcheirosas, dezenas de pessoas circulando durante o dia. À noite, o local ficava praticam ente deserto. Os guardas chegaram de m adrugada ao castelo, cavalgando em alta velocidade. O sobrinho do arcebispo tinha pressa.

Thom as e Shannon foram levados por um a escada em caracol até um pavim ento inferior. Atravessaram vários corredores até atingirem o calabouço. O cheiro fétido do local revirou o estôm ago do rapaz. Os guardas em purraram -no para dentro de um a cela escura, sem j anela, e fecharam um a porta pesada de m etal atrás dele.

— O que farei contigo? — perguntou Vince do lado de fora, falando com Shannon. — Pertences ao sr. De Larc ou a m im ?

— Sou livre, senhor.

— Não és m ais, andarilha. Estás envolvida na m orte de três guardas. Ou preferes atribuir o crim e a este j ovem arqueiro?

— Não som os responsáveis por nada, senhor. Deixa-nos partir, eu te im ploro!

— E o que darias em troca dessa liberdade?

Thom as controlou o ódio a m uito custo. Era m elhor perm anecer em silêncio para não piorar a situação. Shannon esperou alguns segundos antes de responder.

— Se a m orte é a única saída, eu a prefiro.

O riso de Vince foi a resposta. Ele se divertia m uito com toda aquela situação.

— Não quero tua m orte — acrescentou. — Tudo o que eu quero sem pre vem até m im , livrem ente. Tu tam bém virás.

— Então deixa-nos partir — im plorou Shannon.

— Um a vez liberta, cairás nas m ãos do sr. De Larc. Ele está louco atrás de ti. Por outro lado, podes ficar sob m inha proteção.

— Se eu perm anecer contigo, libertarás m eu am igo?

Thom as chegou até a porta, m as quase caiu com as correntes que lhe apertavam os tornozelos. Novam ente, precisou de m uita força de vontade para m anter a boca fechada.

— Um a proposta tentadora — considerou o cavaleiro. — No entanto, não posso aceitá-la. Teu am igo assassinou três hom ens e deve pagar por isto. Ele terá que responder pelos seus crim es ao arcebispo, o senhor responsável pelas terras de York. Agora, quanto a ti, posso conseguir que fiques com igo. Precisas de alguém que te defenda contra as investidas do sr. De Larc. O que achas?

— Ainda prefiro a m orte — sussurrou a andarilha. Thom as m al a ouvia. — Ah, tu és um a cabeça-dura! Posso te dar vestidos bonitos, refeições decentes... Shannon não respondeu. Thom as encostou um dos ouvidos contra a porta, querendo adivinhar

o que viria.

— Um a noite no calabouço te fará pensar — disse Vince para encerrar a conversa. Thom as escutou o barulho de um a porta de m etal sendo arrastada ao lado de sua cela.

Shannon tam bém estava encarcerada. Os passos afastaram -se cada vez m ais, sum indo no fim do corredor. A voz rouca de Vince, trazida pelo eco, dizia aos guardas para não tocarem na andarilha.

— Ela m e pertence — reforçou, am eaçador.

...

Logo que o silêncio dom inou o calabouço, Thom as concentrou-se nas correntes. Hannah

dissera-lhe que tudo no universo se conectava entre si. Estava na hora de com provar essa tese. Mas era difícil para o rapaz se m anter calm o naquele m om ento. A raiva atorm entava-o m ais do que qualquer outro sentim ento. Na cela ao lado, Shannon chorava.

Thom as encostou-se na parede de pedra e escorregou para o chão, procurando se desligar de

tudo. O som abafado do choro da andarilha foi desaparecendo aos poucos para dar lugar a um a paz reconfortante. A m esm a sensação que o invadia ao buscar a concentração na Praia dos Pelicanos, m om entos em que o rapaz se sentia parte da natureza. Seus sentidos eram am pliados de um a m aneira que não podia im aginar. Um estalo m etálico trouxe-o à realidade. Thom as adm irou as correntes, caídas a seus pés. Conseguira se libertar.

Agora era a vez de se concentrar na fechadura. A porta foi destrancada em segundos.

Silencioso, m oveu-se para o corredor vazio. A fechadura da cela de Shannon tam bém cedeu com facilidade.

— Com o abriste a porta? — estranhou a andarilha. — Depois te conto... — cochichou ele antes de puxá-la pela m ão. — Precisam os sair daqui

agora!

Os dois avançaram pelo corredor m al ilum inado por archotes, retornando pelo cam inho que

haviam percorrido antes. Um guarda vigiava a prim eira saída. Thom as golpeou-o, colocando-o a nocaute, e tom ou-lhe a espada.

Não tinha ideia de onde ir depois que deixassem York. Voltar para os andarilhos seria o

m esm o que j ogá-los diante de um perigo ainda m aior. Talvez pudesse usar o nom e de Mark De Durham para chegar até o rei e tentar explicar a situação. Um a andarilha indefesa não poderia ficar à m ercê da cobiça de dois nobres.

Alguns m etros adiante, os j ovens ouviram um grupo de guardas conversando em voz alta.

Pelos cálculos do rapaz, os hom ens estavam perto da escada em caracol, o que lhes bloqueava a passagem . Shannon trem ia, pressionando-lhe a m ão.

As vozes foram ficando cada vez m ais próxim as. Os dois j ovens estavam encurralados, sem

tem po suficiente para retornar ao calabouço. Em pânico, Thom as olhou para cim a, à procura de um m ilagre. E ele existia na form a de um a reentrância entre o teto e a parede, larga o suficiente para o rapaz se pendurar. Ele indicou a descoberta à andarilha, aj udou-a a subir e depois escalou a parede.

Estavam pendurados no segundo em que os guardas passaram por eles.

— Aposto dez m oedas com o aquele arqueiro vai estar pendurado num a forca assim que o dia am anhecer — com entou um dos guardas.

— Não achas que o sr. De Larc vai preferir furá-lo com a própria espada? — perguntou o outro.

Os guardas afastaram -se e Thom as não escutou a resposta. Quando os últim os sons desapareceram no corredor, os dois pularam de volta ao chão. Chegaram à escada e subiram com cautela.

A dois passos da saída, um guarda im pediu-lhes sem querer a passagem . Espantado com a presença dos j ovens, dem orou para tirar a espada da bainha. Foi a chance de Thom as. Ele chutou suas pernas e o lançou degraus abaixo. Mais dois guardas apareceram no alto da escada. Desta vez, estavam preparados para enfrentá-lo.

Thom as usou a espada que roubara para se defender dos golpes. Shannon e ele foram obrigados a retroceder. Um dos hom ens atingiu o braço do rapaz, rasgando-lhe o blusão. Num m ovim ento rápido, Thom as atacou-o na lateral do corpo e desequilibrou-o. O outro guarda avançou, pronto para lhe enterrar a lâm ina no peito. Shannon gritou, apavorada. O rapaz desviou-se e surpreendeu o adversário ao lhe agarrar o braço em pleno ar. Ele o torceu e em purrou um guarda sobre o outro. A j ovem colou-se à parede, dando passagem aos hom ens que rolaram escadaria abaixo.

Thom as puxou-a para fora. Um a flecha passou zunindo rente à sua cabeça enquanto eles corriam pelo pátio ainda escuro. A nova m anhã nascia ao leste. O rapaz identificou o vulto de um arqueiro, ilum inado pela lum inosidade tím ida do sol, em guarda no alto da m uralha do castelo. Mais hom ens surgiram à direita, alertados pelos gritos do vigia. Os fugitivos haviam sido descobertos.

“Se eu conseguir chegar até Pégasus...”, pensou Thom as, ao avistar o estábulo. “Poderia desviar a atenção dos guardas...” Um a série de flechas passou raspando pelos dois. O rapaz obrigou Shannon a correr m ais rápido. Novas flechas atingiram a porta do estábulo um segundo depois que os dois entraram no local.

Thom as parou de repente, obrigando a andarilha a fazer o m esm o. Um olhar escuro recebia-o nas som bras.

...

Hugues De Angelis não parecia ter envelhecido desde a prim eira vez que Thom as o vira no interior de um a carruagem na ponte norte de York. O rapaz não pôde im pedir o pânico. Estava frente a frente com Savac. Olhou desesperado para os lados, à procura de um a saída. Os guardas e as flechas lá fora pareceram um a excelente alternativa.

O arcebispo não estava sozinho. Ao lado de sua figura som bria, estava Vince.

— Com entava agora com m eu tio que tens um m agnífico cavalo, arqueiro — disse o rapaz, com um sorriso cínico.

Um calafrio percorreu o corpo de Thom as. Hugues dirigia-lhe um olhar fixo, com o se quisesse ler seus pensam entos. O rapaz não se m oveu, procurando esvaziar a m ente. O arcebispo não arrancaria nada dele.

— Tio, o que deve ser feito? Entrego ou não este garoto ao nosso bom e velho sr. De Larc? Os guardas surgiram atrás dos fugitivos, m as pararam ao descobrir a presença dos nobres.

Um a ordem de Vince dispensou-os.

— O que m e intriga é com o este rapazinho escapou de nossas celas com sua j ovem am iga —

disse Hugues. Sua voz era m acia, agradável aos ouvidos, com o Thom as escutara em um de seus transes.

— Acho que é um ladrão. Deve ter roubado as chaves dos guardas. — Podes estar certo, Vince.

O arcebispo foi até Thom as. Para se proteger, o rapaz apontou-lhe a espada. Apesar de seus

esforços, a raiva retornara. A arm a, porém , foi arrancada bruscam ente de sua m ão. Atônito, o rapaz viu quando Vince agarrou-a no ar. A espada simplesmente voara para ele! O sobrinho do arcebispo era capaz de m over obj etos à distância apenas com a m ente...

— Quem tu pensas que és para am eaçar o sr. Hugues De Angelis? — perguntou o cavaleiro,

secam ente. O sorriso desaparecera.

— Não te preocupes. Não acho que ele quisesse m e atacar — avaliou o arcebispo,

exam inando Thom as m ais de perto.

O rapaz reprim iu a raiva com dificuldade, im pondo ao rosto a expressão m ais idiota que

encontrou. Preocupava-se com Shannon, que não parava de trem er. Estava assom brada com toda a cena.

— Tens razão, Vince. Acho que ele não passa de um ladrãozinho — disse Hugues, após alguns

m inutos.

O cavaleiro aproxim ou-se da andarilha.

— Esta eu quero para m im , tio.

— Podes ter todas as m ulheres do reino. Deixa esta para Rouen. Vê quanta confusão esta

garota j á arrum ou!

— É por isso que eu a quero. Gosto de um desafio. Por que não dizes a Rouen que a j ovem

está sob tua proteção? Ele te deve alguns favores j unto ao rei, não é m esm o?

— É verdade que nosso am igo está sem pre m etido em algum a confusão. Já intercedi dem ais

por ele. Mas, quanto a isso...

O arcebispo não concluiu sua j ustificativa. Vince m ostrava um sorriso adorável, igual a um a

criança que pedia um brinquedo novo para o Natal. O estôm ago de Thom as dava voltas, enoj ado.

— Está bem , podes ficar com ela — cedeu Hugues. — Vem , m inha cara — disse o cavaleiro, estendendo a m ão gentilm ente para Shannon. — É

hora de m e acom panhar.

Thom as não aguentou. Avançou para cim a de Vince, visando encher de socos aquele rosto

cínico. Não conseguiu nem ao m enos se aproxim ar. Um a dor terrível percorreu-lhe desde a ponta dos dedos das m ãos até os cotovelos. O rapaz gritou, apavorado. Seus braços estavam em cham as. Hugues apenas sorria. Viera de sua m ente poderosa o ataque que incendiaria Thom as.

— Deves aprender a respeitar os poderosos, arqueiro — disse o arcebispo. O rapaz dobrou-se de dor. As cham as estavam subindo pelos seus braços. E ele não tinha com o escapar. A m orte, um a velha conhecida, alcançava-o.

...

Vince rapidam ente tirou a capa e usou-a para abafar o fogo nos braços do arqueiro. Depois, voltou-se para o tio.

— Ele é só um a criança! — defendeu. — Para que torturar alguém desse m odo?

— Ah, m eu caro, preciso exercitar m inha m ente ociosa! — riu o outro.

O cavaleiro agachou-se para exam inar o garoto, que j azia sem vida sobre o chão de terra batida do estábulo. O infeliz não devia ter m ais do que quinze ou dezesseis anos.

— Ele m orreu — confirm ou para a andarilha, que chorava.

Com a capa, Vince cobriu-o. Ninguém m erecia ser vítim a de um a brincadeira brutal com o aquela.

— O que o m atou? Um coração fraco dem ais para em oções intensas? — perguntou o arcebispo, curioso. — Um garoto m edroso, isto sim . Que pena! Acho que perdem os um ótim o arqueiro.

Foi até a porta do estábulo e cham ou um dos guardas. As prim eiras luzes do dia chegavam até ele. A m anhã prom etia ser quente.

— Leva o cadáver para a fornalha — ordenou para o guarda. — Assim ele acaba de queim ar de vez.