O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
2 - Monastério
CAPÍTULO 2
Monastério
Aprim avera continuou terrivelm ente quente e abafada. Thom as passou os três dias de torneio
confinado no acam pam ento dos andarilhos. De nada adiantou Shannon argum entar com
Sabina, assum indo a culpa pelo acidente, com o a m enina batizou a confusão com Rouen De Larc. A m ãe, apesar de não contar a história ao m arido — e assim poupar Thom as de um a nova surra —, achou que as crianças m ereciam um bom castigo. A filha ficou proibida de m ontar a cavalo por vários dias, um a brincadeira que ela am ava. Já Thom as ganhou a responsabilidade de aj udar Tuc, o velho que vivia cochilando encostado à sua carroça, e a m ãe dos gêm eos, Narcisa, a tom arem conta do acam pam ento enquanto o restante dos andarilhos m ostrava seus talentos circenses à m ultidão que invadiu York para o torneio.
Tuc ainda insistiu com Thom as que ele acom panhasse a festa do alto do precipício, m as o garoto preferiu seguir fielm ente as ordens de Sabina. Sentia um peso im enso na consciência. A andarilha não m erecia ser m agoada. E era ainda m uito doloroso se lem brar do desespero dela, aj oelhada aos pés do cavaleiro ruivo, im plorando pela vida de Thom as.
Ao contrário do que o m enino esperava, os dias voaram . Sem ter o que fazer, passava horas treinando m alabarism o equilibrado num a corda esticada entre dois carroções, um a especialidade de Tuc até que a velhice o im pedira de se apresentar. O m enino adorava fazer estripulias, pulando ou sim plesm ente tirando toda a vantagem possível de sua leveza. Tuc ensinava-lhe m uitos segredos e o garoto aproveitava ao m áxim o cada m om ento de atenção. O velho era o único dos andarilhos, além de Sabina e Shannon, que se preocupava com ele. Em geral, Thom as era solenem ente ignorado. Até os pangarés recebiam tratam ento m elhor. De certa form a, o m enino j á se acostum ara com o desprezo. Isso era m ais fácil de suportar do que as provocações dos gêm eos ou os com entários m aldosos sobre ele e sua m ãe ladra.
De York, os andarilhos seguiram para o leste. Haveria um grande casam ento na região central, um evento que reuniria vários nobres e, conform e diziam , até o rei. Era assim a vida dos andarilhos. Nôm ades, corriam atrás de festas e torneios, levando alegria ao povo em troca de m oedas. Aos sete anos, Thom as j á conhecia todas as cidades im portantes — e outras nem tanto — da Grande Ilha de Britany a. Seu grupo era pobre e ainda não tivera condições de se apresentar para o povo da Ilha Média, a oeste, ou tam pouco atravessar o m ar para as Terras Erm as, até os lim ites do reino. Poucos eram os que tinham coragem de realizar a travessia. Além das terras de Britany a, m oravam povos bárbaros e pagãos, sem pre dispostos a invadir as possessões m antidas pelos cavaleiros do rei Arnon e suas tropas.
Thom as sem pre se perguntava por que os bárbaros tinham tanto interesse em conquistar seu m undo. O povo era m iserável, atolado em superstições. Não conhecia o poder das letras, o m esm o poder que o m enino descobrira em seu antigo livro de capa azul. As pessoas sim plesm ente seguiam a orientação dos nobres — estes sim , proprietários das terras e senhores de riquezas — e dos padres, hom ens detentores de todo o conhecim ento. E tudo com eçara havia m uito tem po, com o se contava, com a volta do rei Arthur e seus cavaleiros. Ele libertara o povo da escuridão e o guiara para a Grande Ilha, o que dera início ao futuro reino de Britany a. Castelos e cidades haviam sido erguidos, e os cam pos, arados. O período de caos tinha, finalm ente, encontrado fim . Arnon descendia do poderoso Arthur, assim com o os nobres que perpetuavam a linhagem dos cavaleiros do prim eiro rei.
“Por que tanta m iséria?”, pensou Thom as, sentado num dos carroções que venciam com
dificuldade um a estrada lam acenta. Os andarilhos ultrapassavam um a fam ília pobre que levava crianças suj as e m altrapilhas à procura de um a vida m elhor em outras regiões do reino. “Por que o m undo tem que ser assim ?”
...
Num a m adrugada, ainda na prim avera, Thom as acordou ao sentir o braço esquerdo
am ortecido. Sacudiu-o lentam ente, tentando recuperar o controle sobre ele. Graças ao calor, os andarilhos dorm iam ao relento, fora dos carroções. Estavam espalhados em torno de um a fogueira. Thom as apurou os ouvidos ao descobrir que Jon e Sabina, deitados perto dele, conversavam baixinho.
— Finalm ente concordaste com igo, Sabina — cochichou Jon sem esconder a satisfação. — Não pelos teus m otivos — respondeu a esposa. — Quero apenas o m elhor para ele. Thom as procurou não se m exer m ais. Sabia a quem os dois se referiam . — Já devias ter enviado o garoto ao Monastério há m uito tem po. Com o está, ele coloca em
risco nossas vidas.
— Ele é só um a criança, Jon.
— Um a criança bem diferente das outras, não podes negar. Ele decifrou sozinho os traços
daquele livro, o que é proibido ao povo, sabes disso. É m ais inteligente do que as crianças que j á vi nesta m inha pobre vida. Thom as fala com o um adulto, m as só tem sete anos. Ele é perigoso para nossa gente.
Thom as não ousou respirar. Nunca ouvira Jon falar tão bem dele, apesar das outras palavras
que o classificavam com o um a criatura a ser evitada a todo custo pela sábia hum anidade.
— Penso que o diabo sussurra-lhe ao ouvido — continuou o adulto. — Acredito que o m elhor
para o garoto é ir ter com os m onges. Eles são hom ens de Deus. Saberão orientá-lo m elhor do que nós.
Sabina continuou em silêncio. Jon finalm ente a convencera.
...
Dem orou m uito para Sabina contar a Thom as sobre o destino que o aguardava. A prim avera
passou, assim com o o verão. No início do outono, o garoto recebeu de cabeça baixa os m otivos que a levaram a tom ar a decisão de afastá-lo do grupo.
— Será m elhor para ti — m urm urou ela, procurando disfarçar a tristeza. — Meu irm ão
Michel cuidará de ti. Já te falei sobre ele, um m onge que vive há m uitos anos no Monastério das Terras Erm as. Meu pai deixou-o lá quando ele era criança e estava m uito doente. Os m onges cuidaram dele e, desde então, m eu irm ão dedica a vida a Deus.
Thom as escutou tudo em silêncio. E não disse um a palavra sobre o assunto depois daquele dia.
Estava extrem am ente m agoado, triste dem ais para qualquer reação. Sabina era a única m ãe que conhecera e ela o m andava para longe, talvez para sem pre. Longe de Shannon, longe do velho Tuc.
Foi em silêncio que Thom as partiu com Jon, num a m anhã de céu claro. As lágrim as corriam por seu rosto. Jon cam inhava depressa, tão feliz que nem reparava que o garoto m al conseguia acom panhar seus passos. Antes de sum ir na curva da estrada de terra, Thom as olhou para trás. Shannon soluçava, agarrada à m ãe. Tuc, apoiado na bengala, acenava para ele. Procurava sorrir. O garoto sentiu um frio percorrer-lhe o corpo e, assustado, pressentiu que nunca m ais veria o bondoso equilibrista.
...
Foram vários dias de viagem até as Terras Erm as. Jon tinha pressa. Um líder não podia deixar seu grupo sozinho por m uito tem po e sabia quanto estava perdendo naquela viagem . Os dois praticam ente não conversavam .
Chovia m uito quando atravessaram o m ar em um barco de carga que transportava anim ais para o outro lado de Britany a.
— Esta carona caiu do céu! — com entou Jon para si, tam borilando os dedos na am urada.
Os dois, protegidos por suas capas, estavam no lado descoberto da em barcação, esprem idos entre várias gaiolas repletas de galinhas. A chuva caía pesadam ente. Apesar do nevoeiro, Thom as pôde ver os im ensos rochedos brancos da Grande Ilha, que se afastavam aos poucos.
— Evitai a floresta — aconselhou o barqueiro assim que chegaram às Terras Erm as após um dia inteiro de travessia. — É m elhor seguir a estrada de pedra que a contorna. Tom ai cuidado, os lupus andam ferozes. Falta com ida para todos, até para eles...
Thom as prestou atenção. Curioso, ia abrir a boca para perguntar o que eram os lupus, m as desistiu quando Jon, com sua habitual cara am arrada, agradeceu a gentileza do barqueiro e enxotou o garoto para terra firm e. Tam bém não sabia que tipo de anim al poderia ser aquele, porém resolveu não arriscar a pele para descobrir. Pelo tom do barqueiro, pareciam terríveis.
Seguir pela estrada custou dias a m ais de viagem . O tem po tam bém não aj udou. Choveu durante boa parte da j ornada, o que dificultou a cam inhada feita quase sem pausas.
Na m anhã do quinto dia, Thom as avistou, do alto de um rochedo, um cenário intrigante. À sua frente, o m ar debatia-se, agitado, à espera da chuva que ainda não viera. Algum as gaivotas sobrevoavam o céu, às vezes m ergulhando na água em busca de com ida. No m eio do m ar, um a m inúscula ilha brotava das águas nervosas. Na verdade, parecia m ais um rochedo solitário, protegido pelo m ar. As pedras eram negras, im ponentes. No alto, havia um a construção, tam bém de pedras escuras. “O Monastério”, constatou Thom as. Só então a chuva reapareceu tím ida, fazendo o nevoeiro cobrir parcialm ente a ilha. “Um bom lugar para se esconder do m undo.”
Jon, im paciente, em purrou-o para um a trilha íngrem e que conduzia os viaj antes até um a praia de areia grossa. Ele tam bém ficara im pressionado com a visão do lugar. No entanto, tinha pressa, não podia ficar parado com aquele m oleque perigoso por perto.
Não foi fácil localizar a canoa, deixada j unto a um as pedras para quem precisasse ir até o Monastério. O m ar agitado não assustou o líder andarilho. Um a hora depois, ainda lutava para am arrar a canoa no atracadouro, oculto entre os rochedos. A chuva parou e o sol criou coragem para brilhar atrás das nuvens cinzentas.
— Anda logo, m oleque! — resm ungou Jon, obrigando Thom as a desem barcar.
Os dois subiram por um cam inho estreito, cercado por árvores bem cuidadas, até o Monastério. O garoto descobriu vestígios de antigas construções ao redor, cobertas pela vegetação. Ali, havia m uito tem po, existira um povoado. Em Britany a, não se viam ruínas...
— Tu és m esm o m ole, hein? — retrucou Jon, j á na m etade do traj eto. O m enino correu até ele. Seu corpo inteiro doía de cansaço. “Se eu chegar m orto, m elhor
para Jon”, pensou, irritado. Após alguns m inutos, encontraram um im enso portão de m etal. O líder andarilho criou coragem para tocar o sino e anunciar sua presença. Foi atendido por um m onge idoso, de cabelos totalm ente brancos, que abriu o portão após saber quem eles vinham visitar.
Os três atravessaram o enorm e pátio da entrada. Thom as esticou o pescoço, olhando para
cim a. O Monastério possuía vários andares, dispostos de form a irregular, com o se a construção tivesse sido erguida sobre outras, aproveitando-se paredes e laj es antigas. Contou duas torres à esquerda e um a à direita, m as não soube calcular o tam anho exato do edifício. Parecia im enso agora, visto de dentro de suas m uralhas. Ao centro, um a torre se elevava de m odo im pressionante. Dentro dela, o garoto teve a im pressão de ver um pesado sino de cobre. “A igrej a”, concluiu. O vento trazia o forte cheiro do m ar e o barulho das ondas se arrebentando contra a ilha. Os sons das gaivotas soaram distantes.
Os andarilhos não passaram pela porta principal. Foram desviados para um a passagem
secundária, à direita. O estôm ago vazio de Jon cobiçou as frutas penduradas nas árvores de um singelo j ardim , esprem ido entre duas paredes de pedra. Havia bancos de m adeira dispostos em um sem icírculo. O m onge continuou a guiá-los até um a cozinha am pla e arej ada. Um arom a delicioso de com ida vinha do lugar, o que deixou Thom as tonto. Há m uito não se alim entava. Jon engoliu em seco. Em um canto do aposento, um m onge corpulento, aparentando ter uns trinta anos, descascava um a pilha de batatas. Estava cercado por legum es e verduras de vários tipos, alguns desconhecidos para o garoto. Um fogão acolhedor, alim entado por pedaços grossos de carvão, esquentava duas panelas gigantes. Distraído, o m onge só percebeu a presença dos visitantes quando o cham aram pela segunda vez.
— Irm ão Michel, estes são teus parentes e vieram de m uito longe, da Grande Ilha. Michel fitou-os através da pilha de batatas, aj eitando um par de óculos de aro grosso. Thom as
conhecera, um a vez, um com erciante de vinhos que tam bém usava óculos. Sabia o quanto o obj eto era raro e, principalm ente, caro.
— Parentes?! — repetiu Michel, incrédulo.
— Sou m arido de Sabina, tua irm ã — adiantou-se Jon. — E este... — hesitou, indicando o
garoto. — Este é um m enino que Sabina tom ou a seus cuidados.
O m onge levantou-se num im pulso só, o que deixou Thom as adm irado com sua agilidade. — Claro, claro! Sabina, m inha irm ãzinha! Ela era apenas um a m enininha no dia em que parti
da Grande Ilha — disse Michel, ao m esm o tem po que abraçava calorosam ente Jon e Thom as. — Sentai-vos, por favor! Estais com fom e, não? A viagem deve ter sido penosa, ainda m ais com este tem po horrível...
Agradeceu ao m onge idoso, que se retirou da cozinha. Depois, encam inhou os andarilhos para
um banco de m adeira, encostado à m esa. Com um dos braços, afastou os vegetais e, com o outro, colocou dois pratos fundos, copos, colheres, pães frescos e um a garrafa de vinho para os convidados. Fez tudo isso com um a rapidez incrível, enquanto pedia notícias da irm ã, do grupo de andarilhos e descobria a existência de um a sobrinha cham ada Shannon.
Um a sopa logo fum egou no prato de Thom as. O m enino, com cautela, m ergulhou a colher naquela m aravilha crem osa. Um sabor divino, com o nunca havia provado antes, encheu-lhe a boca. Jon devorava sua porção, aproveitava cada gole do vinho e ainda contava o m otivo da viagem , tudo ao m esm o tem po.
— Então ele aprendeu a ler sozinho? — perguntou Michel, colocando os óculos na ponta do nariz para avaliar m elhor o m enino.
— Sim , ele é m uito inteligente — respondeu Jon, com a boca cheia. — Sabina e eu acham os que seria bem aproveitado aqui, no Monastério.
Michel continuou observando Thom as. O garoto não desviou o olhar do m onge que se parecia tanto com a irm ã. Era m oreno, com cabelos negros e rosto redondo. Tam bém não era alto. De pé, sua cabeça m al alcançava o om bro de Jon.
— Pedirei ao abade que converse com o m enino — aceitou Michel. E m eneou a cabeça assim que Jon abriu um sorriso triunfante. — Não te anim es, m eu cunhado. Todo ano recebem os a visita de vários m eninos atrás de um a vaga. Nosso abade é m uito rígido. E olha que são crianças de fam ílias nobres, com pais dispostos a doar riquezas ao Monastério em troca de nosso acolhim ento. Muitas sabem ler e até escrever. A grande m aioria é rej eitada.
Jon quase engasgou com a colher que atacava seu terceiro prato de sopa. Ele não tinha nada a oferecer, nem riquezas, nem um garoto tão inteligente com o deveriam ser os filhos dos nobres. “Então tenho um a chance de voltar para os andarilhos”, sorriu Thom as. Não precisou espiar Jon para saber o que ele pensava. “Se falhares, vou te afogar no m ar, m oleque!”, dizia claram ente seu olhar am eaçador.
...
Quando Thom as acabou de tom ar a sopa — o que durou um a eternidade para Jon —, Michel conduziu-o por um longo corredor vazio. O interior do Monastério m ostrava a sim plicidade da vida daqueles hom ens. Quase não havia m óveis ou tapeçarias. As j anelas estreitas ficavam no alto, o que realçava a penum bra que envolvia o am biente. Alguns castiçais lutavam para im por algum a lum inosidade. Os olhos do garoto arderam ao passar por outro corredor, desta vez aberto, que term inava em um pátio ao ar livre. O sol estava alto e as nuvens cinzentas abriam espaço para a claridade do dia. No j ardim central, j orrava água de um a fonte de pedras brancas. O m onge e o garoto, enfim , chegaram a um gabinete, protegido por um a pesada porta de carvalho.
— Entra e espera por m eu m estre, rapaz — sussurrou Michel, antes de se afastar, com o se tivesse m edo de quebrar o silêncio ao redor.
Thom as inspirou m uito ar, em purrou a porta e deu alguns passos até parar diante de um a m esa tosca, com duas cadeiras. À direita, havia um a estante que fez o m enino perder o fôlego por alguns segundos. Nunca vira tantos livros! Passou pela m esa e por várias m oedas de ouro espalhadas sobre ela, estendendo a m ão para os livros. Porém , não os tocou. Pela prim eira vez, sentiu-se tentado a abandonar a ideia de viver com Sabina.
Leu em voz baixa os títulos de cada um dos livros e, desapontado, descobriu que nenhum deles parecia ter histórias sobre dragões e guerreiros valentes, com o aquele de capa azul que pertencera à sua m ãe.
Thom as perm aneceu m uito tem po ali, lutando contra a tentação de m anusear páginas e páginas de conhecim ento. Por fim , sua atenção foi desviada para um espelho oval, fixado na parede. Intrigado, esticou o braço para tocar a superfície brilhante. Interrom peu o m ovim ento quando ouviu a porta se abrir atrás dele. Virou-se para enfrentar o abade.
Apesar daqueles dias cinzentos de outono ainda não serem tão frios, o hom em alto e m uito
m agro vestia um a grossa túnica de lã. Ele lançou um olhar rápido para a m esa, com o se contasse as m oedas sobre ela. “Era um teste para saber se sou um ladrão”, deduziu o garoto, contrariado. “Perdi um a ótim a oportunidade para sair deste lugar. Era só pegar um a m oeda e agora j á estaria desam arrando a canoa lá em baixo...”
— Boa tarde. Sou m estre Dines — disse o abade após indicar-lhe um a cadeira. Sua voz soava
anasalada, estranha para os ouvidos do m enino.
Ele obedeceu. Dines acom odou-se na cadeira do outro lado da m esa. Os dois ficaram algum
tem po parados, avaliando-se m utuam ente. Thom as não conseguia estim ar um a idade para ele. Parecia j ovem e, ao m esm o tem po, velho. Era careca e tinha um rosto fino, com olhos verdes frios e penetrantes.
— O irm ão Michel m e contou que sabes ler. Escreves tam bém ? Thom as endireitou as costas. Piscou para evitar o torpor que com eçava a invadi-lo. — Queres saber se sei copiar os traços na terra? — perguntou, calculando bem as palavras. — Sim . Tam bém quero saber se crias tuas próprias palavras. Se form as frases, entendes? — Tentei algum as vezes, m as é difícil.
— Michel m e disse que aprendeste a ler em um livro. Sabes que esse obj eto é proibido para o
povo?
— Por que m e fazes perguntas se j á sabes as respostas? — retrucou o m enino, com eçando a
se aborrecer com o interrogatório.
Jon contara a Michel que o livro pertencera à m ãe de Thom as, um a conhecida de Sabina que
m orrera após o parto. E que os andarilhos não sabiam nada sobre ela. Claro que o fato de a m ãe do garoto ser um a ladra fora estrategicam ente om itido. Não houvera nenhum com entário sobre a Noite dos Mortos ou sobre o tem peram ento esquisito do garoto.
O abade não respondeu. Continuou fitando Thom as com frieza. “Ele não vai m e aceitar”,
apostou o m enino, deixando a esperança avançar em seu coração. Estava tudo bem planej ado em sua m ente. Escaparia de Jon na prim eira oportunidade e alcançaria Sabina e Shannon assim que desse. Não tinha m ais m edo de surras. Só queria ficar com a única fam ília que conhecia.
Dines parecia acom panhar seus pensam entos. De repente, sorriu. — Queres m e perguntar algum a coisa?
Thom as m ordeu os lábios, confuso. Todo o seu corpo pressentia que ele estava prestes a cair
num a arm adilha. Um a arm adilha sem volta. Havia, entretanto, um a coisa que o incom odava na sala.
— Aquele espelho... — disse, devagar, tom ando o cuidado de não piscar ou desviar o olhar do
abade. — O que ele é, na realidade?
— O que queres dizer? É apenas um espelho... — Não é, não.
— E o que achas que é?
Dines apoiou os cotovelos na m esa, sério. Thom as não se intim idou. — Não sei o que é. Só sei que não é o que tu desej as que ele pareça.
Para seu espanto, o abade caiu na gargalhada. Riu gostosam ente, j ogando as costas contra a cadeira. Atônito, Thom as cruzou os braços e abaixou a cabeça. Sentia-se um com pleto tolo, com o sem pre acontecia quando lia os sinais de sua intuição.
— Tens razão, Thom as — disse o abade após controlar o riso. — Na m aioria das vezes, nem tudo é o que parece ser. Agora, vai até a cozinha e diz adeus ao andarilho. O irm ão Michel irá te explicar as regras que adotam os no Monastério. Ficarás conosco.
Um m isto de m edo, tristeza e satisfação apertou o peito do garoto. Não queria m orar naquele lugar, porém um a ponta de seu espírito avisava que seria um a aventura m uito interessante. O m enino levantou-se e saiu da sala, sem coragem de olhar para trás.
Ainda dem oraria alguns anos para descobrir a verdadeira função daquele espelho.
...
— Aqui, tom am os banhos todos os dias — com eçou Michel, logo depois que Jon cruzou a porta da cozinha, feliz da vida em abandonar Thom as e o Monastério.
O m enino lutava contra a vontade intensa de fugir dali, alcançá-lo e im plorar para ter a antiga vida de volta. Preocupado com essa possibilidade, Michel tratou de arrastá-lo gentilm ente para outro lugar. Antes, pediu que dois j ovens m onges cuidassem da enorm e quantidade de louça suj a que denunciava que todos os m oradores do Monastério j á haviam alm oçado.
O garoto foi conduzido para um quarto am plo, com j anelas altas. Havia um a grande tina de m adeira, que Michel encheu de água quente. A seguir, despej ou algum as gotas de um líquido colorido, o que encheu o am biente com um agradável cheiro de lavanda.
— Tira a roupa e entra, filho — disse o m onge, virando-se para m exer nas prateleiras de um arm ário velho.
Thom as nunca tinha se lavado daquele j eito. Na verdade, tom ar banho não era um hábito com um para o povo, apesar de aceito entre a nobreza e o clero. Sem pre que podia, o m enino brincava em rios e lagos. Sim plesm ente adorava água. Tirou as botas, as m eias, a capa, o blusão im enso e a cam isa rasgada. Com cuidado, colocou o cordão com a pedra opaca próxim o à tina, escondendo-o do m onge. Hesitou na hora de desam arrar a calça com prida m arrom , envergonhado pela possibilidade de ficar nu.
Michel, carregando duas toalhas lim pas, voltou-se para ele. De repente, parou, surpreso. Sua expressão ficou séria e, depois, m uito triste.
— Quem batia em ti, filho? — perguntou, com os olhos úm idos. Descobria, chocado, os vários hem atom as espalhados pelo corpo de Thom as.
— Ninguém — m entiu o m enino. — Eu caí.
— Quem , em nom e de Deus, tem coragem de fazer isso a um a criança? — m urm urou o m onge, sem prestar atenção às palavras de Thom as. Depois, recom pondo-se, notou o quanto ele se sentia constrangido em tirar toda a roupa. — Ora, se tens vergonha, fico de costas para ti. Está bem assim ?
Thom as, ágil, livrou-se da calça e deslizou com prazer para a água quente. As gotas de lavanda tinham produzido um a espum a espessa sobre a superfície. Michel aproxim ou-se e, com m ãos hábeis, com eçou a esfregar sua cabeça e as orelhas.
— Quanta suj eira! — exclam ava, a todo instante. O garoto engoliu espum a várias vezes. Quando pensou que o banho tinha acabado, Michel pegou um a escova e passou a esfregar com vigor as unhas dos pés e das m ãos. — Tu com es unha, hein? Vê com o teus dedos estão ficando grosseiros?
— Irm ão Michel, tenho um a dúvida... — arriscou Thom as, tirando m ais um a porção de
espum a da boca. — Contaste-m e que os m onges daqui tom am banho todos os dias, certo?
— É um hábito que só nos traz saúde.
— Quando cheguei, passei por j ardins bem tratados. E havia fartura de legum es e verduras
em tua cozinha. Tudo isto pede um a enorm e quantidade de água. Se estam os cercados pelo m ar, de onde vem essa água doce?
— Transform am os água salgada em doce, filho — esclareceu o m onge, parando a escovação
por um m inuto. — Esse processo é um segredo nosso. Com o tem po, descobrirás m uitas coisas sobre o Monastério. E gostarás tanto daqui quanto eu.
Thom as nunca m ais reencontrou suas roupas velhas, nem o par de botas de Shannon. Ele
vestiu um a cam isa de linho branca, um a calça com prida escura e, por cim a, um a túnica cinza, que prendeu com um cinto de couro. As peças estavam um pouco grandes. Não eram novas — talvez tivessem pertencido a algum garoto antes dele —, m as estavam lim pas e perfum adas. O m enino escondeu a pedra opaca sob a roupa sem que Michel percebesse. Um confortável par de botas usadas serviu perfeitam ente em seus pés. O m onge exam inou-o, satisfeito, com o se adm irasse sua obra-prim a. Tam bém cortara os cabelos do garoto, deixando-os curtos. Os fios ondulados e escuros, no entanto, não se renderam ao pente e j á estavam em baraçados outra vez.
— Teus cabelos são com o teu espírito — conform ou-se o hom em . — Com o assim ? — perguntou Thom as, curioso. — Eles sonham com a liberdade...
...
As regras no Monastério eram sim ples. Mestre Dines tinha autoridade absoluta no local.
Distribuía tarefas e responsabilidades, sem agir de form a autoritária. Havia o grupo de copistas, que passava horas reproduzindo textos antigos. Outros cuidavam da igrej a, rezando e m editando tam bém durante boa parte do dia. Existiam ainda os carpinteiros, pedreiros e outros artesãos, além dos m onges que cuidavam da lim peza, da lavanderia, do estábulo, da granj a e dos j ardins, entre várias atividades.
Michel era responsável pela cozinha e contava com o auxílio de dois j ovens. Mas a verdadeira
paixão do irm ão de Sabina era a horta. Cium ento, não deixava ninguém aj udá-lo a cuidar das suas verduras e legum es. Apesar disso, perm itiu que Thom as o acom panhasse nas várias horas que gastava rem exendo a terra cultivada, ensinando tudo o que sabia sobre os vegetais. O garoto ficou m ais interessado nas ervas que o adulto m antinha num a estufa. Fazia perguntas detalhadas, descobrindo propriedades específicas de cada um a. E Michel era um professor paciente, que logo descobriu que seu aj udante tinha um talento especial.
— Percebes com o elas gostam de ti? — dizia, contente em observar com o as plantas que
estavam sob os cuidados de Thom as cresciam m ais fortes e bonitas.
Além do trabalho na horta, na estufa e na cozinha, o garoto tinha m ais duas obrigações.
Acom panhava com os m onges a m issa diária logo que o dia nascia — um a hora em que, geralm ente, cochilava num canto, encostado contra a parede da igrej a — e aprendia a ler e escrever corretam ente com o irm ão Augustus, o m onge idoso que o recebera no portão. Se cum prisse corretam ente suas tarefas, ganhava horas livres para brincar.
— És um a criança! — j ustificava Michel. — Mestre Dines sem pre nos diz que um a criança que brinca se torna um adulto criativo.
Contudo, não havia outras crianças para brincar. Invariavelm ente, as horas livres eram solitárias, e Thom as m uitas vezes as utilizava para escalar as m uralhas do Monastério. A visão lá de cim a era fantástica. A face sul da ilha m ostrava a vastidão das Terras Erm as. À sua frente, um a floresta fechada, de aspecto sinistro, estendia-se por vários quilôm etros. Um a cordilheira distante parecia ser o lim ite do m undo. Havia ainda a estrada de pedra, a m esm a que ele e Jon haviam percorrido. Ela seguia em um a grande volta ao contornar a floresta. Não era possível ver onde com eçava ou term inava. Já a face norte da ilha dava para o m ar. Thom as gostava de im aginar que o vento trazia notícias da Grande Ilha, do lugar onde os andarilhos estariam naquele m om ento. Era com um avistar im ensos anim ais m arinhos, cuspindo água do alto de suas cabeças. Outros, m ais leves, pulavam e m ergulhavam felizes no m ar. Muitas aves diferentes, além das gaivotas, atravessavam o céu.
Já era final de outubro, e Thom as com eçou a se preocupar. A Noite dos Mortos estava próxim a. Na Grande Ilha, as pessoas costum avam rezar durante o dia inteiro nas igrej as, im plorando proteção contra os espíritos m alignos que, segundo se dizia, apareciam apenas naquela noite do ano. Thom as nunca vira nenhum , m as 31 de outubro era terrível para ele por outro m otivo. Os andarilhos ficavam sem pre distantes de qualquer igrej a para se esconder. Passavam a noite trancados nos carroções, apavorados dem ais com os sons trazidos pela escuridão. O garoto era hostilizado e responsabilizado por todo o m al existente no m undo. Afinal, nascera num a noite com o aquela, cheia de m edo e terror. Mesm o sem ter conhecido sua m ãe, Thom as sofria com a m orte dela. E a dor aum entava na Noite dos Mortos.
— Thom as, desce daí, pelo am or de Deus! — gritou Michel, apavorado. — Podes quebrar teu pescoço!
O garoto olhou para baixo e o viu gesticulando, desesperado. O m onge acabava de descobrir com o seu aj udante usava o tem po livre. Thom as torceu o nariz, m as refez o cam inho para retornar ao solo.
...
A Noite dos Mortos chegou e passou, com o um a noite qualquer. Os m onges não se preocuparam com ela. A rotina tam pouco foi alterada. Pela prim eira vez em sua vida, Thom as passou um aniversário tranquilo. A dor no peito continuou a atorm entá-lo, m as num a dim ensão m enor. O clim a tornou-se ainda m ais frio nos prim eiros dias de novem bro. Com o chovia com frequência, as pedras das m uralhas ficavam escorregadias na m aior parte dos dias. Thom as, então, sentia-se preso ao chão. Além disso, Michel parecia vigiá-lo. O garoto estava proibido de escalar torres, m uralhas ou qualquer lugar alto que existisse naquela ilhota.
— Tu não és um passarinho — queixava-se o m onge, am eaçando contar a “travessura” a Mestre Dines.
A solução foi com eçar a explorar outros locais. O garoto passou a encher os m onges de perguntas, querendo saciar a curiosidade sobre os m ais diversos assuntos que envolviam o Monastério. Tentava saber detalhes da obtenção da água doce, do sistem a de encanam entos — que ele nunca vira antes em lugar nenhum —, do trabalho dos artesãos, da fabricação do vinho... Não dem orou a descobrir que o lugar estava cheio de passagens subterrâneas, entradas e saídas pouco utilizadas. Fuçava em cada canto, esperando encontrar algum a coisa interessante.
Foi num a destas aventuras que, um dia, conseguiu entrar na gigantesca biblioteca do
Monastério, onde sua presença era proibida. De acordo com os argum entos do irm ão Augustus, o garoto ainda não tinha idade suficiente para acom panhar o trabalho dos copistas que se espalhavam com seus cavaletes e pranchetas próxim os a j anelas enorm es, de vidro, voltadas para o oceano.
Thom as encontrou um a brecha entre duas paredes em um corredor deserto e escapuliu com o
um rato para rem exer as inúm eras estantes, abarrotadas de livros. Era arriscado dem ais ir à biblioteca durante o dia, com os copistas por perto. Então, esperava anoitecer e, quando ouvia Michel roncando na cela ao lado da sua, ia direto para os livros, circulando tranquilam ente pela escuridão que j á conhecia bem . Só acendia um a vela na hora de escolher qual seria a leitura da noite.
No m om ento, estava interessado em um livro de capa dura, repleto de im agens. Não eram
desenhos ou pinturas. Pareciam tiradas direto da realidade, de tão perfeitas que eram as reproduções. As im agens traziam tipos de pessoas que ele nunca encontrara antes. Algum as tinham a pele negra. Outras eram claras, com olhos puxados e cabelos lisos e negros. Havia hom ens, m ulheres e crianças em cidades que nunca im aginara existir. O garoto não conseguia identificar as letras que pertenciam a um a língua desconhecida.
Após um sobressalto, apagou a cham a. Ouvira passos entre algum as estantes adiante.
“Dem orei m uito aqui. Já deve passar de m eia-noite.” O m enino deslizou para o chão, entre um a estante e outra, ao sentir que um vulto se aproxim ava. Os pés passaram por ele e sum iram de repente. Thom as hesitou alguns m inutos antes de se m exer. A curiosidade venceu e, o m ais silenciosam ente que pôde, aproxim ou-se de onde vira o vulto pela últim a vez. “Um a parede de pedras!”, m urm urou, enquanto as m ãos apalpavam a superfície gelada. Resolveu esperar em um esconderij o seguro, onde se acom odou.
As horas arrastaram -se na sua luta contra o sono. Finalm ente, o som abafado de passos
despertou-o. O vulto passara novam ente por ele, vindo da parede, até desaparecer. Thom as sorriu. Levantou-se, com pressa, e voltou a apalpar as pedras. Porém , o canto de um galo, vindo de longe, assustou-o. Teria de retornar na noite seguinte para descobrir com o entrar na nova e m isteriosa passagem secreta.
Partiu em disparada pelos corredores para regressar à cela antes que Michel acordasse. As
luzes da aurora chegavam pelas j anelas altas, expulsando os últim os resíduos da noite. O garoto escutou vozes à sua esquerda e se escondeu a tem po de evitar dois m onges sonolentos. Quando eles se afastaram , saiu do esconderij o. Não faltava m uito para alcançar as celas próxim as à cozinha, onde tinha um espaço só seu. Um canto estreito, com direito a um a cam a confortável e um a côm oda para guardar as roupas que ganhara. Na parede, ficava um crucifixo de m adeira. Ao passar correndo pela cela de Michel, o coração deu um pulo. O m onge j á tinha se levantado. O garoto virou à direita, entrou em sua cela e se enfiou voando debaixo dos lençóis. Michel apareceu na porta, j ogando um a som bra enorm e sobre o aposento.
— Filho, é hora da m issa — avisou, com seu costum eiro bom hum or.
A m issa foi a m ais enfadonha possível. Irm ão Augustus fazia um serm ão difícil de entender. Para piorar, o ar estava congelando o am biente. Já era j aneiro e a neve cobria as Terras Erm as. Mestre Dines parecia sofrer m ais do que todos com o frio. Usava roupas pesadas e ficava sem pre encolhido, atrás do calor reconfortante de algum a lareira. Desde aquela prim eira conversa, Thom as nunca m ais tivera outra oportunidade de falar com ele.
O resto do dia tam bém foi arrastado. Quando a noite finalm ente apareceu, Thom as não segurou m ais a curiosidade. Assim que ouviu o prim eiro ronco de Michel, escapuliu para fora de sua cela e venceu rapidam ente a distância até a biblioteca, apurando o ouvido para detectar qualquer ruído fora da rotina silenciosa. O susto da noite anterior deixara-o m ais cauteloso.
Na biblioteca, concentrou a luz de um a vela na parede m isteriosa para estudá-la. Havia um a falha entre as pedras. Thom as tocou-a, sentindo um a aspereza incom um em sua superfície. Com suavidade, em purrou um a das pedras, o que produziu um estalo m etálico. A parede se abria para revelar um a passagem estreita.
Thom as respirou fundo e entrou. Um a corrente de ar apagou a cham a da vela, o que o fez recuar. Após segundos de hesitação, venceu o m edo e esticou os braços para os lados, calculando a largura da passagem . Os pés encontraram um degrau de pedra. Vagarosam ente, desceu o que descobriu ser um a escada em espiral, enquanto se adaptava à escuridão.
Os degraus term inavam em um am plo salão de teto alto. Thom as arregalou os olhos, fascinado. Estava diante de um a m esa, coberta com m inúsculas pedras brilhantes, de cores variadas. Havia livros espalhados j unto a um a parede, além de outros obj etos que não conhecia.
— Fiquei im aginando quanto tem po dem orarias para descobrir este lugar — disse um a voz fam iliar, atrás dele.
O garoto, assustado, não conseguiu se m exer. Mestre Dines vigiava-o com seus enigm áticos olhos verdes.
...
“Agora serei expulso do Monastério”, pensou o garoto, apavorado com a ideia. A vontade de retornar para os andarilhos quase não existia m ais. Estava aprendendo a am ar aquele lugar calm o e intrigante. Nunca fora tratado com tanto respeito. Os m onges sem pre tinham tem po de lhe dar atenção, de responder com paciência às suas perguntas até onde era perm itido. Já Michel parecia um a grande m ãe sem pre preocupada com seu bem -estar.
— Vej o que m e enganei — prosseguiu o abade, após um longo silêncio. — Achei que virias até aqui apenas na prim avera, quando as noites estivessem m ais quentes. Com esse frio, não ficarias m elhor debaixo de um a cam a quente e acolhedora?
— T-Tu m -m e esperavas, senhor?
— Por que nunca respondes o que te pergunto? — suspirou Dines, passando pelo garoto para se acom odar em um a cadeira, j unto às pedras.
— Desculpa-m e, senhor, eu...
— Ah, vem até aqui... — disse, dispensando com um gesto o pedido de desculpas. Thom as aproxim ou-se, respeitosam ente, e sentou-se em outra cadeira. — Este lugar é um segredo para a m aioria dos m onges que vive no Monastério. E deve continuar assim , entendes?
O garoto assentiu. As perguntas agora enchiam sua cabeça e ele não sabia por onde com eçar. — O que achas que escondo neste lugar?
— Conhecim ento.
— Sim , conhecim ento de civilizações antigas. E por que achas que faço isso? — Proteges esse conhecim ento da ignorância do nosso povo... — E da ignorância dos hom ens poderosos tam bém . Ninguém está pronto para o que há aqui
— disse o m onge, olhando ao redor. As pedras em anavam um a claridade fraca contra a escuridão. — Luzes!
Im ediatam ente, o am biente ilum inou-se, com o por encanto. O queixo de Thom as caiu. Com o
o abade fizera aquilo?
— Antes que penses em m ilagres ou bruxarias, te digo um a só palavra: tecnologia —
esclareceu o hom em , divertindo-se com seu espanto. — Ela foi banida de nossa civilização com o um a praga, m as j á foi m uito poderosa no passado.
— Ela era usada para o bem ou para o m al?
— Para o bem e para o m al — respondeu Dines, com um a ponta de tristeza. — Não posso te
contar m ais nada. Tu ainda és um a criança. Se quiseres, poderei te ensinar parte dos conhecim entos arm azenados aqui.
Thom as abriu um sorriso gigantesco. Tudo aquilo ia m uito, m as m uito além de suas m elhores
expectativas.
— Assum irei o lugar do irm ão Augustus com o teu professor — com pletou o m onge,
retribuindo o sorriso. — Mas as aulas terão que ser à noite, em segredo, quando todos estiverem dorm indo.
— Não m e im porto, senhor.
— Continuarás com tuas obrigações j unto ao irm ão Michel. — Eu sei.
— E iniciarei um treinam ento contigo aos finais de tarde, antes do j antar. — Treinam ento?! — perguntou o garoto, m ais curioso do que preocupado. — O que queres
dizer, senhor?
— Exercícios físicos para desenvolver tua força, rapidez e agilidade. É preciso aproveitar esse
teu talento nato para se pendurar em lugares altos e escorregar por passagens subterrâneas.
O m enino sentiu as bochechas arderem . Abaixou a cabeça, envergonhado. Dines sabia m uito
m ais sobre seus passos do que o protetor Michel.
— Ainda queres ser m eu aluno? — perguntou o hom em após sufocar um sorriso. — É o que desej o, senhor — respondeu Thom as, decidido, voltando a olhar diretam ente para
o rosto do futuro professor.