O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

9 - Torneio

CAPÍTULO 9

Torneio

Um a batida na porta obrigou Thom as a se sentar. Ele não conseguira dorm ir durante as longas

horas que se seguiram à conversa com o arcebispo e seu sobrinho, Vince. Pensam entos

confusos dom inavam -lhe a m ente cansada. Ela pedia por respostas que o rapaz não tinha conhecim ento suficiente para lhe dar. Se tivesse descoberto antes que Dines e Moriarty eram a m esm a pessoa... Havia dúvidas dem ais. Em quem confiar? Tenorius fora um traidor, Erec tam bém era acusado de trair seu povo. Vince, seu próprio filho, condenava-o. Thom as lem brou-se de um m om ento, em um dos transes que tivera no Monastério, quando vira Erec negociando com o criado do arcebispo a com pra da perenthis Mithrrah. Aquilo lhe causara um a im pressão m uito desagradável.

Tam bém questionava seus sentim entos. Odiava Vince desde que o vira, no acam pam ento dos andarilhos. Era estranho pensar nele com o o irm ão que j ulgava m orto. “Ah, se eu pudesse conversar com Erin”, desej ou Thom as. Tinha a sensação de que, se não desabafasse com alguém , iria explodir. Tam bém gostaria de avisar a garota e o pai sobre o perigo que corriam . Eles agora se encontravam tão vulneráveis quanto ele. Suas vidas dependiam de Hugues De Angelis. A batida na porta repetiu-se.

— Quem está aí?

— O criado, senhor. Gostaria de fazer os preparativos para teu banho.

Thom as autorizou a entrada do criado que, j unto com m ais dois garotos, dispôs algum as peças de roupa sobre a cam a e encheu de água quente a tina no aposento adj acente.

— Prefiro ficar sozinho — pediu o rapaz. Foi atendido.

A água relaxou seu corpo exausto. Há dias que não sabia o que era tom ar um banho decente e ter roupas lim pas. Quando term inou de se vestir, exam inou a elegante túnica bege, a cam isa branca por baixo dela, a calça com prida escura e o par de botas novas. Eram peças caras, usadas apenas pela nobreza. Estava colocando no bolso a pedra e a aliança quando ouviu outra batida na porta. O criado retornara, dessa vez trazendo um a bandej a com alim entos para o desj ej um . O rapaz não quis tocar em nada. Em m om entos de tensão, era incapaz de sentir fom e.

— Estás pronto, senhor? — perguntou o criado ao constatar que o rapaz não pretendia se alim entar. — Nesse caso, deves m e acom panhar.

Thom as seguiu-o até o hall, onde encontrou Arnon e Hugues. Eles pararam de conversar ao perceberem sua aproxim ação. O rapaz hesitou. Sentiu um a vontade enorm e de fugir dali, de se refugiar em qualquer ponto distante de Britany a.

O rei estudava-o com interesse.

— Aproxim a-te, garoto — pediu.

Thom as cedeu, dando alguns passos até ficar frente a frente com Arnon. Não tinha coragem de encará-lo. Sentia-se com o o garoto tolo de treze anos que, na Noite dos Mortos, encontrara o avô pela prim eira vez.

— Olha para m im .

O rapaz obedeceu e viu o rosto envelhecido do rei de Britany a, m as não encontrou a ironia do hom em que rira dele anos antes. Havia um a em oção contida com m uito esforço no j eito com o Arnon o analisava.

— É com o rever os olhos de Alix — m urm urou, por fim . Thom as desviou o rosto, m uito trêm ulo. Sonhara por tem po dem ais em achar sua fam ília.

Quando era pequeno e ainda vivia com os andarilhos, costum ava im aginar seu pai chegando em um cavalo tão m aravilhoso quanto Pégasus para resgatá-lo daquela vida dura. Apanhara dem ais, sofrera m uito por ser o filho estranho de um a ladra. Seu pai seria um cavaleiro coraj oso, com o um dos personagens do livro de capa azul. Ele gritaria para Jon e para os outros: “Este é m eu filho! E o perdi há m uito e agora não vou m ais m e separar dele!” E os dois partiriam para um reino distante, um lugar onde não existissem m iséria e ignorância. Thom as sorriu, am argurado, espantando da m ente os sonhos infantis.

— Houve m uito sofrim ento em tua vida... — disse o rei, com ovido. Ele acom panhara cada

detalhe do rosto atorm entado do neto. — Gostaria de ter evitado essa separação, Thom as. Fiz tudo para te ter j unto a m im depois que soube que Alix esperava um segundo filho. E ela poderia estar conosco, se, naquela época, eu não estivesse tão longe, nas Terras Erm as. Minha filha fugiu de quem queria apenas protegê-la. Por m uitos anos nutri a esperança de encontrá-la, de revê-la outra vez. Mas, neste m om ento, sinto-m e feliz por ver a im agem dela refletida em ti.

Arnon apoiou as m ãos sobre os om bros do rapaz, com o se quisesse protegê-lo. Ele era quase

da altura de Thom as.

— Quero te agradecer, sr. De Angelis — disse o rei. — Prim eiro, m e trouxeste William .

Agora é a vez de Thom as.

— É m eu trabalho servir-te, m aj estade — disse Hugues, com um a reverência. — Irás m e acom panhar na abertura do torneio, Thom as? — Mas... devo ir, senhor? — questionou o rapaz, indeciso. Não se achava no direito de ficar ao

lado do rei de Britany a.

— És m eu convidado especial.

Thom as abriu um sorriso im enso, perm itindo que a felicidade o invadisse. Estava finalm ente

j unto ao avô, j unto à fam ília que tanto desej ara conhecer. E este hom em não o rej eitava. Pelo contrário, parecia curioso em conhecê-lo, em recuperar os anos perdidos. O rei, sorridente, conduziu-o para a claridade daquele surpreendente dia de prim avera.

Quando entraram no cam arote, o povo explodiu em palm as e vivas. Thom as registrou,

constrangido, os diversos olhares em sua direção. Os nobres reconheceram o arqueiro da noite anterior e perguntavam -se o porquê de um andarilho ser alvo da atenção real. Arnon cham ou-o para se sentar ao seu lado. Do outro, estava Hugues De Angelis.

Enquanto o rei pronunciava as palavras que oficializavam a abertura do torneio, obtendo o

silêncio dos presentes, Thom as procurava Erin e Mark. Descobriu os dois na fileira de trás, algum as cadeiras à sua direita. A j ovem interrogava-o com o olhar. Mark estava quieto, vigiando os m ovim entos do arcebispo. O rapaz fez um sinal discreto para que Erin se tranquilizasse. Estava bem , pelo m enos por enquanto.

Assim que o soberano parou de falar, o público voltou a aplaudi-lo. Novas palm as

recepcionaram os vários cavaleiros que se posicionavam em pontas opostas na im ensa arena. Após a autorização real, a luta com eçou. Rouen De Larc foi um dos prim eiros a cair do cavalo, derrubado pela lança de um cavaleiro que utilizava cores verdes e brancas. Saiu inconsciente da arena, carregado pelos paj ens.

— Ele não percebe que está velho e fora de form a — com entou Arnon, sorrindo para Thom as. — Acho que é difícil para nós aceitarm os a velhice.

A atuação arrebatadora de Vince ao lançar dois cavaleiros sim ultaneam ente ao chão fez a plateia delirar, desviando a atenção do rei. O sobrinho do arcebispo vestia um a arm adura branca. Sobre o m anto da m esm a cor, havia o desenho de um a flor em cham as, o sím bolo que Hugues adotava.

— Acabei de m e lem brar onde vi esta cicatriz antes — disse Arnon para Thom as.

— Que cicatriz?

— A que tens no rosto. Tu és o m atador de lupus, não?

O rapaz corou. O avô enfim se recordara da noite chuvosa em Durham .

— Por que não m e disseste nada naquele dia? Por que não m e contaste quem eras?

— Acho que eu não sabia com o fazer isso.

— É, tens razão. Seria um pouco com plicado — sorriu o hom em , cúm plice.

— E com o podes ter certeza de que sou realm ente quem o arcebispo afirm a?

— Porque ouvi a tua conversa com o sr. De Durham gravada na pedra de energia — respondeu ele, sério. Com certeza, Arnon vira apenas alguns trechos da gravação, nada que com prom etesse o arcebispo no ataque a Sutter. O que o rei sabia realm ente sobre a m orte de Erec? — E, depois, exam inei teu coração há pouco. Tu és tão transparente em tuas reações quanto tua m ãe.

Thom as im aginou se o rei tam bém assistira à declaração de am or a Erin, m as não ousou expor nenhum a das dúvidas que o preocupavam .

Savac sabia que a filha de Mark era o ponto fraco do rapaz.

...

Horas depois, tão logo o prim eiro dia do torneio term inou, os nobres deixaram o cam arote para se dedicar aos preparativos de outra festa que aconteceria naquela noite. Arnon cham ou Mark quando passava pelo am igo.

— Já sei de tudo — disse, dem onstrando sua felicidade. — Vem , preciso conversar contigo!

Mark olhou para ele sem entender nada, m as não se opôs a acom panhá-lo no traj eto até o castelo. Thom as aproxim ou-se de Erin. O arcebispo estava longe, trocando algum as palavras com um casal de nobres.

— O rei sabe quem sou — cochichou ele.

— Foi o que im aginei. Ontem à noite, nós te procuram os por todo o castelo. Tem íam os pelo pior. Meu pai descobriu que estavas bem , instalado em um quarto protegido por guardas. Ele tentou falar com o rei, m as não conseguiu.

Os dois foram ficando para trás, enquanto os nobres passavam por eles. Um grupo barulhento de paj ens apareceu de repente, isolando-os do restante dos convidados. Os j ovens aproveitaram a oportunidade para se afastar dali. Thom as ansiava por liberdade, nem que isso significasse apenas alguns m inutos longe da presença opressiva de Hugues.

A m ultidão, que agora se dissipava lentam ente, acom panhara os lances em ocionantes do torneio. Vários am bulantes vendiam de tudo, desde água até crucifixos. Thom as e Erin deixaram a agitação para trás, cam inhando até o cam po de treinam ento, deserto àquela hora.

Em rápidas palavras, o rapaz contou tudo o que ocorrera nas últim as vinte e quatro horas. Erin

ficou estupefata ao saber da traição de Tenorius.

— Acho que devem os procurar Moriarty e descobrir a versão dele sobre os fatos —

recom endou ela. — Por enquanto, faz a vontade do arcebispo. Apenas tom a cuidado com as arm adilhas dele. Percebes com o o hom em tenta te pegar?

— Pela em oção.

— Sim . Ele notou o quanto sentes falta da atenção e do am or de um a fam ília de verdade. — Não sou vulnerável assim !

Erin suspirou. Os hom ens nunca adm itiam a fragilidade da natureza hum ana. — Quero dizer que é im portante m anter a m ente alerta, Tom . Acho que j á está na hora de

voltarm os.

Os dois retom aram o traj eto até o castelo. Ao passarem pela arquibancada, um vulto

despertou o interesse de Thom as.

— Vai na frente! — disse, ao se afastar de Erin. O vulto era Jon, o pai de Shannon.

— Tu a traíste, não foi? O que eles te ofereceram ? Dinheiro? Quanto vale m inha filha? —

vociferou o andarilho antes de atacá-lo com um bastão de m adeira.

Thom as conseguiu evitar o golpe. Não era m ais a criança indefesa que servia de saco de

pancadas. Com um m ovim ento preciso, im obilizou-o, prendendo o braço do andarilho contra as costas.

— Escuta, Jon, vou falar apenas um a vez. Não sou convidado, m as um prisioneiro. Shannon

está viva e bem . Tu podes colocá-la em problem as se insistires em perm anecer em York. Volta para j unto de Sabina.

— Sabina foi capturada — m urm urou Jon, sem fôlego. — O quê?

— Os guardas do arcebispo levaram -na. E eu não pude im pedi-los. Jon relaxou o corpo, abandonando a postura agressiva. Thom as libertou-o. — É tudo culpa tua, m oleque! Se m achucarem m inha esposa e m inha filha, eu j uro que te

m ato!

Thom as esperou que o andarilho partisse antes de retornar para perto de Erin, que decidira

não sair do lugar até vê-lo seguro. Não disse nada. Sentia-se im potente, consum ido pelo ódio. Dois m inutos m ais tarde, encontrou Hugues De Angelis, que o aguardava com um sorriso m aroto.

...

Logo após os exaustivos com bates, Vince dirigiu-se a um a das tendas destinadas aos

cavaleiros. Dois paj ens aj udaram -no a se livrar da arm adura. Apesar de im undo, o rapaz não quis tom ar banho ali. Preferia o conforto de seu quarto, no castelo. Vestiu roupas velhas e saiu, j á im aginando o efeito tranquilizador da água m orna para o corpo tenso e dolorido. Tinha pequenos cortes e hem atom as, um a rotina com um após um dia de torneio.

— Ei, Vince, não queres um ? — gritou Rouen ao avistá-lo. O cavaleiro ruivo, sentado em um

tam borete diante de sua tenda, fum ava um cigarro de palha. Pelo ar alienado, era óbvio que m isturara pó am arelo ao fum o.

— Não, obrigado.

— Aposto com o o titio descobriu teu segredinho, não foi? Estás com m edo dele? Ora, vem ! Um a tragada não te fará m al!

Vince chegou m ais perto. Hugues estava certo sobre os m alefícios do pó am arelo. Rouen era apenas um a lem brança desbotada do hom em destem ido que conhecera na infância. O vício destruíra seu organism o, com o agora lhe destruía a m ente.

— Já te disse que não quero.

— Ah, garoto, estás sem pre seguindo todas as vontades do titio! Com o perm ites que ele te dom ine, hein? És o cavaleiro m ais poderoso de Britany a, podes fazer qualquer coisa. Até roubar de m im a andarilha...

Os olhos de Rouen revelaram -se assassinos.

— Tu tiveste tua chance — disse Vince, com desprezo.

O rapaz sabia o quanto sua indiferença o provocava. Em vez de explodir em fúria, o outro cavaleiro deu um a gargalhada.

— Ela é m esm o bonita — disse Rouen quando o riso cessou. — Mas acho que tua m ãe era m uito m ais interessante. Sabes que tive a oportunidade de conhecê-la intim am ente...

Mentia, m as as palavras acertaram Vince com violência. Com um gesto rápido, ele cham ou para si a espada de Rouen, que estava caída a alguns passos dele. O obj eto voou para sua m ão e, em segundos, a lâm ina afiada tocava a garganta do cavaleiro ruivo.

— Teu tio não te proibiu de usar estas bruxarias por aí? — perguntou Rouen, exibindo os dentes num sorriso perverso. Tivera sucesso em atingir o j ovem rival.

— Cortarei teu pescoço se ousares falar de m inha m ãe — am eaçou Vince, na voz indiferente de sem pre. — E fica distante da andarilha.

— E se eu não fizer tua vontade? Pretendes acabar com a vida deste dedicado colaborador? O arcebispo m e deve vários favores. Sei m uito sobre ele.

— Isso não m e im pede de te m atar. Fica preparado!

Rouen continuou sorrindo, sem abalar outra vez o autocontrole aparente do rapaz, que arrem essou a espada para longe antes de se afastar. Alguns passos depois, longe o suficiente do alcance do adversário, Vince com eçou a trem er de ódio. O cavaleiro ruivo soubera exatam ente com o atingi-lo.

Ao chegar ao castelo, não subiu direto para o quarto. Foi para a cozinha, que estava em m ais um m om ento conturbado com a proxim idade do j antar. O rapaz não se abalou com a m ovim entação dos diversos criados. Deu um a boa olhada em tudo. Achou a m esa de doces, coberta por tipos diferentes de bolos e sobrem esas. Pegou um a faca largada em um canto e usou-a para cortar um im enso pedaço de torta de lim ão.

— Não, m eu senhor! Este prato está reservado ao banquete! — explicou, desesperada, um a das cozinheiras.

— Faz outro! — retrucou o rapaz, com a boca cheia. O doce estava sim plesm ente divino.

— Não há tem po, senhor. E esta é a torta preferida do rei...

— Tu não entendes? Fui proibido de fum ar!

A m ulher não entendeu nada. Apenas olhou-o de cim a a baixo, em reprovação ao que enxergava. Vince era conhecido por sua elegância. O j ovem cavaleiro parado no m eio da cozinha estava im undo. O rosto e o pescoço estavam cobertos parcialm ente com sangue ressecado, vindo de um dos adversários.

Sem paciência, Vince agarrou o prato com a sobrem esa e levou-o para longe. Estava farto de

só fazer o que as pessoas esperavam dele.

Em um dos j ardins internos, sentou-se num banco. Após devorar m ais dois pedaços de torta,

relaxou. Livrar-se da dependência do pó am arelo fora relativam ente fácil, pois contara com a aj uda do antídoto. O desafio era resistir à vontade de fum ar, principalm ente nas horas de m uita tensão.

Custou a descobrir que não estava m ais sozinho. Shannon viera atrás dele. — Queres um pedaço? Já com i o suficiente por hoj e — ofereceu ele, indicando a m etade da

torta que sobrara no prato.

— Não devias com er doces durante o torneio, senhor. O arcebispo disse... — Eu sei o que ele disse, Shannon. Nada do que faço é bom o suficiente para ele. A andarilha não com entou m ais o assunto. Apenas fitou-o com seus olhos im pressionantes.

Ah, com o era linda!

— Não queres m esm o a torta?

— Aceito, sim — disse, tím ida, decidindo se servir de um a fatia pequena. — Torta de lim ão é o m eu doce favorito. Minha m ãe sabia preparar esta receita

m aravilhosam ente bem e...

Vince parou de falar. Era m uito pequeno quando Alix m orrera, m as, apesar disso, guardava

lem branças m arcantes dos m om entos que vivera ao seu lado. Vê-la espalhar ingredientes sobre a m esa da cozinha era um deles. Sua m ãe não tinha o j eito afetado e superficial da m aioria das dam as britãs que conhecera até agora. Era sim ples e espontânea, capaz de rolar na areia da praia só para fazê-lo rir. Ainda podia ouvir sua voz doce contando histórias sobre dragões e príncipes coraj osos.

— Ela j á m orreu — disse o rapaz.

— Teu pai tam bém ?

Ao pensar em Erec, Vince fez um a careta. Levantou-se do banco, im paciente, quase pisando

nas flores do j ardim . Era graças àquele traidor que sua m ãe m orrera. Era por causa dele que não podia assum ir sua condição de neto de Arnon, nem usar seu título de nobre da região de Sutter. Vince De Angelis não passava de um nom e falso para proteger o filho de Alix. O rapaz odiava Erec m ais do que podia calcular.

— Tam bém sinto falta dos m eus pais — disse Shannon. A tristeza não a abandonara. Ainda sofria bastante, apesar da vida segura que a cercava. — Quando acabar o torneio, irei procurá-los — prom eteu o rapaz. — E lhes direi que poderão

entrar outra vez em York para te ver.

Shannon exibiu um sorriso divino, que espantou a m elancolia para longe.

...

Vince odiava banquetes com o aquele de que participava por obrigação. Tivera um dia

cansativo. Sua ideia para um passatem po agradável nada m ais era do que pegar o alaúde e trabalhar num a nova m úsica. Um ritm o com batidas fortes dom inava-lhe os pensam entos. Não via a hora de deixar aquela gente chata e barulhenta para se refugiar no quarto e rabiscar m ais notas m usicais na partitura que deixara sobre a cam a.

Apesar de rodeado por vários nobres, sentia-se m ais solitário do que o habitual. Arnon m al o notara. Dedicava-se inteiram ente ao segundo neto, que ocupava um assento à sua esquerda. A atenção excessiva que o arqueiro tam bém ganhava de Hugues deixava-o ainda m ais encium ado. O garoto era o tão esperado Herdeiro. E prom etia ser poderoso, m uito m ais do que o próprio Vince. Não conseguira voltar da m orte com os braços curados?

À frente do cavaleiro, estava a intrigante Erin de Durham . Não era um a j ovem bonita, parecida dem ais com Mark De Durham para o gosto de Vince. Lem brar-se de que aquele hom em fora am igo de seu pai lhe causava um a inevitável aversão. Por outro lado, adm itia que a garota era bem diferente das outras nobres. Tinha personalidade e parecia ser m uito inteligente.

As horas arrastavam -se. Nem m esm o a m úsica que um andarilho tocava próxim o ao rei distraiu Vince. Sem se dar conta, ele pegou duas colheres de m adeira, usadas para a salada, e com eçou a reproduzir na m esa o ritm o que não lhe saía da cabeça. Estava com dificuldade para term inar um dos trechos da m úsica. Repetiu duas vezes as batidas ritm adas, sem descobrir o que faltava. Na terceira vez, para seu espanto, a filha de Mark encontrou o ritm o certo. Tam bém m unida com duas colheres de m adeira, a j ovem repetiu a sequência, desta vez com pleta.

Vince sorriu, im pressionado. Ora, um a m ulher que entendia de m úsica! Um a novidade entre nobres britãs que só pensavam em agarrar um m arido.

— És um a m ulher perigosa, Lady Erin. Agora entendo por que o novo convidado do rei m orre de am ores por ti.

Erin corou intensam ente. Ao lado de Arnon, o arqueiro não perdera nenhum detalhe da conversa entre os dois. Vince não pôde evitar a satisfação de constatar que o garoto se m ordia de ciúm e.

— Minha cara senhora, estou m uito feliz em revê-la — disse Rouen De Larc, puxando um tam borete para ficar à direita de Erin.

A presença do cavaleiro ruivo incom odou Mark, sentado na outra ponta da m esa. Thom as reservou um olhar de ódio para Rouen. Arnon, distraído, conversava com o arcebispo.

Vince espantou-se com a tranquilidade da j ovem em lidar com o suj eito inconveniente.

— O sentim ento não é recíproco, senhor — com entou ela.

— Ah, senhora, m agoa-m e o coração. Diria que estou enfeitiçado por tua beleza...

Rouen m antinha um a postura selvagem sobre Erin, com o se devorasse cada pedaço do corpo da garota. Ele agarrou um pedaço de pão e o levou à boca. No m om ento em que com eçou a m astigá-lo, engasgou, tom ado por um constrangedor acesso de tosse. Cobriu a boca, tentando sem sucesso deter as dezenas de m igalhas que cuspia para todos os lados.

Vince espiou Thom as e entendeu o que estava acontecendo. O olhar dele sobre o cavaleiro ruivo era enigm ático. Erin tam bém se virou para ele. Após alguns segundos, Thom as, satisfeito, liberou-o. No m esm o instante, Rouen parou de tossir, engolindo o pão com dificuldade. Estava m ais verm elho do que nunca.

— Perdoa-m e, senhora, pelo inconveniente — disse, com dificuldade para articular as palavras. — Onde estávam os?

Não ia ser fácil se livrar daquele assédio. Um j arro cheio de vinho, bem à frente de Rouen, veio bem a calhar. Vince concentrou-se no obj eto, que tom bou no instante seguinte. Ao sentir o vinho m olhando suas roupas, o ruivo deu um pulo para trás, praguej ando em voz alta.

Apenas nesse m om ento Arnon descobriu-o perto da m esa. — É m elhor trocares de roupa, sr. De Larc — recom endou, ríspido. A reação grosseira do

cavaleiro silenciara o salão.

Quando ele, possesso, saiu, Vince voltou a olhar para Thom as, que lutava para abafar o riso.

Vince adorava provocar Rouen e ver a cara enfezada que este fazia ao se dar m al. Seu irm ão, pelo j eito, com partilhava da m esm a ideia. Quando o garoto não aguentou m ais e com eçou a rir, Vince seguiu-o, escondendo o rosto com as m ãos. Erin, a única a perceber os truques dos j ovens bruxos, não fez nenhum com entário.

...

Na m anhã do últim o e m ais im portante dia do torneio, Oz escapou bem cedo, assim que Erin

abriu a porta para sair do quarto. Vince De Angelis e Toby as De Roths, irm ão da insuportável Claire, disputariam o título de m elhor cavaleiro de Britany a daquele ano. Os dois tinham chegado ao final da disputa após três dias de lutas contra os vários cavaleiros britons, vindos da Ilha Média, das Terras Erm as, além da própria Grande Ilha.

— Ei, volta aqui! — cham ou Erin.

O cachorrinho desapareceu, veloz, no corredor. Estava cada vez m ais difícil deixá-lo preso no

quarto. Ela tem eu pela segurança dele naquele castelo cheio de gente. Thom as não a perdoaria se lhe acontecesse algum a coisa.

Erin desceu a escadaria para o pavim ento térreo. Iria encontrar seu pai para um rápido

desj ej um no salão principal. Passava por um a das alas do castelo quando escutou a voz desagradável de Rouen De Larc.

— Eu vou te pegar de volta, andarilha — am eaçava ele. — Tu m e pertences! O cavaleiro ruivo estava, com certeza, pressionando a am iga de Thom as. Era preciso fazer

algum a coisa. Erin correu até os dois. Rouen encurralara Shannon contra um a parede, perto da porta de acesso ao pátio externo.

— Deixa-a em paz, sr. De Larc! — m andou Erin. Espantado, o cavaleiro ruivo virou-se para ela. Era a chance para que a andarilha escapasse

pela porta.

— Maldita filha de Mark De Durham ! — gritou ele ao reparar que sua presa fugira. Erin descobriu tarde dem ais o quanto fora im prudente. O cavaleiro, duas vezes m aior do que

ela, parara à sua frente. A j ovem estava desarm ada e, para piorar, usava um vestido que, com certeza, atrapalharia seus m ovim entos se precisasse lutar.

— Estás com m edo de m im , bela senhora? — perguntou Rouen, sinistro. — Não tenho m edo de ti.

Os olhos do cavaleiro deixaram o rosto da j ovem para confrontar a um a som bra que surgira

atrás dela. Eles brilharam de satisfação.

— Bom dia, sr. De Angelis.

Erin sentiu m edo ao pensar que o arcebispo estivesse tão perto. O sentim ento dissipou-se ao

ouvir a voz rouca de Vince.

— Algum problem a, senhora? — perguntou ele.

Vince não olhava para ela. Elegantem ente vestido em sua túnica branca, vigiava o outro hom em .

— Estávam os apenas conversando, m eu am igo. Esta j ovem é m uito gentil — j ustificou o cavaleiro ruivo ao passar por Erin e, a seguir, por Vince.

Ao se ver atrás do j ovem cavaleiro, Rouen, num m ovim ento inesperado, golpeou-o com truculência na altura dos rins. Vince gem eu, caindo de j oelhos.

— Tu não prestaste atenção aos m eus ensinam entos, escudeiro? — zom bou Rouen. — Nunca fiques de costas para um adversário.

E desapareceu em segundos. Erin am parou Vince. Havia sangue em sua túnica.

— Ele tinha um a faca ou algum a coisa cortante?

— Um cortador — m urm urou o rapaz.

— Um o quê?

— Um a sequência de anéis cortantes... Um a arm a-surpresa para os descuidados.

— Não podes m ais participar do torneio. Devem os avisar o rei e...

— Não te preocupes, senhora — dispensou ele ao se erguer com dificuldade. — Estou bem .

— Estás ferido, isso sim !

— Todos nós tem os responsabilidades a cum prir. E eu fui criado para lutar.

Cam baleante, Vince dirigiu-se à porta para desaparecer no pátio. Erin não o im pediu.

...

No cam arote, Thom as ocupou m ais um a vez a confortável cadeira ao lado do rei. A com panhia do avô fazia-lhe bem e m ostrava-lhe fatos que desconhecia. Arnon falava m uito de Alix, de com o fora um a criança inteligente, m ais do que a m aioria dos hom ens que conhecera. Ela devorava os livros da biblioteca real, apesar da proibição do pai. Por esse interesse pelos estudos, Arnon fora obrigado a expandir a educação que deveria dar a um a j ovem britã. Além de receber instruções sobre afazeres dom ésticos, que incluíam orientações diversas com o costura e culinária, Alix assistira às aulas de um padre designado para m inistrar tem as que norm alm ente se m inistrava aos m eninos, com o m atem ática e ciências.

— Ela foi m eu tesouro m ais precioso, Thom as — dissera-lhe o rei. — A única filha que m inha adorada esposa Julia m e deu.

O rapaz tam bém descobrira que Arnon conhecia Moriarty .

— Ele tem liberdade para perm anecer em Britany a. Afinal, é um abade responsável e faz seu trabalho com com petência. Divergim os sobre a questão dos nergals, m as eu o respeito desde que não se introm eta nos m eus assuntos. Cum pro um a prom essa ao não expulsá-lo de m eu reino.

— Um a prom essa feita a quem ? — perguntara Thom as, intrigado.

— À Senhora De Sutter.

— Hannah?

— Sim , foi ela m esm a quem indicou Dines para o cargo no Monastério. E eu sem pre respeitei suas sugestões.

— Tu a conheceste, então?

— Um a m ulher linda, profunda conhecedora dos m istérios da cura e das ervas. Não m e perguntes m ais, está bem ? Este assunto leva a outros e não quero m e recordar dessa parte do passado.

O terceiro dia do torneio am anhecera quente. Quando Vince De Angelis e Toby as De Roths

entraram na arena com seus cavalos de raça, a m ultidão vibrou. Os cavaleiros posicionaram -se, cada um segurando sua lança, em cantos opostos do terreno. A um sinal do rei, eles se defrontaram . O choque das lanças foi brutal, derrubando os dois cavaleiros da sela.

Toby as colocou-se agilm ente em pé, correndo para atacar Vince com a espada. O sobrinho

do arcebispo teve dificuldade de se levantar. O público gritou para avisá-lo do ataque im inente.

Thom as procurou por Erin. Ela ocupava o m esm o lugar do prim eiro dia, com Mark ao lado. O

rapaz estranhou sua ansiedade. Ela apertava as m ãos, nervosa. Thom as voltou a acom panhar a luta, encium ado. Erin dem onstrava preocupação dem ais com o sobrinho do arcebispo. E eles estavam a cada j antar m ais próxim os...

Arnon retesou-se na cadeira no m om ento em que Toby as golpeou seu oponente com a espada

diretam ente nas costas, na altura dos rins. Vince, que m al se equilibrava, errara ao tentar atingi-lo. O povo fez silêncio ao ver seu cavaleiro preferido tom bando indefeso para frente. Toby as parou, ofegante, m as Vince não se deu por vencido.

Outra vez em pé, m irou a espada na direção das pernas de Toby as, que, no entanto, foi m ais

rápido, desviando-se para o lado enquanto o golpeava novam ente. Vince tom bou de j oelhos, vulnerável. O público gritou pela segunda vez. Então, Toby as fez um m ovim ento que pareceu estranho para Thom as. O cavaleiro deu a volta para atingir o sobrinho do arcebispo na altura dos rins, no m esm o lugar que o atacara antes. “Por que dar um a volta tão dem orada para usar a espada som ente em um ponto específico?” Toby as parecia saber algo que o restante do público desconhecia. Hugues De Angelis, próxim o ao rei, respirava com dificuldade. Havia ódio e frustração em seu olhar escuro.

Os golpes acertaram Vince com m ais violência ainda. Caído de bruços, ele não se m ovia

m ais. Nervoso, Arnon ordenou que o torneio fosse encerrado. Britany a tinha um novo vencedor.

...

Vince foi retirado da arena por seus paj ens, que o carregaram para a tenda. O ferim ento doía

bastante. Os paj ens colocaram -no sentado sobre a cam a e retiraram cada pedaço da arm adura. Deixaram escapar exclam ações de horror ao descobrir o ferim ento m edonho nas costas do rapaz. A carne estava cortada, derram ando um a grande quantidade de sangue.

— Não é possível que o sr. De Roths tenha te atingido desta m aneira, senhor — deduziu um

dos paj ens. — Tua arm adura te protegeria de um corte assim .

— O senhor j á estava ferido antes do com bate? — quis confirm ar outro. — Por isso não nos

deixou colocar sua cota de m alha.

— Devem os cham ar o arcebispo.

— Eu estou bem ... — interveio Vince, lutando contra a vontade de desm aiar. — Não é preciso

cham á-lo.

— Mas, senhor...

— Cobre o ferim ento. Eu m esm o falo com m eu tio. Os paj ens seguiram as ordens e enfaixaram as costas de Vince com um tecido grosso. Eles o

aj udavam a vestir um a túnica rústica, de algodão, na hora em que Hugues entrou na tenda. O hum or do arcebispo não podia ser pior.

— Nosso rei m e pediu para vir saber notícias tuas — disse, entre dentes, após ordenar a saída dos paj ens. — Que desculpas pretendes dar a ele? Sabias m uito bem que Arnon só esperava tua vitória no torneio para anunciar a todos que serás seu herdeiro.

Não adiantava argum entar com o tio. O rapaz falhara, decepcionara-o profundam ente.

— Foste preparado durante tua vida inteira para este m om ento. E falhaste! Por quê? Pois eu te respondo. Porque foste negligente. Abusaste do pó am arelo quando te proibi de chegar perto dele. Encheste teu pulm ão com a fum aça daquele cigarro, m inando tua resistência física. E, claro, não treinaste o suficiente. Porque só pensas em m úsica! Teu coração nunca está nos treinos, nunca se envolve nos detalhes que diferenciam um cavaleiro de um verdadeiro cam peão.

Hugues parou de despej ar as broncas, num esforço m onum ental para não espancá-lo. Seu rosto concentrava um ódio aterrorizante. Nunca, em toda a sua vida, levantara a m ão para agredi-lo fisicam ente.

— És um fraco igual a teu pai — m urm urou ao se virar de costas para o rapaz. Antes de sair da tenda, acrescentou: — Direi aos teus paj ens para te deixarem em paz. Precisas de tem po para refletir sobre os m otivos que te levaram à derrota.

Ao se ver sozinho, Vince conseguiu sair da cam a. Pensou em chegar até seu quarto e, lá, finalm ente, descansar. Mas o ferim ento lhe sugava as forças e fazia um a pressão insuportável. O rapaz deu um passo e caiu, gritando de dor.

...

— Ainda não consigo entender teu interesse em m e trazer até aqui — cochichou Thom as, contendo a m uito custo a raiva.

— Já te disse que teu irm ão está ferido — argum entou Erin, tam bém em voz baixa. — Por isso ele perdeu o torneio. E o irm ão daquela sonsa da m inha m adrasta sabia m uito bem onde acertá-lo. Aposto com o o sr. De Larc planej ou isso para se vingar do ex-escudeiro. E claro que o sr. De Roths aceitou um a vantagenzinha...

— Tu j á m e contaste a história toda — retrucou o rapaz. — Só não entendo por que estás tão preocupada com o sobrinho do arcebispo.

— Queres dizer: preocupada com teu irm ão!

— Quero dizer isso m esm o: preocupada com o sobrinho do arcebispo!

— Falando no diabo...

Os j ovens prenderam a respiração ao descobrir que Hugues vinha em sua direção. Esgueirando-se entre as tendas dos cavaleiros, esconderam -se atrás de um a delas. Por sorte, o arcebispo não os viu.

— Vince está ferido e precisa da tua aj uda — insistiu Erin assim que o hom em sum iu de vista.

— Agora não é m ais sr. De Angelis? É apenas Vince? Muito íntim o, não?

— Thom as...

— E eu não sou m ais Tom ? Essa é boa!

— Eu não...

— Os dois divertiram -se bastante nos últim os j antares? Anteontem , ficaram brincando com colheres de m adeira. Ontem , passaram o tem po todo conversando. O que tanto vós cochicháveis?

— Nós não cochichávam os! Só trocam os ideias sobre m úsica. Sabes que gosto do assunto. — Um a noite inteira apenas falando sobre m úsica?! Inesperadam ente, Erin sorriu e, antes que Thom as pudesse reagir, beij ou-o com paixão. O

rapaz tentou resistir à atração, sem êxito. Quando seus lábios se afastaram , ela sorriu de novo.

— É a ti que eu am o — disse, acariciando-lhe o rosto com ternura. Thom as relaxou, apesar da am eaça que o sobrinho do arcebispo representava. Não queria

perder alguém que realm ente adorava para um bonitão qualquer. O pior é que Vince im pressionara o rapaz com sua coragem durante o torneio. Tirando o péssim o desem penho do últim o dia, o cavaleiro era sim plesm ente o m elhor. E, para com pletar, era inteligente, culto, refinado e irresistível para as m ulheres. E adorava m úsica, j ustam ente um assunto em que Thom as era um com pleto ignorante.

— Nenhum paj em foi para a tenda — observou Erin, segurando o rapaz pela m anga do

blusão. — Acho que podem os ir até lá, só para dar um a espiada...

— E o que vam os dizer para Vince? “Olá, m uito interessante tua luta de hoj e. Que pena que

saíste perdedor!”

Erin arrastou-o até a tenda. No fundo, o rapaz sabia que a j ovem estava certa. Ao entrar, ele

fechou os olhos por um instante. Acabara de sair da intensa luz do dia, direto para a obscuridade do lugar. O am biente era sim ples e não lem brava em nada o luxo que vira havia anos na tenda de Rouen De Larc. Erin cutucou-o, apontando para o chão. Vince estava caído sobre um tapete.

— E-Ele está m orto? — disse a j ovem .

Preocupado, Thom as foi exam iná-lo.

— Está m orrendo.

Ao contrário do que im aginava, a m orte im inente do cavaleiro não lhe trouxe qualquer alívio.

O filho m ais velho de Erec e Alix estava ali, precisando de sua aj uda. Alguém do seu próprio sangue, um quase desconhecido a quem tem ia se afeiçoar. Seu irm ão.

— Podes aj udá-lo? — perguntou Erin.

O rapaz procurou algum obj eto que pudesse aguentar a energia que pretendia transferir.

Reparou na lâm ina da espada do cavaleiro, deixada sobre um baú.

— Vou precisar da espada.

Erin trouxe a arm a até ele. Thom as depositou-a sobre o tapete, j unto a Vince. Num

m ovim ento lento, apoiou a m ão direita sobre o om bro do irm ão e, com a outra, tocou a lâm ina.

Fechou os olhos. Seu tem po era curto, Vince estava partindo. Estrem eceu. A dor veio a seguir,

insuportável e assustadoram ente m ortal, m as Thom as j á vira a m orte m uitas vezes para tem ê-la. Então, chegou a pior parte, que ele ainda não dom inava por com pleto. A m ão esquerda pressionou a superfície da lâm ina. Era o m om ento de liberar aquela energia que não lhe pertencia. Um a onda gelada atravessou-lhe o corpo e rum ou para a espada. Os dedos aqueceram -se em contato com o obj eto. Após alguns segundos, a tem peratura de seu corpo voltou ao norm al. Tivera sucesso.

Thom as abriu os olhos, bastante tonto. A velha sensação de enj oo lhe dizia que seu corpo se

enfraquecera durante o processo. Erin veio por trás para abraçá-lo.

— Com o estás?

— Só m e sinto zonzo...

Ela o aj udou a se levantar. Thom as encheu os pulm ões de ar, recuperando o controle aos poucos. O enj oo tam bém passou, deixando no lugar um a fom e voraz. Quando fora a últim a vez que colocara algum alim ento na boca?

Vince espreguiçou-se, com o se despertasse de um sonho. Ergueu as pálpebras e espantou-se com a presença dos j ovens. Sem pressa, sentou-se sobre o tapete e m assageou as costas. Neste instante, as recordações da últim a hora vieram -lhe à m ente. Ele arregalou os olhos, perplexo. Olhou para Thom as e depois para a espada. A lâm ina estava horrivelm ente distorcida.

Antes de ser obrigado a responder a perguntas constrangedoras, Thom as deu um puxão em Erin e em purrou-a o m ais rápido possível para fora da tenda.

Nunca m ais desej ava encontrar aquele rapaz insuportável.

...

Thom as alm oçou sozinho no quarto. Hugues deixava-o em relativa liberdade para escolher o que fazer, pois se sentia seguro quanto a ele. O rapaz não fugiria enquanto tantas pessoas queridas estivessem ao alcance de seu poder. Havia Erin, Mark, Shannon e, agora, Sabina. O hom em tam bém sabia que Thom as se apegara m uito ao avô. Qualquer tentativa de não seguir as ordens de Hugues significava decepcionar Arnon, que confiava a vida e o reino ao conselheiro. O rapaz perguntava-se o porquê do rei depender tanto do velho bruxo.

No final da tarde, antes de escurecer, saiu do quarto e foi pegar um a fruta na cozinha. Com eçava a sentir fom e outra vez. Não esperava encontrar o tum ulto que tom ava conta do local. Toda aquela agitação de pratos, panelas, criados e cozinheiras, na verdade, era absolutam ente norm al para o últim o grande j antar do torneio.

Thom as pegou um a m açã e ia dar m eia-volta quando Vince o cham ou, parado perto da m esa de doces. O arqueiro bufou, aborrecido. Não pretendia conversar com ele.

— Não preferes um pedaço de torta? — perguntou o cavaleiro, num tom sim pático que o irritou.

A aparência de Vince era a m elhor possível. O rosto estava corado, sem qualquer escoriação que lem brasse o envolvim ento com os com bates dos últim os três dias.

— Esta torta é de lim ão — insistiu, com um a piscadela para um a das cozinheiras. — Hoj e prepararam duas, com m edo de que eu roubasse a sobrem esa preferida do rei.

— Não gosto m uito de doces — recusou Thom as, indo para a porta.

— Alix preparava esta receita m elhor do que ninguém ...

Thom as deteve o passo, sem se voltar para o irm ão.

— Vem com igo. Quero te m ostrar um a coisa — convidou Vince.

Os dois deixaram a cozinha e cruzaram em silêncio alguns corredores antes de invadir um pequeno j ardim fechado por um portão de m etal. Havia tipos diferentes de flores, dispostas ao redor, o que form ava um arranj o harm onioso.

— Ela adorava flores — m urm urou Vince antes de indicar um quadro.

Thom as sentiu um nó na garganta. Alix, a garotinha que vira refletida no vidro da j anela havia anos no Monastério, estava retratada naquela pintura. O m esm o ar alegre e descontraído, um a criança esperta que ainda não tem ia o m undo.

— O rei m e deu este quadro quando fiz dez anos, em outubro de 828. Desde então...

— Que dia? — interrom peu Thom as.

— Que dia o quê?

— Qual o dia do teu aniversário?

— Dezesseis de outubro. Por quê?

— Por nada.

Vince retom ou o pensam ento.

— Desde 828 eu m antenho este espaço para ela. Tentei m e lem brar das flores que nossa m ãe

gostava, m as só consegui pensar em flores do cam po. Ela as usava nos cabelos.

— Tens m uitas recordações dela?

— Algum as.

— Eu não a conheci — disse Thom as, em ocionado, m ais um a vez adm irando o quadro. — Só

a vi nos transes que tive. Esta história tu j á deves saber, não? Contei a Mark De Durham . Viste a gravação?

— Claro. E desej ei tam bém viajar no tem po, saber m ais sobre Alix... — Não contei em detalhes o que assisti em Sutter, durante o ataque. — Isto eu não quero saber.

— Eu quis poupar Mark de descobrir com o a m orte de Erec foi dolorosa. Poupá-lo de saber

até onde vai a m aldade de Hugues De Angelis.

— Chega — disse o irm ão em sua aparente calm a. — Cresceste acreditando em m entiras.

— Eu te m andei parar.

Aquele j eito im passível de Vince era realm ente irritante. Ele nunca alterava a voz nem perdia

o controle?

— Quando quiseres enxergar a verdade, m e procura — resm ungou Thom as ao deixar o

pequeno j ardim para trás.

Onde estaria Hugues De Angelis? Thom as não sentiu a presença do arcebispo por perto. Era a

chance que esperava para ir ao calabouço, onde tinha certeza de que encontraria Sabina. Conseguiu passar despercebido por um grupo de guardas, que j ogava dados no chão. Avançou com cautela, sem fazer barulho.

— Sabina? — sussurrou.

— Thom as, estou aqui! — respondeu a andarilha, atrás da porta da cela m ais próxim a. — Estás bem ?

— Sim . E Shannon?

— Tua filha está em segurança. Vince De Angelis a protege. — E ela sabe que estou aqui?

— Acho que não. Ainda não pude conversar com ela. — Não digas nada. Não quero preocupá-la.

Thom as não sabia m ais o que falar. Era por sua culpa que Sabina estava presa, sofrendo por

ser inocente.

— Filho, perdoa-m e! — disse ela. — Fui obrigada a contar tudo sobre tua vida para aquele

hom em odioso.

— O arcebispo?

— Sim . E ele m e fez perguntas sobre o dia do teu nascim ento e sobre tua m ãe... Oh, Deus, acabei revelando todo o segredo!

— Ele j á sabia de tudo, m ãe. Só te usou para confirm ar as inform ações que recebeu antes. Eu é que te peço perdão. A culpa é m inha.

— Não te culpes.

O som de passos alertou Thom as. Era preciso sair dali.

— Escuta, Sabina, eu voltarei. Juro que vou te colocar em segurança.

Ele deixou rapidam ente o calabouço. Usou o m esm o truque em que pensara na outra vez, pendurando-se no teto para que os guardas não o descobrissem . A seguir, passou com o um raio entre os hom ens que discutiam um a j ogada duvidosa de dados. Em m inutos, j á estava na escadaria, perto do quarto que ocupava. Um a discussão próxim a dem ais fez com que reduzisse a velocidade.

— Já te falei que detesto banquetes! Não irei participar deste! — gritou Vince.

Thom as pisou no últim o degrau e parou para acom panhar a cena. Ainda não vira Vince alterado daquela m aneira. Hugues, que estava de costas para a escadaria, não o notou.

— É tua obrigação! — explodiu ele.

— Não é m ais! Agora tu tens um novo brinquedo. Diz a ele o que fazer. Eu j á estou farto!

— Vince, eu te proíbo...

— O que m ais irás m e proibir? Tudo o que eu faço está errado, não é m esm o?

— Afinal, descobriste o que te levou à derrota? — perguntou Hugues, sarcástico. — Aliás, o que dirás ao nosso rei? Nem podes inventar que estiveste doente. Tua aparência é ótim a.

— Não pretendo dizer nada.

— Vince, o que está acontecendo contigo? Nunca te vi tão nervoso assim . Sei que a derrota no torneio te afetou, m as...

— Achas que é por causa de um torneio estúpido?

— Não fales assim — am eaçou o outro hom em .

— Se não o quê? Vais m e m atar com o fizeste com Erec De Sutter?

— Já te expliquei essa história...

— Parece que existem versões diferentes para o fato — disse Vince, indicando Thom as.

Surpreso, Hugues virou-se para ele.

— Quanto a m im , só desej o m uita diversão — disse o cavaleiro antes de tom ar a direção oposta.

O arcebispo passou por Thom as, sem olhá-lo, para descer as escadas. O rapaz encostou-se à parede, subitam ente am edrontado. Sentira um ódio quase palpável dirigido a ele.

Um pouco tonto, teve dificuldade em chegar até seu quarto. Após entrar, fechou a porta e escorregou para o chão, onde sentou-se. Seus dedos buscaram a pedra que, j unto à aliança, voltara a pendurar no pescoço. Os obj etos estavam seguros por um cordão de couro, pois a corrente que pertencera a Jane fora quebrada por Mark.

A pedra ardia em sua m ão. Thom as cerrou os olhos, desej ando controlar a ansiedade. Hannah ensinara-lhe a não im pedir as visões. E essa veio tão intensa e dolorosa quanto as outras.

Várias ruínas surgiram , um a profusão de edifícios destruídos e abandonados, sem elhantes aos que eram erguidos na Era da Tecnologia. Thom as cam inhava entre eles, tentando descobrir que cidade fora aquela. Teve a sensação de andar por m uitas horas até avistar um a ilha. Sobre ela havia partes de um a estátua gigantesca. Onde vira aquele m onum ento antes? Com certeza, em algum livro. O rapaz pensou em Menethrrah, um a das perenthis m encionada por Hugues. Subitam ente, luzes assustadoras atingiram -no, o que lhe provocou um a dor alucinante.

Thom as despertou, ofegante. A pedra opaca brilhava, quase queim ando-o. Ele a escondeu sob

a roupa. Não entendia sua relação com aquelas esferas. E havia a história m aluca de um tal Gotihan, um a lenda que o arcebispo acreditava firm em ente ser verdadeira.

— Mithrrah... — cham ou, baixinho.

Para seu espanto, a esfera surgiu flutuando diante de seu rosto. Ela brilhou de form a intensa

até desaparecer, o que causou no rapaz um a estranha sensação de força que percorreu todo o seu corpo em m ilésim os de segundos.

Três batidas seguidas na porta obrigaram -no a se erguer. — Quem és?

— O criado, senhor. O arcebispo desej a vê-lo im ediatam ente no alto da torre leste.

...

Os prim eiros pingos de um a chuva fraca encontraram Thom as na torre m ais alta do castelo.

Ele foi até o arcebispo, que o aguardava próxim o ao baixo m uro de pedra. Estavam a sós.

— O que disseste a Vince? — perguntou Hugues, com sua voz agradável. Os olhos, no entanto,

traíam sua ira.

— A verdade.

— A única verdade que existe é a m inha, Thom as. Já devias saber disso. O arcebispo desviou o rosto para baixo. Thom as olhou na m esm a direção. Sobre a plataform a

de um a das torres m ais baixas, um guarda conduzia um prisioneiro. Na verdade, um a prisioneira. Um frio m ortal atingiu o rapaz. Era Sabina.

— Quando entenderás que som os superiores? Que m erecem os este m undo por nossa força e

inteligência? — disse Hugues, ainda contem plando a cena. — Os seres inferiores são úteis apenas quando há interesse em seus serviços. Caso contrário, podem ser dispensados.

O guarda forçou Sabina a se aj oelhar. Deu dois passos para trás, puxando a espada da bainha. — Não a m ates, senhor, eu te im ploro — pediu Thom as, apavorado. — Im plorar? O Herdeiro não deve im plorar por nada. Nem tam pouco preocupar-se com

estas criaturas. Não entendes, Gotihan? Tu retornaste para algo m aior, um a glória inim aginável para as lim itadas m entes hum anas.

— Deves poupá-la, senhor! A andarilha não tem nada a ver com o que eu disse a Vince... — E o que disseste a ele?

— Apenas que tu m ataste Erec — explicou o rapaz, engolindo o orgulho. — Nada que teu

sobrinho j á não soubesse, não é m esm o?

— Tu sem easte a desconfiança em seu espírito. Isso eu não posso perm itir. É preciso que

entendas de um a vez a quem pertence este m undo insignificante, m antido vivo apenas por que os nergals esperam por ti há anos.

O guarda m antinha-se à espera da ordem do arcebispo, que assentiu com um m ovim ento de

cabeça. O hom em ergueu a espada, preparando-se para decapitar Sabina. Thom as foi tom ado pelo terror.

Sua m ente não acom panhou o que aconteceu. No m esm o segundo, ele segurava com firm eza o pulso do guarda que, ao descobrir o rapaz de repente entre ele e a andarilha, deu um grito e, largando a espada, desvencilhou-se para fugir correndo. Thom as viu a si próprio, im óvel, ao lado de um estupefato arcebispo. Quando piscou, sua consciência estava novam ente na torre leste. Não podia explicar com o fizera aquilo.

A chuva caía com m ais intensidade. Alguns raios nasciam no horizonte.

— Com o fizeste isso? — disse Hugues, dando alguns passos para trás.

Seguindo a intuição, o rapaz abriu os braços para se conectar à força da natureza ao redor. Ele não pensava, apenas agia, guiado pela fúria que o controlava. Um raio riscou o céu escuro. O rapaz captou sua energia e canalizou-a contra o arcebispo. O im pacto trem endo que o atingiu arrem essou Thom as para longe.

A torre leste foi invadida pelas cham as.