O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

Prólogo

Cordilheira Azul

Ano 794 da Era Arthur

T olkien entrou na caverna. Seus olhos dem oraram alguns segundos para se acostum arem à

lum inosidade suave dos inúm eros cristais espalhados por todo o local. O rapaz escolheu um

canto para se esconder, puxou o capuz para cobrir o rosto e, sem alternativa, se preparou para a vigília que duraria horas.

Som ente as faces m últiplas dos cristais refletiam o cam inho que a lua seguia no céu escuro.

Tolkien sentiu os olhos pesados. Há quantos dias não dorm ia? O corpo estava dolorido, tenso, consum ido pela preocupação.

Lá fora, o ar tornou-se ainda m ais frio. Faltava pouco para a aurora. “Onde ela está?”, pensou

o rapaz, com eçando a deixar o bom senso de lado. Havia em seu peito um a dor prestes a sufocá-lo. “Ela disse para ter calm a, para esperar”, defendeu um a voz no fundo de sua m ente. Passara por tantos treinam entos, estudos, testes, m as nada o preparara para um a situação com o aquela.

Seus m estres haviam sido covardem ente assassinados. A perseguição agora se estendia a

outros com o Tolkien. O rapaz sentia, m ais do que sabia, que era o últim o dos guardiões. E, por m ais que o orgulho o im pedisse de acreditar, sabia: era inexperiente, apenas um garoto idealista perdido nas próprias am bições. Ela tam bém era a últim a, e tão j ovem quanto ele. Possuía, no entanto, a experiência que lhe faltava. E m uito m ais conhecim ento, o conhecim ento dos Antigos.

— Devia controlar m elhor seu sono, guardião. O rapaz deu um pulo. Ao seu lado, Hannah observava-o. Seus olhos azuis o consum iam . Havia

neles um a cham a que lhe devorava o espírito. Ele piscou para afastar o m edo. A j ovem sorriu.

— Se eu fosse um dos hom ens do Novo Conselho, você nem perceberia sua m orte. Tolkien corou de vergonha. Autom aticam ente, endireitou as costas para enfrentar os tem idos

olhos azuis. Mas eles transm itiam paz, apesar de o rosto refletir um a tristeza im ensa.

— Todos os nossos estão m ortos, Tolkien, todos... — Eu sei.

— O destino dos guardiões está agora em suas m ãos — prosseguiu ela lentam ente, com o se

m edisse cada palavra. — Você deve partir e, em segredo, treinar novos m em bros. O Novo Conselho ainda tem m uitos opositores. Não é tem po de oposição aberta, e sim de preparação.

O rapaz estrem eceu. As dúvidas enchiam -lhe os pensam entos. Fora da caverna de cristais, a

lua se escondia atrás da Cordilheira Azul. O capuz negro, cor da casta, procurava ocultar os cabelos dourados que caíam sobre os om bros da j ovem . Tolkien nunca encontrara um a m ulher tão bela e, ao m esm o tem po, tão fascinante. Era im possível para ele não adorá-la. Poucas vezes a vira, m as o am or que ela lhe inspirava o seguia em sonhos im possíveis.

Num m ovim ento suave, a sacerdotisa tocou-lhe o om bro. “Não sou capaz de realizar o que

m e pede”, a m ente do rapaz sussurrou. “Não tenho a experiência dos m eus m estres. Está tudo perdido.”

O toque, então, transm itiu um a inacreditável sensação de conforto que se espalhou pelo corpo

de Tolkien. Trazia um bem -estar que não sentia há m uito, desde os tem pos em que a am eaça do Novo Conselho não passava de um a ideia desacreditada. Seu coração se fortaleceu. Por am or, o j ovem guardião faria tudo o que Hannah lhe pedisse. Daria sua vida, se fosse o desej o dela. A sacerdotisa, no entanto, não pedia m orte: pedia esperança.

— Devo partir agora, guardião. Minha m issão deve continuar em outro m undo.

Hannah contem plou a claridade que chegava com o novo dia. No interior da caverna, os prim eiros raios de sol am pliavam o brilho refletido pelas m últiplas faces dos cristais. Tolkien, porém , não registrava esses detalhes. Enxergava a j ovem , apenas ela, rodeada pela luz intensa. Hannah voltou-se para ele. Os braços cruzados pareciam buscar proteção contra um a am eaça invisível. Tolkien lutou contra a vontade de abraçá-la.

— As perenthis devem perm anecer em um lugar seguro, longe da cobiça dos nossos perseguidores — m urm urou m ais para si do que para o rapaz. — Devem os preparar tudo para a profecia se com pletar. Ela j á com eçou, apesar da descrença de m uitos. Os antigos nos avisaram , porém poucos lhes deram atenção...

— Para onde irá, senhora?

A j ovem fitou-o, com o se o notasse pela prim eira vez ali, diante dela.

— Eu não deveria com partilhar com você os segredos dos nossos sacerdotes. Mas não há ninguém em que possa confiar nestes tem pos som brios. Sou a últim a sobrevivente da m inha casta. E você é a única esperança do nosso povo e de m uitos outros que ainda não despertaram para a Grande Guerra que se aproxim a.

O rapaz estrem eceu pela segunda vez. O olhar de Hannah recuperara o brilho perigoso que parecia devorá-lo.

— Conhece o conteúdo da profecia, Tolkien?

— Sei as palavras, m as...

— Ela fala no Herdeiro, o único que pode controlar o poder das perenthis, o único capaz de desafiar o poder do m al. Pois eu sonhei com Gotihan, e ele m e disse onde encontrá-lo.

Tolkien respirou fundo, fazendo barulho. Nunca tivera acesso ao conhecim ento dos sacerdotes e m uito m enos à sabedoria dos antigos. Quando entrara para o restrito grupo dos guardiões, desej ava explorar m undos distantes e viver aventuras grandes dem ais para um sim ples garoto do interior. Sabia que os guardiões trabalhavam para os sacerdotes e vira essa gente estranha em várias ocasiões. Nunca, nem em seus sonhos m ais m alucos, pudera im aginar que antigas histórias de ninar pudessem ser reais. Ele teria dado um a boa gargalhada se a sim ples presença da sacerdotisa não o intim idasse. Além disso, ela parecia ler seus pensam entos.

— Estude as palavras antigas. Elas dizem a verdade.

— Mas...

O rapaz parou. Um a certeza invadiu-o. “Se a profecia está certa, então...” Não era m ais um a questão política, um golpe do Novo Conselho para ganhar poder e sacrificar a liberdade do povo. A questão ganhava dim ensões assustadoras. A responsabilidade pesou com o chum bo sobre os om bros de Tolkien.

— Entende agora, guardião? Devo partir im ediatam ente. Não lhe direi m ais nada. Você j á tem m uito trabalho pela frente. Faça os guardiões renascerem , com força suficiente para lutar contra o m al que se aproxim a. Confie apenas em Palius. Eu buscarei o Herdeiro.

— Adeus, senhora — m urm urou Tolkien, ousando pegar-lhe a m ão para beij á-la. O coração avisou-o de que nunca m ais veria a bela sacerdotisa.

Tons cinzentos, no exterior da caverna, com eçavam a invadir a m anhã cheia de luz, trazendo a chuva em seu rastro. Tolkien encolheu-se sob a capa. Hannah desaparecera.

Muitos anos depois, a j ovem apareceu em um sonho. Estava m ais velha e parecia esgotada. A

dor m arcava seus traços.

— Com eti um erro, Tolkien. Se o Herdeiro procurar você, m ate-o!