O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais
2 - Partida
CAPÍTULO 2
Partida
Ano 838 da Era Arthur
Odia estava quase tão escuro quanto a noite. Mal dava para enxergar o sol, escondido entre
nuvens sinistras. Os prédios m uito altos e estreitos, uns próxim os aos outros, deixavam a atm osfera sufocante. Ao seu redor, pessoas estranhas andavam apressadas. Usavam roupas pesadas e escondiam os rostos sob m áscaras de oxigênio. Thom as sabia que o ar era irrespirável. Ele passou por um a pilha de ferro-velho. Não era a única. A rua por onde transitava m ostrava lixo e sucata em vários pontos. Um a chuva fina com eçou a cair de repente, o que obrigou as pessoas a procurarem abrigo. Um cachorro am arelo e m agricela, que peram bulava perdido próxim o a Thom as, ganiu quando as gotas o atingiram . A chuva era corrosiva. Um tipo de veículo sobre rodas cruzou a via, em alta velocidade. Thom as j á vira algo parecido nos livros do Monastério. Era um carro, usado pelas pessoas para locom oção. O veículo em itia um ruído ensurdecedor...
— O que vês? — perguntou a voz de Hannah.
Thom as descreveu a cena. Quando term inou, as im agens foram ficando m ais escuras até
desaparecer. Ele ergueu lentam ente as pálpebras para reencontrar a claridade da m anhã. Estava sentado à direita de Hannah sobre um dos rochedos negros da Praia dos Pelicanos, em m ais um a das aulas que o aj udavam há quatro anos, desde que descobrira o local.
Um pouco afastada, na areia, Erin divertia-se j ogando um a pequenina bola de couro para Oz.
Thom as passou a palm a da m ão sobre a testa. Estava suando.
— Finalm ente controlei um a visão, Hannah — m urm urou, trêm ulo. — Ela veio quando pedi e
m antive o controle o tem po todo!
— Pelo que m e descreveste, acredito que viste algum período final da Era da Tecnologia. Foi
no que pensaste antes de pedir pela visão?
— Sim . Se o hom em dom inava a tecnologia neste período, por que o m undo estava tão...? Não conseguia encontrar um a palavra para expressar o que vira. — Poluído? A palavra é poluição, rapaz. Água, terra e ar contam inados por um a tecnologia
usada sem preocupação com a natureza. Pode ser devastador se não há critérios em sua utilização. Naquela era, o ser hum ano extrapolou lim ites em seu egoísm o e sua ganância pelo poder. A genética, por exem plo, desestabilizou ecossistem as, alterou plantas e anim ais sem m edir as consequências dessas m udanças. Doenças foram criadas em laboratórios com o obj etivo de destruir nações inim igas e até etnias atingidas pelo preconceito.
— Com o pessoas negras? Não há nenhum a delas em Britany a. — Esse grupo étnico, j unto de outros, foi extinto neste m undo. Só restaram os considerados
brancos.
— E no teu m undo, elas existem ? — arriscou Thom as. Jam ais conseguira tantas inform ações
sobre a Era do Caos.
— Sim , elas existem . Meu m undo tornou-se um a esperança de salvação para a raça hum ana.
Os antepassados da sacerdotisa partiram deste planeta antes que a Era do Caos o devastasse.
A cabeça de Thom as fervilhava de ideias. Pesou bem as palavras antes de form ular a próxim a pergunta.
— Com o tu cham as teu m undo?
— Gaia.
— Arthur tam bém era de lá?
A im agem piscou antes de analisá-lo com frieza. “Ela não vai responder!”, apostou Thom as.
— Sim , ele veio de Gaia, há m ais de oito séculos.
— E criou um a civilização aqui, nas terras que cham ou de Britany a.
— Arthur é considerado um poderoso líder em seu m undo e, no m eu, um louco fanático, obcecado por m itologia arturiana. Ele e seu grupo de seguidores deixaram Gaia por questões religiosas. Encontraram aqui um terreno fértil para suas ideias entre pessoas solitárias e sem rum o. Usaram a tecnologia que dom inavam para restaurar a saúde destas terras, da fauna e flora. E dem oliram em Britany a cada pedaço de história que pudesse denunciar a existência de um passado anterior à Era do Caos.
— Mas não estenderam o poder para além das ilhas, não foi?
— Correto. As Terras Erm as foram conquistadas por seus descendentes, séculos depois. Elas refletem o que sobrou deste planeta triste, que pagou o preço da am bição dos hom ens.
— Então, os bárbaros...
— São seres hum anos, Thom as, abandonados à própria sorte. Descendem dos poucos que sobreviveram à Era do Caos.
Estudar seu m undo sob aquela perspectiva era assustador. Graças a Arthur e seus cavaleiros, existia um povo em Britany a. Thom as agora entendia de onde vinha o m edo de tudo que fosse apenas diferente. O povo era m antido ignorante para ser controlado. Um a pessoa que não aprende a pensar não faz perguntas, não critica, não incom oda. Sem referências sobre seu passado, não questiona o futuro. E aceita pacificam ente o papel que lhe é im posto para toda a vida: ser apenas um servo, um andarilho ou um cavaleiro.
O rapaz não conseguia im aginar com o seriam os bárbaros. “São violentos, filhos de um a m iséria inim aginável para nós. Atacam ferozm ente, com o anim ais. Às vezes, penso que não são m ais seres hum anos”, dissera-lhe Mark no dia em que chegara a Durham .
— Onde se localiza Gaia, Hannah?
— Já te dei m uito para pensar.
O hologram a desfez-se. Involuntariam ente, Thom as levou o dedo m indinho à boca. “Preciso parar de roer as unhas”, pensou, antes de afastar a m ão. Ainda era difícil controlar a ansiedade. Graças a ela, tivera pouco progresso nas inúm eras visitas que fizera à Praia dos Pelicanos. Por sorte, as m anifestações tinham lhe dado um am plo período de paz, perm itindo que fosse apenas um adolescente norm al. Som ente poucas sem anas antes obtivera algum resultado, ao aum entar a concentração. Visualizara tem pos distantes, pessoas desconhecidas. Mas não ousara pensar em Alix ou Erec. Não estava preparado para explorar novam ente o passado de sua fam ília.
O olhar deteve-se nas ondas que batiam contra os rochedos, com o pensam ento no período em que vivera no Monastério. Nunca m ais tivera notícia de m estre Dines ou de Michel. Às vezes, tinha vontade de ir até as Terras Erm as para cum prir a prom essa que fizera ao abade. Mas ainda não era o m om ento de retornar. Havia m uito o que aprender com Hannah.
O rapaz tocou a pedra j unto ao peito. Não precisava m ais dela para ativar o program a holográfico, que agora obedecia ao seu com ando de voz, da m esm a form a que Erec devia ter feito durante anos.
O dia estava quente. Thom as tirou as botas e o blusão antes de m ergulhar. O contato com o
m ar aj udava-o a relaxar. Deu algum as braçadas antes de avistar Erin, que cam inhava distraída, com os pés na água. A calça com prida estava dobrada, na altura do j oelho, para que não se m olhasse. O rapaz não resistiu. O m ais silenciosam ente que pôde, aproxim ou-se por trás, espirrando a m aior quantidade possível de água em cim a dela.
— Tom , seu m aluco! — gritou ela, pulando para longe. Ele deu um a gargalhada e se j ogou outra vez no m ar. O convívio com o povo de Durham
m elhorara seu espírito m elancólico. Quando resolveu voltar para a areia, tinha certeza de que Erin iria lhe dar o troco.
O cachorro surgiu, latindo e abanando o rabo. Assim que o rapaz se abaixou para acariciá-lo,
a am iga atacou-o.
— Não vale fazer cócegas! — argum entou, tentando proteger a barriga. Erin era im batível e conhecia m uito bem seus pontos fracos. Mas Thom as tam bém conhecia
os dela. Ele a em purrou e os dois rolaram , rindo, pela areia. O rapaz enfim im obilizou-a, prendendo o corpo dela sob o dele.
Foi então que um a sensação diferente o invadiu. Erin não era m ais um a m enina. Ela crescera
e seu corpo m udara, com o Thom as podia sentir intensam ente naquele m om ento. Muitas vezes, ele se obrigava a disfarçar a atração pela nova aparência da am iga de infância. Ela com pletaria dezessete anos em m aio, apenas seis m eses antes que ele tam bém fizesse dezessete.
Erin tam bém estava constrangida. Parecia ter percebido, naquele m esm o instante, que os dois
j á não eram m ais crianças.
— É m elhor irm os em bora — disse ele, secam ente, ao soltá-la. — Há algo que preciso te
contar sobre Arthur.
Oz, sentado na areia, observava os dois, com um a das orelhas em pé.
...
Durante o percurso até o castelo, Thom as contou em detalhes tudo o que vira e cada palavra
do que Hannah lhe dissera.
— Onde achas que Gaia fica? — perguntou a j ovem . Thom as parou o cavalo, assim com o ela. Levantou o dedo indicador e fez um sinal em
direção ao céu.
— Q-Queres dizer... Em outro pla-planeta?
— E onde m ais poderia ser, Erin?
A j ovem dem orou a absorver a inform ação.
— Hannah m e disse que nossos antepassados se separaram na época em que este planeta
estava um caos — prosseguiu ele. — Um grupo partiu em busca de esperança em outro lugar, enquanto o restante perm aneceu aqui...
— É, faz sentido.
Em silêncio, os dois retom aram a cavalgada até o edifício principal. O m undo, de repente,
tornara-se grande dem ais para eles.
...
Erin não conseguia dorm ir. Virou para o outro lado da cam a, procurando varrer qualquer pensam ento da m ente. Era im possível não pensar no que Thom as lhe contara naquela m anhã. Tudo parecia tão absurdo! No entanto, fazia, sim , m uito sentido. Explicava tantas coisas no m undo em que viviam ...
Seria interessante se pudesse tocar no assunto com o pai, sem que ele desconfiasse de com o a filha e Thom as sabiam tanto sobre o assunto. O cavaleiro conhecia as Terras Erm as m uito bem , talvez pudesse dar um a descrição m ais detalhada sobre o m odo de vida dos bárbaros e falar sobre os seres m utantes que habitavam aquela região assustadora. Entretanto, ele não estava em Durham . Partira havia um a sem ana para o norte da Ilha Média, a negócios. Deixara a insuportável esposa para trás.
Erin am arrou a cara ao se lem brar do j eito insosso de Claire, um a j ovem incapaz de qualquer tipo de pensam ento inteligente. Sua m aior am bição era encher a casa de filhos. E estava tendo sucesso. Os gêm eos tinham nascido no últim o verão e ela j á estava grávida outra vez. Arla derretia-se em cuidados com ela e os bebês. Deixara até de im plicar com Thom as e com a filha m ais velha de Mark. Esta, então, era considerada um caso perdido, um a nobre que j am ais seria um a dam a prendada e obediente. Nesse ponto, Claire era perfeita. Vivia para agradar o senhor de Durham . Além disso, bordava adm iravelm ente bem e era com petente para adm inistrar a casa e os criados. Seu m aior desafio: escolher qual seria o prato principal para o j antar.
Nervosa, Erin puxou a coberta até o nariz. Havia um detalhe que a perturbava. Era difícil esquecer o que sentira quando Thom as a tocara, na praia. Definitivam ente, os dois não eram m ais crianças. Tinham perdido a inocência.
“Agora ele confia m ais em si m esm o”, refletiu, satisfeita. A aparência dele tam bém estava diferente. A vida ao ar livre e os exercícios diários haviam deixado seu corpo forte e flexível. Não era um rapaz grandalhão, com o Mark fora na j uventude, nem excepcionalm ente bonito. Era apenas um pouco m ais alto do que ela, além de esguio e ágil, com o um gato. A j ovem gostava de adm irar o rosto m oreno, m arcado por um a leve cicatriz abaixo do olho direito. Ele m antinha os cabelos ondulados sem pre curtos, na altura da orelha. A garota pensou em seu sorriso. Thom as podia ser encantador quando queria.
Um a leve batida na porta fez com que se sentasse na cam a. Era m adrugada. “Tom !”, pressentiu ela, j ogando um casaco por cim a da cam isola antes de correr para a porta. O rapaz, pálido e transtornado, carregava Oz debaixo do braço. Rapidam ente Erin colocou-os para dentro.
— O que houve contigo? — perguntou, enquanto fechava a porta.
— Tive um a visão.
A j ovem olhou-o de cim a a baixo. O rapaz vestia roupas de viagem e levava no om bro a velha m ochila.
— Pretendes viaj ar?
— Vou para a Grande Ilha.
— Por quê? — perguntou a j ovem , alarm ada.
— Erin, m e escuta. Hoj e à tarde, durante a aula, pensei m uito nos andarilhos...
— Os m esm os que te criaram ?
Thom as assentiu. O cachorro, triste, lam beu suas m ãos.
— Quando fui para o quarto, tentei saber o que tanto m e preocupava. Peguei a pedra e m e
concentrei. Então, eu a vi, Erin. Eu vi Shannon. Morta.
— Achas que previste o futuro?
— Tenho certeza de que posso evitar o que vai acontecer. — Voltarás para nós?
— Eu quero voltar — disse ele, procurando sorrir. — Diz ao teu pai que precisei partir, m as
que não vou dem orar.
— Espera! Deves levar algum dinheiro.
Erin foi até a arca de m adeira ao lado de sua cam a. Tirou de lá um saquinho de couro, cheio
de m oedas e, a seguir, entregou-o a Thom as. Ele agradeceu.
— É apenas um em préstim o. Depois te devolvo. Há outra coisa que m e preocupa. Podes ficar
com Oz?
O cachorrinho, m agoado, choram ingou. Erin sorriu e pegou-o no colo. Lutava contra o choro
que m achucava sua garganta. Num gesto instintivo, levantou a m ão e tocou de leve o rosto do am igo. Não queria perdê-lo. Os olhos de Thom as encontraram os seus. Ela o sentiu trem er.
O rapaz, então, aproxim ou o rosto ao dela e seus lábios se tocaram . Um a onda de prazer e
felicidade percorreu Erin por inteiro. Ela o puxou para si e o beij ou com intensidade. Os braços de Thom as envolveram -na, enquanto seus corpos se colavam . Esprem ido entre eles, Oz reclam ou. Os j ovens não pareciam notá-lo.
Erin não calculou quanto tem po durou aquele beij o. Perdera a noção de tudo. Quando o rapaz
se afastou, um a pontada atingiu-a no peito. Ele ia partir.
Sem dizer nem sequer um a palavra, seu am igo de infância deixou o quarto.