O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

10 - Incêndio

CAPÍTULO 10

Incêndio

Antes de encontrar Mark para o últim o j antar do Torneio da Prim avera, Erin resolveu procurar

por Oz. Não o via desde a m anhã. Já estava quase desistindo quando um grupo de guardas passou correndo por ela. E depois outro se dirigindo na m esm a direção. Curiosa, Erin seguiu-os até um dos corredores, onde trom bou com o pai.

— Protej a-te! — gritou ele ao segurá-la pelos om bros. — A torre leste está em cham as e o

incêndio pode se alastrar para outras partes do castelo...

— Hum ?!

— Vou lá agora para aj udar.

Ele sum iu, sem lhe dar m ais explicações. Erin ficou parada por alguns segundos, decidindo o

que fazer. Claro que ela tam bém precisava fazer algum a coisa para aj udar! Não era m ais criança.

A j ovem quase tropeçou na barra de seu vestido ao correr atrás do pai. Não foi m uito longe.

Alguém a puxou violentam ente pelos cabelos e a j ogou contra a parede m ais próxim a.

— Podes gritar, se quiseres — disse Rouen De Larc, com a cara assassina de sem pre. As

pupilas estavam fora de foco. — Todos estão apavorados dem ais, pensando apenas em salvar a própria pele. Ninguém te dará atenção.

Com um a das m ãos, o cavaleiro ruivo prendeu-a pelo pescoço. A outra m ão deslizou pelo

corpo fem inino, um a atitude asquerosa que provocou noj o em Erin. Sua m ente exam inou a situação com rapidez. Ele apertava seu pescoço, sem , no entanto, querer sufocá-la. Erin apenas relaxou.

— Tam bém gostas? Isto é interessante... — m urm urou Rouen. Num gesto preciso, o j oelho da j ovem acertou-lhe com força a virilha. Ele berrou, largando-a

no m esm o instante. Erin derrubou-o sobre o piso de pedra e tentou correr, m as o vestido com prido atrapalhou-a de novo. Rouen aproveitou para agarrá-la pelo pé, j ogando-a no chão. Suas m ãos grosseiras arrastaram -na pelas pernas, apesar de a j ovem chutá-lo com o pé livre para escapar.

O latido de Oz cham ou a atenção dos dois. O cachorrinho pulou, voando por cim a de Erin, e

abocanhou o nariz de Rouen, que gritou de dor m ais um a vez, soltando sua presa. Erin levantou-se, pegou Oz no colo e, m irando o rosto do hom em , atingiu-o com um pontapé.

Fugiu pelo corredor. Ao longe, ouvia os gritos das pessoas em pânico. Talvez o incêndio tivesse

deixado a torre leste para destruir tudo ao seu alcance.

Sem conhecer direito aquela ala, a j ovem acabou entrando em um local sem saída. Ia

retornar, m as seu cam inho foi fechado pelo im enso cavaleiro ruivo. Oz rosnou para ele. O hom em riu com prazer, enquanto tirava a espada da cintura. Seu nariz estava sangrando.

...

Um a j ovem sedutora contornou a m esa para se sentar no colo de Vince. Ela o beij ou,

escorregando as m ãos pelos cabelos soltos do rapaz que a prendeu pela cintura, sem querer pensar em nada. O vinho deixava sua m ente lenta e tranquila. Um a m ulher bonita fazia suas vontades. O que m ais um cavaleiro poderia desej ar?

O am biente da taberna era acolhedor. Havia m uitas pessoas no local àquela hora da noite, bebendo e rindo alto. A cidade estava cheia de visitantes, o que deixava os com erciantes com um sorriso de orelha a orelha.

Vince ainda beij ava ardentem ente a j ovem na hora em que um hom em entrou esbaforido na taberna.

— O castelo está em cham as! — avisou, de m odo dram ático.

Um tum ulto seguiu-se, com várias pessoas lutando para sair ao m esm o tem po do local. Vince soltou a j ovem e levantou-se, dem orando a entender o que acontecia.

...

Rouen avançou com a espada, m as Erin pulou sobre o braço dele, agarrando-lhe o pulso para torcê-lo sem dó. Em purrou-o para poder passar.

— Senhora, há um guarda do rei logo adiante! — avisou Shannon, que apareceu no m eio do cam inho. Ela vira a perseguição conduzida pelo sr. De Larc.

Erin correu para o calabouço, a direção que Shannon lhe m ostrava, sem se esquecer de puxá-la pela m ão. O cavaleiro ruivo vinha furioso atrás delas.

...

Os dedos de Thom as doíam , assim com o seu corpo. Esse era o m enor dos seus problem as. O im pacto do raio sobre Hugues De Angelis j ogara-o para fora da torre. Por sorte, o rapaz agarrara-se à beirada do m uro, m as deslizara vários m etros devido à superfície m olhada e escorregadia. Um novo raio estalou atrás dele e estrem eceu a torre. Thom as escorregou m ais alguns m etros antes de se prender outra vez às pedras. Com m uita dificuldade, avistou o ponto onde Sabina estava, agora bem m ais próxim o. Abandonada pelo guarda na plataform a, ela assistia, aflita, a cada m ovim ento do rapaz.

Acim a de sua cabeça, Thom as podia ver as cham as que devoravam a torre. Era estranho que o fogo crescesse im batível, apesar da água que despencava do céu. De repente, a com preensão estalou na m ente do rapaz. Ele controlava aquele fogo! Utilizara o m esm o poder que Hugues invocara contra ele no estábulo.

Mesm o com o barulho da tem pestade, escutou os gritos desesperados que chegavam até ele. O incêndio iria destruir tudo, m atar pessoas inocentes... Thom as tentou se lem brar de com o provocara aquilo. No m esm o segundo, a chuva ganhou ainda m ais força, o que o desequilibrou pela terceira vez.

As cham as voltaram ao seu cam po de visão enquanto ele despencava direto para a escuridão.

...

— Guarda, tu tens de nos aj udar! — convocou Erin ao pegar pelo cotovelo o hom em que achara de vigia no calabouço.

Ele se espantou com a urgência da j ovem nobre e da criada. E não escondeu o pânico ao avistar Rouen De Larc.

— Estás dispensado, guarda! — am eaçou ele, girando a espada no ar. — Eu resolvo isso.

Ninguém teria coragem de desobedecer a um a ordem do cavaleiro, apesar de sua decadência

m oral ser visível a todos. O guarda não pensou duas vezes. Antes que ele escapasse, Erin tom ou-lhe a espada e ergueu-a contra o cavaleiro ruivo que se plantou diante dela. Oz voltou a latir e arreganhou os dentes.

— E então? Vam os descobrir o que teu pai te ensinou? — provocou Rouen. Quando as espadas se chocaram , o cachorrinho pulou do colo da j ovem e avançou para

m order a perna do hom em . Sem que ela pudesse im pedir, Rouen chutou-o contra um a parede. Quando tocou o chão, o anim al não se m exia m ais. Erin gritou, possessa, antes de atacar o cavaleiro.

...

A queda de Thom as term inou em cim a de um a pilha de feno encharcado, no pátio. Ele rolou

para a lam a até perder velocidade. Quando finalm ente conseguiu se sustentar sobre as pernas, viu que o fogo consum ia um a grande parte da ala leste em sua expansão desenfreada. Thom as concentrou-se, buscando um a nova conexão com a natureza. Ela não fluiu de m odo fácil, m as com intensidade suficiente para deter as cham as. Quando voltou novam ente a si, viu as últim as labaredas se extinguindo. O perigo se fora.

Ao redor de Thom as, não havia ninguém . A confusão ocorria no outro lado do castelo, onde se

concentravam pessoas em fuga e voluntários que tinham trabalhado para com bater o fogo.

Sabina desceu apressada a escada externa que desem bocava no pátio e voou para abraçar

Thom as.

— Estás ferido! — constatou ela após checar-lhe o rosto e as m ãos ensanguentadas. — Não é nada grave.

Era m elhor deixar Sabina em algum lugar seguro. Os dois entraram na edificação e cruzaram

com vários rostos desconhecidos. Ao contrário do alívio que esperava encontrar, Thom as continuava a sentir m edo. Não tinha certeza de que m atara Hugues De Angelis com a energia do raio. De qualquer form a, afastara o perigo que pairava sobre a cabeça das pessoas que am ava.

Ele ia para a cozinha, à procura de Shannon. Nem precisou ir tão longe. A andarilha veio

apavorada até eles.

— Tens de aj udar Lady Erin!

— Onde ela está?

— Lutando com o sr. De Larc, no calabouço... Deves correr, Thom as, ele vai m atá-la! Apesar da vontade de sair correndo atrás de Erin, o rapaz procurou m anter o lado racional no

controle da situação. Não pretendia desperdiçar a oportunidade de salvar sua fam ília.

— Sei que não queres partir, Shannon, m as é necessário — orientou ele. — O arcebispo sum iu

e, quando voltar, se vingará de m im através de ti e de Sabina. Deves procurar teu pai im ediatam ente e deixar tua m ãe em segurança.

Shannon abaixou a cabeça, concordando com ele. — Se tiveres problem as, procura o sr. De Durham . — Há algo que preciso te contar... — com eçou a j ovem , m as ele não a ouviu. Disparara feito

louco, direto para a área do calabouço.

Thom as tem ia pelo pior. Agradeceu aos céus no m inuto em que ouviu o som m etálico provocado pelo choque de espadas, o sinal de que Erin ainda estava viva. Logo adiante, Rouen golpeava violentam ente a espada que Erin, quase de j oelhos, segurava de m odo coraj oso. A pressão era insuportável para ela.

Rápido, Thom as pegou um dos archotes e avançou contra o cavaleiro ruivo, que se assustou com as cham as a m ilím etros do nariz m ordido por Oz.

— Deixa-a em paz! — m andou Thom as, ofegante.

Rouen afastou-se, encurralado entre a j unção de duas paredes. Erin se pôs em pé, exausta dem ais para agradecer e m uito preocupada com o cachorro, caído a dois m etros de onde estavam .

Com o um anim al encurralado, capaz de atos extrem os, o cavaleiro ruivo apenas acom panhou com o olhar o m ovim ento da j ovem que corria para aj udar Oz. Thom as não percebeu o perigo. Seus sentidos ainda estavam em botados por tudo o que acabara de passar.

Com um golpe inesperado, Rouen atacou Thom as com a espada, arrancando-lhe o archote das m ãos. As cham as voaram na direção de Erin, que se j ogou ao chão para evitá-las. Thom as pulou para trás, m as não a tem po de im pedir que a lâm ina produzisse um corte superficial em seu peito. O cavaleiro, então, preparou um novo golpe. Não pretendia errar dessa vez.

A espada de Erin evitou o pior. Foi enterrada na lateral do corpo de Rouen para obrigá-lo a recuar.

— Deus, o que fiz? — m urm urou a j ovem , sem cor algum a no rosto.

Rouen De Larc tocou o ferim ento, fitou-a sem acreditar no que acontecera e então tom bou m orto.

Erin largou a espada e virou-se para Thom as, com os olhos cheios de lágrim as.

— Eu o m atei! — disse, soluçando. — Tirar a vida de alguém é horrível...

— Ele tiraria a m inha vida e depois a tua se tu não o tivesses m atado — consolou Thom as, abraçando-a com ternura.

Oz choram ingou ao recuperar a consciência. Esticava o pescoço, carente, pedindo o colo que Thom as ofereceu para exam iná-lo.

— Nosso am igo está ótim o — garantiu, aliviado.

— O que aconteceu contigo? Estás ferido.

— Acho que m atei o arcebispo.

— E com o fizeste isto?

— É um a longa história, não dá tem po para te contar. Vou procurar Pégasus e partir agora m esm o para o Monastério.

— Irei contigo.

— Não, é arriscado.

— Arriscado? — repetiu Erin, trêm ula. — Não achas m ais arriscado se eu ficar aqui? O que achas que o rei fará com igo quando souber que m atei um dos seus cavaleiros? O que fará ao m eu pai se descobrir que foi ele quem m e ensinou a usar a espada? As m ulheres não têm direitos em Britany a.

Erin seria hum ilhada, trancafiada em algum calabouço im undo...

— É, talvez eu precise da tua aj uda durante a viagem — aceitou o rapaz, cúm plice.

...

O incêndio no castelo virou York de cabeça para baixo. Havia m uitas pessoas nas ruas

querendo saber cada detalhe sobre o assunto. A m aioria estava assustada não apenas pela am eaça que surgira, m as, principalm ente, pelo m odo com o ela desaparecera. As cham as foram m andadas pelo diabo, não havia dúvidas disso. Depois de arder por quase m eia hora, elas sum iram de repente. Aquele incêndio só podia ser bruxaria!

Thom as e Erin cavalgaram sem despertar o interesse de ninguém . Prim eiro, passaram pelos

nobres e pela criadagem , am ontoados do lado de fora do castelo. Reduziram a velocidade dos cavalos ao atravessar as ruas cheias de gente, m as recuperaram o tem po perdido depois que cruzaram a ponte principal, no traj eto para o vale.

Oz viaj ava confortavelm ente instalado na m ochila que Thom as recuperara j unto à sela de

Pégasus. Todas as suas coisas estavam lá, até a bolsa com as m oedas que Erin lhe em prestara.

Logo que am anheceu, deixaram a estrada e entraram na floresta para que os anim ais

descansassem . Oz, o único que havia dorm ido, sum iu entre a vegetação, ansioso para explorar aquele trecho do cam inho. Já Erin aproveitou para vestir algum as peças de roupa que Thom as guardava na m ochila. Educadam ente, ele se virou de frente para os cavalos enquanto a garota tirava o vestido que tanto a atrapalhava.

— Pronto, j á podes olhar — autorizou ela.

Era com o reencontrar a m esm a garota que deixara na Ilha Média dias antes. Erin estava à

vontade num a confortável calça com prida, um a cam isa e um gibão de couro, com os cabelos presos num a única trança. Thom as ia com entar algum a coisa no segundo em que um a terceira pessoa surgiu para enfrentá-los.

Vince De Angelis.

— Para onde vós pretendeis viaj ar? — perguntou, num tom rude. Desta vez, ele não

m ascarava seu ódio.

— Vince, escuta... — tentou Erin.

— Meu assunto não é contigo, senhora — cortou o cavaleiro ao tirar a espada da bainha. Ele a

prendia às costas, do m esm o m odo que um arqueiro faz com suas flechas. Um hábito estranho para um cavaleiro. — O que fizeste ao nosso avô, irmãozinho?

— Arnon está bem ? — preocupou-se Thom as. — Não fiz nada contra ele. — Não este avô. O outro.

Thom as não entendeu. Vince apontou-lhe a espada contra o peito. — Não sabes m esm o de quem falo, irm ãozinho? Queres um a aj uda? Que tal... Kirian De

Sutter?

— Kirian, o pai de Erec?!

— E quem tu achas que m e criou todos estes anos? A única pessoa em quem nosso rei pode

confiar sem piscar. Kirian serviu bem ao pai de Arnon e conhecia m elhor do que ninguém a esposa e o filho que tinha...

— Kirian, Hugues, Savac... Quantos nom es ele usa, afinal? — perguntou Erin. Thom as não quis digerir a inform ação. Já se sentia suficientem ente culpado por colocar fogo

no castelo e am eaçar a vida de dezenas de pessoas de form a irresponsável.

— Deixa-nos partir — pediu.

— Claro que não!

A cabeça de Oz apareceu entre dois arbustos. Ele estudou a situação antes de, sorrateiram ente, se esgueirar até o j ovem cavaleiro e se preparar para pular sobre ele...

— Vós ireis com igo para York e...

Vince não term inou a ordem , assustado com o cachorro que afundava os dentes pequeninos e afiados em sua canela. Thom as segurou-o pelos braços, enquanto Erin lhe tom ava a espada. Mas o cavaleiro não pretendia se entregar tão facilm ente. Num a reação truculenta, livrou-se do irm ão e do cachorro e derrubou Erin para recuperar a arm a.

Furioso por ver a garota caída, Thom as partiu para cim a do cavaleiro. Os dois rolaram floresta adentro. Vince era m ais forte do que o irm ão e tão ágil quanto ele. E ainda estava arm ado. Os dois não foram m uito longe. O cavaleiro socou o estôm ago do adversário. Thom as dobrou-se de dor, m as reagiu, j ogando-se contra Vince, que deixou a espada cair.

A experiência do cavaleiro em torneios, porém , foi decisiva. Ele bateu novam ente no irm ão para enfraquecê-lo. Thom as caiu sentado, tonto. Não conseguia encontrar um ponto fraco no adversário invencível. Vince olhou para a espada e, no m esm o instante, ela voou até parar flutuando j unto à garganta de Thom as. Erin, que correra com Oz atrás deles, prendeu a respiração.

— Irás com igo ou não? — am eaçou o cavaleiro.

“Ele aprendeu m uito com o arcebispo”, pensou Thom as, indeciso. Não sabia controlar a força que evocara na noite anterior. Se tentasse usá-la, corria o risco de m atar o irm ão m ais velho. Sentiu pena dele. Vince estava confuso, perdido em m entiras que j ulgava verdadeiras.

Um a luz azulada, vinda da direita, envolveu Vince para derrubá-lo inconsciente sobre um punhado de m argaridas. A espada, livre do poder do j ovem bruxo, foi ao chão.

— Mestre Dines... — disse Thom as ao reconhecer o velho am igo envolto num a capa de viagem , apesar do calor que a m anhã prom etia m anter no restante do dia. O abade vestia roupas com uns de viaj ante. Na m ão, segurava um pequeno obj eto quadrado que o rapaz im aginou ser um a arm a de algum lugar distante, com o Gaia.

Dines sorriu para ele e abaixou-se para checar o estado de Vince.

— Ele vai dorm ir por algum as horas. Não há perigo em deixá-lo aqui — com entou, com sua voz estranha e anasalada.

— Sabes quem ele é? — perguntou Thom as, j á adivinhando a resposta.

— Sim , m as ignorava a existência do irm ão caçula.

O cachorrinho aproxim ou-se do recém -chegado para cheirá-lo.

— Tu deves ser Oz — disse o abade, gentil, acariciando-lhe o focinho. — Quanto a ti, acredito que sej as Erin, a filha daquele cabeça-dura do Mark.

Ela sim patizou de im ediato com Dines.

— Vim te buscar, Thom as — disse ele. — É hora de cum prires a prom essa que m e fizeste.