O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

6 - Visitante

CAPÍTULO 6

Visitante

- As cham as queim am m eus braços! — gritou Thom as, em pânico.

Dines segurou-o com força, enquanto o garoto se debatia na cam a.

— Não há fogo aqui, no teu quarto — disse o abade, procurando fazer com que ele voltasse a

si. Mas os olhos febris do m enino não o reconheciam . Lutavam contra algum a im agem que som ente ele enxergava. — Por favor, irm ão Michel, preciso de aj uda.

Enquanto o m onge prendia o corpo de Thom as j unto ao colchão, o abade aproxim ou o rosto

do garoto do seu, m antendo a cabeça dele firm e entre suas m ãos com pridas. A testa ainda ardia num a nova febre que durava dias.

— Ouve-m e, Thom as, deves retornar para a realidade, entendes? Deves voltar para nós! — As cham as... — m urm urou o garoto, respirando com m uita dificuldade. Sua aparência chocara Dines, que regressara ao Monastério no dia anterior. O m enino

perdera peso. O rosto m oreno estava pálido, sem vida, consum ido pelo desespero. Para piorar, as alucinações abatiam -no ainda m ais, pois atacavam -no com frequência, principalm ente à noite.

A m ente racional de Dines tinha m uita dificuldade para entender o que acontecera. O

com portam ento do aluno estava estranho há tem pos, m esm o antes de sua partida. Apesar do conhecim ento m édico do abade ser am plo e avançado, não encontrara razões físicas para a doença que m atava o m enino aos poucos. Junto com Michel, preparara diversos rem édios com o obj etivo de restaurar-lhe o organism o debilitado, o que se revelara inútil.

Quando Thom as parou de se debater, ele o aj eitou com cuidado. — Se ele não reagir, Michel, irá m orrer — avisou. — É o espírito dele que está doente, m estre.

— Tens ideia do que o afetou deste j eito?

Michel m eneou a cabeça.

— Em nossa últim a aula, ele teve um pesadelo — lem brou Dines. — Thom as sem pre fica inquieto quando a Noite dos Mortos se aproxim a. Mas, este ano, a data

afetou-o dem ais. Ele parou de se alim entar direito e, a seguir, veio a febre. O que não entendo é que ele estava se recuperando bem , m as teve esta terrível recaída...

— Eu o vi na Noite dos Mortos, sobre as m uralhas — disse o abade, pensativo. — Achei que

era m elhor deixá-lo sozinho. Sabes o que pode tê-lo enfraquecido novam ente? Algum fato que aconteceu na m inha ausência?

— Não, m estre. Não houve nada.

Dines deixou a cela e se afastou, arrastando os pés. Fora do Monastério, o dia estava nascendo,

frio. O abade protegeu-se sob o m anto de lã. “Nunca m e acostum arei com este clim a.” Sentia o coração pesado. As chances de recuperação de seu aluno eram rem otas e essa perda entristecia-o. Afeiçoara-se àquele garoto esperto e inteligente, que considerava um filho. Lam entava nunca ter lhe dito isso. “Agi com ele com o agi com Mareen. E tam bém a perdi antes de lhe falar o quanto ela era im portante para m im .”

Alguns corredores adiante, entrou em outra cela. — Com o te sentes hoj e? — perguntou ao seu segundo paciente.

— Melhor, apesar de fraco — m urm urou um sonolento Mark De Durham , deitado confortavelm ente sobre a cam a.

— E a perna?

— Ainda adorm ecida, m as sinto que posso m ovê-la. Maldita criatura m utante!

Dines sorriu. O m au hum or do cavaleiro j am ais o abandonava.

— Quase perdeste a perna. Os tentáculos da criatura contêm um tipo de veneno corrosivo. Sorte que te encontrei a tem po de usar um antídoto.

— Salvaste-m e a vida de algo bem pior, am igo. E ainda nem te agradeci!

O abade preferia não falar sobre o assunto em que Mark tocaria a seguir.

— Aquilo que m e atacou, lá no pântano... Era um deles, não é?

Dines olhou para as m ãos e esticou os dedos. Seu corpo estava dolorido pela tensão dos últim os dias.

— Erec estava certo — continuou o cavaleiro. — Eles estão no nosso m undo.

— Acredito que aquele era o único. De algum a m aneira, ele conseguiu passar pela nossa vigilância. Isto não acontecerá m ais. A guerra que Erec tanto tem ia ainda está longe deste m undo.

— Tu o destruíste? — perguntou Mark, com um sorriso. — Com o fizeste isso? Aquela coisa praticam ente m e cegou com seu brilho, sugando-m e todas as forças. Não havia com o reagir. Eu estaria m orto agora se tu não...

— Há m istérios que devo m anter, pelo bem de todos.

— Vai para o inferno, Dines! Falas com o Erec! — brigou o cavaleiro, sentando-se abruptam ente na cam a. A dor na perna obrigou-o a engolir o orgulho e desabar sobre o travesseiro.

— Descansa, Mark.

— Quase m orri diversas vezes e ainda não tenho direito de saber tudo? Conheço apenas fragm entos de um a realidade, pedaços que m uitas vezes não fazem sentido.

— A ignorância é a chave de tua segurança e a de tua fam ília.

— Achas que o que aconteceu com Erec e Alix está ligado a tudo? Sem pre acreditei que o ataque a Sutter não foi obra de salteadores e...

— Não deves m ais vir às Terras Erm as.

Mark ainda não estava preparado para aquele assunto.

— Mas tens de estar inform ado sobre o que acontece nos lim ites do reino! Com o essa inform ação sobre o pó que eu te trouxe agora...

— E quase perdeste a vida por ela. A partir de hoj e, outro fará esse trabalho.

O cavaleiro assentiu, contrariado. Desistira de argum entar com o inabalável abade.

...

Dias m ais tarde, Mark j á estava exercitando a perna em recuperação por todo o Monastério e atazanando os m onges com sua im paciência, feito um lobo enj aulado. A tranquilidade que os religiosos tanto am avam ficava seriam ente am eaçada com a sua sim ples aproxim ação. Era im possível m editar, trabalhar e até rezar! Ele praguej ava em tem po integral, aflito para saber por quantos dias ainda teria que perm anecer naquele lugar “sem sal”, com o dizia. Dines suspeitava que o am igo fazia isso de propósito, apenas para receber alta m ais depressa. “E, sem dúvida, quer testar até onde vai m inha paciência.”

O abade ansiava pela tão costum eira paz de sua ilhota. Um a noite, buscou a solidão do am plo

salão subterrâneo. Folheava um velho livro enquanto pensava em Thom as. As alucinações tinham desaparecido, levando o garoto a um com a profundo. Resignado, Michel não abandonava seu leito, apesar de não poder fazer m ais nada por ele. O m enino não reagia m ais à m edicação. Sua m orte talvez fosse questão de horas...

— Mestre, posso falar contigo?

O coração de Dines quase parou. O livro caiu com estrondo, um som que repercutiu pelo

salão. Thom as fitava-o, em pé, a alguns passos de distância. Estava corado, apesar de bem m agro e com olheiras profundas. Constrangido, o garoto abaixou a cabeça.

— Eu não pretendia te assustar. Perdoa-m e...

Dines lutou contra a vontade de saltar da cadeira e abraçá-lo. Ele estava vivo! — O irm ão Michel sabe que estás aqui? — perguntou, controlando a alegria. — Eu não quis acordá-lo. Ele dorm ia num a cadeira, perto da m inha cam a. Parecia exausto.

Acho que lhe dei m uito trabalho.

— Sabes qual foi a gravidade de tua doença? — quis saber o abade, curioso pela reação do

garoto. Ele se com portava com o se tivesse saído de um sim ples resfriado.

— Estive m uito m al?

— Digam os que todos ficaram m uito apreensivos com tua saúde. Era o Thom as de sem pre, o m esm o que com ia as unhas das m ãos de tanta im paciência. O

m esm o garoto que desconhecia o próprio poder de cativar as pessoas, que desvalorizava seus talentos e sua autoestim a.

— Mestre, há algo que preciso te pedir — com eçou ele, rem exendo-se sob o blusão. A peça

de roupa estava estranham ente folgada.

O abade pediu que se sentasse num a cadeira próxim a. Era sem pre difícil para Thom as

expressar o que sentia.

— Aqui, no Monastério, descobri um m undo fantástico, conheci pessoas que são a m inha

fam ília — com eçou o m enino. Ele inspirou m uito ar, com o se as palavras lhe doessem . — Peço tua perm issão para partir.

Dines disfarçou a surpresa. Levantou-se e andou em direção às m inúsculas pedras brilhantes,

no centro do salão. Aquele pedido inesperado preocupava-o profundam ente.

— Por quê? — perguntou, de costas para o garoto. Não sabia que sua atitude era interpretada

com o indiferença. Thom as encolheu-se na cadeira, m irando os pés inquietos.

— Preciso voltar para a Grande Ilha. É um assunto particular. — Sabes que não posso perm itir tua saída do Monastério. Ela só pode ser autorizada pelo

andarilho que te trouxe aqui.

O abade sentiu o olhar furioso de Thom as. Virou-se a tem po de ver os olhos grandes ardendo

com aquela energia explosiva que o garoto escondia dentro de si. Thom as desviou o rosto, contendo os pensam entos. “Se eu não perm itir sua partida, ele fugirá”, deduziu o Dines, aflito. “Ele j á tom ou sua decisão e nada vai detê-lo. Quando enfia algum a coisa na cabeça...”

Era preciso decidir rápido. Sozinho, o garoto ficaria à m ercê dos perigos das Terras Erm as. Havia ainda a travessia até a Grande Ilha. Apesar de nunca aceitar isso, ele era apenas um a criança. Mais culta e preparada do que a m aioria, com certeza. Ainda assim , indefesa. Depois, ele fora enfraquecido por um a doença grave. Por outro lado, havia Mark De Durham . “Talvez eu possa aguentar o cavaleiro por m ais alguns dias até Thom as se recuperar totalm ente.”

— Tenho um a alternativa.

Thom as tensionou os om bros, surpreso e desconfiado.

— Há um visitante no Monastério, um hom em que se recupera de um ferim ento na perna. Quando j ovem , ele estudou conosco. Foi nosso pior aluno.

Dines sorriu, lem brando-se do garoto briguento que custara horas e horas de rezas ao irm ão Augustus. Nenhum a prom essa do m onge tivera algum resultado para m elhorar aquele tem peram ento indisciplinado.

— Ele estudou aqui, contigo?

— Não, ele não sabe deste salão. Foi aluno do coitado do irm ão Augustus.

— Queres que eu vá com ele?

— Quero que prom etas que seguirás esse hom em até a Grande Ilha. É para onde desej as ir, não?

Thom as hesitou.

— Gostarás do Mark. Ele...

— Mark De Durham ? — perguntou Thom as, alarm ado.

— Tu o conheces?

— Eu o vi em um torneio em York, quando tinha sete anos.

— Mark é um cavaleiro fam oso. Mas não o j ulgues pelas palavras que disse há pouco. Ele é um hom em coraj oso, m uito bom no que faz.

O m enino m ordeu os lábios, dem onstrando o quanto a opção o intim idava. Depois, pediu licença para deixar o aposento.

— Tenho tua prom essa? Obedecerás a Mark De Durham ? — gritou o abade. Thom as j á subira alguns degraus para ir à biblioteca.

— Seguirei o cavaleiro, m estre, se esse é o teu desej o.

Dines voltou a se sentar, pensativo. A m elhora de Thom as era m ais do que extraordinária. E o abade estava feliz dem ais com esse m ilagre para se preocupar com a sua partida. Alim entava ainda um a tím ida esperança de que ele m udasse de ideia.

...

Thom as, no entanto, não m udou sua decisão. Tam bém tinha resolvido se recuperar por com pleto para enfrentar a nova j ornada. Com ia todos os pratos saudáveis que Michel preparava para ele. Já o m onge estava inconsolável. Depois da im ensa felicidade em ver o pequeno assistente com vida, ficara inconsolável quando soube da novidade.

— Por que insistes em ir em bora? Não gostas m ais do Monastério?

— Sabes que adoro viver aqui, Michel. Não é isso.

— E o que é então?

Teve pena do am igo. Michel realm ente se preocupava com ele. Pensou na indiferença de Dines na noite em que lhe falara sobre sua vontade de partir, o quanto ele se m ostrara decepcionado com a decisão do aluno.

— Vou procurar um a cura para os pesadelos que tenho — confidenciou. — Nesse caso, devem os falar com o m estre. Ele talvez conheça um a cura e... — Não, Michel. É algo que preciso descobrir sozinho, longe daqui. — E j á sabes onde procurar?

— Sei, m as não posso te falar m ais nada.

O garoto enfiou o garfo na batata cozida em seu prato, dando o assunto por encerrado. Tinha

um a necessidade urgente em descobrir se as im agens que vira em transe eram verdadeiras ou apenas alucinações. Havia m uitas questões sem explicação. Possuía apenas um nom e: Moriarty. Se o encontrasse, poderia obter m uitas respostas. Michel não insistiu e se afastou, saindo da cozinha para trabalhar na horta.

Thom as pensou em Mark De Durham . Já o vira peram bulando pelo Monastério, sem pre

pronto a atrapalhar as tarefas dos m onges e a irritar o tranquilo irm ão Augustus. Mas o cavaleiro não reparara no garoto, que se perguntava se ele j á sabia sobre a existência de um com panheiro de viagem .

— Tu m e farás com panhia até a Grande Ilha? — disse Mark, parado na porta da cozinha. O garoto assustou-se com a aparição inesperada, o que divertiu o cavaleiro. — Será que conseguirás viver fora do silêncio tenebroso deste lugar, m enino? — perguntou

ele, debochado. — E o que esses m onges te ensinaram ? Sabes pelo m enos m ontar a cavalo?

— O suficiente para m e virar — devolveu Thom as, no m esm o tom . Mark sorriu. O garoto im aginara m uitas vezes com o seria sua prim eira conversa com o

cavaleiro que o intim idava. Era óbvio que ele não se recordaria do incidente na tenda de Rouen De Larc, ocorrido tanto tem po antes.

— O abade m e disse que estudaste aqui — arriscou Thom as. — É verdade. Meus pais queriam que eu fosse m onge... Mas do que eu sem pre gostei foi de

brigar.

E caiu na gargalhada, j ogando a cabeça para trás. Thom as estava surpreso com seu com portam ento. Antes de reencontrá-lo, a im agem que

fazia dele era a de um a pessoa contida e educada, incapaz de levantar a voz.

— Claro que não fiquei por m uito tem po — explicou Mark, sério de repente. — Regressei para

Durham e assum i as terras da fam ília quando m eus irm ãos foram m ortos pelos bárbaros.

O garoto tinha um a pergunta na ponta da língua, m as não se arriscou a expressá-la. Queria

saber se Erec De Sutter realm ente existira. Deu um a nova garfada no alm oço.

— És de fam ília nobre? O abade m e falou pouco sobre ti. Thom as ia responder, m as foi interrom pido pela chegada de um m onge, que trazia um recado

de Dines para o cavaleiro. Queria conversar com ele em sua sala.

— Partim os am anhã, garoto. Encontra-m e no portão, antes da m issa — avisou Mark, e deixou

a cozinha.

...

Thom as esperou que o cavaleiro saísse da sala de Dines para abandonar as som bras do

corredor rum o à luz de um castiçal. Mark não o notou e se afastou, m ancando levem ente. O garoto descobrira que o visitante ficara sob os cuidados pessoais do abade, e não conseguira saber m ais nada sobre o assunto. Talvez tivesse se ferido quando ia para casa e procurado a aj uda dos velhos professores. Era com um que cavaleiros, a serviço do rei, transitassem pelas Terras Erm as. Só que sua intuição lhe dizia que a história não era tão sim ples assim .

Ele se aproxim ou da grossa porta de m adeira e bateu duas vezes. Esperou até que o abade autorizasse sua entrada. A seguir, em purrou a porta e parou, indeciso. Era a prim eira vez que visitava aquela sala desde o dia de sua chegada ao Monastério. A passagem do tem po não teve efeito sobre o local. Tudo estava exatam ente igual. Até o espelho esquisito. Desta vez, Thom as não se interessou pelo obj eto. Dines estava em sua cadeira, do outro lado da m esa, fitando-o, curioso.

— Não é m elhor entrares de um a vez? — perguntou, gentil.

O garoto aproxim ou-se da m esa, m as não quis se sentar na cadeira que o abade lhe indicava.

— Vim m e despedir, m estre — disse, num tom baixo, sem coragem de encarar seu rosto severo.

Dines, porém , não dem onstrava a m esm a indiferença do outro dia. Estava afável e, ao m esm o tem po, triste.

— Não gostaria que fosses em bora, Thom as. No entanto, não m e deixas alternativa.

Thom as levantou o olhar. Então ele tinha algum poder de decisão?

— Se eu im pedisse tua partida, não resolverias fugir?

— Sim — adm itiu o garoto. — Não m e sentiria bem agindo dessa form a, depois de toda a atenção que recebi neste lugar.

— Acredito que tens um excelente m otivo para deixar o Monastério. Não te farei perguntas. Quero apenas que saibas que aqui será sem pre um lar para ti, um abrigo seguro se um dia estiveres em dificuldade.

Thom as nunca fora tão feliz quanto no Monastério.

— Não consegui te passar todo o conhecim ento que gostaria — disse o abade, em ocionado. — És um rapaz inteligente e talentoso. Espero que um dia retornes. Ainda há m uito a aprender.

— Eu voltarei, m estre — prom eteu o garoto, a voz trêm ula.

O choro sufocou-lhe a garganta. Correndo, ganhou o corredor. Não conseguia m ais controlar as lágrim as.