O Arqueiro e a Feiticeira: A Caverna de Cristais

8 - A segunda criança

CAPÍTULO 8

A segunda criança

Hugues dispensou os guardas e, com um gesto, convidou Thom as a acom panhá-lo pelo am plo

corredor ilum inado por archotes. Os dois cam inharam lado a lado, em silêncio. O rapaz

aproveitou para analisá-lo de esguelha. O arcebispo era da sua altura. Tinha um rosto m uito m agro e pálido, nariz grande e queixo fino. Os cabelos grisalhos e com pridos, com m ais fios brancos do que negros, estavam presos em um rabo de cavalo j unto ao pescoço. A túnica púrpura, o hábito tradicional usado pelos arcebispos, era com prida e pesada. Ele parecia um velhote frágil, encurvado pelo peso da idade. Thom as, entretanto, não se enganava quanto ao poder daquele hom em . Tivera um a boa am ostra.

Minutos depois, Hugues parou em frente a um a porta, abrindo-a para que Thom as entrasse no aposento.

— Luz! — pediu o hom em ao fechar a porta atrás de si.

Instantaneam ente o am biente tornou-se ilum inado, revelando vários m óveis luxuosos e um a gigantesca estante com livros. O arcebispo passou pelo rapaz e aproxim ou-se da m esa. Puxou um a gaveta, de onde tirou um a caixa de m adeira.

— Já a viste antes? — perguntou após abrir a tam pa. No interior da caixa, estava a esfera brilhante que fora tirada de Erec havia m uito tem po.

O rapaz fixou a m ente no obj eto. Ele o atraía, irresistível, com o se fizesse parte de seu espírito desde o princípio do m undo. Era com o participar de um reencontro. A esfera flutuou, deixando a caixa para se posicionar a centím etros do rosto de Thom as.

— Mithrrah... — m urm urou o rapaz. Sentia-se estranham ente feliz. A esfera brilhou com m ais intensidade, girando sobre o próprio eixo.

— Então esta é Mithrrah — com entou Hugues. — Não consegui identificá-la. Pensei que fosse sua irm ã Menethrrah...

A voz suave do arcebispo devolveu o rapaz à realidade. O m edo retornou, inibindo-lhe a intuição. A esfera parou de brilhar e despencou no chão, rolando a seguir para os pés de Thom as. Ele se abaixou para pegá-la. Hugues, porém , foi m ais rápido. A um gesto seu, o obj eto retornou voando para a caixa.

— Não deves ter m edo de m im , Gotihan — sorriu o arcebispo. — Todos nós estam os do lado da paz.

— Por que m e cham aste assim ?

— Porque tua volta é aguardada há m ilênios, conform e previram sábias palavras antigas, hoj e consideradas lendas sem im portância.

— Eu não sou esse aí! — protestou Thom as, cerrando os dentes para trancar o m edo em algum canto perdido de seu espírito. Estava com a desagradável sensação de ser confundido com um personagem de conto de fadas.

— Conheces a profecia? “Brilho e poder sem eiam m orte por onde passam . O ódio os m ove, seres destruidores de estrelas. A esperança deve ser protegida, até que o Herdeiro chegue. O Herdeiro do espírito de Gotihan renascerá sob as m arcas de Scorpius, Leo e Cancer. Ele trará m orte e vida.”

— Quem é Gotihan?

— O líder de um povo extinto. Um ser poderoso, capaz de reunir poderes ilim itados. — Não m e parece tão poderoso assim . Nem conseguiu evitar a extinção do próprio povo —

disse Thom as, irritado. A cada nova pergunta, ouviria m ais respostas confusas. — E as m arcas? O que são?

— Tuas m arcas: a m eia-noite da Noite dos Mortos, em 821. — Estás falando em ... astrologia? — perguntou, quase rindo. Lem brava-se de livros sobre o

assunto, no Monastério. Era um a ciência m ística que apontava características específicas de personalidade, de acordo com a data de nascim ento de cada pessoa. Seu signo solar era escorpião, com ascendente em leão e lua posicionada em câncer.

— Sím bolos, Thom as, eles é que têm im portância. Os sím bolos aparecem em várias culturas,

de form as diferentes, só que a essência é a m esm a. Há outras relações que independem de tua data de nascim ento. Mithrrah está relacionada a Scorpius, à força oculta e intuitiva de cada um .

— Tudo no universo está conectado entre si.

— Vej o que o program a holográfico te preparou bem . Thom as prendeu a respiração. O que m ais Savac sabia sobre ele? Com o se escutasse o

pensam ento do rapaz, o arcebispo tirou de um dos bolsos do hábito um a pedra de energia. Depositou-a sobre a m esa e ativou-a. Pequenos hologram as, do tam anho de um a caneca, surgiram no vazio. Thom as reconheceu a si m esm o e a Erin, durante a conversa na noite anterior, sob o céu estrelado.

“— Se eu conhecesse a m issão secreta do nosso professor, teria dado um a aj uda. Não

im aginava que tu eras tão im portante para o abade.

— Queres dizer, im portante para Moriarty .

— Moriarty e Dines são a m esm a pessoa. Quem diria!” Hugues tocou novam ente a pedra e as im agens se adiantaram num a espantosa velocidade.

Pararam m ilésim os de segundos depois, reproduzindo agora um trecho da conversa com Mark.

“— Acreditas em m im , senhor?

— E tu acreditas nessa história?

— O hologram a m e disse que apenas quem descende de Hannah pode acionar a pedra. E eu

fiz isso.”

O arcebispo congelou a im agem , fitando Thom as com um ar de triunfo. Ele sabia tudo! Todos

os segredos revelados um dia antes estavam em seu poder. O coração do rapaz bateu desordenadam ente.

— Acom panho tua vida desde teus sete anos, na época em que foste para o Monastério —

explicou Hugues. — Intrigou-m e o fato de Moriarty ensinar pessoalm ente um garoto sim plório, abandonado por um andarilho. Im aginei que devias ser m uito inteligente, se não o abade não se daria a tanto trabalho. Anos depois, partiste com Mark De Durham para a Ilha Média. Fiquei realm ente surpreso quando Moriarty designou um de seus m elhores hom ens para vigiá-lo de perto. Que tipo de criança despertaria tanto cuidado? Pude com provar m inha teoria sobre tua inteligência privilegiada ao receber diversos relatórios sobre teus avanços nos estudos. Teus conhecim entos em Biologia, por exem plo, são notáveis para alguém tão novo. Não pude deixar de m e perguntar se o abade não estaria pensando em um sucessor para Erec De Sutter. Ele j á contam inara a m ente do j ovem cavaleiro com suas ideias distorcidas, o que lhe provocou a m orte prem atura.

Thom as em pertigou-se ao ouvir o nom e do pai.

— Falarem os de teu pai em outra ocasião — disse Hugues ao notar sua reação. — Então, num a noite, sum iste de Durham . Nunca, em toda a m inha vida, poderia im aginar que tu eras o arqueiro que atacara os hom ens do sr. De Larc. O que ocorreu no estábulo foi um indesculpável engano. Podes im aginar com o m e senti há algum as horas, no m om ento em que assisti a esta gravação? Ao m esm o tem po, fiquei im pressionado pelo que descobri sobre teus poderes. Além das prem onições, és capaz de transferir energia. Um talento incrivelm ente raro, eu diria. Som ente o Herdeiro pode fazer uso dele. É através dessa transferência de energia que apenas tu podes acionar Mithrrah e as outras duas perenthis de Alzabir.

— Eu não entendo o que dizes.

Não se sentia bem o suficiente para im aginar m undos distantes e descobrir o significado de palavras esquisitas. Sua cabeça detinha-se em detalhes. Com o Savac poderia ter acom panhado sua vida durante tanto tem po? Quem lhe passara tantas inform ações? Quem traíra Dines? Mark De Durham ? Não, ele não sabia da existência do salão subterrâneo. Som ente um a pessoa poderia ter elaborado relatórios sobre seus progressos nos estudos.

— Irm ão Tenorius...

— Um bom hom em , não achas? — sorriu Hugues. — Ele trabalha para Moriarty, faz todo o trabalho suj o. Mas, quando finalm ente descobriu o talento raro que dom inas, sabia que não poderia deixar seu verdadeiro m estre sem essa valiosa inform ação.

Tudo se encaixava. Tenorius seguira-o até a estalagem , onde gravara a conversa com Mark e Erin. E, enquanto Thom as perdia tem po procurando um a oportunidade para entrar no castelo, ele se antecipava, revelando tudo a Savac. O arcebispo j á esperava pelo rapaz. Só não tinha ideia de que iria encontrá-lo sob o disfarce de um andarilho. Um a situação m uito exibicionista para quem pretendia se infiltrar sorrateiram ente em York.

Um a leve batida na porta sobressaltou Thom as. Sem esperar por autorização, Vince entrou e, parando diante do rapaz, analisou-o de cim a a baixo.

— É a segunda criança? — disse, indiferente.

— Sim , é ela — confirm ou Hugues, satisfeito. — E ainda acionou a perenthis.

— Mesm o? Então a busca term inou. É conveniente que a segunda criança tam bém sej a o Herdeiro.

— Um presente do destino, não concordas?

— A segunda criança? — repetiu Thom as. — Queres dizer o segundo filho de Erec e Alix?

— Exatam ente. Foi um a grata surpresa saber que a j ovem princesa tinha sobrevivido ao ataque a Sutter — disse Hugues. — Rouen De Larc encontrou-a por acaso, no dia em que ela se preparava para fazer um a travessia de barco rum o às Terras Erm as.

Thom as trem eu. O estôm ago revirava ao im aginar o cavaleiro ruivo colocando as m ãos im undas sobre sua m ãe.

— Ele foi gentil em trazer a princesa até York — disse o arcebispo. — Um a pena que, infelizm ente, eu estivesse ausente de m inhas terras.

— E por que ele não a levou para o pai?

— Há tanto que ainda desconheces! Alix De Brusk era um a j ovem ingênua, apaixonada pelo m arido. Não tinha ideia da traição que ele tram ava. Arnon tam bém não sabia. Rouen esperava que eu regressasse de viagem para explicar tudo a ela, m as a princesa não nos deu tem po. Alix aproveitou um a oportunidade para fugir da proteção que oferecíam os. Foi quando a perdem os. Há quase dezessete anos eu a procuro, com o procuro o filho que ela carregava no ventre.

— Tu contas m entiras! — gritou Thom as, sem conseguir se conter. — Tinhas a intenção de

m atá-la desde o ataque a Sutter, quando m ataste m eu pai!

— Meu tio realm ente m atou Erec De Sutter — disse Vince, friam ente. — O cavaleiro traiu o

povo de Britany a, colocando em risco todos os seres hum anos deste planeta.

— Já ouviste falar dos nergals, Thom as? — perguntou o arcebispo. — São seres de m undos

distantes, que tentam se aproxim ar dos hum anos há séculos. Eles oferecem possibilidades infinitas, poderes que ninguém j am ais sonhou obter. Já fizeram algum as alianças com o povo de Gaia. Pois eu estive com os nergals e consegui fazer um pacto que garante vantagens para todos. Britany a só tem a lucrar com isso. O prim eiro passo foi estabelecer a paz com os bárbaros.

Vince desviou o rosto, cruzando os braços.

— Tu deves conhecer os nergals e tirar tuas próprias conclusões — argum entou Hugues. — Por que m ataste m eu pai?

— Ele não m e deu escolha. Tentei lhe m ostrar a verdade, sem sucesso. Então, ele roubou

Mithrrah, que estava sob m inha proteção.

As palavras do arcebispo não batiam com as visões que tivera. Hugues, sim , era um hom em

cruel, que agora tratava Thom as com o se ele fosse apenas um a criança inocente e m anipulável. Bater de frente com aquele velho poderoso não estava aj udando em nada. E ainda havia m uito a descobrir.

— Meu tio não teve escolha — endossou Vince. — Ele fez o que podia por Alix e pelo

prim eiro filho dela. Eu estou aqui, não estou?

Thom as encarou-o, incrédulo. Lentam ente, seu cérebro absorveu os traços do rosto do

cavaleiro, que lem bravam Erec e, ao m esm o tem po, Hannah. Era um a característica dela aquele j eito petulante e desafiador que o cavaleiro exibia.

— Este é William De Sutter, teu irm ão m ais velho — apresentou Hugues, com o se estivesse se

divertindo num a tranquila reunião fam iliar. — Eu o resgatei de Sutter para deixá-lo a salvo, j unto ao avô.

— A-Arnon sabe de tudo? — estranhou Thom as. — Nosso rei conhece todos os m eus m ovim entos e m e apoia... O estôm ago de Thom as em brulhou de vez, enoj ado por participar de um m om ento com o

aquele, em que suas certezas eram m inadas, e crenças profundas que nutria desde pequeno se distorciam . Hugues De Angelis envenenava-lhe o espírito ao destruir suas referências, enrolando-o num a teia em que tinha dificuldades em distinguir o falso do verdadeiro. Para piorar, Thom as não dom inava toda a história sobre m undos distantes, guerras, seres estranhos e esferas voadoras. Só conseguia pensar na paz que sem pre encontrava ao se refugiar no alto de um a torre.

— Deves descansar agora, Thom as — recom endou o arcebispo, gentilm ente. — Am anhã

conversarem os.

O rapaz deixou-se conduzir para um quarto de hóspedes. Hugues desej ou-lhe boa-noite e se

afastou pelo corredor, conversando com Vince. Thom as tirou o blusão e j ogou-se na cam a.

Agora ele era um dos convidados do arcebispo.