O Direito à Natureza na Cidade
A criação de uma segunda natureza – Marcus Tullius Cícero e os estóicos
A criação de uma segunda natureza – Marcus
Tullius Cícero e os estóicos
A estética também era a fonte de reflexão dos filósofos estóicos, cujas obras possuíam forte caráter sensualista. Os estóicos também eram apreciadores dos aspectos visíveis da natureza, revelando ou desvelando as belezas da Terra.
Deste grupo de filósofos destaca-se Marcus Tullius Cícero (De natura deorum ou The nature of Gods – A Natureza dos Deuses). Para este filósofo é belo contemplar a natureza; sua beleza deve ser conservada. A contemplação é útil porque estimula o exercício da mente do homem, cujas criações, instrumentos e máquinas mudam e melhoram a natureza, para satisfazer as crescentes necessidades humanas. O homem é, num sentido muito integral, parte da natureza; desenvolve-se em seu meio e é afetado pelo mesmo. Salienta-se, nesta fala de Cícero, a ideia de que o homem é um agente na melhora e no embelezamento da natureza. Destaca-se também outra ideia dialética, pois ao mesmo tempo que modifica o meio, o homem é afetado/modificado pelo mesmo. Embelezar a natureza significa embelezar o próprio homem, suas cidades e seus espaços.
Cícero escreve que os logros tecnológicos do homem, seus inventos e as mudanças na natureza resultam de combinações entre a destreza da mão, dos descobrimentos da mente e das observações dos sentidos. O homem, com sua presença criadora, participa de uma razão universal, que penetra o todo e, em particular, a Terra. Esta ação tem como testemunho as adequações da natureza exterior, como as encontradas no Nilo, no Eufrates e no Indo – que existem para a preservação do homem. Assim, pode-se concluir que o Egito é mais do que uma dádiva da natureza do Nilo, é também um presente da "natureza" e da ação/trabalho dos egípcios, que aprenderam a transformar e melhorar a natureza, construindo, por exemplo, canais que permitiram que seus cultivos e sua cultura se expandissem sobre áreas naturalmente impróprias para agricultura.
É de Cícero uma das chaves para o entendimento da ação humana sobre a natureza. Segundo Cícero, o homem procura com suas mãos humanas criar uma segunda natureza dentro do mundo
natural18. A mudança do meio pelo homem, a criação de uma segunda natureza dentro do mundo natural, se explica por uma diferença qualitativa entre o humano e o animal. O homem é uma criatura que pensa, sua experiência é acumulada através do tempo, permitindo inovação e invenção. O homem participa da vida criativa e do espírito que penetra o mundo inteiro.
Pelo trabalho do homem, ou melhor, por suas mãos, este
encontrou alimentos e sua variedade. Com efeito, a mão
humana fez surgir nos campos frutas que são consumidas
imediatamente ou preparadas para consumo futuro. Na
variedade de sua alimentação, os homens comem carne de
animais terrestres, aquáticos e de aves. Também foram
domesticados animais quadrúpedes para transporte e uso de
sua força. Extraí-se o ferro da terra utilizando-o para cultivar os
campos; o mesmo se dá com o cobre e o ouro, descobertos em
veios sob a terra, utilizados tanto para as necessidades
cotidianas como para demonstrar luxo. Cortam-se árvores e
tudo o que pode ser queimado; quer seja produto do cultivo do
homem ou que esteja em estado selvagem; dispõe-se destes
materiais para a produção de fogo, usado para o aquecimento
das casas e no cozimento de comidas; Constrói-se casas para
abrigo contra o frio e contra o calor. O corte destas árvores
assegura a vantagem da construção das próprias moradias
onde se desenrola a vida. O que a natureza tem de mais
impetuoso – o mar e os ventos – são utilizados pelos homens
na arte da navegação; O homem torna-se senhor das obras da
natureza sobre a terra, aproveitando-se das planícies, das
montanhas; os rios e lagos são dos homens; são os homens
quem semeiam o trigo, que plantam árvores; são os homens
que conduzem a água sobre as terras para lhes dar fertilidade;
controlam-se e desviam-se fluxos d'água; as mãos humanas,
fazem dentro da natureza uma natureza nova, uma segunda
natureza.19
Para Smith (1984), a concepção de segunda natureza criada por Cícero se manterá até o século XVIII, quando o Conde Buffon (ver capítulo IV) propor uma nova explicação dialética da transformação da natureza.
Outro filósofo estóico que também tem posições semelhante e importante, na vertente em que se situa este trabalho, e para o entendimento das ideias de natureza na geografia, é Posidônio. De acordo com Posidônio (apud GLACKEN, 1996), o homem com sua inteligência, com suas inumeráveis conquistas, é parte da natureza. Seus poderes são derivados da natureza e lhe possibilitam uma posição vencedora e vaidosa, a partir de uma ampla variedade de investidas. Possibilidades e habilidades negadas as plantas e aos animais. De acordo com Glacken (1996), nas bases do pensamento de Posidônio estão as ideias de geografia, biologia, historia, astronomia, ecologia e etnologia.
A ênfase na estética e na beleza da natureza também é encontrada
na obra de Estrabão – 20 Geografia . Para Estrabão, de acordo com Glacken (1996), o geógrafo deve somente dedicar-se ao estudo das porções da Terra habitadas pelos homens. O homem é um "sócio" da natureza. A natureza é um cenário para os acontecimentos históricos.
A possibilidade dos homens 21 produzirem na natureza, através de seus ofícios, habilidades e ocupações, sua vida cotidiana é dada pela necessidade que a natureza lhes impunha, ou pela tentativa de retificar as deficiências da natureza. Estas ações marcam o início do processo de emancipação coletiva da humanidade perante a natureza. Um projeto dominante em muitas sociedades.
Dentre as formas que os homens construíram para se estabelecer dentro da natureza, neste primeiro período, ou dentre as necessidades da vida cotidiana que possibilitaram o acúmulo de conhecimento para a melhora da natureza, destaca-se, segundo Férnadez-Armesto (2001):
- o estabelecimento de aldeias;
- a domesticação de animais (criações);
- o cultivo do solo (agricultura e produção de alimento);
- as irrigações de terras e a drenagem de pântanos;
- a metalurgia.
Para Glacken (1996), o homem criava ordem e era agente de gestão; era possuidor da destreza única do artesão. Já para Marsh (1965), foi a agricultura e as atividades pastoris que ampliaram a esfera do domínio humano.
De acordo com Glacken (1996), ao se ler os comentários dos autores antigos sobres as mudanças causadas pelo homem na natureza, tem-se uma dupla impressão. Primeiramente, havia um reconhecimento do homem como ser ativo que se esforça e obtém sucesso, perante as dominantes influências ambientais. A segunda impressão é que natureza vivente que estes homens observaram – e muitas vezes amaram – era, como agora se sabe, uma natureza
muito modificada pelo homem 22. Continua o autor (op. cit.), para os gregos e romanos os vinhedos, os olivais, as cabras pastando nas montanhas rochosas, as aldeias e as vilas eram inseparáveis da paisagem das áridas colinas no verão mediterrâneo, assim como os ventos, o azul profundo do mar e os céus radiantes. Era uma paisagem alterada pelos homens, que a contemplavam com atenção e cuja múltipla beleza amavam.