O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 8 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

A criação de uma segunda natureza – Marcus Tullius Cícero e os estóicos

A criação de uma segunda natureza – Marcus

Tullius Cícero e os estóicos

A estética também era a fonte de reflexão dos filósofos estóicos, cujas obras possuíam forte caráter sensualista. Os estóicos também eram apreciadores dos aspectos visíveis da natureza, revelando ou desvelando as belezas da Terra.

Deste grupo de filósofos destaca-se Marcus Tullius Cícero (De natura deorum ou The nature of Gods – A Natureza dos Deuses). Para este filósofo é belo contemplar a natureza; sua beleza deve ser conservada. A contemplação é útil porque estimula o exercício da mente do homem, cujas criações, instrumentos e máquinas mudam e melhoram a natureza, para satisfazer as crescentes necessidades humanas. O homem é, num sentido muito integral, parte da natureza; desenvolve-se em seu meio e é afetado pelo mesmo. Salienta-se, nesta fala de Cícero, a ideia de que o homem é um agente na melhora e no embelezamento da natureza. Destaca-se também outra ideia dialética, pois ao mesmo tempo que modifica o meio, o homem é afetado/modificado pelo mesmo. Embelezar a natureza significa embelezar o próprio homem, suas cidades e seus espaços.

Cícero escreve que os logros tecnológicos do homem, seus inventos e as mudanças na natureza resultam de combinações entre a destreza da mão, dos descobrimentos da mente e das observações dos sentidos. O homem, com sua presença criadora, participa de uma razão universal, que penetra o todo e, em particular, a Terra. Esta ação tem como testemunho as adequações da natureza exterior, como as encontradas no Nilo, no Eufrates e no Indo – que existem para a preservação do homem. Assim, pode-se concluir que o Egito é mais do que uma dádiva da natureza do Nilo, é também um presente da "natureza" e da ação/trabalho dos egípcios, que aprenderam a transformar e melhorar a natureza, construindo, por exemplo, canais que permitiram que seus cultivos e sua cultura se expandissem sobre áreas naturalmente impróprias para agricultura.

É de Cícero uma das chaves para o entendimento da ação humana sobre a natureza. Segundo Cícero, o homem procura com suas mãos humanas criar uma segunda natureza dentro do mundo

natural18. A mudança do meio pelo homem, a criação de uma segunda natureza dentro do mundo natural, se explica por uma diferença qualitativa entre o humano e o animal. O homem é uma criatura que pensa, sua experiência é acumulada através do tempo, permitindo inovação e invenção. O homem participa da vida criativa e do espírito que penetra o mundo inteiro.

Pelo trabalho do homem, ou melhor, por suas mãos, este

encontrou alimentos e sua variedade. Com efeito, a mão

humana fez surgir nos campos frutas que são consumidas

imediatamente ou preparadas para consumo futuro. Na

variedade de sua alimentação, os homens comem carne de

animais terrestres, aquáticos e de aves. Também foram

domesticados animais quadrúpedes para transporte e uso de

sua força. Extraí-se o ferro da terra utilizando-o para cultivar os

campos; o mesmo se dá com o cobre e o ouro, descobertos em

veios sob a terra, utilizados tanto para as necessidades

cotidianas como para demonstrar luxo. Cortam-se árvores e

tudo o que pode ser queimado; quer seja produto do cultivo do

homem ou que esteja em estado selvagem; dispõe-se destes

materiais para a produção de fogo, usado para o aquecimento

das casas e no cozimento de comidas; Constrói-se casas para

abrigo contra o frio e contra o calor. O corte destas árvores

assegura a vantagem da construção das próprias moradias

onde se desenrola a vida. O que a natureza tem de mais

impetuoso – o mar e os ventos – são utilizados pelos homens

na arte da navegação; O homem torna-se senhor das obras da

natureza sobre a terra, aproveitando-se das planícies, das

montanhas; os rios e lagos são dos homens; são os homens

quem semeiam o trigo, que plantam árvores; são os homens

que conduzem a água sobre as terras para lhes dar fertilidade;

controlam-se e desviam-se fluxos d'água; as mãos humanas,

fazem dentro da natureza uma natureza nova, uma segunda

natureza.19

Para Smith (1984), a concepção de segunda natureza criada por Cícero se manterá até o século XVIII, quando o Conde Buffon (ver capítulo IV) propor uma nova explicação dialética da transformação da natureza.

Outro filósofo estóico que também tem posições semelhante e importante, na vertente em que se situa este trabalho, e para o entendimento das ideias de natureza na geografia, é Posidônio. De acordo com Posidônio (apud GLACKEN, 1996), o homem com sua inteligência, com suas inumeráveis conquistas, é parte da natureza. Seus poderes são derivados da natureza e lhe possibilitam uma posição vencedora e vaidosa, a partir de uma ampla variedade de investidas. Possibilidades e habilidades negadas as plantas e aos animais. De acordo com Glacken (1996), nas bases do pensamento de Posidônio estão as ideias de geografia, biologia, historia, astronomia, ecologia e etnologia.

A ênfase na estética e na beleza da natureza também é encontrada

na obra de Estrabão – 20 Geografia . Para Estrabão, de acordo com Glacken (1996), o geógrafo deve somente dedicar-se ao estudo das porções da Terra habitadas pelos homens. O homem é um "sócio" da natureza. A natureza é um cenário para os acontecimentos históricos.

A possibilidade dos homens 21 produzirem na natureza, através de seus ofícios, habilidades e ocupações, sua vida cotidiana é dada pela necessidade que a natureza lhes impunha, ou pela tentativa de retificar as deficiências da natureza. Estas ações marcam o início do processo de emancipação coletiva da humanidade perante a natureza. Um projeto dominante em muitas sociedades.

Dentre as formas que os homens construíram para se estabelecer dentro da natureza, neste primeiro período, ou dentre as necessidades da vida cotidiana que possibilitaram o acúmulo de conhecimento para a melhora da natureza, destaca-se, segundo Férnadez-Armesto (2001):

- o estabelecimento de aldeias;

- a domesticação de animais (criações);

- o cultivo do solo (agricultura e produção de alimento);

- as irrigações de terras e a drenagem de pântanos;

- a metalurgia.

Para Glacken (1996), o homem criava ordem e era agente de gestão; era possuidor da destreza única do artesão. Já para Marsh (1965), foi a agricultura e as atividades pastoris que ampliaram a esfera do domínio humano.

De acordo com Glacken (1996), ao se ler os comentários dos autores antigos sobres as mudanças causadas pelo homem na natureza, tem-se uma dupla impressão. Primeiramente, havia um reconhecimento do homem como ser ativo que se esforça e obtém sucesso, perante as dominantes influências ambientais. A segunda impressão é que natureza vivente que estes homens observaram – e muitas vezes amaram – era, como agora se sabe, uma natureza

muito modificada pelo homem 22. Continua o autor (op. cit.), para os gregos e romanos os vinhedos, os olivais, as cabras pastando nas montanhas rochosas, as aldeias e as vilas eram inseparáveis da paisagem das áridas colinas no verão mediterrâneo, assim como os ventos, o azul profundo do mar e os céus radiantes. Era uma paisagem alterada pelos homens, que a contemplavam com atenção e cuja múltipla beleza amavam.