O Direito à Natureza na Cidade
Conhecer, experimentar, reproduzir e fabricar a natureza
A tomada de consciência do controle da natureza pelo homem, desde o Renascimento até o século XVIII tem, segundo Glacken
(1996), duas perspectivas41:
1) A primeira procede da ciência teórica, teologia ou filosofia, e
põe em relevo o papel do homem como o modificador ou o
controlador da natureza, como função decorrente de sua
posição na escala dos seres e sua capacidade única,
inteligência, para interpretar o significado da criação.
2) A segunda é oriunda das observações cotidianas, sem
filosofia nem moralizações. Muitas vezes fruto de divagações
em torno de assuntos técnicos, de mineração, irrigação ou
maquinismo.
Conhecer, experimentar, reproduzir e fabricar a
natureza
O homem não só toma consciência de sua força modificadora da natureza como também dissocia desta ação o pecado ou a audácia de imitar ao Criador. O homem como inventor, experimentador, curioso, inquieto, ativo na habilidade mental e manual, cria formas para dar um sentido lógico/científico à natureza.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII cresce o entendimento de que o homem acumula conhecimentos que o conduz a um incremento de seu controle da natureza, através do aumento das áreas de cultivo, como uma grande contribuição das artes, ciências e técnicas. Isto se deve muito também às contribuições de Francis Bacon, Descartes e Leibniz, que acreditavam no poder do conhecimento para controlar a natureza e eram "entusiastas da tecnologia" aplicada na melhoria da vida e da condição humana.
Segundo Glacken (1996), o espírito de Francis Bacon e Descartes e, de seus percussores, Leonardo da Vinci, Paracelso, Agrícola e Palissy, permaneceu presente em muitas ideias e pensamentos no século XVII, na busca por demonstrar o crescente controle da natureza pela ciência, assim como pelas artes, esta em um patamar "racional" superior da experiência humana. Já para Lenoble (1969, p.192), "no século XVII, Bacon e Descartes ousam tornar-se "donos e senhores da Natureza", fazem-no proclamando que obtêm de Deus este domínio e esta posse". Posse de uma natureza-coisa, sem alma, de um "mecanismo para triturar os homens e as almas".
Segundo Francis Bacon, na obra Novum Organun, "o império do homem sobre as coisas se apóia unicamente nas artes e nas ciências. A natureza não se domina, senão obedecendo-lhe". (AFORISMO, 129). Na conclusão de Novum Organum (1999, p. 218), ainda faz um elogio à nova posição do homem sobre a natureza, uma retomada de seu lugar de destaque dentro da criação divina, a retomada do direito e domínio da natureza, direito esse que havia perdido pela Queda do paraíso e que agora, pela ciência, resgatava o desejo de Deus. "Pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas. Ambas as perdas podem ser reparadas, mesmo que em parte, ainda nesta vida; a primeira com a religião e com a fé; a segunda com as artes e com as ciências."
Já Matthew Hale, (The primitive Origination of Mankind, apud Glaclen, 1996), assume uma posição altamente legalista e moral perante as relações do homem com a natureza. Segundo o autor, o homem se assume como senhor da terra e por este motivo possui obrigações legais para com esta, em função em virtude de sua inteligência e suas habilidades manuais. A Terra necessitada de uma natureza superior (homem) para a manutenção de sua ordem, deixando-se modificar por este homem, que tem como objetivo maior, as ações em proveito de si próprio. Segundo Glacken (1996), os homens intervêm ativamente na natureza primitiva ou bruta, com o fim de manter sua civilização. Já a natureza não tocada pelo homem é uma natureza de características inferiores. Cabe ao homem a função de ser o guardião da natureza, um administrador indicado por Deus, em sua relação com os outros constituintes da vida natural. Sua relação com esta natureza, colocada sob suas asas, é definida pela sua posição superior num podium "natural", bem como pelas suas conquistas tecnológicas em vários ramos da engenharia civil além de outras atividades não tão revolucionárias, mas que num processo cumulativo produzem profundas transformações na paisagem e na natureza.
Cabe, neste momento, fazer uma menção especial à mudança no território empreendida na Holanda, um lugar onde o homem se impôs sobre uma natureza muito hostil e construiu uma nação desenvolvida. As transformações na Holanda foram importantes para moldar e exemplificar os pensamentos sobre a ação do homem na natureza.
Primeiramente, cabe ressaltar as transformações espetaculares que os holandeses fizeram no seu território mediante a construção de diques que culminaram na obtenção de novas terras férteis (polders) em detrimento da perda de área marinha. Depois do ano 1600, os moinhos de vento se converteram em ativas bombas de água em grande escala [...] Na península ao norte de Amsterdã havia sido encontrado até 1640 até 27 lagos drenados pelo bombeamento. O mesmo havia sido proposto para drenar o Halemmermeer com a
ajuda de 170 moinhos de vento42.
Os dois primeiros séculos do Período dos Descobrimentos foram decisivos na cristalização da ideia do homem como controlador e dominador da natureza, iniciado com a ideia religiosa do homem como administrador de Deus (pensamento conectado com a Idade Média), mas que aos poucos vai sendo alterado pela ideia de homem possuidor de uma superioridade natural e divina. Este fato, acrescido às inovações técnicas, coloca o homem no papel de criador, lugar até então reservado a Deus. O papel fundamental das transformações na Holanda está baseado na crença de que o homem, através de suas ferramentas e conhecimentos, estava melhorando a natureza de maneira tão decisiva e segura, que a aceitação de seu controle era praticamente inevitável.
De acordo com Marsh (1965) o homem tem transportado plantas de um habitat nativo para novas terras, tem introduzido uma nova força geográfica para agir sobre a natureza, e isto, geralmente, às custas
de espécies endógenas43, as quais são suplantadas pela vegetação estrangeira. As novas e velhas plantas são raramente equivalentes entre si, e a substituição por uma planta exótica, de uma árvore, arbusto ou grama, aumenta ou diminui a importância relativa da vegetação como elemento na geografia do país dos quais elas são
removidas44.
Este significativo aumento da concepção do homem como modificador na natureza terá maior desenvolvimento ainda no século XVIII, com contribuições de filósofos, biólogos e historiadores naturais, e muitos destes com grandes vínculos com a Geografia, como Kant, bem como dos próprios geógrafos, a partir dos finais do século XVIII.
Emmanuel Kant, filósofo fundamental na estruturação do pensamento geográfico, de acordo com Glacken (1996), na Crítica ao Juízo Teleológico, afirma que a natureza insere no mundo um sistema de constante formação de novas terras, com deposição de sedimentos nos litorais e desembocaduras fluviais. O questionamento kantiano reside na busca pela explicitação do valor destas transformações para a própria natureza, uma vez que tais depósitos, que aterram áreas marinhas e possibilitam o assentamento e usos humanos, só teriam benefícios quando inseridos no contexto social. Para a natureza em si, o ganho de vida na terra significa a mesma proporção de perda de vida no mar. Ou seja, para a natureza pouco importa de que forma sua manifestação vital se concretiza no sistema natural.
Para Engels (1991), Kant45 instituiu a ideia da Terra possuidora de história, cuja constituição estava sendo formada paulatinamente, derrubando a ideia de "invariabilidade absoluta da natureza". A Terra, com história, passa por sucessões de tempos e espaços, inserindo a ideia nascente de uma natureza que não é estática, que não é uma realidade atual congelada. A natureza aparece como uma construção e com movimentos que lhe garantia uma constante transformação e uma constituição sempre provisória.