O Direito à Natureza na Cidade
O período da incorporação
gradualmente ao ponto de perfeição e magnificência 53.
Com estas afirmações tão incisivas de Buffon sobre a ideia e o conceito de natureza, atrelados às atividades humanas, bem como suas contribuições na visão otimista da inserção da vida social num mundo natural, encontram-se as bases de sustentação para uma mudança de período.
No final do Período dos Descobrimentos, o homem, segundo Lenoble (1969, p. 316)
começa a agitar-se com tanto brio na conquista do mundo - a
extensão cartesiana - que perde toda e qualquer preocupação.
Deus e a alma continuam a ser os objetos da metafísica, mas
rompeu-se a ligação entre a física e a metafísica, isto é, entre a
Natureza e Deus. [...] A Natureza tornou-se objecto unicamente
da ciência, isto é, segundo a acepção nova do termo, das
técnicas. [...] A ciência torna-se o novo ídolo. Ela penetra os
segredos da Natureza, como a psicologia positiva penetra os
segredos da consciência.
Acrescenta-se a este plano das ideias, a Revolução Industrial e a transformação do mundo mercantilista agrícola num mundo capitalista industrial. O final do século XVIII representa o fim de um período das relações do homem com a natureza, em que se observa uma gradual mudança na posição de ambos no sistema de ideias, com a incipiente sobreposição da natureza pelo homem. O período seguinte irá aumentar esta diferenciação entre o homem e a natureza e, no âmbito das ideias, será contemplada uma dissociação mais acelerada com a teoria da evolução, a especialização das ciências e as grandes transformações da natureza.
O período da incorporação O homem como agente de transformação
A incorporação da natureza
A natureza capitalizada
A terra fez o homem e o homem refez a terra incessantemente.
Élisée Reclus
Além das ideias desenvolvidas no período anterior e a crescente industrialização do mundo ocidental, no Período da Incorporação dois processos influenciaram fortemente as ideias e conceitos de natureza e são fundamentais até os dias atuais – o Higienismo e o Esteticismo.
O Higienismo é definido como o saneamento e a limpeza das cidades e da natureza, com um grande número de novas técnicas e tecnologias que foram criadas para dar suporte a este novo conceito de natureza limpa e padronizada. O Higienismo é marcado pela eliminação, principalmente, das "águas paradas" – sinônimos de estagnação – e dos brejos (no caso do Brasil, os mangues). Todo um aparato técnico surge com esta finalidade. Entretanto seu uso é determinado pelo poder econômico e, consequentemente, político, pois somente a nobreza e a burguesia têm acesso a estas técnicas. As classes mais pobres continuam vivendo em meio a uma Natureza hostil e insalubre.
O outro sistema de ideias, agindo concomitantemente com o Higienismo, é o Esteticismo. Neste sistema, a natureza, como sinônimo de paisagem, é passível de um julgamento estético de beleza, que também seguirá um padrão "civilizado" previamente definido. A natureza, cortada e delimitada em linhas retas, torna-se um jardim, um signo da administração humana. A natureza, como
um padrão estético 54 de beleza requintada e sofisticada, é cada vez mais valorizada e decorativa, sendo acrescida de objetos humanos – monumentos à história do homem – intervenções para torná-la cada vez mais grandiosa. A riqueza natural não basta, é preciso demarcar o território humano, sua conquista, sua incorporação e sua produção.