O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 6 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

Parte I - A incorporação da natureza à vida social

Parte I - A incorporação da natureza à

vida social

 

III - A natureza e o homem

 

O período clássico

A Natureza como beleza e o Homem como artesão - primeiros

encontros e entendimentos

A criação humana na natureza

A partir da periodização, definida de acordo com as formas como os homens e a natureza se encontravam e se entendiam, foram definidos cinco grandes períodos que abrangem deste a Antiguidade Clássica até os dias atuais. O primeiro período foi definido como Período Clássico. A natureza possuidora de uma maior influência sobre o meio encontra no homem mais um de seus elementos. Este período corresponde ao início da busca pela história da incorporação da natureza à vida social e à produção do espaço geográfico.

A destruição dos bosques e florestas foi, para George Marsh (1874), a primeira conquista geográfica do homem, sua primeira violação da harmônica natureza inanimada. Estas florestas e bosques foram transformados em combustível, moradias, embarcações e ferramentas, através de queimadas que eram fáceis de serem espalhadas e tinham por objetivo limpar a área e ao mesmo tempo

produzir material orgânico para sua fertilidade7.

Neste período, ainda não eram feitas as grandes distinções entre homem e natureza. O homem era visto como um elemento da natureza e composto dos mesmos elementos que ela. Os principais elementos presentes na constituição da natureza eram: a terra, o fogo, o ar e a água, sendo que estes elementos eram eternos, imperecíveis e indestrutíveis. A natureza e seus elementos estavam tão intrinsecamente ligados aos homens, que estes também eram conectados e eram os controladores dos humores humanos. Conforme esclarece Glacken (1996), as variações fisiológicas e os fluídos do corpo humano possuem correlações com "elementos do macrocosmo": o ar (quente e úmido) possui vínculo com o sangue no corpo (coração); o fogo (quente e seco) está relacionado a bílis (fígado); a água (fria e úmida) com a fleuma (cérebro); e a terra (fria e seca) tem correlação com a bílis negra (baço). Estes quatro conjuntos de relações eram a base da Teoria Humoral ou dos Quatro Humores (o sanguíneo, o colérico, o fleumático e o melancólico, respectivamente), que sustentava as explicações sobre a saúde e vida humana nas concepções hipocráticas.

As primeiras formas de relação que os homens estabeleceram com a natureza, que ainda condicionava sua vida, era uma espécie de animismo da natureza. Lenoble (1969, p.42 e 50), explica que o animismo é a "propensão do sujeito para imaginar as coisas segundo o modelo da sua própria existência. O animismo é um produto da consciência. [...] animismo prova que a primeira ideia que os homens formaram da natureza foi uma ideia moral". O homem desde suas primeiras representações pictóricas mostra sua ação sobre a natureza.

Os primeiros desenhos que encontramos dos objectos naturais

nas grutas pré-históricas, são imagens mágicas. O bisonte ou

antílope figurado encontra-se rodeado de flechas ou ferido, ou

então capturado por mãos que o cercam por todos os lados.

Logo, o homem não surgia desarmado perante as coisas,

'sabia' já como tornar-se 'dono e senhor'.8

Nestes estágios iniciais da história da vida humana, com incipientes cultivos e criações, o homem dependia exclusivamente dos animais e vegetais para alimentação e vestuário. Neste sentido sua vida era a repetição de formas organizacionais ainda muito similares à natureza. De acordo com Férnandez-Armesto (2001), as sociedades, nos seus momentos iniciais, aprenderam a fazer suas vidas com aquilo que a natureza providenciava. Elas viviam com os produtos e habitavam os espaços que a natureza fornecia. Construíam suas moradias numa imitação muito próxima dos espaços naturais e com os materiais que a natureza local disponibilizava. Em áreas florestadas, as moradias eram construídas de madeira; em áreas argilosas, as casas eram de barro; em áreas cársticas, as próprias cavernas eram adaptadas para a habitação.

Em função desta proximidade entre os espaços construídos pelas primeiras sociedades humanas, que ainda "engatinhavam" na busca para minimizar o grande grau de dependência, perante a natureza. Muitos registros sobre os primeiros assentamentos, que originaram as primeiras cidades, se perderam, devido à decomposição dos materiais utilizados. A deteriorização das casas seguiam os ritmos e ciclos naturais. Devido as constantes lutas entre as tribos e o abandono de alguns assentamentos, os registros também se perderam.

Neste período, a riqueza natural intrínseca ao território, aqui compreendido como uma categoria do espaço geográfico vinculada à área da ação humana, será diretamente proporcional à riqueza da vida dos povos. Desde os tempos remotos, os homens têm desenvolvido técnicas para corrigir as desvantagens naturais quando elas aparecem, mesmo no Período Clássico, ainda de maneira muito rudimentar. Quanto maior a fertilidade dos solos maior será a produtividade agrícola e a disponibilidade de alimentos para serem coletados e colhidos, portanto maior será o fornecimento de comida ao grupo. Quanto melhor o acesso aos meios naturais de transporte e a presença de água, mais propícios são os lugares para os estabelecimentos humanos e maiores as possibilidades dos homens na sua expansão. O oposto também pode ser verificado, pois neste período as desvantagens naturais também podem criar empecilhos para os grupos humanos assentados em locais com uma configuração física territorial desfavorável. George Marsh (1965) cita as componentes geológicas/pedológicas como desvantagens naturais, principalmente o solo, cujo uso intenso para aquele momento provocou um processo de desertificação em algumas localidades.

Neste período,9 cabe destaque as concepções gregas da ideia de natureza. O que mais chama a atenção nas mitologias e concepções gregas da natureza é o desejo de união entre um

propósito e uma ordem 10. Já para Marsh (1965), neste período, existe uma intuição de natureza espontânea. A natureza é representada por relatos de inebriantes colheitas e luxuriantes jardins. As tentativas de "enobrecimento e embelezamento" da natureza, notadamente de seus padrões estéticos, são constantes ao longo da história das relações entre a cidade e a natureza, através da arte e do trabalho. As glorias da paisagem têm sido elevadas pela plantação, arquitetura decorativa e outras formas de pitorescos melhoramentos, conforme escreveu Marsh (op.cit.).

O filósofo grego Panécio 11 12 explica que autores gregos e romanos pensaram uma natureza domesticada, uma simpática mescla de natureza e arte, nas aldeias da costa mediterrânea, na beleza dos campos cultivados, nas vinhas e nos olivais nas encostas das colinas. As cidades sempre dispostas junto a um rio ou perto de um bosque.

A respeito da ideia de natureza como uma forma de beleza luxuriante e, associada a um ordenamento dentro de um jardim, cabe fazer uma referência aos famosos Jardins Suspensos da Babilônia. Reais ou não, instituíram na mentalidade clássica a ideia do poder humano no embelezamento da natureza, bem como seu controle. Estes jardins, de acordo com Fernandez-Armesto (2001), criaram um apelo através da invocação de uma imagem descrita pelos gregos, como uma cascata de terraços tão altos quanto os muros de uma cidade, suportados por arcos fortes o bastante para sustentar o peso da terra posta para segurar as grandes árvores. A água, vinda do Eufrates, descia em patamares. O propósito estético da construção dos Jardins da Babilônia foi evocar uma paisagem montanhosa numa extensa planície. Uma construção humana produzida diferentemente da constituição geomorfológica natural da área, bem como da própria vegetação local, rarefeita devido a indisponibilidade hídrica. Os Jardins se configuraram pela produção