O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 22 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

V - O homem e o território

 

Os conteúdos e limites da natureza no período atual

O homem e a natureza a mediação pelo território

A natureza como valor

Os séculos XIX e XX marcam definitivamente, através da produção, das técnicas, das indústrias e mesmo da cultura, a incorporação da natureza à vida social. Os objetos, as ações, as crenças e os desejos dos homens passam a incluir a natureza ou as representações da natureza. Insere-se também a realidade esmagadora da vida humana e das perspectivas da sociedade, como escreve Santos (1994). O homem torna-se agente criador de ciclos e processos que só eram observados na natureza. Continuando com Santos (1994, p. 6), "o natural cede lugar ao artefato e a racionalidade triunfante se revela através da natureza instrumentalizada, esta, portanto, domesticada nos é apresentada como sobrenatural". Uma natureza sempre redesenhada a cada momento da História, mas de maneira contundente, depois de sua inserção no âmbito da História Social e com o desencantamento do mundo.

A transformação da natureza, de uma primeira natureza para uma segunda natureza, se dá pelo uso das técnicas e ferramentas, empregadas como prolongamento do corpo humano, que assim coloca sua marca sobre a natureza. A partir desta transformação, o homem passa não só a modificar a natureza, como também produzir espaço. Na sua ação, relacionada à produção, não é possível

distinguir esta ação em si e o ato de produzir o espaço 97.

A proximidade da natureza instiga a se pensar cada vez mais seus conteúdos e limites, através de uma análise histórica dos conceitos e dos significados da natureza, no período atual, realçados com as novas descobertas e redescobertas. Define-se um período marcado pelas relações do homem não mais com uma natureza pura, mas sim como uma natureza socializada e inserida no território.

Neste diálogo entre a sociedade e o território usado, estão inseridos os objetos naturais e artificiais, as cristalizações presentes no espaço e suas rugosidades. Tudo sendo movimentado pela própria

sociedade que é quem dá vida e anima as formas98. A partir desta constatação, para Santos (1988, p. 88)

o homem necessita aprender a natureza a fim de poder

apreendê-la. A riqueza do ensinamento da natureza é

proporcional à ação do homem sobre ela; quanto maior a troca

com a natureza, tanto maior o processo de intercâmbio entre os

homens. A relação entre o homem e seu entorno é um

processo sempre renovado que tanto modifica o homem quanto

à natureza.

Nota-se, claramente, nesta citação as ideias de Marx, que o homem modifica a natureza ao mesmo tempo em que modifica a si mesmo. Para Harvey (2000) foi a relação que o homem desenvolveu com a natureza que permitiu que se pudesse pensar e melhorar o futuro. Como ser sensitivo, o homem, em relação metabólica com o mundo, o modifica e, fazendo isso, muda a si mesmo através de seu trabalho.

De acordo com Soper (2000), deve-se, primeiramente, compreender como "esta palavrinha complexa" que é a "natureza" é falada e entendida. Na atualidade, duas grandes possibilidades, segundo a autora (op.cit.), baseadas em posições teóricas e políticas, se colocariam. A primeira refere-se a uma visão afirmativa da natureza (nature - endorsing), relacionada, principalmente, ao movimento ecológico/ambientalista, como o Greenpeace, que no Reino Unido tem mais filiados do que qualquer partido político. A segunda forma de entendimento é a dos sépticos da natureza (nature - sceptical), que seriam representados pelos movimentos posmodernistas, socialistas e marxistas.

Continuando suas considerações, Soper (2000) escreve que os ecologistas tendem a invocar a natureza como um domínio de valor intrínseco [a questão dos desígnios da natureza], verdade ou autenticidade e têm posição relativamente indefinida quanto às questões epistemológicas e de representação. Sobre a posição "ecologista", Mendes (1993, p. 20), coloca que

certas linhas do pensamento ecológico propugnam por uma

solução 'edênica' – à volta a natureza, a reinserção do homem

no meio natural como um ser meramente natural. [...] e

desprezo pelas conquistas do desenvolvimento científico,

tecnológico e cultural.

Buarque (1993) fala mesmo de um biocentrismo que nega o homem em sua totalidade e prega uma inconsequente centralidade natural.

As concepções mostram que a natureza carrega consigo um peso simbólico e ao mesmo tempo contraditório e complexo, sendo entendida diferentemente por diversas formas de pensamentos e ideologias. Sua representação também adquire, no período atual, uma gama variada de possibilidades. Reafirma-se neste trabalho que o objetivo não é o confronto entre estas várias possibilidades, mas sim apresentar o desenvolvimento da visão otimista da ação do homem sobre a natureza, de como esta ação foi ao longo da história aproximando, transformando e incorporando a natureza à vida cotidiana, próxima da ideia de Buarque (1993), de um neo-'antropocentrismo'. Para o autor (op.cit., p. 67), "a descoberta da natureza já ocorre, antecedendo a formulação de uma nova visão onde o homem seja o centro e a razão de um projeto viável fisicamente, decente eticamente e cujo valor dependa da natureza, que é parte do próprio valor e base da criação de novos valores".

A variedade de ideias e conceitos de natureza99está associada a um caráter intrínseco da natureza, que é ser algo dentro do tempo. Na concepção de Ortega y Gasset (1973), isto significa que seu meio de existir é no agora, no presente, mas o agora e o presente são instantâneos; não se termina de nomeá-lo e então ele escoa, cessa de ser o agora e o presente e converte-se num passado, em algo que não mais é e sim era. De acordo com Whitehead (1955), a natureza é um processo, que física e simbolicamente, tem suas formas de compreensão e representação muito diferentes desde a pré-história até os dias atuais. Como foi demonstrada nos capítulos anteriores, esta mudança ocorreu devido ao entendimento técnico e científico dos processos naturais e das formas de atuação destes processos. No período pré-científico, o maior medo do homem era a natureza e atualmente as causas dominantes nos medos dos homens são causadas pelo próprio homem. "É do homem de hoje que o homem pode receber seus maiores sofrimentos. Os fenômenos naturais são desarmados porque são explicados".

De acordo com Santos (1999, p.117)

no início, as ações se instalavam nos interstícios das forças

naturais, enquanto hoje é o natural que ocupa tais interstícios.

Antes, a sociedade se instalava sobre lugares naturais, pouco

modificados pelo homem, hoje, os eventos naturais se dão em

lugares cada vez mais artificiais, que alteram o valor, a

significação dos acontecimentos naturais.

O desenvolvimento da técnica e sua interação com a ciência e a indústria aceleram este processo. Amplia-se a esfera da diversificação da natureza (de que fala WHITEHEAD, 1955), agora não mais operada pelos ciclos naturais, mas sim pelas forças sociais. Entretanto, se a artificialidade dos objetos sociais e sua eficácia acabam por distanciá-los das incertezas das coisas da natureza, a técnica propicia a estandardização dos objetos e também das ações, ou seja, do próprio território.

De acordo com Santos (1994, p.19),

sem o homem, isto é, antes da história, a natureza era uma.

Continua a sê-lo, em si mesma, apesar das partições que o uso

do planeta pelos homens lhe infligiu. Agora, porém, há uma

enorme mudança. Una, mas socialmente fragmentada [pelos

usos que os diferentes grupos sociais fazem dela a partir de O homem, sua inteligência, suas técnicas e seu conhecimento analítico passam a abranger toda a natureza e, desta forma, atinge-se, de acordo com Santos (1988), a possibilidade concreta de utilização de todas as coisas que se colocam na superfície do planeta. Torna-se imperioso que as disciplinas se renovem neste processo de instauração de uma nova fase das relações do homem com o espaço, no qual se insere a natureza socializada. Cria-se, de fato, uma universalidade com a presença humana em todas as partes do planeta, que efetivamente se mundializa. Além disto, segundo Santos (1999, p. 128), "o homem se torna capaz de gerar eventos naturais e de produzir fatos físicos ou então de mudar, por sua ação, a significação, o alcance, as consequências dos fenômenos naturais, incluindo-os na corrente de uma história humana universalizada".

suas disponibilidades técnicas], durante tantos séculos, a

natureza é agora unificada [mundializada, torna-se um padrão

universal e mesmo um problema global com as mudanças

climáticas e a inserção do debate político] pela História, em

benefício de firmas, Estados e classes hegemônicas. Mas não é

mais a Natureza Amiga, e o Homem também não é mais seu

amigo.

A relação que a sociedade possui hoje com a natureza, ou com o território onde se insere a natureza, se dá num "mundo que a técnica construiu para nós, somos hipnotizados pela lei do

número 100 ", um mundo geométrico das quantidades e valores econômicos e não das qualidades e valores fraternais. Assim, a natureza hoje se constitui, de acordo com uma proposta de Lenoble (1969), numa "coisa-imagem", muito mais imagem do que coisa. Nesta relação, os homens não enxergam os fenômenos sociais, políticos ou econômicos que penetram na ideia de natureza, eles continuam a ver apenas uma imagem romântica da natureza, que é captada e apropriada, como por exemplo, pelos empreendimentos imobiliários nas grandes cidades.

Segundo Soper (2000), não se pode fazer distinção entre a realidade da natureza e sua representação cultural, o que não é por si mesma conceitual. Isto não justifica a conclusão de que não há distinção ontológica entre as ideias que se tem de natureza e aquelas sobre as quais as ideias são. Esta constatação ocorre porque a natureza é apenas significativa no discurso humano.

Apesar disto, ainda é difícil distinguir o que é, em realidade, natural, principalmente quando se depara somente com as formas. A representação da natureza é ligada às experiências culturais e ideológicas de cada sociedade ou grupo, relacionando-se também com as variantes estéticas que, a cada momento, são predominantes. Mitos, poesias épicas, dogmas religiosos, obras de arte são forças culturais inegáveis no modelamento das representações da natureza.