O Direito à Natureza na Cidade
A incorporação da natureza pelo trabalho do homem – Karl Marx
Esta visão estética está muito atrelada a uma visão romântica da natureza que será difundida pelos relatos de viajantes e pela produção de litogravuras. A Natureza se torna um elemento de consumo, um produto a ser vendido aos viajantes e depois, aos leitores e compradores de pinturas e gravuras. Como os elementos estéticos da Natureza são incorporados ao mundo do consumo, através de suas representações pictóricas, toma corpo, na Europa, a criação de formas de proteção das paisagens pitorescas, que garantam sua aparência "natural", passível de ser utilizada apenas como deleite estético contemplativo, evitando-se sua modificação visual. A representação romântica da natureza "selvagem" e escarpada estava na moda no final do século XIX, e a observação deste tipo de "natureza" era um dos programas preferidos das elites européias, que criaram vários Clubes de Turismo. Associações de Geografia elaboraram publicações especializadas. Também se encontra, neste momento, a demarcação dos primeiros parques naturais nacionais na Europa destinado a fins científicos e ao
turismo burguês, com entrada reservada 55. Nas cidades européias, o Esteticismo impulsionará, juntamente com o Higienismo, a criação de parques urbanos, mas socialmente diferenciados: Parques para operários (Buttes Chamont, em Paris, é um exemplo) e Parques para a aristocracia (Bois de Bologne, também em Paris).
A incorporação da natureza pelo trabalho do
homem – Karl Marx
O trabalho do homem é uma das formas de incorporação da natureza à vida social, configurando-se numa importante categoria na mediação entre a sociedade e a natureza, sendo fundamental na produção e reprodução da vida humana.
Marx será fundamental para se entender a contribuição da chamada geografia crítica para o tema tratado, bem como no entendimento dos usos e conteúdos que têm sido atribuídos à ideia de natureza no período atual.
De acordo com Schmidt (1976), não estão claras nas obras de Marx suas posições e ideias sobre a natureza. Segundo o autor (op.cit., p. 23), o Marx de O Capital, define a natureza como o material da vida humana – como aquilo que não é subjetivo, que não se dissolve nos modos de apropriação humana, o que é diretamente não idêntico ao
homem no sentido ontológico56. A natureza se mantém em um plano abstrato. A natureza em seu conjunto é para Marx um substrato anexo à história, homogêneo, cuja resolução em uma dialética entre sujeito e objeto constitui o cerne da crítica marxista. A natureza é um momento da práxis humana e ao mesmo tempo a
totalidade do que existe57.
Nas obras de Karl Marx, a natureza aparece como: matéria, natureza, substância natural, coisa natural, objetos externos sensíveis, terra, momentos existenciais, objetivos do trabalho e
condições objetivas do trabalho 58. A natureza também pode ser entendida como mercadoria. Segundo Marx, em O Capital (1980, p. 41), "a mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, qual seja a natureza da origem delas, provenham do estômago ou da fantasia". Na mesma obra, ele ainda explica que "a mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens [...]" (MARX, 1980, p. 81). Assim, a mercantilização da natureza na cidade contemporânea promove a substituição do processo de incorporação da natureza à vida social pela idealização de uma primeira natureza.
O trabalho como atividade humana se dá sobre uma base material, sobre um sólido que é a natureza.
Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participa o
homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua
própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio
material com a natureza. Defronta-se com a natureza como
uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de
seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-
se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida
humana. Atuando assim sobre a natureza externa e
modificando-a, ao mesmo tempo que modifica sua própria
natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e
submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. (MARX,
1980, p.202)
Nesta citação se encontra a relação dialética entre o homem e a natureza, na qual a modificação de um implica na modificação do outro.
Apesar desta equiparação entre homem e natureza, Marx sempre dará maior peso a participação do homem, aliás, é o homem o centro de sua análise e o fim de todo conhecimento e dominação da natureza pela ciência e pela técnica. Pode-se observar esta análise, nos Manuscritos Parisienses, onde Marx, segundo Schmidt (1976), afirma que a natureza tomada em forma abstrata, por si, fixada na
separação com o homem, não é 59 nada para o homem. Para Marx, a natureza sem a mediação do trabalho, sem a presença e vida que lhe é conferida pelo homem, é, em si mesma, apenas um substrato
material 60.
A transformação que o homem opera na natureza, a produção de uma segunda natureza, é um processo dialético onde esta natureza transformada também pode retornar ao seu estado primitivo. De acordo com Schmidt (1976), a segunda natureza, artificial e humanizada, que aparece como uma construção do homem sobre uma base natural, sobre a natureza primeira, pode transformar-se novamente nesta, através de ciclos naturais que desintegram e que deterioram as substâncias, como o caso do ferro de automóveis ou
outros objetos que oxida e retorna a sua "forma natural"61.
A modificação da natureza também será a responsável pela mudança na forma como seus elementos serão tratados, passando
a se constituir em recursos naturais 62. Ao mesmo tempo em que a natureza se insere na vida social do homem através do seu trabalho, ela se apresenta como uma condição da existência dos homens, vinculada às necessidades biológicas do corpo humano, uma vez que este é um corpo mortal.
Marx, em parceria com Engels, coloca-se radicalmente contra uma dissociação entre natureza e história [homem]. Na "Ideologia Alemã", colocam que Feurbach e Bruno Bauer se enganaram ao retirar da história a relação produtiva que os homens desenvolveram com a natureza. A natureza e a história não são para Marx e Engels, neste momento, duas coisas distintas e isoladas, pois os homens
têm para si uma natureza histórica e uma história natural63. Continuando, afirmam ainda que a luta do homem contra a natureza, segue "até que as forças produtivas deste último se tenham desenvolvido sobre uma base adequada".
A natureza, mesmo que apresente condições, parece não impedir o progresso das ações humanas sobre a mesma. O trabalho penetra nas mais diversas esferas da natureza, em muitos casos enganando a nossa própria percepção.
Animais e plantas que costumamos considerar produtos da
natureza são possivelmente não só produtos do trabalho do ano
anterior, mas, em sua forma atual, produtos de uma
transformação continuada, através de muitas gerações,
realizada sob controle do homem e pelo seu trabalho (MARX,
1980, p. 206).
Além isto, numa crítica aos que ainda pregam uma natureza primitiva, romântica e idealizada, Marx & Engels (1980), afirmam que o primado da natureza anterior não deixa existir, mas a natureza dos idealistas românticos não existe mais, salvo em alguns atóis na Austrália.
A ação do homem sobre a natureza é plena de intencionalidade, seguindo um objetivo e um projeto pré-definido. Segundo Marx (1980, p. 202), o homem, ao contrário dos animais, "não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem que subordinar
sua vontade"64.
Dentre estas intencionalidades encontram-se o desenvolvimento
das técnicas e das máquinas que, como ferramentas65 ou instrumentais, são formas que o homem criou para aperfeiçoar seu processo de emancipação e libertação da natureza. Segundo Marx, em O Capital, a tecnologia mostra como se dá o comportamento do homem de maneira ativa sobre as condições colocadas pela natureza desde o processo inicial de produção da sua própria vida, bem como, nas relações sociais que ele desenvolve e também nas representações culturais e religiosas que surgem deste desenvolvimento técnico.
Se nos primeiros momentos da história do homem, ele entrava em contato com a natureza somente através de seus órgãos sensitivos corporais, com o desenvolvimento da técnica, esta mediação passa a se constituir por instrumentos técnicos que surgem com a finalidade e objetivo previamente definidos e conscientes. Para Marx (1980 citando FRANKLIN), o homem é um tool-making animal (um animal fazedor de ferramentas), que se desenvolve a partir de sua mão e sua inteligência. "Na futura vida da humanidade, as forças brutas da natureza em acção nas máquinas serão os nossos escravos e servos." (MARX, 1975, p. 113)
Além disto, o desenvolvimento técnico, os instrumentos artificiais da produção aumentam a intensidade e a extensão do domínio humano sobre a natureza, bem como inserem múltiplas formas de utilização da natureza, de seus recursos e objetos.
Entretanto, Marx (1980) alerta para o uso deste instrumental, numa sociedade marcada pela apropriação da natureza e do trabalho do homem pelas forças capitalistas, pois
a maquinaria, como instrumental que é, encurta o tempo de
trabalho, facilita o trabalho, é uma vitória do homem sobre as
forças naturais, aumenta a riqueza dos que realmente
produzem, mas, com sua aplicação capitalista, gera resultados
opostos: prolonga o tempo de trabalho, aumenta sua
intensidade, escraviza o homem por meio das forças naturais,
pauperiza os verdadeiros produtores. (MARX, 1980, p. 506)
Esta apropriação capitalista perverte a ideia de emancipação
coletiva 66 do homem, da rigidez colocada pela natureza, ela nega a solidariedade entre os homens e a cooperação possível na relação do homem com a natureza. A cooperação entre os homens, é entendida na concepção de Marx (1980, p. 374), como "a forma de trabalho em que muitos trabalham juntos, de acordo com um plano, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes, mas conexos".
Para Marx, no livro III de O Capital (1981, p. 942), a utopia na relação do homem com a natureza é o estabelecimento de um reino
de Liberdade, de Emancipação Coletiva67.
O reino da liberdade só começa, de fato, onde cessa o trabalho
que é determinado pela necessidade e por objetivos externos;
por consequência, em virtude da sua natureza da coisa,
encontra-se fora da esfera da produção material propriamente
dita. Assim, como o selvagem tem de lutar com a natureza para
satisfazer suas necessidades, para manter e reproduzir a vida,
assim também deve fazê-lo o homem civilizado, em todas as
formas de sociedade e sob todos os modos de produção
possíveis. Com seu desenvolvimento, amplia-se este reino de
necessidades naturais porque também se ampliam suas
próprias necessidades, e também ao mesmo tempo se
expandem as forças produtivas que as satisfazem. A liberdade,
neste campo, só pode consistir no fato de a humanidade
socializada, os produtores associados, regularem racionalmente
seu intercâmbio orgânico com a natureza, submetendo-a ao
seu controle, em vez de serem governados por ela como um
poder cego e, cumprindo as sua tarefa com o menos dispêndio
de energia possível e em condições tais que sejam próprias e
dignas de seres humanos. No entanto, aqui encontramo-nos
ainda no reino da necessidade.
Quando um projeto de homem egoísta e individualista substitui um projeto de emancipação coletiva, assiste-se a propagação de formas individuais de satisfação, um consumo individual que, para Marx (1980, p. 208), "gasta os produtos como meios de vida do indivíduo [...] o produto de consumo individual é, portanto, o próprio consumidor". Este consumo acaba criando uma relação fetichista entre mercadorias e objetos e, até mesmo, entre o homem e a natureza nesta sociedade de consumo individual. Um fetiche se dá numa forma de relação social definida e fantasmagórica entre as coisas. "Os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas que mantêm relações entre si e entre os seres humanos". (MARX, 1980, p. 81)
Segundo a concepção de Marx (1980), o homem não pode apropriar-se da natureza de maneira individualizada, ela deve constituir-se num projeto coletivo.
O homem isolado não pode atuar sobre a natureza, sem por em
ação seu músculos sob o controle de seu cérebro. [...] O
produto deixa de ser o resultado imediato da atividade do
produtor individual para tornar-se produto social, comum, de um
trabalhador coletivo, isto é, de uma combinação de
trabalhadores, podendo ser direta ou indireta a participação de
cada um deles na manipulação do objeto sobre que incide o
trabalho. (Marx, 1980, p. 584)
De acordo com Marx, nos Manuscritos Parisienses (encontrado em SCHMIDT, 1976), o domínio da natureza não organizado numa forma socialmente justa, por maior que seja seu desenvolvimento, segue significando que se está à mercê da natureza.
Num outro momento, Marx & Engels (1980), escrevem como a
economia capitalista68 abrangendo vários pontos do globo, tende a aniquilar as especificidades dos lugares e das relações mais próximas com a natureza, destituindo a emoção e o sentimento. Segundo os autores (op. cit., p. 74),
através da concorrência universal, constrangeu todos os
indivíduos a uma tensão máxima da sua energia. Aniquilou o
mais possível da ideologia, a religião, a moral etc. e sempre que
isso não lhe era possível transformou-as em flagrantes
mentiras. Foi ela que criou verdadeiramente a história mundial
na medida em que fez depender do mundo inteiro cada nação
civilizada e, para satisfação de suas necessidades, cada
indivíduo dessa nação, destruindo o caráter exclusivo das
diversas nações que era até então natural. Subordinou a
ciência da natureza ao capital e retirou a divisão do trabalho a
sua última aparência de fenômeno natural. Destruiu, na medida
do possível, todos os elementos naturais no interior do trabalho
e conseguiu dissolver todas as relações naturais para as
transformar em relações monetárias. Em vez de cidades
nascidas naturalmente, criou as grandes cidades industriais
modernas que se desenvolveram como se se tratasse de
cogumelos.
Outra questão trabalhada por Marx, com importante destaque na análise do entendimento que o homem faz da natureza no período atual, é o papel do consumo na sociedade capitalista. O consumo está em relação direta com a produção, uma vez que a produção também é consumo, consumo de energia ou de alguns produtos para produzir outros. "Toda produção é apropriação da natureza pelo indivíduo, no interior e por meio de uma determinada forma de sociedade". (MARX, 1999, p. 29)
Mais do que produzir um objeto, o processo produz também a necessidade de consumir este objeto e a forma como este objeto será consumido. Segundo Marx (1999, p. 32),
a fome é fome, mas a fome que satisfaz com carne cozida, que
se come com faca ou garfo, é uma fome muito distinta da que
devora carne crua, com unhas e dentes. A produção não
produz, pois, unicamente o objeto do consumo, mas também o