O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 19 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

A dialética da natureza – Friedrich Engels

modo de consumo, ou seja, não só objetiva, como

subjetivamente. Logo, a produção cria o consumidor.

Complementa ainda (op.cit., p. 33), que

a necessidade que sente desse objeto é criada pela percepção

do mesmo. O objeto de arte, tal como qualquer outro produto,

cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a

beleza. Portanto, a produção não cria somente um objeto para

o sujeito, mas também um sujeito para o objeto.

Estas contribuições de Marx serão fundamentais para se entender o consumo e a forma de consumo da natureza, seus objetos no período atual e os consumidores da natureza, concientes ou não de seus papéis como sujeitos na produção da natureza na cidade.

 

A dialética da natureza – Friedrich Engels

Após a exposição das contribuições de Marx, cabe fazer uma análise em algumas obras de Engels, as quais, em muitos pontos convergem diretamente para as concepções de Marx. No tocante à discussão das ideias de Natureza, esta assume uma importância muito maior nas obras de Engels, que se preocupou tanto com a história da interpretação da natureza, fazendo um acompanhamento das diferentes formas que foram sendo construídas ao longo da história das ideias, bem como com a proposição de uma forma revolucionária, nas suas palavras, para o entendimento e explicação da natureza – a dialética.

Inicia-se a abordagem sobre as ideias de Engels com o desenvolvimento do estudo da natureza. O grande destaque de suas interpretações é o processo histórico de diferenciação entre o

homem e o animal, principalmente o macaco69. Segundo Engels (1990, p. 156) "os homens entram na história ainda meio animalizados e brutos, impotentes ainda, com relação às forças da natureza, ignorantes mesmo de suas próprias forças frágeis, como as próprias bestas e apenas mais produtivas do que elas". Usar as mãos foi o passo decisivo para a transição do macaco em homem, uma vez que foram as mãos, numa atividade racional, que criaram ferramentas e se articularam na forma de ferramenta.

O cérebro, os sentidos, o trabalho e a linguagem criaram os estímulos contínuos que diferenciaram definitivamente o homem do macaco. De acordo com Engels, no apêndice da Dialética da Natureza – A humanização do macaco pelo trabalho

o domínio da Natureza, iniciado com o aperfeiçoamento da

mão, com o trabalho, ampliava o raio de percepções do

homem, a cada novo progresso. Nos objetos naturais,

descobria ele constantemente outras qualidades até então

desconhecidas. Por outro lado, o aperfeiçoamento do trabalho,

contribuía para aproximar, cada vez mais, os membros da

sociedade; para multiplicar os casos de ajuda mútua, de ação

em comum, criando, em cada um, a consciência da utilidade

dessa colaboração70.

Engels (1991) afirma ainda que o animal usa a natureza somente para consumir o que suas necessidades naturais determinam. Ao contrário, o homem passa a produzir os seus meios de subsistência, ampliando sua esfera de produção até atingir um grau que jamais seria observado na natureza. Uma águia pode enxergar muito mais distante do que o homem, mas isto não significa uma vantagem para a águia em comparação com o homem, uma vez que o olho humano vê as coisas muito melhor.

A utilização mais produtiva dos recursos que sua natureza biológica fornece, possibilitou ao homem aprender a desenvolver habilidades, que o permitiram espalhar-se por todo o planeta, de assentar-se sob os mais diversos climas, não especializando sua alimentação (como muitos animais fizeram), aumentando o seu raio de espraiamento. Somente o homem imprimiu seu selo sobre toda a Terra, de acordo

com sua vontade 71. Estas concepções de Engels não significam a tentativa de criar uma dissociação entre o homem e a natureza, pois o autor afirma que não se deve rejubilar por esta conquista, pois, muitas vezes, alguns resultados são imprevisíveis. Não se deve, segundo Engels (1991), dominar a natureza como um povo bárbaro que é estrangeiro a ela, mas sim conquistá-la através do conhecimento que foi historicamente construído de suas leis, lembrando que os homens não são exteriores à natureza [ou a natureza não é exterior ao homem]. É impossível manter uma posição de separação antinatural entre espírito e matéria, entre o homem e a natureza.

Dentro de uma concepção histórica da natureza, Engels (1991, p. 41), critica as várias concepções unilaterais que pregam somente as imposições que a natureza coloca ao homem e esquecem que

o homem também reage sobre a Natureza, transformado-a e

criando para si novas condições de existência. Da natureza da

Alemanha dos tempos em que os germanos dali emigraram,

resta muitíssimo pouco. A superfície da terra, o clima, a

vegetação, a fauna e os próprios seres humanos modificaram-

se imensamente, e tudo isso devido à atividade humana;

enquanto as modificações que se verificaram na natureza da

Alemanha, no decurso do tempo, sem a interferência, são

incalculavelmente pequenas.

Já a tomada de consciência da natureza ocorre num momento importante da história da humanidade, que é a constituição do modo capitalista de produção, cuja principal característica é a busca do lucro imediato sem preocupação com o desenrolar de suas ações. Como modo de produção que se estabelece em várias instâncias da sociedade, este imediatismo financeiro também será instituído nas relações e nas ações do homem sobre a natureza. Como cita Engels (1991, p. 226),

aos agricultores espanhóis, estabelecidos em Cuba, que

queimaram as matas nas encostas das montanhas (tendo

conseguido, com cinzas daí resultantes o adubo suficiente para

uma só geração, para cafeeiros muito lucrativos), não lhes

importava o fato de que, mais tarde, os aguaceiros tropicais

provocassem a erosão das terras que, sem defesas vegetais,