O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 33 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

A felicidade não tem preço, tem endereço – Florianópolis/SC

janela, ou parar na paisagem genuinamente social de um bar.147

Aliando-se à ideia da natureza como um elemento de consumo exclusivo para as classes altas da cidade de São Paulo, criam-se verdadeiros espaços de segregação no interior do tecido urbano paulistano.

Dos empreendimentos analisados, apenas uma parcela pequena, da grande oferta encontrada diariamente nos jornais, reforça a questão da mudança de perspectiva na relação do homem com a natureza, passando, como já foi observado nos capítulos anteriores, de uma ação na natureza visando os aspectos de vida coletivos da sobrevivência do grupo para um padrão individualista, segregatório e egoísta de consumo da natureza, enclausurada nestes condomínios e de usufruto apenas de seus moradores, ou melhor, consumidores.

A natureza na cidade não é um bem coletivo, não é um objeto socialmente compartilhado, é uma mercadoria exclusiva que "o dinheiro" pode comprar.

 

A felicidade não tem preço, tem endereço –

Florianópolis/SC

A cidade de Florianópolis, ou melhor, a área insular do município148, vem sendo apontada nos últimos anos como um oásis de qualidade de vida urbana no Brasil. Uma campanha maciça na mídia vende as benesses da vida na Ilha de Santa Catarina. A natureza, a infra-estrutura, a educação, a sofisticação e a segurança são os aspectos vendidos pelo marketing de Florianópolis, capitaneado pelas grandes empresas do mercado imobiliário e pelo poder público, estadual e municipal.

Toda esta campanha, que se intensificou a partir do final dos anos 90, resultou numa explosão da especulação imobiliária na Ilha, com a atração de pessoas, principalmente paulistas, gaúchos e

fluminenses, de alto poder aquisitivo149. Estima-se que a participação na população das classes mais altas cresceu 10% nos últimos 10 anos em função desta migração para a cidade. Este crescimento da procura por moradias levou a um grande aumento dos preços dos imóveis na Ilha, tanto para a sua aquisição quanto para os aluguéis. Muitos empreendimentos e loteamentos foram construídos, associando qualidade de vida com natureza para cooptar os investimentos dos "futuros moradores" desta "Ilha da Magia", repetindo as mesmas estratégias de markting observadas em São Paulo.

Um bom exemplo da relação do mercado imobiliário com a natureza em Florianópolis é a área de Jurerê (norte da Ilha de Santa Catarina) dividida em: Jurerê Tradicional e Jurerê Internacional. O senso comum dos moradores de Florianópolis e os valores do IPTU indicam entre estas duas localidades uma grande diferenciação econômica, com a associação entre a maior renda – Jurerê Internacional – e a simplicidade – Jurerê Tradicional.

Jurerê Internacional está voltado para o estabelecimento de moradias permanentes e não apenas para atender às demandas turísticas no verão. Estas moradias são destinadas para uma população de altíssimo poder aquisitivo, originada de outros estados (segundo uma corretora de imóveis 30% dos compradores dos imóveis são gaúchos, outros 30% paulistas, e apenas 15% catarinenses), uma vez que as construções devem ter no mínimo 400m 2 e seguem um padrão arquitetônico, obrigatoriamente predefinido, no intuito de criação de uma identidade urbanística, no caso, um estilo "Califórnia". Estas construções não devem possuir muros, criando uma atmosfera de segurança e proximidade, típica da imagem do subúrbio americano. Mesmo assim, observam-se em praticamente todas as casas placas, indicando a opção dos moradores por serviços de segurança privada, além de contar com a segurança própria do loteamento, que no início de sua ocupação era realizada por seguranças em bicicletas (ecologicamente correto). Entretanto, em algumas construções também podem ser vistas obras de aumento dos muros laterais e a construção de cercas, pois se tem constado um aumento dos roubos e furtos na área. Grande parte dos moradores de Jurerê Internacional divide a sua residência

entre Florianópolis e outras cidades, notadamente São Paulo 150.

LOCALIZAÇÃO DOS EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS EM

FLORIANÓPOLIS

Com referência ao plano urbano do loteamento, ele se aproxima da configuração de um "bairro-jardim", com blocos retangulares, lotes amplos e grandes áreas verdes nos intervalos das construções, principalmente, entre os blocos de apartamentos (com média de 4

pavimentos). O traçado urbano 151 está assentado sobre um sítio plano – um terraço marinho – o que traz grandes problemas de drenagem nos períodos chuvosos e um grande refluxo de esgotos. Ainda assim, a área de Jurerê é uma das únicas de Florianópolis a contar com sistema de coleta e tratamento de esgoto, sendo, juntamente com o tratamento de água, um serviço que não é prestado pelos órgãos públicos.

Observando uma fotografia aérea, nota-se que os primeiros blocos imediatamente posteriores à praia são maiores que o restante do tecido urbano, com uma menor densidade de construções, configurando-se nas áreas mais valorizadas do loteamento, com construções de altíssimo padrão e preços elevados (em média, cinco milhões de reais, segundo informações de uma corretora de imóveis). Na área central de Jurerê, encontra-se o centro comercial do loteamento – o "Open Shopping" – e uma área residencial verticalizada. É interessante notar o uso da natureza como uma barreira entre esta zona mista (comercial e residencial) e uma zona exclusivamente residencial horizontal. Entre estas duas zonas observa-se um parque verde linear, margeando um canal aberto para drenagem do terraço marinho, servindo como uma "barreira verde" entre uma área mais popular e movimentada e uma outra mais elitista e "tranquila".

Outro ponto forte vendido no mercado imobiliário de Florianópolis está relacionado a vista (do mar, das lagoas ou das áreas verdes). Desta forma, há uma grande valorização das sacadas dos empreendimentos. Um diferencial da infraestrutura dos empreendimentos com padrão mais elevado, principalmente edifícios residenciais, é a presença de churrasqueiras nas sacadas. Entretanto, apesar da vista, por exemplo, dos prédios localizados na Avenida Beira Mar Norte, ser espetacular, os outros sentidos parecem não merecer a atenção devida, como o olfato, por conta do mau cheiro dos esgotos sem tratamento lançados na Baía Norte e a audição, pelo barulho incessante dos carros e ônibus que circulam pela avenida, a mais movimentada da cidade.

Os agentes do mercado imobiliário retomam a romantização da natureza e a valorização do mito da natureza paradisíaca e intocada, negando toda a construção social da natureza ao longo da história humana. Confirma-se uma ideia de Santos (1999, p. 53),

no princípio, tudo eram coisas, enquanto hoje tudo tende a ser

objeto, já que a partir de um conjunto de intenções sociais,

passam, também, a ser objetos. Assim a natureza se

transforma em um verdadeiro sistema de objetos e não mais de

coisas e, ironicamente, é o próprio movimento ecológico que

completa o processo de desnaturalização da natureza, dando a

esta última um valor.

Em Florianópolis, diferentemente do que foi constatado em São Paulo, a presença material/física da natureza – água e vegetação – se faz mais presente. Mesmo assim, na região central, a presença de áreas verdes fica restrita às praças e aos jardins, o que não impede que alguns empreendimentos utilizem a natureza apenas como ideia/símbolo, neste caso, muito próximo aos casos analisados na cidade paulista.

Os agentes do mercado imobiliário ainda buscam impor um crescimento acelerado da população da ilha, a qual se configuraria num grande resort urbano para população de alta renda. Os pobres seriam "expulsos" para o continente. A ideia do crescimento urbano, associada com valorização da natureza e da qualidade de vida, não está atrelada, infelizmente, às fortes tradições culturais dos moradores da ilha – pescadores e brasileiros de origem açoriana (os manezinhos). A especulação imobiliária, além de se apropriar de natureza ainda presente em certos recantos da ilha, está destruindo a cultura local, vista como algo ultrapassado e fora de moda. A modernidade urbana cosmopolita é o desejo dos empreendedores do mercado imobiliário de Florianópolis. Este processo se dá da mesma forma que o estabelecimento de um padrão internacional de natureza para as cidades, como foi observado em São Paulo.