O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 23 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

Uma natureza tecnificada

Toda esta transformação instiga Milton Santos (2000ª, p. 18) a pensar que

de certo modo, acabou a natureza. Bem, dizer que a natureza

acabou é uma forma de provocar uma discussão mais acesa.

Na realidade, a natureza hoje é um valor, ela não é natural no

processo histórico. Ela pode ser natural na sua existência

isolada, mas no processo histórico, ela é social. Quer dizer, eu

valorizo em função de sua história. Isso já ocorria antes, mas

hoje é muito mais evidente. O valor da natureza está

relacionado com a escala de valores estabelecida pela

sociedade para aqueles bens que antes eram chamados de

naturais.101

 

Uma natureza tecnificada

A ação humana sobre a natureza é uma necessidade. É um engano acreditar que o homem primitivo dispunha do que necessitava livremente na natureza. Este homem primitivo sofria perante as condições colocadas pela natureza o que dificultava sua existência

e resultava em uma luta constante contra a natureza.102 Uma variedade de formas de relações do homem com natureza se estabelecem, se aperfeiçoam ou se aceleram:

- pela adaptação da natureza à necessidade de comida;

- pela "civilização" através do controle dos ciclos naturais,

irrigação, da implosão de morros e montanhas, abrindo canais e

túneis, construindo lagos, drenando pântanos;

- pelo batismo ou pela definição dos nomes aos lugares. Para

Santos (1999, p. 53), "o fato simples de reconhecer e nomear

um objeto supõe um aprendizado, explícito ou implícito";

- pelo mascaramento da natureza para torná-la mais facilmente

digerida ou consumida.

A modificação do mundo natural em território humano é legitimada pelas necessidades, requerimentos, desejos e esperanças que a vida coloca e podem ser vistas tanto como um projeto de emancipação coletiva ou pelo conforto produzido em nossa vida individual, de acordo com Habermas (1997). Segundo o geógrafo Elisée Reclus (1985, p. 42), "a primeira das condições para que o homem chegue um dia a transformar completamente a superfície do globo é a inserção da natureza à vida social, ao território". Para Soper (2000), a humanização da natureza, permite uma medida de alívio ao ser humano. Ela dá uma certa suspensão da moral universal que governa as relações entre as pessoas, e das lutas por autonomia que são ligadas a isto. Permite uma fuga da racionalidade que ao longo dos séculos o próprio homem

construiu 103.

A trajetória das ideias, bem como a materialidade das grandes cidades, que é apresentada nos dias atuais, acentua o papel da ação humana na definição dos conteúdos e limites da natureza, sua valoração, valorização, conservação e grau de dependência. O período atual também mostra claramente a construção cultural da natureza e como as concepções e representações sobre ela estão intimamente ligadas aos territórios construídos pelo homem e à vida cotidiana urbana.

O espaço, como um sistema de objetos e ações, apresenta-se mais e mais carregado de artificialidade, as quais, muitas vezes, não apresentam nenhuma relação horizontal com o grupo social que habita este espaço. Produz-se, desta maneira, uma configuração espacial ou territorial que nega com mais força a natureza primitiva dos meios naturais e torna-se claramente fruto de uma ação histórica e intencional dos homens. Nesta natureza inteiramente humanizada, nem as "plantas e animais são herdados das gerações anteriores, mas são criaturas da biotecnologia" (SANTOS, 1999, p. 242). Mas deve-se ter certa cautela neste processo, pois a força que o impulsiona é o comércio, o mercado, o consumo e a produção, associados à busca, apenas da satisfação individual.

Além disto, tem-se a "detecção do mundo a partir de satélites. É a primeira vez, na história do homem, que o mundo se torna realmente conhecido, o mundo no seu conjunto e no seu detalhe, em função de seu formidável progresso técnico" (SANTOS, 2000ª, p. 28). A natureza passa a ser caracterizada como uma força produtiva. Todos os lugares do mundo foram atingidos por este fato direta ou indiretamente, em variadas velocidades e intensidades. Segundo Serres (1991, p. 138),

aparelhados suficientemente longe de nossa Terra, podemos

finalmente considerá-la inteira. O camponês, costas

encurvadas, vivia dos sulcos e só a eles via; o selvagem só a

sua clareira ou os atalhos pelo maciço florestal; o montanhês,

seu vale, descoberto por pastagens; o burguês, a praça pública,

vista do seu andar; o piloto de avião, uma porção do Atlântico

[...] Eis uma bola sem muita nitidez, rodeada de turbulências: o

planeta Terra tal qual o fotografaram pelos satélites. Todo.

De acordo com Harvey (2000), a imagem de satélite da NASA, que mostra toda a Terra como um globo, flutuando pelo espaço, foi rapidamente assumida como um ícone de uma consciência. Entretanto, esta nova consciência insere um elemento de super-acumulação do capital no período, com a conquista de novos mercados, maior exploração dos já conhecidos e uma característica cosmopolita da produção e do consumo. O próprio homem destrói, para Harvey (2000), as fundações geográficas – ecológicas, espaciais e culturais – de suas próprias atividades, construindo um mundo a sua própria imagem.

O avanço técnico transforma a natureza em algo cada vez mais

social do que natural104. A natureza insere-se na possibilidade do homem produzir sua história. O processo histórico – social e não natural – controla, incorpora e produz naturezas, enquadrando-a nas qualidades humanas. Neste sentido, a sociedade toma posse do que era visto como um presente divino (MARX & ENGELS,

1980).105

De acordo com Bachelard (1983, p. 146), a técnica se tornou muito mais poderosa que a natureza, pois

é impossível levar o som de um continente a outro por meios

naturais, por mais que possante que se imagine o porta-voz. O

intermediário eletrônico é humano, é social. Acima da biosfera e

abaixo da ionosfera, o homem determinou uma radiosfera

sujeita a uma causalidade eminentemente técnica. Essa técnica

pode, sem dúvida, ser danificada por parasitas, por

perturbações magnéticas. Mas esses parasitas, essas

desordens naturais, essas desordens causadas pela natureza

só fazem compreender melhor a força da organização racional

e técnica que a limita e que as anula.

Entretanto, cabe ressaltar, segundo Habermas (1997), que a técnica, como projeto histórico-social, é repleta da intencionalidade

dos sujeitos dominantes que usam este aparato no controle 106, tanto da natureza quanto da sociedade.

Transmutar e transformar a natureza em sociedade é uma mudança na qualidade daquilo que é natural para aquilo que é humano. Primeiramente, esta transmutação se deu na superfície da natureza, na sua aparência, acreditando que mudando a aparência, mudar-se-ia a qualidade. Hoje, as possibilidades técnicas aperfeiçoam cada vez mais esta metáfora alquimista. O homem chega mais perto de mudanças nas qualidades essenciais da natureza, através da genética. Uma materialidade racionalista preenche a natureza em profundidade. Cada vez mais esta substituição do natural pelo social acontece, aliada à ampliação das esferas do conhecimento humano

e mais distante a natureza primitiva se encontra.107

Se as técnicas inserem uma constante dissociação entre o homem e a natureza, cabe a cultura propiciar algumas aproximações, mesmo que metaforicamente. Há sempre uma observação sobre a necessidade que os homens têm de se aproximar da natureza e isto pode ser dado tanto pela sua contemplação, controle ou transformação. O homem imita a natureza e ao mesmo tempo a desnaturaliza. Pode-se exemplificar esta relação dialética com um jardim onde há algo natural - plantas e flores - mas ao mesmo tempo social, cultural e técnico. A paixão pela geometria regular é a necessidade de enquadrar a natureza num padrão uniformizado e compreensível pela mente humana. A natureza apreendida é aprisionada em objetos e ações, com finalidades bem definidas. A relação do homem com a natureza passa a ser mediada por técnicas e objetos, como jardins, parques e bosques reflorestados.

A inserção da natureza na produção social do mundo é de acordo com Casini (1975), um fato presente na vida do homem desde as

mais remotas culturas até a mais racionalista 108. E para Merleau-Ponty (Marxisme et Philosophie, apud SCHMIDT, 1976), a transformação da natureza pela sociedade cria formas transnaturais, mas nada sobrenatural.

Preservam-se, conservam-se e valorizam-se aqueles elementos que moral, estética ou monetariamente são relevantes. Se em algum momento da história estes julgamentos foram feitos com um caráter subjetivo, nos dias atuais a definição de valores estéticos e monetários da natureza se dá num projeto extremamente objetivo e intencional, como no caso das incorporadoras e construtoras de condomínios de alto padrão, ou na escolha das embalagens de produtos industrializados com apelos à natureza.

Além disto, no período atual, os julgamentos estéticos e morais podem ser definidos pelos enquadramentos das janelas dos carros, trens ou aviões. Aliás, Soper (2000) escreve que o enquadramento da visão da natureza, se insere num momento de supervalorização do gosto estético do motorista, onde a natureza é produzida, ou suas representações, tendo como design, uma rodovia. Uma natureza adaptada para as necessidades modernas. A concepção do homem sobre estas atrações da natureza é moldada de acordo com esta visão. Num mesmo espaço, diferentes objetos, sob sua aparência, instigam a desvelar as formas que se materializam na paisagem, em muitos casos, criando uma caricatura da natureza.

Em lugares de grande beleza cênica natural, uma praia, uma cachoeira, um parque, apesar deste apelo estético vinculado a uma natureza primeira, o que atrai as visitas são muito mais as facilidades de acesso do que as próprias belezas naturais, bem como as infra-estruturas: sanitários, lanchonetes e até lojinhas de

souvenires 109 . Será que Elisée Reclus estava certo, a natureza primitiva é monótona aos olhos dos homens contemporâneos? Se a resposta for positiva, as ideias e conceitos de natureza hoje se tornam ainda mais contraditórias. Qual o motivo que leva o conceito estético de natureza, nas culturas ocidentais, a considerar, mesmo a natureza transformada ou a natureza nas cidades, como uma natureza natural? Por que ao invés de ver e valorizar aquela natureza, ou aquele objeto, que insere uma naturalidade, como sendo produtos da inteligência e do trabalho do homem se valorizam as ideias e representações de natureza primitiva? Por que quase sempre quando se emprega o adjetivo natural institui-se uma aura pura à coisa ou produto e quando se menciona artificial, na maioria dos casos, vincula-se a uma referência pejorativa?

A lógica da natureza artificializada busca imitar e superar a natureza natural, a partir da imposição de certo rigor matemático, criando espaços da racionalidade. A diferenciação entre os lugares se dava de acordo com a natureza e hoje de acordo com o grau de tecnificação do território – neodeterminismo do espaço artificial?