O Direito à Natureza na Cidade
A natureza na cidade como atrativo imobiliário
exuberante que até as árvores podadas e tratadas crescem
como se fossem na floresta.
A autora ainda fala que a natureza mantida "selvagem" tira metade do seu encanto.
Não basta uma moda de jardim para mudar o desenho do espaço urbano. Para que isto se implemente definitivamente, é preciso que se crie um sistema de ideias que permita esta constante remodelação. Não se pode mais tratar o espaço com a rigidez dos tempos passados e valorizar menos a história dos lugares com a destruição de sítios antigos.
A natureza na cidade como atrativo imobiliário
No século XIX inicia-se um movimento mais intenso de associação entre a natureza na cidade e a especulação imobiliária, com a construção de jardins e parques pelos agentes imobiliários tendo como objetivo a valorização dos loteamentos e das edificações construídas no entorno. A natureza na cidade passa a ser uma "isca" ou uma imagem/símbolo para atrair os compradores, em um momento de grande valorização da natureza na cidade, quer seja por motivos estéticos (os passeios e a exibição de poder) ou por
razões higienistas 134 (de saneamento da cidade cada vez mais poluída pelas indústrias).
Neste momento da história das relações entre a cidade e a natureza, Reclus (1886) coloca duas formas de apropriação da natureza pelos empreendimentos imobiliários: uma direta e outra indireta. A apropriação direta da natureza, cada vez mais artificial, se dá, como exemplo, nas áreas costeiras, nos "pitorescos penhascos" e nas "praias charmosas" que tem seu uso e acessos monopolizados pelos proprietários destas áreas, chamados por Reclus de "invejosos", bem como pelos agentes especulativos da terra que "apreciam a beleza da natureza" da mesma forma que um cambista aprecia uma barra de ouro, ou seja, apenas como forma de realização monetária. A apropriação direta da natureza está presente também nas áreas de lagos, montanhas e demais paisagens valorizadas, em um determinado momento, fazendo que a natureza, materializada na paisagem, se torne propriedade privada, negando o caráter coletivo da produção e incorporação da
natureza na vida social 135. Já a maneira de apropriação indireta da natureza dá-se na forma de sua utilização para a venda de produtos. Segundo Reclus (1886), prédios e propagandas ocupam áreas de grande beleza paisagística natural como formas de venda de mercadorias, produtos e serviços.
Na associação entre especulação imobiliária e a natureza, os incorporadores se apropriam de todos os locais charmosos e belos, dividindo-os em lotes retangulares, enclausurando os mesmos em muralhas uniformes onde são construídos mansões e casarões pretensiosos. Para os que passeiam pelos caminhos e trilhas, nestes pretensos espaços de campos, a natureza não é mais do que representada por arbustos talhados e amontoados de flores que são entrevistas através das grades (RECLUS, 2002).
Será em Londres que primeiro se observará estes processos de apropriação e vinculação do mercado imobiliário de terras urbanas com o processo de valorização imobiliária a partir de uma associação com uma ideia de natureza. No início do século XIX a transformação das terras do Royal Marylebone Park num parque urbano – o Regent's Park. Todo o modelamento e estruturação deste parque que foi financiado pelas empresas imobiliárias londrinas, cujo objetivo era a construção de casas no entorno deste novo parque. Casas com vistas e terraços e "villas" para pessoas ricas. A ideia era que a venda das casas nas proximidades do parque pagaria os investimentos gastos no Regent's Parks. Segundo Munford (1998), na área do atual Regent's Park, que antigamente pertencia à Igreja Mary-le-Bow, estava sendo prevista a construção de um cemitério. Entretanto, o crescimento da cidade e a possibilidade de realização de lucros prevaleceram sobre o uso que se daria à área, que foi, portanto, loteada. "Quando a Coroa planejou o Regent's Park de Londres, o próprio parque foi abertamente considerado um artifício para aumentar o valor dos terrenos de propriedades vizinhas, pertencentes à Coroa Real." (p. 414)
Isto num momento de crescimento das cidades e enriquecimento de uma parcela da população urbana, que comprava terras, construía vilas e casas com jardins, aquecendo o mercado imobiliário que soube aproveitar esta demanda pelo contato com a natureza na cidade. Deve ser lembrado que as cidades européias viviam uma acelerada industrialização e a poluição atmosférica era uma constante. A ideia do verde na proximidade das casas trazia um alívio contra esta poluição.
A apropriação da natureza, uma apropriação da apreciação estética da natureza, constitui-se em uma salvaguarda das suas belezas como forma de agregação de valor a uma propriedade privada. Cria-se uma diferenciação espacial da natureza na cidade de acordo com a estratificação social. Nos centros urbanos e nos bairros nobres o que se via era uma natureza trabalhada e bem cuidada – tanto no jardim inglês quanto no francês, um lugar para passeio e exibição, um lugar de prestígio. Nas periferias, ainda no modelo clássico de periferia pobre, a natureza bruta e ainda "não controlada", fazia-se
presente, trazendo enchentes, inundações, doenças e frio 136.
Desenvolvem-se tentativas de saneamento desta natureza bruta para evitar a contaminação e a proliferação de doenças na população. Na Alemanha aparecem as primeiras tentativas de popularização dos parques e jardins da cidade, dando origem aos Volksparken (parques populares).
Segundo Capel (2002) o conceito de parque público também surgiu como resposta para os problemas sanitários das cidades industriais européias, fixando a ideia da necessidade dos parques e jardins nas cidades européias do século XIX. Na reforma de Paris por Georges Haussmann, entre 1853-1870, foram adaptados 1.934 hectares de áreas verdes na cidade por motivos estéticos e sanitários, como na criação de parques periféricos.
Neste movimento foi criado o Bois de Boulogne, cuja área foi doada a cidade por um empreendedor imobiliário, que era proprietário das terras do entorno do parque. As colinas e lagos artificiais, construídos seguindo o modelo inglês, tornaram o lugar numa área de sucesso junto à alta burguesia e aristocracia parisiense. Logo entrou "na moda", valorizando imensamente o seu entorno (para reforçar, do mesmo proprietário das terras doadas para a construção
do parque), que foi vendida como "o céu para os ricos"137. Do lado oposto à cidade de Paris foi criado o Bois de Vincennes, destinado a ser o parque das camadas populares. Entretanto, como as classes populares trabalhavam em média 12 horas por dia, não tinham tempo livre para frequentar estes parques.
Outro plano de reforma urbana importante para visualizar o papel que a natureza na cidade teve foi o desenvolvido por Idelfonso Cerdá, na Reforma de Barcelona em 1859. O objetivo era dar viabilidade e habitabilidade à cidade catalã. O lema de Cerdá era urbanizar o campo e ruralizar a cidade. Esta ideia também está presente no Manifesto Comunista, escrito por Marx, e publicado inicialmente em 1848.
Em relação à natureza na cidade, Cerdá, segundo Capel (2002), considerava que o jardim é tão necessário a cidade quanto à família ao homem, sendo um lugar indispensável na vida urbana, uma necessidade para todos. Para Cerdá, a natureza na cidade (principalmente as árvores) também tem a função de renovar o ar, cada vez mais poluído e carregado de doenças, sendo observada uma constante falta destes espaços nas áreas pobres e nos bairros de classe média de Barcelona.
Nos Estados Unidos, graças a George Marsh, assiste-se a um grande processo de valorização da natureza a partir do século XIX. São criados os Parques Nacionais (como o Yosemite Valley). Já os parques urbanos começam a ser esboçados em 1851, quando se inicia o plano para o Central Park, em Nova Iorque. Nos Estados Unidos é dada ênfase aos parques em estilo inglês, vinculado as ideias estadunidenses de liberdade e democracia, com forte valorização da natureza local, através do plantio de árvores do
próprio lugar. Em Nova Iorque 138, a especulação imobiliária no entorno do parque também se apropria das referências à natureza, levando a super adensamento das áreas próximas.
Como as propagandas de empreendimentos imobiliários da atualidade (que serão analisadas no próximo capítulo), em 1866, no Plano de Riverside, Illinois (EUA), a Riverside Improvement Company já fazia menção a sofisticação da natureza na cidade. Como mostra Capel (2002), a propaganda de Riverside mostra o encanto refinado da beleza silvestre com paz e tranquilidade, positivamente pitoresco e que contrasta com os ângulos retos que
caracterizam as cidades modernas139.
Uma constatação do século XVIII, a mudança das formas prioritárias das relações sociais, deslocando-se da esfera coletiva para uma valorização do indivíduo, assenta-se efetivamente no século XIX sobre todos os aspectos da vida social.
Observa-se uma expansão dos jardins, praças e parques arborizados em várias cidades. Na maioria das cidades, que foram desenhadas e planejadas a partir das ultimas décadas do século XIX, foram previstos espaços para jardins públicos nas áreas centrais, com o predomínio do estilo inglês. Estas novas cidades e estes novos espaços verdes estavam vinculados ao aumento da preocupação com o prático e o funcional. Além disto, aumenta o número de grupos sociais mais abastados, vivendo exclusivamente nas cidades, que assimilaram os gostos da aristocracia pelos jardins. A classe média, em formação, também se preocupará em manter seus jardins particulares nas residências menores.
De acordo com Capel (2002), o subjetivismo romântico alia-se, no século XIX, às necessidades da produção industrial em massa, considerando-se as necessidades do mercado, que passa a valorar os gostos individuais dos consumidores, um gosto que era diferenciado. Desde o século XIX já não basta o verde. A industrialização e a democratização demandam também novos espaços para o ócio. [...] Nos jardins e parques começam a ser instalados elementos que logo seriam denominados "mobiliário