O Direito à Natureza na Cidade
As referências à natureza
A natureza é uma referência constante no dia a dia. Nas referências à natureza, encontram-se várias formas de "fugas", mesmo que simbólicas, do mundo. Segundo Soper (2000), a relação com os animais é um exemplo. Na antropomorfização dos animais, animais recebem traços da personalidade humana: a responsabilidade (o cão de guarda ou o cão pastor) ou a afetividade (o gato que tem amor a casa). Também recebem nomes humanos e são interlocutores de muitas conversas. Segundo Thomas (1996, p. 223), "a delicadeza com os animais era um luxo que nem todos tinham o direito a praticar" durante boa parte dos séculos XVIII e XIX. Dialeticamente, os homens também usam os animais para distinguir-se de sua própria animalidade. Assim, os animais passam a representar os homens com baixa inteligência (o burro), com falta de modos civilizados (o cavalo), ou com o excesso de peso (o porco, no caso do Brasil, ou a vaca para os norte-americanos). Os mesmos animais que são úteis à vida – em tarefas produtivas ou por simples razões afetivas – tornam-se bestas. Acrescenta Thomas (1996, p. 53) que na Idade Moderna e no início da Idade Contemporânea, a bestialidade dos animais poderia ser aplicada aos homens, "uma vez percebidos como bestas, as pessoas eram passíveis de ser tratadas como tal. A ética da dominação humana removida os animais da esfera de preocupação humana [as bestas deveriam ser exterminadas]. Mas também legitimava os maus tratos àqueles de viviam uma condição supostamente animal".
Descobrir o grau de naturalidade de um objeto requer a compreensão de sua história e não apenas a observação de sua aparência, isto porque todas as sociedades por mais simples que sejam seu modo de vida – comparado com as civilizações ocidentais contemporâneas – desenvolveram processos de alteração, controle e domínio da natureza.
Considerando as características do período atual, dentro de uma sociedade de consumo, os objetos ou as mercadorias tornam-se os mediadores das relações entre o homem e a natureza. Estes objetos e mercadorias podem ser um simples creme dental com sabor natural; o papel higiênico natural (sem perfume) ou com perfume natural (com perfume de flores); o protetor de tela do computador com suas árvores de folhas vermelhas ou os peixinhos nadando; as árvores cercadas por uma tela com propaganda de supermercado; os lugares turísticos, onde se pode passear por praias desertas ou pelas trilhas ecológicas na mata; os condomínios de alto padrão nas cidades. Cabe destacar que não se busca impor uma mudança no uso da palavra natural no cotidiano, mas sim explorar suas ambiguidades, bem como desvelar seus usos.
De acordo com Santos (1994, p. 23), "se antes a natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria uma natureza mediática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada como se fosse o Todo". Continua o autor (op.cit., p. 24),
quando o 'meio ambiente', como Natureza-espetáculo, substitui
a Natureza Histórica, lugar de trabalho de todos os homens, e
quando a natureza 'cibernética' ou 'sintética' substitui a natureza
analítica do passado, o processo de ocultação do significado da
História atinge o seu auge. É também desse modo que se
estabelece uma dolorosa confusão entre sistemas técnicos,
natureza, sociedade, cultura e moral.
A natureza se transforma num grande shopping center. Aliás, o maior shopping center do Brasil (Parque Dom Pedro, em Campinas) utiliza uma aproximação com a natureza para se diferenciar na concorrência, com direito ao portal das águas, das pedras, das colinas, das flores e até grama artificial. Talvez este centro comercial sintetize de maneira incisiva a ideia da apropriação e da comercialização da natureza no período atual: o marketing verde e a natureza enclausurada sob formas que dão a ideia de serem naturais, mas que na verdade são apenas falsificações.
É interessante notar que em muitos casos as referências à natureza se dão através de seus elementos de grandes proporções. A beleza da natureza residiria nas montanhas, nos rios ou mesmo nas árvores. Se esquece que, no período atual, aquilo que poderia ser considerado ainda como uma natureza primeira se esconde no meio das estruturas microscópicas, que o olho humano ainda não alcançou.
O mesmo se dá com a definição imposta de que toda a natureza é verde. Vários produtos quando querem mencionar algo natural sempre colocam a cor verde como representação da natureza. Nota-se que esta escolha pela natureza verde pode estar relacionada ao fato de que as plantas foram os elementos da natureza que mais se tornaram conhecidos, controlados e manipulados pelos homens ao longo de sua história, tanto de maneira empírica (primeiros cultivos) quanto através da ciência (botânica). Ou seja, a natureza representada pelas árvores e pelo verde é uma natureza já amplamente tecnificada que não apresenta riscos ao homem.
Esta natureza monocromática nada tem a ver com a variedade de cores que a natureza, em qualquer período, possui. A ideia de natureza que se apresenta hoje, relacionada à fluidez do mundo atual, contraditoriamente, remete a uma rigidez no seu padrão, a perda da especificidade e da diversidade.
Quanto maior o grau de humanização dos lugares e quanto maior sua inserção no projeto racionalista-capitalista de consumo, mais a referência à natureza se torna uma necessidade e uma estratégia de marketing. De acordo com Lefebvre (1973), na sociedade contemporânea quem mais compreende os homens não são os cientistas sociais e humanos, mas sim os publicitários. Estes que compreenderam as formas da transformação da necessidade, por exemplo, de respirar e beber água, em desejos. Assim, a natureza transformada em mercadoria rara passa, no mundo dos desejos, a ser consumida através de produtos exclusivos, como garrafas de água mineral de grife ou da busca por moradias em condomínios vinculados à natureza.