O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 16 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

A época do homem na história da natureza

As ideias naturalistas conforme já foram mencionadas influenciarão o nascimento da Geografia como uma disciplina sistematizada,

pelas mãos de Alexander von Humboltd48. Os Quadros da Natureza remetem a uma forma ou procedimento de estudo da natureza baseado na observação, lembrando uma retomada do ideal da contemplação no pensamento clássico. Na obra Cosmos, Humboltd revela todo seu interesse pela estética da natureza e beleza da paisagem, como fontes de prazer intelectual e moral oriundo de sua observação. As viagens e "conquistas" do Capitão Cook, no Pacífico Sul, tendo como relatores George Forster e Johann Reinhold Forster, foram, segundo Glacken (1996), fonte de inspiração importantíssima para Humboltd em sua busca pelo entendimento da

natureza em sua máxima extensão, a Terra49.

Outro marco das ideias naturalistas, vinculado ao movimento Romântico, segundo Lenoble (1969), é a nascente substituição do modelo de jardim italiano ou francês, ordenado e geometrizado, pelo modelo do jardim inglês, onde a natureza manteria sua liberdade. O jardim inglês busca uma imitação da natureza, com grutas e cascatas, onde tudo é feito para copiar e conferir-lhe uma proximidade com uma natureza primitiva e pitoresca. As questões referentes aos jardins formais e jardins ingleses serão retomadas e aprofundadas posteriormente quando se tratar das especificidades da natureza na cidade.

 

A época do homem na história da natureza

Se durante milhões de anos a natureza reinou absoluta no controle da vida na Terra, as contribuições dos pensadores clássicos, renegada ou retrabalhada durante o Período Teológico e, resgatada no Período dos Descobrimentos, foram decisivas para se colocar em xeque a influência da natureza na vida humana e para delimitar a passagem para um momento de certo equilíbrio entre o homem e natureza, com uma vantagem humana, no que concerne ao controle dos processos que movem este mundo.

Considera-se de fundamental importância a contribuição que o Conde Buffon deu ao entendimento da visão sobre uma natureza humanizada, construída a partir de uma perspectiva política, econômica, cultural ou social. Desta forma, cabe aqui fazer um destaque de suas ideias em duas obras Histoire Naturelle e Des Époques de la Nature.

Buffon é claramente influenciado pelas ideias de Cícero (trabalhadas anteriormente), quanto à superioridade do homem na natureza, fruto de sua inteligência, habilidade (técnicas) e, principalmente, pelo uso consciente de suas mãos. Buffon faz o elogio da ação humana sobre a natureza, mas com a preocupação de que a sociedade, como um todo, se beneficiasse desta ação e incorporação da natureza. Resgata-se aqui a ideia da Emancipação Coletiva.

Buffon50, segundo Glacken (1996), não aceitava muito bem os ideais românticos sobre a natureza. Para ele, o homem tem um imenso poder para transformar a natureza, tendo uma grande crença nas tecnologias e nas possibilidades de melhora para o indivíduo e para a sociedade. Partidário do estudo da natureza através de sua história, Buffon vê a natureza como um sistema de leis estabelecidas pelo Criador, cuja função é dar existência às coisas e aos seres em sua contínua sucessão. Entretanto, a natureza não é meramente uma coisa nem um ser, pois desta forma seria o próprio Deus. A natureza pode ser considerada como um poder vivo e gigantesco, que preenche e anima todas as coisas.

O homem, para Buffon, de acordo com Glacken (1996), está na ordem dos animais, mas é completamente diferente deles. Está na natureza, mas de uma outra forma. Enquanto os animais vivem da repetição de seus instintos, vivendo uma sucessão dos mesmos padrões, o homem, pela sua inteligência, razão e capacidade de falar, criar e julgar se diferencia. O homem é o ser superior entre os seres viventes.

Buffon (Histoire Naturelle) considera a natureza selvagem como algo horrível e letal, sendo função do homem sua conversão em algo grato ou habitável, através das obras possíveis de transformação. Uma nova natureza salta de nossas mãos. Quão bela é esta Natureza cultivada! Que brilhante és e quão esplêndida,

quando adornada pelos cuidados do homem!51

Em relação à ação do homem sobre a natureza, Buffon escreve que o homem é o mais nobre produto da natureza e a natureza penetrável para o homem, se multiplica sob seus cuidados de muitas e desejáveis maneiras. Flores, frutos e cereais, espécies de animais úteis têm sido transportadas, difundidas e incrementadas em grande medida; espécies inúteis têm sido eliminadas; a mineração tem progredido. As enxurradas têm sido contidas, os rios direcionados e controlados. O mar tem sido vencido. A terra tem sido restaurada e fertilizada. Os prados risonhos, os pastos, as vinhas e os hortos das colinas, cujos topos estão coroados por árvores úteis e bosques jovens; as grandes cidades que ocupam lugares antes desertos, os caminhos e comunicações são algumas manifestações de poder e de glória que mostram suficientemente que o homem, dono do domínio da Terra, tem mudado-a e renovado-a em toda sua superfície, sempre compartilhando este

império com a natureza 52.

O homem que multiplica animais e plantas, bem como muda suas distribuições, ao seu desejo e necessidade, que busca melhorar e controlar os climas para incrementar sua própria existência, age sobre a natureza natural ou sobre a primeira natureza, a qual era para Buffon, sem charme e, em certo sentido, macabra (visão contrária aos ideais românticos de uma natureza natural pitoresca). Nesta ação sobre a primeira natureza, o homem, através de sua ação, começa a criar ou produzir uma segunda natureza. E Buffon, em Les Époques de la Nature , mostra uma Sétima Época, um momento onde a primeira natureza passa a ser a segunda natureza. Segundo o autor (op. cit.), nesta Sétima Época, finalmente, toda a face que a Terra exibe o selo e a marca do poder do homem. Mesmo que subordinado ao poder da natureza, o homem tem feito muitas vezes mais que esta, ou ao menos tem ajudado-a tão maravilhosamente que, com a ajuda da mão humana, a Natureza tem se desenvolvido em toda a sua extensão e tem chegado