O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 4 de 39

Páginas do PDF

O Direito à Natureza na Cidade

II - Uma periodização para comprender as relações entre a cidade e a natureza

II - Uma periodização para

comprender as relações entre a

cidade e a natureza

 

Este capítulo se configura como um esforço metodológico, a partir de uma concepção de método, que busca a sistematização de procedimentos de análise e de interpretações que dêem conta do arcabouço teórico-conceitual das relações estabelecidas ao longo da história da humanidade entre a cidade (sociedade) e natureza, do ponto de vista simbólico das representações e da própria ação social, através das técnicas, na produção do espaço e nos usos do território.

De acordo com Kosik (1976, p. 10),

no trato prático-utilitário com as coisas - em que a realidade se

revela como mundo dos meios, fins, instrumentos, exigências e

esforços para satisfazer estas - o indivíduo 'em situação' cria

suas próprias representações das coisas e elabora todo um

sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto

fenomênico da realidade.

Como metodologia de pesquisa neste trabalho, recorreu-se a

elaboração de uma periodização 6. Santos (1997, p. 23), define um período como

secções de tempo em que, comandado por uma variável

significativa, um conjunto de variáveis mantém um certo

equilíbrio, uma forma de relações. Cada período representa, no

centro do sistema, um conjunto coerente de formas de ação.

A divisão da história em períodos não é um fato, mas uma hipótese necessária ou uma ferramenta para o pensamento, válida até como uma forma de esclarecimento, tendo sua validade dependente da sua interpretação.

[...] empiricizamos o tempo, tornando-o material e, desse modo,

o assimilamos ao espaço, que não existe sem materialidade. A

técnica entra aqui com um traço de união, historicamente e

epistemologicamente. As técnicas, de um lado, dão-nos a

possibilidade de empiricização do tempo e, de outro lado, a

possibilidade de uma quantificação precisa da materialidade

sobre a qual as sociedades humanas trabalham. (SANTOS,

1999, p.44)

A respeito da materialidade do espaço geográfico, passível de periodização, Souza (1994) afirma que

a geografia deve sempre se referir a realidades concretas. O

texto e o contexto geográficos apresentam materialidades. A

geografia trata da evidência do real-concreto, que é histórico, e

tem sempre um lugar (sítio e situação) no espaço geográfico.

Neste sentido, a teoria geográfica implica necessariamente uma

referência empírica. Esta é, indiscutivelmente, um instrumental

metodológico essencial da geografia. As abstrações, embora

consideradas geográficas, carecem de referencial empírico

(histórico), do qual se vale a geografia para explicar seu objeto -

o espaço geográfico, que é também histórico [...] O teórico-

empírico é atributo do método geográfico.

Assim, para Souza (1994, p.48), um período é entendido como "etapa ou momento do modo de produção, muito bem expresso pelas formações sociais, as quais sempre realizam, num dado lugar, a combinação de ideias e momentos distintos". Uma periodização é uma possibilidade dada para o recorte metodológico do tempo, uma quebra da totalidade temporal em períodos, sem a perda das determinações/relações com a totalidade.

É preciso considerar os elementos dentro do sistema temporal ao qual pertencem, evitando apenas o elencar de datas históricas sem, contudo, chegar-se ao cerne do sistema temporal, que é a noção de totalidade ou conjunto de situações geográficas e históricas.