O Direito à Natureza na Cidade
As formas do urbanismo e a questão da natureza na cidade
urbano" 140 – bancos, quiosques, fontes, sanitários etc. Logo foi percebido que os parques eram um grande negócio: lugares de
passeio e de diversão (zoológicos, brinquedos etc.)141.
As formas do urbanismo e a questão da natureza
na cidade
A estruturação dos parques urbanos começa a ser um forte exemplo para o planejamento de todas as cidades. O objetivo era levar beleza às mesmas. Assim, no século XIX, o desenho dos jardins formais chega às cidades. Como exemplo, Capel (2002), cita o plano urbano de La Plata (Argentina).
O urbanismo "Beaux-Arts" é uma das correntes que irão procurar entender a cidade como jardim ou parque, criando espaços monumentais, praças, eixos viários, principais e secundários, com bosques. No centro desta cidade haveria um grande espaço equivalente ao palácio no jardim clássico. O desenho urbano vai assimilar a questão da simetria do jardim formal, elaborando uma hierarquização dos espaços da natureza na cidade através de uma geometria rígida.
Fundamentado nas questões higienistas e no urbanismo "Beaux Arts", o plano de Belo Horizonte, no final século XIX, já previa um grande parque público verde na área central. Segundo Segawa (1996, p. 70), "a árvore se tornava um símbolo de civilidade, de cultura, de patriotismo". Nesta direção, foram criados o Dia da Árvore, mais outros projetos de reflorestamentos (baseados no reflorestamento do maciço da Tijuca) e planos de arborização urbana.
O planejamento urbano difunde as ideias de claridade e espaços
abertos do higienismo 142, mas também retoma o rigor geométrico e a monumentalidade das formas. Nas cidades cresce os usos da topiaria, com o modelamento de arbustos em figuras geométricas simples, especialmente, retângulos, cones e esferas.
O número de habitantes nas casas também é reduzido, permitindo que seja liberado terreno no lote para a construção dos jardins, que antes de ser uma determinação estética era uma questão de posição social. Segundo Capel (2002) ter um jardim não era apenas um luxo nas casas da burguesia urbana, mas um indicador de status.
A associação cada vez maior entre casa e jardim e as experiências bem sucedidas em Londres, na área do Regent's Park (onde se tinha à ilusão de que o parque pertencia a cada casa) e Paris no entorno do Bois de Bologne, com grande êxito financeiro, impulsionam o interesse pelas áreas verdes urbanas atreladas aos grandes empreendimentos imobiliários. A ampliação das áreas verdes nas cidades deu-se, portanto, devido ao grande prestígio e valor que estas passaram a ter.
Na Inglaterra, o problema da salubridade das moradias populares se agrava. Com a ideia da higienização da natureza e sua função estética no embelezamento da cidade, começa a se desenvolver um projeto de aproximação definitiva entre a natureza e o plano urbano – as cidades-jardim. O desenho urbano respeitava a dimensão humana e evidenciava as ideias inglesas de natureza.
O slogan das cidades-jardim era: "Para cada família uma casa; em cada casa uma horta e um jardim". O modelo das cidades-jardim foi desenvolvido por Ebenezer Howard (1850-1928), e se constituiu num novo modelo de organização urbana. Segundo Howard (1996), o homem deve desfrutar ao mesmo tempo a sociedade e as belezas da natureza.
O plano das cidades-jardim era um complexo modelo com forte relação entre a cidade e o campo. Na cidade-jardim, a natureza domesticada desempenharia o papel do campo, trazendo a tranquilidade e o ar puro necessário à vida urbana saudável. Foi projetada como núcleos urbanos com 30.000 habitantes na cidade e 2.000 no campo. As cidades-jardim seguiriam um modelo de cidade radiocêntrica. Estava planejada uma grande rede interna de infraestrutura e de comunicação com outras cidades. As cidades-jardim não seriam apenas o lugar da moradia, mas também previa a instalação industrial. A propriedade seria comunal e não privada.
Em 1900, foi fundada a primeira cidade-jardim – Letchword (entre Londres e Cambridge), que só manteve parte da proposta morfológica, urbanística e dos jardins que existiam na proposta inicial. Esta cidade não materializou todas as propostas básicas da cidade-jardim de Howard (1996), de uma cidade orgânica em harmonia com a natureza – base da felicidade humana. A rica vegetação da cidade-jardim era composta por árvores frutíferas,
flores e legumes. 143
As críticas ao modelo das cidades-jardim eram baseadas na rigidez do plano urbano não adaptado ao sítio; nas moradias quase idênticas; na distância entre a moradia e o local de trabalho, pois poucos postos de trabalho foram criados no entorno da cidade; na fraca relação social entre os moradores; na desvalorização dos espaços públicos, uma vez que, no espaço familiar já havia um jardim.
Na Alemanha, com o crescimento das cidades, há também um aumento da demanda por moradias, com a construção de blocos de moradias na periferia das cidades projetadas como cidades-jardim. Entretanto, há uma explosão demográfica da cidade planejada para um número pequeno de habitantes. Na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, os jardins foram transformados em hortas para a produção de alimentos, garantindo a subsistência das famílias (CAPEL, 2002).
Na Exposição Universal de Paris, em 1900, foi recomendado que toda cidade reservasse 15% de seu espaço total para a criação de jardins e parques. Posteriormente, os Congressos de Higiene Urbana, em Paris e Berlim, elaboraram textos visando à proteção da natureza na cidade como forma de garantia da vida saudável.
As propostas de intervenção urbana passam a contar com um aumento da participação do Estado no planejamento. Antes limitado a coadjuvante do capital privado, o Estado passa a elaborar regulamentações sobre moradia e edificações (principalmente a altura dos novos arranha-céus que se difundiam mundo afora a partir dos Estados Unidos) e infra-estrutura (herança higienista).
Em 1924, ocorre em Amsterdã o Congresso Internacional de Planejamento Urbano, cujo objetivo era o desenvolvimento de formas de organização das funções e do espaço urbano, através da elaboração de planos de expansão urbana e zoneamento das cidades (definição de áreas centrais, zona industrial, zona de lazer, zona residencial).
Na Europa, várias cidades passam por grandes alterações no período entre as Guerras Mundiais, tais como:
- rápido crescimento das cidades;
- desenvolvimento das indústrias - localização das áreas
urbanas ou periferia das cidades;
- necessidade de organização das atividades urbanas e
dotação de equipamentos urbanos em maior número e em
maior velocidades;
- novos desenvolvimentos técnicos e científicos –
aperfeiçoamento do telefone;
- comércio;
- revoluções no mundo das artes – cubismo, impresionismo,
expressionismo;
- aumento da frota de veículos.
Em razão destas rápidas transformações, os trabalhos de Le Corbusier e as novas formas de urbanismo passam a defender uma interação cada vez maior entre a moradia, a oferta de serviços e o local de trabalho. O urbanismo racionalista começa a desenvolver blocos de moradias em bairros residenciais, com a utilização de novos materiais e novos elementos para construção rápida, como janelas pré-fabricadas e portas. As linhas de produção – fordismo e taylorismo – chegam com força total à cidade.
Como para Le Corbusier a cidade-jardim e a forma como a cidade estava sendo pensada, conduziria a um isolamento, ao individualismo e a paralisia da coletividade, buscava-se desenvolver um novo modo de planejamento, atrelando a cidade à natureza. Segundo Munford (1998), a ideia de Le Corbusier era a construção de uma Cidade-Jardim Vertical, a fim de liberar espaço para áreas
verdes144.
Mas não bastava apenas a presença da natureza na cidade, era preciso ordenar o aspecto caótico da natureza. As árvores, plantadas em parques e jardins, também teriam uma função subjetiva, ajudando a superar a individualidade egoísta e trazendo
bem estar físico145.
Para Le Corbusier (2000), tendo em vista a intensificação do trabalho, haveria uma maior exigência de calma e ar puro. Devido ao aumento da mancha urbana, consequentemente com a derrubada das árvores (pulmão da cidade), o urbanismo deveria possibilitar:
- a elaboração de medidas de conservação das áreas verdes
nos centros da cidade e nas periferias;
- o aumento considerável da densidade de áreas verdes –
chegando a 95% em algumas áreas;
- a verticalização dos centros para a liberação de espaço para
áreas verdes;
- a construção de apartamentos com janelas afastadas das
ruas, voltadas para parques extensos e possuindo amplas
sacadas – para melhor circulação do ar e entrada da luz. Em
tais sacadas (alvéolos) seriam criados grandes jardins internos.
Em 1933, Le Corbusier sintetiza na famosa Carta de Atenas, os resultados do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM, cujos princípios norteadores eram:
- a busca de garantias de salubridade, de áreas verdes, de sol e
ar puro, de contato com a natureza como forma de recuperação
das forças gastas no trabalho;
- uma cidade planejada não apenas na escala local mas
também regional, nacional e internacional;
- a necessidade de conservação destas áreas, uma vez que, o
aumento das áreas urbanas sempre ocorre em detrimento das
áreas verdes;
- a retomada das questões coletivas sobre as individuais – do
público sobre o privado;
- a abundâncias de áreas verdes e construção vertical numa
área mínima do terreno.
Entretanto, as novas estruturas familiares, cada vez menores, e a super valorização do indivíduo acaba por implodir os ideais de Le Corbusier. No Pós Guerra, alguns pontos elaborados por Le Corbusier, são observados na construção de conjuntos residenciais nas cidades novas.
Mas o que se constata é a deterioração das áreas verdes. O abandono e a falta de manutenção fazem com que estes espaços sejam visto pelos moradores, como sinônimo de lugares perigosos e violentos. A natureza na cidade sem controle e sem manutenção retoma a sua imagem de perigo e o seu aspecto hostil. O jardim bem cuidado acaba por se transformar em mato.
Desenvolvem-se também formas de um urbanismo naturalista, cuja maior expressão foi o americano Frank Lloyd Wright. Para Wright (apud CHOAY, 1992, p. 30), "a grande cidade industrial é acusada de alienar o indivíduo no artifício. Só o contato com a natureza pode devolver o homem a si mesmo e permitir um harmonioso desenvolvimento das pessoas como totalidade".
Infelizmente, mesmo com todas as utopias do urbanismo moderno, a cidade e a natureza passam a ser, segundo Rodrigues (2001, p. 213), "medidas e mediadas pelo valor de troca, incessantemente alterado no processo indissolúvel" e a volta do verde à cidade é uma forma de apropriação da natureza como propriedade privada.
A natureza na cidade é uma necessidade, que infelizmente foi engolida e propagada pelas possibilidades de consumo da moradia. As necessidades estão sendo criadas de acordo com a renda do comprador dos imóveis. Assim, a natureza na cidade torna-se uma mercadoria para poucos consumidores, escolhida em função do aumento do valor de troca dos empreendedores imobiliários. Para os agentes do mercado imobiliário, a natureza na cidade não é uma necessidade coletiva, e a exclusão é exercida a serviço da acumulação.
Notas
116 Carvalho (2003, p. 10), escreve que "na cidade, ambiente artificial por excelência, onde a natureza quase que só está presente sob a forma antrópica, as características naturais do sítio sobre o qual se estabeleceu só são lembradas para a explicação da gênese dos problemas ambientais urbanos."
117 Para Saldanha (1993, p. 63-64), a natureza na cidade, em jardins ou praças, "veio representando uma gradativa diminuição do papel (ou da presença) da natureza: aqui o termo natureza é usado no seu sentido mais concreto, incluindo animais e arbustos, embora sem excluir a relação com um significado mais profundo. E parece que este gradual cancelamento da natureza, em seus componentes mais concretos, se faz mais perceptível, senão mais ostensivo, no caso da praça. Ou seja, nas representações da dimensão pública, inclusive nas ligadas ao poder: edificações, ornamentação, linguagem de símbolos."
118 Vale lembrar a origem da palavra "jardim" (jardin, garten, garden), segundo Capel (2002), vem do germânico gard, que significa 'cerca' ou 'paliçada'.
119 Cabe destacar que o traçado reto do plano urbano representava a vontade de conquista e dominação do sítio. Sobre as linhas retas e curvas na cidade, escreve Le Corbusier (2000, p. 6-7), que "o homem caminha em linha reta porque tem um objetivo; sabe aonde vai. Decidiu ir a algum lugar e caminha em linha reta. A mula ziguezagueia, vagueia um pouco, cabeça oca e distraída, ziguezagueia para evitar grandes pedregulhos, para se esquivar dos barrancos, para buscar a sombra; empenha-se o menos possível. O homem rege seu sentimento pela razão; refreia os sentimentos e os instintos em proveito do objetivo que tem. Domina o animal com a inteligência. Sua inteligência constrói regras que são o efeito da experiência. A experiência nasce do labor; o homem trabalha para não perecer. Para produzir é preciso uma linha de conduta; é preciso obedecer às regras da experiência. É preciso pensar antes no resultado. A mula não pensa em absolutamente nada, senão em ser inteiramente despreocupada."
120 "El jardín se convierte en una construción en donde la arquitectura supera la naturaleza" (CAPEL, 2002, p. 232). "En el jardín domina lo agradable sobre lo útil." Capel (op.cit., p. 246).
121 Capel (2002).
122 Além destas particularidades, nascidas junto com as cidades brasileiras, outras especificidades se apresentam. Outra grande distinção diz respeito à diferenciação entre o jardim (a mais comum representação da natureza nas cidades européias) e a praça – a materialização da natureza nas cidades do Brasil. Desta forma, a proximidade com a natureza e o caráter público ou privado do espaço – praça ou jardim – são importantes elementos usados para esta diferenciação. Segundo Saldanha (1993, p. 37), "sem dúvida o jardim concentra e registra a privacidade retendo uma porção da natureza, enquanto que a praça vem a ser um espaço aberto na natureza, senão contra ela. Um espaço muitas vezes tido como sagrado (morada de um deus, com seu templo), quase como um modo de compensar a violência, ou a violentação, que o origina. Na verdade, o jardim também é cultural, e o que se tem são dois modos de ser das relações entre o homem e o mundo." Continua o autor (op.cit., p. 63), "o advento da praça corresponde, mais do que ocorre com o jardim, a uma eliminação da natureza. Ou antes a um corte, uma abertura nos espaços naturais, feita na verdade pelo próprio fenômeno da cidade, que se instaura como um outro tipo de espaço dentro dos espaços físicos disponíveis no vale ou na montanha. O jardim reformula a natureza, operando uma redução ou uma seleção quanto às espécies vegetais e ao seu arranjo, em convívio com canteiros, muros, colunas, estátuas [...]; o jardim a reformula, defendendo-a como ao próprio sentido de privacidade que nele se recolhe. A praça, parâmetro das ousadas coordenadas urbanas, se recorta como um outro espaço, não natural, onde o que há de árvores e de flores é expletivo e complementar, embora às vezes pareça esteticamente essencial."
123 Como escreve Segawa (1996), as cidades espanholas da América repetiam os modelos dos ejidos (campos verdes) e alamedas (ruas arborizadas) – com uma significação estética. Já as cidades portuguesas desenvolviam os rossios (hortas), cuja finalidade era, principalmente, a produção de alimentos.
124 Esta ideia de Holanda (1969) sobre a inexistência de uma racionalidade na construção das cidades pelos portugueses foi debatida por Nestor Goulart Reis Filho, pois a adaptação do plano urbano ao sítio pode ser considerada uma forma de ocupação pensada e racional. Além disto, a própria escolha dos sítios em acrópole evidenciam um planejamento da ocupação em função dos aspectos de segurança e proteção contras invasões e ataques.
125 Inicia-se os processo de valorização das plantas na cidade ou no seu entorno. Criam-se espaços de coleção de espécies, primeiramente os jardins reais – símbolos do poder e do conhecimento de um reino. Como exemplo, cita-se os Jardins Reais da França, posteriormente comandados por Buffon, hoje 'Jardin de Plantes', localizando numa área densamente povoada próxima ao centro de Paris. Sobre esta ideologia do melhoramento visível na natureza no século XVII, escreve Willians (1989 apud SEGAWA, 1996), "que agora que o homem produzia sua própria natureza por meios físicos de melhoramento (terraplanagem com novas máquinas, drenagem e irrigação, bombeamento de água para locais elevados), quer pela compreensão das leis físicas da luz e das perspectivas e pontos de vista artificiais, fatalmente teria de modificar-se a decoração, de um simbolismo e iconografia limitados e convencionais, da terra imediatamente visível."
126 "consagran el triunfo del arte y del artificio sobre la naturaleza". (p. 236)
127 "Diseñando y construyendo jardines los arquitectos se fueron atreviendo a moldear y transformar la naturaleza de forma cada vez más osada. [...] Así se hace en los jardines barrocos, en los que se corrige y "hermosea la naturaleza y en la que usando la geometría, se la rectifica para producir efectos sorprendentes." (CAPEL, 2002, p. 254)
128 "Así se crea el modelo del jardín a la francesa, donde la naturaleza está totalmente sometida a la voluntad del hombre. El mensaje de que la naturaleza ha sido subyugada por el arte es explícitamente expresado a través del diseño de jardines en donde la remoción de tierras, las obras hidráulicas, el desafío al clima a través de orangeries e invernaderos y otros trabajos muestran de forma eminente el poder del hombre. Es la culminación de dos siglos de evolución." (p. 255)
129 O individualismo e a ostentação de riqueza e poder tomam definitivamente posição de destaque nos jardins. Como fala Munford (1998, p. 377), no século XVII o "pior de todos os pecados, é o pecado do orgulho, que tornou-se símbolo dos novos líderes da sociedade, tanto no escritório de contabilidade como no campo de batalha. Produzir riqueza, tomar e aumentar o poder, tornaram-se imperativos universais; tinham sido desde muito tempo praticados, mas agora abertamente admitidos, como principais orientadores de uma sociedade inteira".
130 "El juego de la autoidentificación, como individuo y como miembro de la sociedad, actúa como un imán para esta exhibición". (RABREAU, 1991 citado por CAPEL, 2002, p. 250)
131 As ideias desenvolvidas nos planos de reforma urbana da região do Champs Elysées de Paris repercutiram de tal maneira no imaginário urbano que grande parte das cidades brasileiras, num período posterior buscaram criar seus "Campos Elíseos".
132 Segundo Segawa (1996, p. 49), o jardim "torna-se um monumento ao verde – espaço ao culto e ao repositório de significados da natureza idealizada pelo ser humano." No âmbito do planejamento urbano, o jardim inglês possui um desenho que libera a natureza dos limites impostos no jardim formal.
133 Segundo Capel (2002), um "park" era um pedaço do terreno com um bosque fechado, para as criações de animais.
134 Sobre as intervenções higienistas na cidade ver Benjamin Ward Richardson (Hygeia: A City of Health, 1876), cujas principais ideias, segundo Choay (1992) eram:
- menor mortalidade possível nas cidades;
- aumento das áreas verdes e jardim nas cidades como forma de terapia e também como áreas de lazer.
135 Segundo Munford (1998, p. 461), "a cidade, desde o princípio do século XIX, foi tratada não como uma instituição pública, mas como uma aventura comercial privada, a ser afeiçoada de qualquer modo que pudesse aumentar a rotatividade e fazer subirem ainda mais os valores dos terrenos".
136 A moradia dos trabalhadores é constantemente comparada "com covis, as grandes distâncias que separam o local de trabalho do de habitação ('a metade dos operários do Strand já estão obrigados a caminhar duas milhas para chegar ao trabalho', constata Marx), os lixões fétidos amontoados e a ausência de jardins públicos nos bairros populares. A higiene moral também é considerada: há contraste entre os bairros habitados pelas diferentes classes sociais, chegado à segregação, fealdade e monotonia das construções 'para o maior número'." (CHOAY, 1992, p. 06)
Sobre este tema também deve ser mencionado o texto de Engels sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra.
137 Capel (2002).
138 Segundo Munford (1998, p. 463-464), "o desejo de utilizar todos os metros quadrados de espaço alugável dominava o proprietário, mesmo quando a construção era para seu uso privado e não se destinava à simples especulação pecuniária. Em muitas cidades, durante o século XIX, isso reduziu o quintal dos fundos a uma área para secar roupas, e esta, por sua vez, foi reduzida em espaço, a tal ponto que muitas caras residências da Quinta Avenida, em Nova Iorque, eram construídas quase costas contra costas, como qualquer asilo de classe inferior, e não tinham nem perspectiva, nem ventilação. Mais uma vez, a empresa capitalista, hipnotizada pela sua própria preocupação com os ganhos, ultrapassava a si mesma, pois um plano congestionado não traz necessariamente o máximo de retorno imediato, nem tem probabilidade de permanecer bastante válido ou atraente para assegurar uma exploração lucrativa durante um longo período de anos."
139 Sobre a especulação imobiliária atrelada à natureza na cidade brasileira, pode ser citado o caso de Porto Alegre, no final do século XIX e começo do XX, com a criação do Campo da Redenção, seu ajardinamento e loteamento do entorno. Segundo Segawa (1996, p. 218), "aproveitamento de áreas tradicionalmente tidas como inúteis ou de árduo aproveitamento sobre várzeas, charnecas, terrenos de altimetrias complicadas. Era a conquista da terra firme, aterros que acresciam à vizinhança urbana horizontes de expansão, enterrando miasmas e cobrindo superfícies infectas com um simulacro saudável de natureza. Terrenos outrora sem préstimo, os quais, mediante intervenções patrocinadas pelo poder público – nem sempre adequadamente amparado com recursos para iniciativas dessa escala [diferente da Europa e dos EUA onde a intervenção no jardim era privada] (e sempre oficial, qualquer que seja a instância: autoridade colonial, provincial, municipal) – transformam-se em áreas valorizadas e vizinhanças valorizadas."
140 "Desde el siglo XIX ya no basta el verde: la industrialización y la democratización han hecho necesarios también nuevos espacios para el ocio. [...] En los jardines y parques donde comienza a instalarse elementos que luego serían denominados 'mobiliario urbano'". (CAPEL, 2002, p. 318)
141 Sobre os jardins zoológicos, escreve Munford (1998, p. 413-414) que "tinha-se aí uma nova contribuição à cidade: um lembrete daquele estado indômito que o homem urbano muito facilmente esquece, na ilusão de que conquistou com êxito a natureza. As atitudes divertidas do macaco, a imperturbabilidade do hipopótamo, os movimentos ágeis e alegres das focas – todos estes exemplos da inexaurível criatividade da natureza, se não puseram o morador da cidade em contato com ela, pelo menos tiveram um efeito relaxante sobre o ultra-restringido ego urbano. [...] Até mesmo sovadas relíquias barrocas tais como o urso dançarino ou o macaco do tocador de realejo serviam muitas vezes para dar um toque de graça animal às tristes sarjetas da rua do século XIX".
142 Os ideais higienistas e o medo das populações mais abastadas do Rio fizeram com que a população do centro da cidade (infestado de doenças e cortiços) e graças à facilidade do transporte, transferisse-se para Santa Tereza, em busca das terras altas com melhores climas e salubridade, conforme explica Abreu (1992). As árvores seriam peças fundamentais para manter a salubridade das cidades – eliminação dos "tóxicos pulmonares". Começam a proliferar a criação de jardins nos centros das cidades Em 1880, são criados os Campos de Sant'Ana e a Praça da Aclamação, no Rio de Janeiro.
143 No Brasil, alguns bairros da cidade de São Paulo, como o Pacaembu, Jardim Europa, Jardim América e Jardim Paulista foram planejados como cidades-jardim. Atualmente, nestes bairros de São Paulo, onde a natureza era abundante, a violência urbana e o medo coletivo fazem com que se proliferem altos muros e complexos sistemas de segurança. A pressão sobre os preços dos terrenos e das moradias também provoca profundas mudanças nas funções antigas destes bairros, com muitas residências sendo convertidas em clínicas médicas e lojas sofisticadas.
144 Em uma fachada de um prédio, Le Corbusier (2000) apresenta uma estrutura intercalada com grandes alvéolos vazados entre os andares cujo objetivo era facilitar a penetração da luminosidade solar, a circulação do ar possibilitando a presença de um jardim suspenso em cada sacada. Em 2004, na cidade de São Paulo, um edifício de alto padrão foi lançado seguindo esta proposta de Le Corbusier, entretanto, ao invés de vários alvéolos o projeto previa apenas um.
145 Segundo Le Corbusier (2000, p. 71), "pode caber ao novo espírito de arquitetura, ao urbanismo iminente, satisfazer às mais remotas necessidades humanas, reverdecendo a paisagem urbana e mesclando ao nosso labor a natureza [aforismo turco: onde construímos, plantamos árvores. Em nosso país, nós os arrancamos. Istambul é um pomar, nossas cidades são pedregais]." (p. 71) Segundo Choay (1992, p. 191), "a natureza é de novo levada em consideração. A cidade, ao invés de tornar-se um pedregal impiedoso, é concebida como um grande parque. A aglomeraç ão urbana é tratada como uma cidade verde. Sol, espaço, zonas verdes. Os imóveis surgem na cidade por trás do rendado de árvores. Está assinado o pacto com a natureza".