O Direito à Natureza na Cidade
A incorporação geográfica da natureza. A ação do homem e uma nova geografia física - George Marsh
transformaram-se em rocha nua? Em face da Natureza, como
em face da Sociedade, o modo atual de produção só leva em
conta o êxito inicial e mais palpável; e, no entanto, muita gente
se surpreende ainda pelo fato de que as consequências
remotas das atividades assim orientadas sejam inteiramente
diferentes e, quase sempre, contrárias ao objetivo visado.
A incorporação geográfica da natureza. A ação
do homem e uma nova geografia física - George
Marsh
No prefácio de sua obra 72 Man and Nature, de 1874, George Marsh mostra que a perspectiva geográfica de entendimento das ideias e conceitos de natureza é indicação do caráter e, aproximadamente, a extensão das mudanças produzidas pela ação humana nas condições físicas do globo. Isto pode ilustrar a doutrina na qual o homem é, em tipo e grau, um poder de ordem maior do que qualquer das outras formas de vida animada, as quais, como ele,
são nutridas na mesa farta da natureza 73.
Geograficamente, as ideias presentes tanto no pensamento de Marsh quanto de Elisée Reclus, foram intensamente permeadas pelas configurações territoriais da Holanda, e como já mencionado no capítulo anterior, o fato que mais motivava a visão otimista e humanizada da natureza era a expansão do território humano sobre o que era, até então, o império marinho.
Uma nova geografia da natureza, constituída pela transformação que o homem realiza na natureza, foi baseada primeiramente na observação e, posteriormente, na dominação dos processos naturais. As mudanças no entendimento e na própria materialidade da natureza são cada vez mais atribuídas aos progressos humanos nos campos das ciências e das técnicas. Segundo Marsh (1965), as modernas ambições da sociedade visam alcançar grandes conquistas da natureza física, seus projetos são corajosas empreitadas até agora desenvolvidas para a modificação da superfície geográfica.
A respeito das fantásticas modificações na natureza que estavam tomando conta da Europa e dos Estados Unidos no século XIX, Marsh (1965) escreveu que estas mudanças, para o bem ou para mal, não foram causadas por grandes revoluções naturais do globo, nem são, por algum meio, atribuídas inteiramente à ação ou inércia moral ou física das pessoas. Elas são produtos de forças conflitantes ou coincidentes, atuando através de uma longa série de gerações. [...] Elas são puramente resultados calculados e desejáveis de simples e familiares operações da agricultura e da
vida social 74.
A questão do melhoramento da natureza deve ser tomada como finalidade da vida humana, trazendo consequências para os próprios homens. Muita energia deve ser investida para ampliar e eternizar as fontes de riqueza e beleza natural. Para Marsh (1965), a Terra não estava, em sua condição natural, completamente adaptada para o uso do homem, mas apenas para manter a vida selvagem animal e vegetal. Em certa medida, a transformação da superfície terrestre, da supressão do natural e simulação da artificialidade, modificada para dar lugar a produtivamente, tornou-se necessária. Mas, o homem tem, infelizmente, excedido esta
medida75. Para o autor (op. cit.), a Terra foi dada para o homem apenas para usufruto, não para consumo.
A melhora que o homem imprime na natureza, seguindo um padrão do período anterior, é representada pelo reflorestamento de antigas áreas devastadas, controle das enxurradas, drenagem de brejos e lagos e fertilização de áreas com solos esgotados. Para Marsh (1965), estas conquistas são muito mais gloriosas que os triunfos de guerras, as quais infelizmente, são façanhas muito mais exaltadas para algumas sociedades.
A produção de uma natureza artificial deve muito ao avanço conquistado pela ciência e pela técnica, no que se refere a meteorologia e a previsão climática. Estas melhorias permitiram o controle e a prevenção contra algumas leis naturais, e foram fortes componentes no avanço da agricultura e da indústria.
Desta forma, segundo Marsh (1874), o homem tem feito muito para revolucionar a superfície sólida do globo, para mudar a distribuição, as proporções e as características essenciais dos organismos que habitam as terras e as águas. Mas esta busca pelo domínio e adaptação da natureza tem lugar, primeiramente, na correção de "defeitos" ou imperfeições da natureza.
Como grande parte dos homens têm vivido nas áreas costeiras, além de terem aprendido a tirar do mar a fonte de alimento, o rápido incremento dos transportes marítimos, impulsionados pelo aumento das trocas comerciais entre os países, fez com que as áreas costeiras fossem o lugar das grandes modificações que representam a materialização de um ideal de natureza à serviço da vida humana. Como exemplo das importantes realizações humanas nas áreas costeiras pode-se citar:
- mudanças na linha de costa com aterros ou drenagens que
permitem um ganho de terra, colocando as linhas costeiras
sujeitas ao controle do poder humano;
- grandes obras que representam uma importante melhoria da
linha de costa, como portos, docas e marinas que são, para
Marsh (1874), as mais honráveis e memoráveis conquistas do
homem sobre a natureza, uma vez que permitem um grande
aumento do comércio, das trocas comerciais e mesmo da
conquista de novas terras.
As consequências destas modificações na natureza devem ser consideradas não só em seu aspecto físico visível, mas também do ponto de vista simbólico ou moral, pois carregam consigo um forte e significativo componente ideológico. Estão completamente em consonância com um sistema de ideias produzido no momento sobre o homem e a natureza. Do ponto de vista simbólico, as obras de engenharia que modificaram a paisagem na Europa, tais como o quebra-mar de Cherbourg (França), a drenagem de terras que ainda se processava na Holanda e alguns pontos da Inglaterra, a canalização e os desvios dos rios que possibilitavam sua navegabilidade, associados às imensas obras portuárias, traziam para o cotidiano das pessoas novas formas de valorização do trabalho humano. Como força capaz de alterar os caprichos da natureza e cuja magnitude de ação era compatível com as obras que também no mundo antigo, como no Egito, significavam uma vitória da humanidade no domínio da natureza. Assim, tais obras eram a própria materialização de um sistema de ideias e de conceituação a respeito da natureza.
Outro grande impacto na forma de entendimento da natureza, oriundo de profundas modificações físicas da natureza foram os trabalhos de engenharia hidráulica, associados não só a expansão de áreas cultiváveis, mas também vinculadas às questões sanitárias e de saúde. De acordo com Marsh (1874), nas épocas recentes, operações com propósitos relacionados ao saneamento da natureza, têm assumido certa magnitude e têm trazido efeitos econômicos, sanitários e geográficos, os quais colocam estas operações num alto posto nos esforços do homem para melhorar as
condições naturais do solo que ele ocupa 76.
A respeito desta ação de domínio do homem sobre a natureza cabe transcrever uma afirmação de George Marsh quando este mostra como a natureza se rende ao controle das técnicas e da razão humana. Para Marsh (1874), os encontros do homem com a natureza ocorrem em campos onde a natureza é colocada em conflito com o homem (pode-se pensar fisicamente como do ponto de vista de seus interesses econômicos ou simbólicos). Num primeiro momento, ela resiste às tentativas humanas de interferência nas suas operações, mas a natureza, achando o homem o mais forte, submete-se a suas regras, e termina por contribuir para ajudá-lo a levantar os muros e algemas pelas quais
ele ensaia confiná-la 77.