O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 36 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

Os princípios – para uma nova práxis na relação com a natureza, a natureza para o cidadão e não para o consumidor

objetos acontece em escala mundial153.

A cidade é marcada pela ausência da vida e da natureza, enclausurada em locais exclusivos. Pode ser usada a ideia da cidade subterrânea de Munford (1998, p. 520), onde tudo é artificial, inclusive a luz e o ar. Uma cidade "subterrânea", uma cripta, um tumulo da civilização.

Na cidade sitiada pelo consumo, o lugar de encontro (do coletivo), lugar da troca (das experiências), é reduzido, segundo Lefebvre (1969), ao mercado. Nesta centralidade urbana do capitalismo, a cidade como lugar de consumo aproxima a natureza pelo preço. Os signos da natureza e da cidade se convertem em signos de satisfação e alegria (individual). As necessidades e os desejos individuais são motivados pelo consumo. A água, o ar puro – ou menos poluído –, as árvores, os animais, os parques tornam-se objetos de consumo – e o que torna a situação ainda mais grave, e que, devido a sua raridade, em alguns lugares, estes elementos da

natureza passam a ser considerados artigos de luxo154. Segundo Santos (2000a, p. 48) "quem não pode pagar pelo estádio, pela piscina, pela montanha e o ar puro, pela água, fica excluído desses bens, que deveriam ser públicos, porque essenciais".

Aparece, dessa forma, o consumidor que ocupa o lugar do cidadão, e sua busca desenfreada pelos objetos que irão satisfazer suas necessidades e desejos. Nunca na história do homem os objetos, incluindo a natureza na cidade foram tão prenhes de intencionalidade, criados especificamente como portadores de um objetivo previamente definido. Estabelece-se, assim, um par contraditório na incorporação da natureza – como um projeto de emancipação coletiva ou como um projeto de satisfação

individual155.

 

Os princípios – para uma nova práxis na relação

com a natureza, a natureza para o cidadão e não para o consumidor.

É necessário definir um caminho, a partir da ação do homem sobre a natureza em sua vida cotidiana, avançando na direção de sua emancipação coletiva sobre os desígnios e controles da natureza. Aquilo que para muitos poderia ser considerado uma visão antropocêntrica, é considerada neste livro como uma visão otimista da humanidade, um elogio à capacidade que os homens erigiram ao longo de sua história. Invertendo sua relação com a natureza, da qualidade de subjugados à de libertos deste domínio que a natureza impunha aos homens e considerando a produção social da natureza e sua apropriação também coletiva.

Na concepção otimista da ação humana sobre natureza, não se nega que, em alguns momentos, houve uma grande transformação da natureza. Em alguns casos como resultado da necessidade de estabelecimento da sociedade humana em determinados territórios e, em outros, apenas como consequência da exploração da natureza para satisfação de poucos indivíduos. No primeiro caso, um processo de emancipação coletiva e, no segundo, apenas a satisfação individual. A hipótese que se forma para explicar este aparente descontrole em relação à força da ação imposta sobre a natureza é fruto de uma mudança de perspectiva de futuro para a humanidade. O domínio e controle sobre a natureza tornaram-se não mais uma possibilidade de emancipação coletiva de toda a sociedade, mas sim uma forma de satisfação individual de alguns. No presente momento histórico, marcado pelo modo de produção capitalista, a busca pela satisfação das necessidades e desejos pessoais, atrelados ao status que o consumo proporciona, é cada vez mais evidenciado na relação do homem com a natureza.

Uma das questões centrais na relação entre emancipação coletiva e realização individual, no que diz respeito à temática da natureza aqui tratada, é a constatação, no período atual, da ascensão da satisfação pessoal para o entendimento do valor da natureza, exemplificado através da análise dos empreendimentos imobiliários. Assim, como a doutrina cristã de dominação da natureza; as ideias iluministas de dominação, controle e humanização da natureza; as ideias de Descartes, Bacon e Marx sobre a natureza; Harvey (1996) acrescenta a dissociação entre o homem e a natureza tanto como uma chave para desvendar os segredos da natureza como para facilitar a emancipação e a realização pessoal, bem como para observar a perda de contato com a natureza após o século XIX, ou o

desencantamento do mundo 156.

A imposição da satisfação individual também levou a natureza a ser entendida como objeto de consumo e o homem como consumidor. A constatação da instalação do ideal do consumo em todas as esferas da vida social é a grande perversão do período atual, que tem o poder de transformar o cidadão em consumidor. Uma das formas de superação da busca desenfreada pela satisfação individual dar-se-ia na instauração de um Período Popular na História (uma forma de emancipação coletiva). O dado imprescindível para a leitura geográfica do período popular, a partir de algumas ideias de Milton Santos(1997), é o entendimento do espaço como realidade relacional, a partir da natureza mediatizada pelo trabalho da sociedade.

O espaço deve unir os homens entre si e com a natureza, mesmo uma natureza já plenamente socializada que pode se tornar ainda mais rica e interessante do que aquela natureza bruta. Um espaço cheio de vida, um espaço para todos e não um espaço excludente. No caso da natureza, esta deveria passar, além de sua desfetichização, por um processo de desmistificação da sua aura romântica (vinculada) e ser definitivamente entendida como um elemento integrado à vida social, ao cotidiano da cidade, fruto de uma história social construída pelo trabalho humano e por vários sistemas de ideias.

Além da superação filosófica da satisfação pessoal pelo retorno da emancipação coletiva, deve-se pensar formas materiais de mudar o quadro classista, excludente e segregador em que se encontra a natureza na cidade. Segundo Munford (1998), é preciso repensar a cidade não como uma máquina, mas como o local da vida do homem, restituindo a vida como finalidade da vida urbana. É preciso habitar a cidade, participar da vida coletiva social. A cidade é o espaço e o lugar para a (re)valorização do processo de