O Direito à Natureza na Cidade
Uma proposta
A sustentação de um período é dada pela organização e relações entre variáveis ao longo de uma seção temporal, onde as variáveis assumem graus múltiplos de relevância. A organização destas variáveis é que produzem um período e mantém suas características gerais, apesar do contínuo movimento da sociedade. Quando a organização se esgarça, o período finda e se inicia um novo período. O processo de ruptura de um período para outro é dado pela introdução de uma nova variável - técnica ou cultural.
O grande trunfo da periodização é a possibilidade metodológica de empiricizar em conjunto o tempo e o espaço (objetos e ações). A periodização permite apreender, a cada momento histórico, os conteúdos e os valores atribuídos pela sociedade e que qualificam a natureza e o espaço geográfico (cidade). Além disto, de acordo com Santos (1988, p.83),
um método assim elaborado e sistematicamente aplicado nos
permitirá entrever igualmente as novas tendências do uso do
território. [...] Essa noção de periodização é fundamental,
porque nos permite definir e redefinir conceitos e, ao mesmo
tempo, autoriza a empiricização do tempo e do espaço, em
conjunto.
Para Sartre (1968, p.30), "os fatos particulares nada significam, não são verdadeiros nem falsos enquanto não forem referidos pela mediação de diferentes totalidades parciais à totalização em curso". Sem o uso social da técnica, esta se resume a um mero artefato. O mesmo pode-se aplicar à Natureza, que separada, isolada, retirada do mundo social, perde todo o seu significado histórico, geográfico e social.
Uma proposta Atrelada ao método e a metodologia desenvolvida, elaborou-se uma periodização sobre as ideias e conceitos de natureza, que se configurou em uma construção epistemológica e base teórica para o entendimento da apropriação e das relações entre a cidade e a natureza pelos empreendimentos imobiliários urbanos. A proposta tem como meta superar a história 'ilusória' que a ideologia insere nesta apropriação, conforme destacado anteriormente.
As fontes de informações para elaboração da referida periodização foram de referências bibliográficas da área de Filosofia da Natureza e Geografia. Salienta-se que esta proposta de periodização está restrita as ideias do mundo ocidental, não sendo detalhadas as contribuições do mundo oriental, islâmico ou pré-colombiano.
No primeiro período, o conhecimento sobre a Natureza era fruto da imaginação e contemplação, e ocorria através dos relatos heróicos dos "aventureiros". Atrelava-se a ideia de natureza à concepção de um mito. No âmbito das cidades, estas ainda eram incipientes, sendo representadas pela cidade grega. O objeto fonte de interpretação será a própria natureza. O marco cultural do período na questão da interpretação da natureza é a contribuição da cultura helênica, com suas histórias e épicos. Os gregos também apresentaram importantes contribuições científicas para o entendimento da natureza, não negando as contribuições dos egípcios, mesopotâmios e romanos. A principal ação do homem sobre a natureza é dada pela invenção e propagação das técnicas da irrigação, que permitiram o maior desenvolvimento da agricultura e, consequentemente, propiciaram o incremento da produção de alimentos.
Quadro 01 -Esquema da periodização das ideias e conceitos de
natureza para o mundo ocidental – uma tentativa
Organização e Elaboração: Henrique, 2004
O segundo período vai ser marcado pela interpretação da Bíblia, objeto fonte do entendimento da natureza, denotando uma forte componente teológica da natureza. No âmbito das técnicas, o arado foi a grande revolução encontrada e, juntamente com a irrigação, aumentou a produção agrícola no período. Mesmo com este aparente desenvolvimento técnico, o temor à vontade de Deus irá prevalecer e a natureza, entendida como Sua obra, será dotada de valor divino. O mundo citadino será caracterizado pelas cidades feudais, protegidas pelas fortes muralhas e, desta forma, separada fisicamente da "natureza" – dos bosques, florestas etc.
A superação dos obstáculos físicos e intelectuais no entendimento da natureza se processou no terceiro período. As constantes viagens marítimas e comerciais ao longo do mundo conhecido e a descoberta de novas terras recuperaram e desenvolveram outros objetos para a compreensão/representação da natureza, como as pinturas e as xilogravuras, estas últimas difundidas com o advento da imprensa. As técnicas atreladas aos transportes, como a caravela e o balão, ampliaram o horizonte da ação humana, sendo que as caravelas contribuíram para uma expansão horizontal do conhecimento humano e o balão permitiu que, pela primeira vez, o homem saísse das prisões que a superfície da Terra lhe impunha. As cidades, principalmente aquelas com função comercial, começam a se desenvolver em decorrência das rotas de comércio que se estabelecem. A retirada das muralhas da cidade feudal possibilita também um contato maior entre a cidade e a natureza. As ações humanas se concentraram na dissecação da natureza, no entendimento de suas partes, cada vez menores, atreladas às ideias mecanicistas e atomistas da natureza. Neste período há uma forte influência do "descobrimento da montanha", ou seja, da conceituação da montanha, atrelada a uma "Alta Natureza", pura e imaculada – coberta pela mais branca e limpa neve. Na montanha o homem chegava perto de Deus. Neste período, a ação do homem sobre a Natureza revela paralelamente uma preocupação com sua ordenação estética, grandes jardins românticos e parques florestais atrelados a uma beleza natural/paisagem. O ambientalismo era estético – para a nobreza e a burguesia
O quarto período significou uma mudança na relação dos homens com a natureza, passando a incorporar uma forte cultura industrial. As fotografias e as litogravuras permitiram um estudo à distância da natureza, mesmo contando com cada vez mais facilidades de deslocamento, como os automóveis e aviões. Este período será marcado pela incorporação da natureza à vida social, tanto em função das técnicas desenvolvidas e aperfeiçoadas quanto da cultura vigente. A natureza passa a ser entendida como recurso. As cidades passam a concentrar a crescente produção industrial, incluindo também a poluição decorrente desta atividade. A expansão das cidades e de alguns bairros mobilizava a população, atraindo a parcela mais rica para os locais com grande presença de elementos da natureza, principalmente, áreas verdes e lagos.
O quinto período (atual) é marcado por uma mudança radical na perspectiva do entendimento da relação do homem com a natureza, devido a sua total incorporação ao território usado, através das imagens orbitais que permitem o conhecimento de toda a superfície do planeta. A sociedade urbana se estabelece definitivamente e as técnicas atingem, desde a escala planetária até a escala da célula, com os satélites e a genética, respectivamente. Os homens, cada vez mais, se encontraram na qualidade de produtores da natureza, tornando-a um artifício, entendido aqui não no sentido de uma mentira, de algo falso, mas sim como resultado da produção humana. As cidades passam a concentrar a maior parte da população e a natureza passa a ser produzida nas cidades com o intuito de melhoria da qualidade de vida. Torna-se num forte atrativo de capitalização para os diversos agentes econômicos, inclusive no mercado imobiliário nas grandes cidades.
Quadro 02 - Caracterização e Evolução das Ideias ao longo dos
Períodos
Organização e elaboração: Wendel Henrique, 2004.
Notas
6 Para Foucault (2000, p. 156), "uma periodização recorta na história um certo nível de acontecimentos e, inversamente, cada camada de acontecimentos pede sua periodização, uma vez que, segundo o nível que se escolha, dever-se-á delimitar periodizações diferentes e, segundo a periodização que se dê, atingir-se-á níveis diferentes".