O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 13 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

O início do período dos descobrimentos

o nascimento da Natureza ocidental, coloca-nos imediatamente

perante o facto tão afrontosamente negado pelo empirismo de

que, pelo menos em certas circunstâncias, a reforma da

consciência precede a da ciência, como se então a Natureza do

físico utilizasse simplesmente uma imagem da natureza já

concebida, capaz de se actualizar no pensamento e na arte.

O Período dos Descobrimentos não se define apenas pelo descobrimento de novas terras – a América e, posteriormente, a Oceania – mas também pelos descobrimentos da ciência e da técnica, que trouxeram grandes contribuições para o entendimento que os homens fazem da natureza no período atual. Este novo período também significou uma inversão na posição entre o homem

e a natureza 32.

 

O início do período dos descobrimentos

Como marco inicial do Período dos Descobrimentos tem-se as Grandes Navegações, do ponto de vista geográfico; e o Renascimento, no campo filosófico, sendo os clássicos gregos e romanos as fontes de inspiração.

De acordo com Glacken (1996), a maioria dos grandes nomes do começo da ciência moderna não negava os desígnios na natureza nem a validade das causas finais. Copérnico, Galileu e Kepler, grandes nomes da ciência e da filosofia, apesar das críticas, mantiveram vivo o espírito da teleologia e da ideia de desígnio na

natureza33.

Na mudança de perspectiva no entendimento da natureza, era fundamental, a partir da interpretação de Lenoble (1969), uma transformação da ideia de finalidade e espontaneidade nos ciclos e elementos da natureza. Era uma necessidade para os mecanicistas

que a natureza fosse considerada uma máquina/mecanismo34, e para isto retomaram antigas ideias clássicas, como da natureza matemática da Natureza. Ao pensar a Natureza como máquina, a ciência se torna a técnica para exploração e entendimento da máquina, do seu funcionamento e da sua reprodução.

O conhecimento mecanicista da natureza partia da premissa atomista da quebra do todo em partes, as quais eram passíveis de serem compreendidas por leis científicas específicas, que dão suporte a montagem da explicação do todo. O todo é o resultado da soma das partes entendidas isoladamente.

Outra corrente, presente neste momento histórico, era a Organicista, que partia do entendimento do todo, como forma de explicação da partes, uma vez que a finalidade ou desígnio do todo está presente

nas ações e reações das partes35.

Entretanto, tanto a vertente mecanicista quanto a organicista, convergiram para uma ideia em comum, a ruptura com a ideia de envelhecimento da natureza e sua consequente fraqueza, razão pela qual o homem impunha sua superioridade. Se para alguns, a natureza como uma engrenagem já possuiu mais força nos tempos passados, para outros sua debilidade era consequência de sua "idade mais avançada". Assim, cabia ao homem através de sua cultura, arte e ciência reparar as ruínas da natureza ou provar que as doutrinas de envelhecimento da natureza não eram mais do que interpretações a serem superadas.

Se a ciência moderna ocupou seus primeiros anos para refutar a ideia de uma natureza que envelhecia e para provar uma constância na natureza (manutenção de uma quantidade natural), esta negação da deterioração "natural" da natureza será um importante dado teórico para a ideia de seu uso inesgotável da natureza e de seus recursos pelo modo de produção capitalista, quando este se tornar o

motor do mundo moderno e contemporâneo 36. Para Glacken (1996), a negação de uma deterioração da natureza era também uma

crença afirmativa.37

Para John Ray (The wisdon of God manifested in the works of the creation, publicado originalmente em 1692, citado por GLACKEN, 1996), a terra e a natureza foram criadas da mesma maneira como estão hoje, mas seu aspecto exterior pode variar em função de forças naturais ou humanas. Glacken (1996) observa que seu pensamento era uma forma de união entre uma doutrina das causas finais (o desígnio da Criação) e a influência da ciência e tecnologia humanas. Para o autor (op. cit.) a importância da obra de Ray reside no fato de sua rechaça a crença do esgotamento e da dissolução do mundo, isto posto sobre bases filosóficas, religiosas e científicas; suas objeções também residiam nas observações do estado atual da natureza, em linhas similares as do uniformitarismo desenvolvido na geologia no século XIX. Na natureza, dizia Ray, não há nada que manifeste ou permita inferir uma futura dissolução, se bem que alguns acidentes pouco prováveis (dilúvios, extinção do sol, erupção de um fogo central encontrado na terra, a secura ou a disposição inflamável da terra na Zona Tórrida, que poderia ser incendiada por vulcões ou uma erupção simultânea de todos estes) poderiam

arruinar a Terra38.

A visão otimista de Ray em relação ao homem como um agente melhorador da natureza, em uma construção próxima àquela de

Willian Moris Davis 39 escreveria no século XIX, era baseada na crença do desenvolvimento tecnológico que a sociedade moderna estava experimentando neste Período dos Descobrimentos. O desenvolvimento iria melhorar a relação harmoniosa entre o homem e a natureza. Observa-se o deleite de John Ray com a beleza estética da natureza, quando proclama a

diversidade que se distingue na superfície da Terra, na forma de

colina, vales e as altas montanhas, que oferecem agradáveis

panoramas! Quão cuidadosamente vestidos e adornados com a

graça do verde das ervas e das árvores majestosas, dispersas

e isoladas ou reunidas em bosques e arvoredos, e todos

embelecidos 40 com elegantes flores e frutos!

O desenvolvimento da consciência do controle da natureza será crucial para o entendimento das ideias e conceitos de natureza no período atual. Seu aperfeiçoamento está baseado na aplicação da ciência teorética à ciência aplicada e da tecnologia aos novos usos e demandas dos recursos naturais que o Período dos Descobrimentos impôs e ao mesmo tempo possibilitou aos homens.