O Direito à Natureza na Cidade
Do jardim formal ao jardim inglês – A natureza toma seu lugar na cidade
Na Idade Média, os jardins118 transformam-se em hortas nos conventos e mosteiros. Como escreve Capel (2002), em Florença, no século XIV, havia um jardim (horta) no centro da cidade escondido por muralhas. Este referido horto (jardim + horta) teve grande influência na estruturação do espaço urbano, refletindo-se na nomenclatura das vias de circulação, como as vias del'Orto ou dell'Ortone.
No Renascimento retomam-se os ideais humanistas, materializados em uma imitação da natureza nos jardins. Desenvolvem-se as ideias da tranquilidade do campo dentro das cidades. Entretanto, apesar de se buscar a simplicidade da natureza, os homens do Renascimento acabam por aumentar a artificialidade e a complexidade da natureza na cidade, criando e revalorizando novas formas de incorporação da natureza.
Do jardim formal ao jardim inglês – A natureza
toma seu lugar na cidade
O Renascimento marca uma remodelação geral das cidades européias, até então marcadas por um desenho urbano medieval. Este "planejamento urbano", na Idade Moderna tinha como objetivo ordenar as intervenções urbanas, racionalizando o espaço urbano "caótico" das vielas estreitas e do adensamento das construções. Por racionalização do plano urbano compreende-se a substituição
das linhas curvas do traçado das cidades pelo desenho retilíneo 119.
Segundo Capel (2002), foi Leon Battista Alberti, em sua obra De Re Aedificatoria (A Arte de Edificar), quem difundiu a utilização da vegetação com apelo estético nas cidades européias do início do século XVI. Repetia-se constantemente em várias cidades o modelo do Belvedere de Bramante, de 1503, com um palácio situado ao pé de terraços, rampas e escadas simétricas numa forma cenográfica articulada em patamares. O jardim se converte numa construção. A
arquitetura supera a natureza; e o agradável (belo) supera o útil120.
A nobreza européia que se enriquecia, incentivava a criação de parques, que eram, segundo Segawa (1996), bosques cercados para a caça. Estes parques anexos às propriedades foram sendo incorporados aos padrões estéticos da burguesia – como sinônimo de valorização econômica e símbolo de status. Em Antuérpia, 1569, surge a primeira praça com árvores na Europa (Place Verte ou Groenplaats), ao lado de uma catedral. Ainda neste momento, a valorização imobiliária do entorno da praça se dava em função da igreja e não pelas árvores (o plantio de árvores ainda não havia se
popularizado nas cidades européias)121.
A natureza na cidade brasileira apresenta algumas particularidades, oriundas desde sua fundação pelos portugueses, com grandes
diferenças entre as cidades criadas em outras partes da América 122. Em uma abordagem largamente difundida nos estudos sobre as
cidades construídas nas Américas por espanhóis 123 e portugueses, Holanda (1969, p. 62), alertava que o desenho das cidades das áreas de ocupação Espanhola demonstra uma característica de superação das imposições do sítio, levando a construção de ruas e formas de ocupação que evidenciavam o esforço na retilinização dos arruamentos e na terraplanagem do terreno, "as ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo, impõem-lhes antes o acento voluntário da linha reta". Já a colonização portuguesa não seguia estas normas e as cidades acabam por se acomodar de acordo com o sítio, afirmando que a "cidade que os portugueses construíram na América não é produto mental, não chega a contradizer o quadro da natureza, e sua
silhueta se enlaça na linha da paisagem." (p. 76)124
Já na Europa, com os descobrimentos de novas terras, os jardins botânicos passam a exibir espécies exóticas do Novo Mundo. Desenvolvem-se, desta maneira, os conhecimentos naturalistas e da botânica, através da aclimatação e cruzamentos de espécies (novamente a ação do homem na melhora da natureza). A natureza na cidade, materializada nos jardins, transforma-se em lugar de exibição, em uma espécie de museu. Os jardins transformam-se em
jardins botânicos125.
Os jardins, cada vez mais elaborados e organizados, tornam-se lugares de ostentação e riqueza, em detrimento das ideias de simplicidade e de rusticidade. Segundo Capel (2002), os jardins urbanos consagram o triunfo da arte e do artifício sobre a
natureza126.
Os jardins urbanos também se tornam lugares privilegiados nos desenhos dos planos urbanos. O plano urbano ortogonal e a geometria cartesiana marcam a geometrização da natureza na cidade. Desenhando e construindo jardins, os arquitetos foram se atrevendo a moldar e transformar a natureza de forma cada vez mais ousada. Se constroem os jardins barrocos, nos quais se corrige e embeleza a natureza e, usando a geometria, a retifica para
produzir efeitos surpreendentes 127.
Nas cidades, os jardins também passam a se aproximar das casas. De acordo com Capel (2002), na Veneza do século XVI, configuram-se as villas italianas, que marcavam uma primeira forma de "cidade verde", com a valorização de uma vida urbana que simulava uma vida campestre. Tais "villas" tornam-se moda e, posteriormente, lugares de refúgio da nobreza veneziana.
No século XVII, os jardins urbanos e seus entornos convertem-se em parques, com predomínio das árvores plantadas regularmente de maneira ortogonal. Nas áreas anexas aos palácios, como Versalhes, a natureza ortogonal e controlada representa o ápice do conhecimento botânico e estético da época, refletindo uma construção total da natureza (jardins) em função da imaginação e criatividade humana, conforme escreve Capel (2002). O jardim francês é a forma máxima da expressão humana geometrizada, à qual está submetida à natureza na cidade. Segundo Capel (2002), a mensagem de que a natureza está subjugada pela arte é expressa através do desenho de jardins. A remoção de terras, as obras hidráulicas e os desafios aos climas, através das "orangeries" ou estufas, entre outros trabalhos, mostram de forma eminente o poder
do homem. É a culminação de séculos de evolução 128.
Jardins de Versalhes. Destaque para as formas geométricas do
jardim.
O jardim formal, ou francês, expressa o poder sobre a natureza e também o poder político absolutista. Na construção dos jardins as formas geométricas seriam superiores àquelas deixadas no seu curso natural. Nestes jardins predominam as linhas retas, com desenho ortogonal e algumas diagonais. Até os lagos seguem um modelo geométrico simétrico. As árvores e os arbustos também são modelados/podados em volumes geométricos, reforçando a arte da topiaria e o modelamento da vegetação aos caprichos e vontades dos homens.
Como os jardins reais e aristocráticos passam a ser moda na Europa Ocidental, cria-se uma necessidade de aumento destes espaços nas cidades. Os jardins passam a ser lugares de passeio e de encontro. Tornam-se locais para a comparação e competição social entre as pessoas, bem como para "desfiles de moda e
poder"129. Acentua-se o caráter de poder social do jardim na
cidade 130.
Os jardins urbanos, passeios públicos e parques – "salões de festa" fora dos palácios – incorporam-se ao planejamento urbano e tornam-se uma constante nos planos de melhoria urbana, como na
região do Champs Elysées131, em Paris.
Nos limites das cidades, em razão da disponibilidade de terrenos, construíram-se passeios arborizados, com jardins e edificações para abrigar salões de festas. Por iniciativa dos poderes públicos, estas áreas se configuraram, em muitas ocasiões, como estímulos à expansão urbana, tornando necessária a quebra dos limites impostos pelas antigas muralhas.
Além do "Champs Elysées" de Paris, pode-se citar o "Parque del Prado", em Madri, criado em 1780, nos limites da cidade, que consistia num conjunto de Passeio-Salão – Boulevard-Gabinete de História Natural e o Jardim Botânico. Também começa, no século XVIII, a abertura dos parques reais para a população, estes localizados geralmente no centro das cidades. Munford (1998) cita: o St. James e o Green Park em Londres; as Tulherias em Paris; o Tiergarten em Berlim.
No âmbito filosófico, as ideias do Iluminismo (século XVIII) tiveram desdobramentos na criação destes parques e espaços verdes urbanos. A natureza na cidade reafirma-se como um elemento estético. Os plantios de árvores nas cidades seriam de grande utilidade, mesmo com aqueles tipos de vegetação com função apenas decorativa. Segundo Jovellanos (1782, apud CAPEL, 2002) as árvores também poderiam ter uma função recreativa, e seu plantio nas bordas dos caminhos, nos parques e nas vias das cidades, seria de grande beleza cênica. Era necessário, portanto, que se iniciassem imensos plantios de árvores nas cidades.
Estes imensos plantios de árvores nos espaços urbanos não seriam possíveis sem os avanços da botânica na aclimatação de espécies exóticas e no desenvolvimento de novas plantas mais adaptadas às características das cidades. As formas urbanas e os edifícios passam a incorporar estes ideais de melhoria, correção e transformação da natureza.
Bairro residencial de Barcelona, cidade com grande arborização urbana fruto de iniciativas empreendidas em meados do século XIX.
Nas cidades do século XIX, o jardim formal começa a sofrer a concorrência com a construção de jardins que buscavam a imitação da natureza, os jardins ingleses. Enquanto o jardim formal francês privilegiava a geometria e a subordinação da natureza às formas, o jardim inglês pregava a ideia da natureza em estado puro e livre.
Estas duas visões da natureza na cidade, de acordo com Capel (2002), estarão ligadas diretamente aos embates entre duas visões de mundo. De um lado o cartesianismo francês e de outro o pragmatismo e empirismo inglês. O jardim francês na cidade era a materialização do poder absolutista da monarquia. Já o jardim inglês, na cidade, irá concretizar as ideias da liberdade e democracia, bem como do liberalismo econômico.
O jardim inglês exaltará a natureza não contaminada pelo homem, uma natureza em estado natural, vai representar a valorização dos ideais gregos. Ocorre uma (re)naturalização do jardim em linhas curvas, buscando uma simplicidade e nostalgia de um passado épico. A elaboração dos jardins em estilo inglês pressupõe uma atitude menos dominadora perante a natureza, ou seja, constrói-se um espaço que parece ser natural.
A natureza do jardim inglês é uma natureza idealizada a partir da eleição de elementos do seu conjunto que irão representar o todo. Serão operadas correções em aspectos "feios" dos elementos desta natureza idealizada. Nos parques urbanos serão construídos lagos e grutas com linhas curvas. Estas formas constituem-se em um simulacro da natureza primeira, que há muito deixou de existir. O jardim inglês é a materialização de um conceito de beleza estética e uma representação cultural estética e ideologicamente definida. Como todo jardim, trata-se de um espaço modelado pela ação
humana, mas vinculado à ideia romântica da natureza intocada132.
A criação dos jardins em estilo inglês trouxe à cidade uma valorização da paisagem rural e a construção de casas que mais pareciam casas de campo. Estas casas que se proliferam eram
sempre baseadas em um 133 parc ou park. Tais casas-park eram acima de tudo lugares de "prestígio e privilégio" da burguesia e nobreza inglesas e buscavam ser o elo entre as virtudes do campo e a vida social da cidade. Resgatavam-se ideais como a valorização da caça e a importância dos bosques e dos rios nas propriedades. As propriedades menores, que também buscavam demonstrar esta inspiração bucólica, introduziram o garden (jardim) em seu nome.
No Brasil, é criado no século XVIII, mais precisamente em 1783, o Passeio Público do Rio de Janeiro. O jardim passa a ser um importante elemento na vida social da cidade, recebendo constantes melhoramentos e monumentos imponentes. O Passeio Público se configuraria como um monumento à vegetação e à natureza na visão de Segawa (1996), mas também ao poder da burguesia e nobreza carioca, uma vez que ser tornou rapidamente o lugar de passeio e exibição destas camadas da população.
Entretanto, a natureza tropical sem manutenção retoma rapidamente sua 'selvageria'. No século XIX, a falta de público, devido à concorrência com outras áreas verdes do Rio Janeiro, faz com que o Passeio Público entre em decadência e o dinheiro para sua manutenção acabe. Escreve o prussiano Lydwig von Rango (1819 apud Segawa, 1996, p. 99) que
tudo o que a natureza faz por este país é magnificente, por isto
parece tanto mais pobre o que o homem criou. Estou vindo do
Passeio Público, o único em todo o Rio. Que Deus tenha
misericórdia! Nem um caminho seco em todo o jardim [...]
Realmente uma lástima, um lugar tão bonito e bem arborizado,
que se poderia tornar realmente belo com pequeno custo. Mas
assim é tudo aqui. Nada se faz com cuidado, tudo se deixa
largado à lei da natureza.
No Rio de Janeiro, a vegetação dos morros que circundam a cidade é uma "natureza avassaladora", onde a falta de técnicas e seu constante controle são um entrave à sua domesticação.
Sobre a natureza no entorno das cidades brasileiras, escreve a inglesa Maria Graham (1821, Diário de uma Viagem ao Brasil, apud SEGAWA, 1996, p. 75) que
os cafezais são os únicos terrenos cultivados na redondeza e
são intercalados tão densamente com laranjeiras, limoeiros e
outros arbustos, que parecem antes uma variedade das matas
do que a mescla de terreno cultivado com o terreno selvagem,
que seria de esperar tão perto de uma grande cidade, onde
contamos ver o trabalho humano aplicando-se razoavelmente
sobre a beleza rude da natureza. Mas aqui a vegetação é tão