O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 21 de 39

Páginas do PDF

O Direito à Natureza na Cidade

O homem, a terra e o sentimento da natureza - Élisée Reclus

Esta valorização do homem como um agente ativo no entendimento e modificação da natureza será influenciado pela publicação ainda nos finais do terceiro quarto do século XIX, até então muito recente, para Marsh e Reclus, do trabalho de um geólogo italiano de Milão chamado Stopanni, que afirma, pela primeira vez, que o homem é uma força dentro da natureza tão poderosa quanto às próprias forças naturais, muitas vezes, tomadas como as de maior magnitude. Para Stopanini, (1873 no Corso di Geologia, de acordo com uma citação extraída de MARSH, 1874), a criação do homem foi a introdução de um novo elemento na natureza, uma força inteiramente desconhecida nos primeiros períodos. Esta nova força telúrica pode ser comparada, em poder e universalidade, às grande

forças da Terra 78. E para Stopanini estes eram os indícios de uma Era Antropozóica.

Na abordagem deste trabalho, pautada pela busca de interpretações "otimistas" ou antropocêntricas das relações do homem com a natureza, chega-se a um momento onde, comparável à unicidade do pensamento no Período Teológico, será inserida uma componente que guiará praticamente todas as formas de interpretação da natureza, a economia. O mundo capitalista que emerge com extrema força neste momento, irá inserir a natureza num conjunto de atributos passíveis de serem capitalizados e comercializados.

Apesar de se considerar que no período denominado de Período da Dominação, a força humana estava se sobrepondo, de forma diferente e intensa à natureza, como resultado e resultante de um sistema de ideias e conceitos que permitiam esta dominação, tanto do ponto de vista filosófico, moral, religioso quanto técnico e econômico, ainda não representou o enquadramento definitivo da natureza à vida social humana.

 

O homem, a terra e o sentimento da natureza -

Élisée Reclus A obra e o pensamento de Élisée Reclus são sem dúvida, uma das maiores influências sobre este trabalho e se constitui em um dos alicerces teóricos de sustentação das ideias e conceitos a respeito da geografia, do homem e da natureza.

A sua famosa afirmação no prefácio de L'Homme et la Terre, o homem é a natureza adquirindo consciência de si própria ('homme est la nature prenant consicence d'elle même), coloca a questão da emancipação coletiva dos homens perante a natureza, que perpassa os valores morais, físicos, religiosos e culturais.

Em 1874, no mesmo ano em que George Marsh publica seu livro, Reclus publica o texto De l'action humaine sur la géographie physique. L'homme et la nature' (Da ação humana sobre a geografia física. O homem e a natureza). Neste texto, Reclus (2002, p. 34)

afirma que o homem é a alma da Terra79. O autor continua ainda dizendo que à medida que as pessoas desenvolveram sua inteligência e sua liberdade elas passaram a reagir sobre a natureza exterior, não sendo mais passivamente subjugada. Decorrente desta transformação, os homens poderiam ser considerados como verdadeiros agentes geológicos, uma vez que, transformaram de diversas maneiras a superfície dos continentes, mudaram a economia das águas correntes e também modificaram os climas.

A ação humana consciente imprimiu na superfície do planeta uma diversidade de aspectos muito maior que as forças inconscientes da natureza. Além de sua superioridade na ação, o homem pode melhorar seu domínio, seu território, ajudando obstinadamente a terra no seu lugar a se embelezar. O homem digno de sua missão assume uma parte da responsabilidade na harmonia e na beleza da

natureza em seu entorno 80.

Os exemplos desta ação do homem sobre a natureza, de sua vontade perseverante, são as obras de drenagem que garantem a fertilidade da terra; transferências de elementos da flora e da fauna; a irrigação que permite a criação de novos oásis, os diques na França e os polders na Holanda. Estas obras úteis, que constituem em verdadeiras revoluções geográficas e que mudam o aspecto da Terra.

No texto, Géographie Général' (Geografia Geral), de 1872, Reclus coloca de maneira incisiva que estudar a superfície da Terra é

necessariamente realizar um estudo da humanidade 81, uma ideia muito próxima daquelas trabalhadas por Marx. A concepção de Reclus Telle terre, tel peuple (Tal terra, tal povo), não representava uma visão determinista do ambiente, mesmo quando os homens primitivos moldaram o seu modo de vida dentro de uma dependência absoluta da natureza (nas áreas costeiras os homens pescavam e nas áreas florestadas caçavam). Desde o princípio, os homens aprenderam a superar as condições e limitações que a natureza local colocava. Com estas mudanças no meio, decorrência da revolta do homem contra as duras necessidades, começa a

geografia propriamente dita 82.

Na Leçon D'overture du cours de Géographie Comparée dans l'espace et dans le temps (Lição de abertura do curso de Geografia Comparada no espaço e no tempo), de 1894, Reclus explicita ainda mais uma "ideia materialista", a Terra fez o homem e o homem refez

a Terra incessantemente 83. A tomada de consciência pelo homem é originada de sua própria relação com a natureza, como um meio primitivo, que segundo Reclus (1985, p. 57), sendo "constituído pelas coisas circundantes, é apenas uma tênue parte do conjunto das influências às quais o homem está sujeito". Este meio primitivo, como algo estático, não se coloca como entidade física, como obstáculo ao homem, mas sim como o que enriquecerá a humanidade e possibilitará sua emancipação. A atividade intelectual, que se deu sobre esta natureza, atribui uma dinâmica dada pela própria sociedade. É o papel do homem de transformar a natureza em geografia, pois a humanidade não apenas habita a superfície da Terra, mas a ocupa em todas as suas possibilidades. A humanidade floresce sobre ela e a consome em todos os sentidos.

Reclus considera a natureza como uma mãe beneficente que nutre e alimenta seus filhos, mas sem o ideal romântico de harmonia, pois até as plantas e os animais lutam por seu território. Assim, não seria diferente para o homem que, segundo Reclus (1886), está incessantemente em conflito com a natureza, seu habitat. Tendo sido, durante sua infância, submetido à natureza, uma época de primitivo barbarismo, o homem tem gradualmente emancipado a si mesmo, a partir de esforços para adaptar as forças da Terra para o seu uso [...] Por um longo período, os homens eram nada mais do que produtos inconscientes da natureza, mas paulatinamente

tornaram-se agentes ativos sobre a história da natureza84. O homem tem feito seu, o solo da Terra através da ciência, quando

começou a adaptá-la para seu uso através do cultivo85.

A incorporação e até produção de terras eram fatos que permeavam todo o sistema de ideias do século XIX, tendo como principal exemplo de análise a Holanda. A interpretação que Reclus contrói sobre esta conquista do homem é extremamente interessante.

Reclus (2002) escreve que a Holanda mostra os magníficos trabalhos do homem, e declara suas vantagens sobre a natureza. A história agrícola dos Países Baixos é escrita num combate sem trégua entre o homem e o oceano. Este combate relata a vitória do

homem 86. As terras reclamadas através da drenagem e da construção de diques na Holanda, uma nação inteira, nas palavras de Reclus (1886), em conflito com a natureza, se deu em duas etapas, com características muito particulares, definindo muito bem dois padrões de ideias em relação à natureza.

A primeira etapa da produção das terras, reclamadas do mar, se deu através da construção de diques, canais e drenagens que seguiam os cursos dos pequenos corpos d'água. Desta forma, de acordo com Reclus (1886), as primeiras técnicas usadas na "construção" das novas terras eram ainda muito primitivas e muito próximas da natureza. Como consequência, as terras produzidas a partir destas técnicas, mostravam linhas meandrantes e pitorescas que muito as aproximavam de terras "naturais". As terras produzidas não eram tão destoantes das outras ao seu entorno.

Já a segunda etapa na conquista de terras, está vinculada a processos de drenagem e técnicas para a construção de diques mais avançadas. Estas terras produzidas, de acordo com um padrão mais avançado, introduziram um novo aspecto a paisagem: uma regularidade matemática, uma natureza geometrizada, com intervalos regulares entre canais paralelos e ângulos retos. Para Reclus (1886), a estupenda regularidade não é perturbada, salvo por massas de prédios em grandes cidades, pelos parques que as cercam e pelas estradas e ferrovias, que cortam os canais em

oblíquas direções como se emergissem das cidades87.

A passagem sobre os obstáculos naturais, usando a palavras de Reclus (1886), ocorre a partir do conhecimento do mal, permitindo-

se assim descobrir o remédio88. Além disto, as ideias trocadas por povos de todos os climas tornam-se patrimônio comum para todos. A inteligência criativa dos trabalhadores tem sido permitida,

desenvolvida e aumentada89.

Além das ideias, os produtos e as pessoas começam também a se movimentar entre os lugares, levando a um aumento da conexão entre países. Os modos de comunicação ficam mais eficientes e passam a ser mais utilizados. Para Reclus (1886), os telégrafos elétricos representam uma liberdade física para o homem; sua liberdade é posta livre de obstáculos impostos pelo tempo e espaço. O homem torna-se pessoalmente presente em todos os pontos do espaço, através dos cabos que conduzem e trazem seus

pensamentos 90. A inauguração do cabo telegráfico transatlântico, ligando a Europa à América do Norte, significou uma grande conquista do homem sobre a natureza.

Num texto de 1866, Du Sentiment de la Nature dans les Société Modernes (Do sentimento da natureza nas sociedades modernas), Reclus descreve o amor a uma natureza, ou a uma geografia física, escarpada, acidentada e alta que transmite fascinação. As áreas planas seriam de extrema monotonia. Uma natureza alta, onde a montanha oferece mais obstáculos ao homem, sua "dominação" exige maiores esforços e levam a um prazer mais sofisticado e intenso. Neste momento, se desenvolvem na Europa os clubes expedicionários que visavam criar grupos para exploração de novos lugares e de lugares selvagens, tais como os clubes alpinos com o intuito de conquistar as montanhas européias; e os clubes de turismo, que passaram a publicar alguns relatos e viagens e instituir a ideia de viagens expedicionárias. Uma ideia muito interessante trabalhada por Reclus, neste texto, refere-se às glórias e triunfos que o homem alcançava cada vez que um novo pico de uma montanha era conquistado, e inserido nos mapeamentos, passando a ostentar uma bandeira, um símbolo do poder de dominação humana.

A produção de ideias de natureza será fortemente influenciada pelas obras de pintores e fotógrafos, criando um padrão estético de representação da natureza, a partir de algumas viagens ao redor do mundo, ou baseando-se em descrições e relatos de outros viajantes. De acordo com Reclus (2002), passa-se a "frequentar" mais e mais intimamente a natureza graças às obras de arte que reportavam as memoráveis viagens. Todos os homens cultos podem agora compreender a fisionomia de diversas regiões do globo. As imagens da natureza brasileira foram difundidas na Europa desta maneira.

Nos países mais industrializados, onde as indústrias têm sido as maiores forças para modificar tanto o conteúdo das ideias quanto a aparência da natureza, os desejos dos homens têm cada vez mais se imposto sobre as repetições cíclicas e sem intenção da natureza. Entretanto, para Reclus (1886), uma das maiores conquistas do homem sobre a natureza é a previsão do tempo. A meteorologia seria uma das mais importantes ferramentas para libertar o homem da natureza. Com a previsão do tempo, os furacões perdem seu poder sobre o homem. Mas há, entretanto, um triunfo ainda maior que aquele da previsão da sucessão dos fenômenos

meteorológicos, que é a vitória obtida pela modificação do clima 91. A modificação dos climas seria uma forma de melhorar a saúde pública nas cidades, bem como poderia representar um incremento às atividades agrícolas.

O ideal do homem é o ideal que irá prevalecer. Quando o ideal é nada mais que a mera reclamação de chão para cultivo, tudo será sacrificado para este fim, como a variedade e originalidade das espécies e toda a beleza da vegetação. Mas o desejo de obter culturas produtivas, a partir da terra, pode ser suplantada pelo desejo de adoração à terra, dando-lhe um grande esplendor através da adição de arte à natureza; [...] não resta dúvida que irá suceder-se uma mudança material do mundo vegetal de acordo com seus desejos, e em dando-se esta transformação, ao invés de sua primitiva originalidade, uma nova beleza irá se constituir para

responder a um sentimento com sabor estético92.

A influência do homem sobre a natureza não é apenas associada a melhoria da sua produtividade, mas também é composta com uma forte componente estética, e isto vem caminhando com a história das ideias e conceitos de natureza desde o Período Clássico. Assim, para Reclus (1886), a ação do homem é tão poderosa no empreendimento da drenagem de pântanos e lagos, na derrubada dos obstáculos entre diferentes países e na modificação da primitiva distribuição dos animais e das espécies vegetais, que estes fatos adquiriram uma importância decisiva nas mudanças pelas quais a superfície externa do globo tem passado. Esta ação do homem pode embelezar a terra, mas ela também pode desfigurá-la, de acordo com os costumes e as condições sociais de qualquer nação, ela contribui tanto para a degradação ou para a glorificação da natureza. O homem molda dentro de sua própria imagem o país ao

qual pertence 93.

Adornar e melhorar a natureza é a função da civilização e da cultura que separaram os homens cultos e civilizados dos bárbaros, que apenas destróem a terra, que apenas desfiguram a face da natureza sem acrescentar beleza. Esta condição estética da natureza humanizada está muito relacionada aos grandes jardins que tomaram lugar na Europa desde o Renascimento, principalmente com os grandes jardins nos palácios franceses e italianos, bem como naqueles voltados a exibição de plantas exóticas, como o Jardin des Plantes em Paris. Mesmo nos jardins onde a natureza já se encontrava enclausurada por formas geométricas regulares, ainda era possível sua melhora, sua adequação ao gosto estético humano. Neste sentido, Reclus (1886), cita os jardins do Imperador Yang-Ty, onde se tem o hábito de repor no lugar das flores e folhas que caem das árvores, uma folhagem artificial e flores feitas de seda, posteriormente impregnadas com perfume, tornando a ilusão

mais completa 94.

Mas esta necessidade estética na melhora da natureza se dá concomitan-temente, não se pode esquecer, com o advento do capitalismo e da proliferação da propriedade privada como mercadoria, como desejo e como direito. Portanto, a natureza, imbuída e valorada pelo seu conteúdo estético irá ser altamente incorporada à vida econômica da sociedade e seguirá a mesma lógica empreendida hoje pelos agentes do mercado imobiliário.

A apropriação da natureza, uma apropriação da apreciação estética da natureza, consistindo numa salva guarda das suas belezas como forma de agregação de valor à uma propriedade privada, passa também pela privação de sua componente material, separando-a dos olhares e dos usos de todos os homens, através de cercas ou muros, instaurando definitivamente uma única forma de apreciação e de contato com a natureza através da compra de uma propriedade.

Élisée Reclus também coloca uma questão instigante, na qual o homem só processa a beleza da natureza quando a mesma encontra-se filtrada, civilizada, enquadrada. Segundo Reclus (1886), a natureza muito selvagem é incompreensível para o homem, ele preferiria trechos da natureza que já foram digeridos pela vida social, possibilitando assim que sua imaginação envolva todo este trecho humanizado mais facilmente. Símbolos da natureza, como uma charmosa avenida salpicada de árvores ou um lago rodeado por estátuas, como um santuário, são mais valorizados pelo homem do que a natureza mantida em seu estado bruto. Isto se dá porque o desejo universal do homem é adaptar a terra para seus requerimentos e para tornar completa sua possessão para derivar, a partir disto, seus imensos tesouros. Ele cobre a terra com uma rede de estradas, ferrovias e cabos telegráficos; ele fertiliza seus

desertos e se faz o mestre de seus rios95.

As concepções de Élisée Reclus, como a do homem sendo a tomada de consciência da natureza remete a uma das primeiras condições no mundo das ideias para se compreender a transformação da ideia de natureza, vista como algo meramente "natural", primitivo, physis ou primeira natureza, em algo muito mais humanizado e dotado de uma racionalidade inerente à vida humana. Esta mudança vai desde o primeiro período quando era a natureza que se relacionava com o homem, definindo as "regras do jogo", até o momento atual onde a sociedade se relaciona com o território, incluindo aí uma segunda natureza. A sociedade passa a acomodar

a natureza no meio da sua vida social.96

Este domínio de uma forma de pensamento, ou melhor, de uma forma de comando da vida social, que o capitalismo exerce sobre a humanidade implica na constituição de um novo sentimento pela natureza, baseada na sua exploração visando o conforto individual e não uma emancipação coletiva. Este processo representa também a vitória do individualismo e da propriedade privada. Para Reclus (1985, p. 75),

um fato capital domina toda a civilização moderna: o fato de

que a propriedade de um único indivíduo pode aumentar

indefinidamente, e até mesmo, em virtude do consentimento

quase universal, abarcar o mundo inteiro. O poder dos reis e

dos imperadores é limitado, o da riqueza não o é. O dólar é o

senhor dos senhores [...] O modelo essencial do civilizado

europeu, ou melhor, do americano do norte, é de se preparar

para o lucro, tencionando comandar os outros homens através

do dinheiro todo-poderoso. Seu poder aumenta na proporção

exata do seu haver.

Apesar disto, não se tem receio em acreditar que o acúmulo de

conhecimento do homem sobre a natureza e a sua

consequente assimilação seja algo perverso. A perversidade é

dada pela forma que o mundo caminhou com a hegemonia do

modo de produção capitalista e pelas formas de uso do

conhecimento inerentes ao sistema de apropriação

individualista tanto da cidade quanto da natureza. Ainda é

possível acreditar numa visão otimista e esperançosa das

relações do homem com a natureza como propunha Elisée

Reclus ou do homem com o território como será mostrado no

próximo capítulo, a partir das obras de Milton Santos.

 

Notas

32 Neste período também o homem, de acordo com Lenoble (1969, p. 260), "vai habituar-se aos sacrilégios de Prometeu e de Ícaro: já não teme ser fulminado pelos deuses. Descartes, Galileu, Gassendi, todos os seus discípulos menores, têm doravante por evidência que conhecer é fabricar e que a Natureza nada mais faz do que realizar em ponto grande o que nós podemos obter por pormenores e à nossa escala, graças ao nosso engenho de técnicos. [...] Não só deixam de temer a cólera divina por esta violação da Natureza como creem que Deus nos deu a missão de trabalhar à sua imagem, de construir o mundo no nosso pensamento como ele o criou no seu, fornecendo as suas leis."

33 À título apenas de menção, pois não serão aprofundadas estas questões neste trabalho, houve um destaque de muitas obras e de uma produção intelectual durante o Período dos Descobrimentos sobre a relação entre clima e sociedade, bem como uma busca por sistemas de classificação climática e a influência dos climas no destino dos homens.

34 De acordo com Lenoble (1969, p. 279), "mecanizada, a Natureza torna-se uma simples possibilidade de exploração técnica, em breve levada ao máximo pela indústria nascente e logo invasora. O homem trocou o seu modelo, a sua senhora, por uma ferramenta. Essa ferramenta é-lhe entregue sem uma nota a explicar o seu modo de emprego. O homem, a principio divertido, não vai tardar a apavorar-se com o seu poder e com o vazio que criou desta forma ao redor dele".

35 FULTON, W. Nature and God. Edimburgo, 1927, p. 134, citado por GLACKEN, 1996.

36 Outra obra, que apesar de ter sido escrita num momento anterior foi mais difundida no Período dos Descobrimentos, também contribuiu para o entendimento do homem como um melhorador da natureza. On the art of building in ten books, de Leon Battista Alberti, o autor coloca, já no prefácio, como certas condições ambientais facilitam algumas formas de enfermidades, os homens devem modificar o meio. A sociedade, suas edificações e as invenções criadas estão todas inter-relacionadas com os contornos naturais. Além disto, os valores como utilidade, salubridade e comodidade não são suficientes para que uma cidade ou um edifício seja adequado aos homens, é preciso que se considere o homem como um ser sensível e, desta forma, cabe a suas construções instituir um valor estético e devem ser obras contidas também de beleza.

37 "La negación de un deterioro de la naturaleza era también una creencia afirmativa, lo mismo que lo era el abandono de la analogía biológica apliada a la naturaleza misma". (GLACKEN, 1996, p. 376)

38 "Ray rechazó la creencia en el agotamiento y la disolución del mundo, sobre bases filosóficas, religiosas y científicas; sus objecciones descansaban también en observaciones del estado actual de la naturaleza, en líneas similares a las del uniformitarismo de la geología del siglo XIX. En la naturaleza, decía, no hay nada que manifieste o permita inferir una futura disolución, si bien algunos accidentes poco probables (diluvios, extinción del sol, erupción de un fuego central encerrado en la tierra, la sequedad y disposición inflamable de la tierra en la Zona Tórrida, que podría ser incendiada por volcanes, o una erupción simultánea de todos estos) podrían arruinar la tierra." (GLACKEN, 1996, p.38)

39 Autor do Ciclo Geográfico ou do Ciclo de Erosão

40 citado por GLACKEN, 1996

41 Para Marsílio Ficino (Théologie Plantonicenne de l'immortalité des ames, apud GLACKEN, 1996), o homem não se limita a inventar, mas também a melhorar suas invenções. Imita todas as obras da natureza divina, corrige ou melhora as obras da natureza inferior. Assim, pois, o poder do homem é quase similar ao da natureza divina. [...] O homem não só faz uso dos elementos, mas também os embeleza, coisa que nunca fez nenhum animal. De que maravilhoso modo cultiva o solo por toda a terra e constrói edifícios e cidades, com que destreza controla as vias navegáveis.

42 "Después del año 1600, los molinos de viento se convirteron en activas bombas de agua en gran escala. [...] En la península al norte de Amsterdan había contrado hacia 1640 hasta veintesiete lagos desecados por el bombeo, y él mismo propuso drenar el Harlemmermeer con la ayuda de ciento sesenta molinos de viento." (GLACKEN, 1996, p.441)

43 Para Lineu (apud GLACKEN, 1996), o homem possui a capacidade de mudar e utilizar a natureza, sendo estas ações comprovações de sua criatividade como nos casos de domesticação de animais selvagens ou na escolha e disseminação de plantas que lhe são úteis. As ideias de Lineu inserem um sistema de ideias e conceitos utilitários e antropocêntricos de natureza. A Terra é possuidora de um sistema natural que se autorenova e se autopurifica, além disto, todas as suas transformações também se dão na forma de processos cíclicos onde não há perda mas sim mudança de matéria natural.

44 "Man has transported a plant from its native habitat to a new soil, he has introduced a new geographical force to act upon it, and this generally at the expense of some indigenous growth which the foreign vegetable has supplanted. The new and the old plants are rarely equivalents of each other, and the substitution of an exotic for a native tree, shrub or grass, increase or diminishes the relative importance of the vegetable element in the geography of the country to which it is removed". (MARSH,1965, p. 54).

45 Para Glacken (1996), Kant continua ainda sua interpretação da relação do homem com a natureza, sendo que para ele a liberdade da causalidade do homem lhe permite adaptar as coisas físicas aos fins que ele propõe.

46 "Como el hombre valora más, en sí mismo y en los otros, aquellos procesos que son intencionales y con propósito, quiere asignar tambiém intenciones y propósitos a la Naturaleza, porque su concepto de esta no puede ir más allá del concepto que él se ha formado de sí mesmo". (apud GLACKEN, 1996, p. 495)

47 No naturalismo, de acordo com Lenoble (1969, p. 301), "a Natureza volta a ser, mais uma vez, a Mãe fecunda dos homens, que recomeçam a pedir-lhe uma regra dos costumes. Durante esse tempo, a ciência continua, por vias sempre mais seguras, a sua exploração metódica da Natureza. Mas torna-se bem claro agora que a Natureza do físico, cada vez mais matemático e que acaba de matematizar a química com Lavoisier e de mecanizar com Spallanzani os fenômenos até aí misteriosos da geração, já nada tem a ver com a natureza dos moralistas e dos 'filósofos' desse tempo."

48 Reafirma-se aqui que o objetivo no estudo das ideias e conceitos de natureza na geografia tem como foco principal àquelas contribuições relacionadas ao que será denominado como Geografia Crítica. Neste momento, apenas se apresenta uma indicação de outra possibilidade de entendimento da natureza que fortemente encontra-se presente na história do pensamento geográfico.

49 Neste encontro entre o Velho e o Novo Mundo, considera-se aqui tanto as Américas quanto a Oceania. A forma de entendimento da natureza será usada para ratificar o processo de colonização e uso da terra. As teorias de classificação climática implicam em vantagens ou desvantagens culturais na mesma proporção. O clima cruel do Novo Mundo, tropical quente e úmido, havia impedido seus habitantes de alcançar a perfeição humana e eles se mantinham ao mesmo nível que os animais, possuindo atraso no desenvolvimento da mente e do corpo. E assim, as mesmas teorias que davam ênfase nas desvantagens naturais dos povos do Novo Mundo proclamavam a superioridade do clima temperado e a produção de uma raça humana mais desenvolvida, num mais puro direito natural. Isto sem mencionar as teorias de aumento e controle populacional de Robert Wallace e Malthus que começavam a tomar fôlego e insistiam num limite natural para a população terrestre.

50 Para Lenoble (1969, p. 295), Buffon tinha um gênio "de sábio e a sua fé sincera mantêm bem ao abrigo das elucubrações dos 'filósofos', constrói também uma Natureza que Deus modelou inteiramente pelo desejo do homem."

51 Qu'elle est belle, cette Nature cultivée! Que par les soins de l'homme elle est brillante et pompeusement parée! (BUFFON, Histoire Naturelle, p. 59)

52 "Les fleurs, les fruits, les grains, perfectionnées, multipliés à l'infini; les espeses utiles d'animaux transportées, propagues, augmentées sans nombre; les espeses nuisibles réduites, confinées, réleguées; l'or et le fer plus nécessaire que l'or, tires des entrailles de la terre; les torrents contenus, les fleveus dirigée, resserrés; la mer, même soumise, reconnue, traversée d'un heminsphere à l'autre; la terre accessible partout, partout rendue aussi vivante que féconde; dans les vallées de riantes prairies, dans les plaines des riches pâturages, ou de moissons encore plus riches; les collines chargées de vignes et de fruits, leurs sommets couronées d'arbres utiles et de jeunes forêts; les deserts devenus des cites habitées par un people immense, qui circulant sans cesse, se répand de ces centers jusqu'aux extrémités; des routes ouvertes et fréquentées, des communications établies partout comme autant de témois de la force et de l'union de la société: mille autre monuments de puissance et de gloire, démontrent assez que l'homme maître du domaine de la Terre, en chargé, renouvelé la sufarce entière, et que tout temps il partage l'empire avec la Nature". (BUFFON, Histoire Naturelle, p. 59-60)

53 "Enfin la face entière de la Terre porte aujourd'hui l'empreinte de la puissance de l'homme, laquelle, quoique subordinnée à celle de la Nature, souvent a fait plus qu'elle, ou du moins l'a si merveilleusement secondée, que c'est à l'aide de nos mains qu'elle s'est développée dans toute son étendue, e qu'elle est arrivée par degrés au point de perfection et magnificence où nous la voyons aujourd'hui". (BUFFON, Les Époque... 7a. época, p. 92)

54 Spinosa não atribui à natureza nem beleza nem feiúra, nem ordem nem confusão. Estes são produtos da imaginação. Também condena as concepções teleológicas de natureza, com a intenção de mostrar que a natureza não faz nada e bem como não concorda com as concepções que colocam a natureza como algo vantajoso ao homem. Todas estas formas de julgamento moral e utilitário da natureza parecem "acabar mostrando que a natureza, deuses e homens estão igualmente loucos". (SPINOSA, Ética, Parte I, Apêndice que segue a proposição XXXVI apud glacken 1996, p. 351-352).

55 Segundo Luginbuhl (1992), em 1909, ocorre em Paris o I Colóquio de Proteção de Paisagens, tendo como filosofia central a beleza natural como sinônimo de moral. Deste colóquio publica-se uma carta pregando que o progresso é quem destrói a Natureza e, portanto, deve ser limitado. Os signatários eram contra a criação de estradas de ferro e vias de circulação, de extração de minérios e exploração da madeira e agricultura. É claro que o acesso ao progresso era condenado nas colônias e nos países mais pobres. Assim, produz-se um sistema de ideias que ratifica conceitos afinados ao discurso político, econômico, social e cultural dominantes, que assumem um tom protecionista, não da Natureza, mas do estilo de vida da elite européia, mantido graças a uma forma de produção excludente e beneficiando com o monopólio o acesso dos produtos europeus nos territórios condenados a serem grandes reservas de gentes, animais e plantas.

56 "Si bien Marx define la naturaleza - el material de la actividad humana - como aquello que no es subjetivo, que no se disuelve en los modos de apropiación humana, lo que es directamente no idéntico al hombre en el sentido ontológico". (SCHMIDT, 1976, p. 23)

57 "La naturaleza se mantiene en un plano abstracto. La naturaleza en su conjunto es para él un sustrato ajeno a la historia, homógeneo, cuya resolución en una dialética de sujeto y objeto constituye el meollo de la crítica marxista. La naturaleza es para Marx un momento de la praxis humana y al mismo tiempo la totalidad de lo que existe." (SCHMIDT, 1976, p. 23)

58 Além disto, "o trabalhador nada pode criar sem a natureza, sem o mundo externo sensível. Este é o material onde se realiza o trabalho, onde ele é activo, a partir do qual e por meio do qual produz coisas. Mas assim como a natureza fornece os meios de existência do trabalho, no sentido de que o trabalho não pode viver sem objectos, nos quais se exercita, de igual modo ela proporciona os meios de existência em sentido mais restrito, a saber, os meios de existência física do próprio trabalhador." (MARX, 1975, p.160)

59 "la naturaleza, tomada en forma abstracta, por sí, fijada en la separación del hombre, no es nada para el hombre". (MARX, Manuscritos parisienses apud SCHIMDT, 1976, p. 26)

60 Segundo Marx (1980, p. 79), "é evidente que o ser humano, por sua atividade, modifica do modo que lhe é útil à forma dos elementos naturais. Modifica, por exemplo, a forma da madeira, quando dela faz uma mesa. Não obstante a mesa ainda é madeira, coisa prosaica, material. Mas, logo que se revela mercadoria, transforma-se em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável."

61 "Uma máquina que não serve no processo de trabalho é inútil. Além disto, deteriora-se sob a poderosa ação destruidora da natureza. O ferro enferruja, a madeira apodrece. Fio que não se emprega na produção de tecido ou malha, é algodão que se perde. O trabalho vivo tem que se apoderar dessas coisas, de arrancá-la de sua inércia, de transformá-las de valores de uso possíveis em valores de uso reais e efetivos". (MARX, 1980, p. 207)

62 Como diz Marx (1980, p. 203), "a terra (que do ponto de vista econômico, compreende a água) que, ao surgir o homem, o provê com meios de subsistência prontos para utilização imediata, existe independentemente da ação dele, sendo o objeto universal do trabalho humano. Todas as coisas que o trabalho apenas separa de sua conexão imediata com seu meio natural constituem objetos de trabalho, fornecidos pela natureza. Assim, os peixes que se pesca, que são tirados do seu elemento, a água, a madeira derrubada na floresta virgem, o minério arrancado dos filões. Se o objeto de trabalho é, por assim dizer, filtrado através do trabalho anterior, chamamo-lo de matéria-prima".

63 "Só conhecemos uma única ciência, a ciência da história. A história só pode ser considerada a partir de dois aspectos, dividindo-a em história da natureza e história da humanidade. Apesar de não termos que dividir estes dois aspectos; entretanto, existem os homens, a história da natureza e a história dos homens que se condicionam reciprocamente" (A ideologia alemã, p. 31).

64 Nesta diferenciação entre animais e homem, Marx (1975, p. 165), escreve ainda que "o animal apenas produz a si, ao passo que o homem reproduz toda a natureza [...] o animal constrói apenas segundo o padrão e a necessidade da espécie a que pertence, ao passo que o homem sabe como aplicar o padrão apropriado ao objecto; deste modo, o homem constrói também em conformidade com as leis da beleza".

65 ferramentas - técnicas = porções da natureza corporificadas (as primeiras ferramentas reproduziam em proximidade algumas formas encontradas na natureza) através da astúcia do raciocínio humano e que serão formas de mediação do homem. Pela visão marxiana da mediação pelas ferramentas, o objeto fruto de sua utilização pode absorver, tornar-se idêntico, incorporar-se materialmente ao produto do trabalho ou pode consumir-se sem resíduos.

66 Entende-se por um projeto de emancipação coletiva da natureza, de maneira similar ao que Marx faz da liberação do homem do julgo da religião. A emancipação coletiva visa constituir nas atividades cotidianas do homem um sistema de "relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza. A estrutura do processo vital da sociedade, isto é, do processo da produção material, só pode desprender-se do seu véu nebuloso e místico, no dia em que for obra de homens livremente associados, submetida a seu controle consciente e planejado. Para isso, precisa a sociedade de uma base material ou de uma série de condições materiais de existência, que, por sua vez, só podem ser o resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento". (MARX, 1980, p. 88/89)

67 As ciências e as técnicas têm um papel fundamental no projeto de emancipação da sociedade. De acordo com Marx (1975, p. 201), "a ciência natural penetrou tanto mais practicamente na vida humana através da indústria, transformou-a e preparou a emancipação da humanidade, muito embora o seu efeito imediato tenha consistido em acentua a desumanização do homem. A indústria é a relação histórica real da natureza [...]". (p. 201)

68 Marx também escreveu sobre a crescente deterioração da natureza. "Com a preponderância cada vez maior da população urbana que se amontoa nos grandes centros, a produção capitalista, de um lado, concentra a força motriz histórica da sociedade, e, de outro, perturba o intercâmbio material entre o homem e a terra, isto é, a volta à terra dos elementos do solo consumidos pelo ser humano sob e forma de alimentos e de vestuário, violando assim a eterna condição natural da fertilidade permanente do solo. Com isto, destrói a saúde física do trabalhador urbano e a vida mental do trabalhador do campo. Mas, ao destruir as condições naturais que mantêm aquele intercâmbio, cria a necessidade de restaurá-lo sistematicamente, como lei reguladora da produção e em forma adequada ao desenvolvimento integral do homem. [...] A produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda riqueza: a terra e o trabalhador". (MARX, 1980, p. 578 e 579)

69 Somente depois de lutas milenares, quando "se fixou finalmente a diferenciação da mão e do pé, donde resultou o caminhar erecto, o homem se tornou diferente do mono; constituiu-se o fundamento do desenvolvimento da linguagem articulada e da formidável expansão do cérebro que, desde então, tornou intransponível o abismo que separa o homem do macaco". (Engels, 1991, p. 25)

70 Este objetivo coletivo na ação sobre a natureza, esta aproximação entre os homens é aquilo que se tem referido como um projeto de emancipação coletiva, que também será abordado por Engels. Assim, segundo ele (1990, p. 96) "a liberdade, pois, é o domínio de nós próprios e da natureza exterior, baseado na consciência das necessidades naturais; como tal é, forçosamente, um produto da evolução histórica. Os primeiros homens que se levantaram do reino animal eram, em todos os pontos essenciais de suas vidas, tão pouco livres quanto os próprios animais; cada passo dado no caminho da cultura é um passo no caminho da liberdade. Nos primórdios da história da humanidade, realizou-se a descoberta que permitiu converter o movimento mecânico em calor: a produção do fogo pela fricção; o progresso tem, atualmente, como sua etapa terminal, a descoberta que transforma, inversamente, o calor em movimento mecânico: a máquina a vapor. [...] O fogo, obtido dessa forma, foi que permitiu ao homem o domínio sobre uma força da natureza, emancipando-o definitivamente das limitações do mundo animal".

71 "O animal apenas utiliza a Natureza, nela produzindo modificações somente por sua presença; o homem a submete, pondo-a a serviço de seus fins determinados, imprimindo-lhe as modificações que julga necessárias, isto é, domina a Natureza. E esta é a diferença essencial e decisiva entre o homem e os demais animais; e, por outro lado, é o trabalho que determina essa diferença". (ENGELS, 1991, p. 223)

72 Neste trabalho utilizou-se a versão original de 1874 e uma versão de 1965 da obra de Marsh, e por esta razão que aqui há menção as duas datas, mas que se referem a mesma obra.

73 "Indicate the character and, approximately the extent of the changes produced by human action in the physical conditions of the globe we inhabit and incidentally, to illustrate the doctrine that man is, in both kind and degree, a power of a higher order than any of other forms of animated life, which, like him, are nourished at the table of bounteous nature". (MARSH, 1874, prefácio)

74 "These changes for evil and for good have not been caused by great natural revolutions of the globe, nor are they by any means attributable wholly to the moral and physical action or inaction of the peoples, or in all cases, even of the races that now inhabit these respective regions. They are products of a complication of conflicting or coincident forces, acting through a long series of generations. [...] So far they are purely the calculated and desired results of those simple and familiar operations of agriculture and of the social life" (MARSH, 1965, p. 19)

75 "The earth was not, in its natural condition, completely adapted to the use of man, but only to the sustenance of wild animals and wild vegetation. Hence, a certain measure of transformation of terrestrial surface, of suppression of natural, and stimulation of artificiality modified productively becomes necessary. This measure man has unfortunately exceed" (MARSH,1965, p. 38)

76 "In recent times operation for this purpose have assumed a magnitude, and been attended with economical as well sanitary and geographical effects, which entitle them to a high place in the efforts of man to ameliorate the natural condition of the soil he occupies." (MARSH, 1874, p. 435)

77 "Fields where nature is brought in conflict with man, she first resists his attempts at interference with her operations, then, finding him the stronger, quietly submits to his rule, and ends by contributing her aid to strengthen the walls and shackles by which he essays to confine her." (MARSH, 1874, p. 503)

78 "the creation of man was the introduction of a new element into nature, of a force wholly unknown to earlier periods. It is a new telluric force which is power and universality may be compared to the greater forces of the earth". (STOPANINI, apud MARSH, 1874, p. 605)

79 "L'homme est l'âme de la terre."

80 "L'homme digne de sa mission assume par cela même une part de resposabilité dans l'harmonie et la beauté de la nature environnante". (RECLUS, 2002, p. 35)

81 "L'étude de la surface du globe accompagne donc de la façon la plus intime l'étude de l'humanité". (RECLUS, 2002 , p. 81)

82 "Avec ces changements de milieu, qu'a pu se procurer l'homme deans ses révoltes contre la dure nécessité, commence la géographie proprement dite." (RECLUS, 2002, p. 82)

83 "la terre fait l'homme e que l'homme refait la terre incessamment" (RECLUS, 2002, p. 104)

84 "Man is incessantly engaged in a conflict with the globe on which he dwells; having submitted a child of nature during the ages of primitive barbarism, he has gradually emancipated himself, and which endeavoring to adapt to his uses the forces of the earth, he has, so to speak, made them his own. (...) For a long time we were nothing more than its unconscious products, we have become increasingly active agents in its history." (RECLUS, 1886, p. 408)

85 "Man had made the soil of the earth his own by science he had commenced to adapt it to his use by cultivation." (RECLUS, 1886, p. 446)

86 "L'histoire agricole des Pays-Bas est le récit d'un combat sans trêve entre l'homme et l'ocean, et dans ce combt c'est l'homme qui a reporté la victoire." (RECLUS, 2002, p. 43)

87 "The astonishing regularity of the landscape is undisturbed, save by the masses of buildings in the large towns, the parks which surround them, and the roads and railways crossing the canals in an oblique direction as they emerge from the cities." (RECLUS, 1886, p. 457)

88 "The knowledge of the evil has led to the discovery of the remedy." (RECLUS, 1886, p. 460)

89 "Ideas become a patrimony common to all, and the creative intelligence of workers has been enabled to develop and increase." (RECLUS, 1886, p. 468)

90 "His liberty is set free from the obstacles imposed by time and space, and he becomes, as it were, personally present at all the points of space which the conducting wire brings into relation with his thoughts." (RECLUS, 1886, p. 476)

91 "There is, however, a triumph still greater than that of foreseeing the succession of meteorological phenomena, and that is the victory obtained by the modifications of climates." (RECLUS, 1886, p. 483)

92 "The ideal of man is the ideal which will always prevail. As long as the ideal is nothing else but the mere reclamation of ground for cultivation, everything will be sacrificed to this point, the variety and originality of species, and all beauty of vegetation. But when the desire of obtaining productive crops from the earth is supplemented by that of adoring it and of giving to it all the splendor which art adds to nature; [...] no doubt it will succeed in materially modifying the vegetable world according to its desire, and in giving it, instead of its primitive originality, a new beauty which will respond to a sentiment of aesthetic taste." (RECLUS, 1886, p. 487)

93 "The action of man is so powerful an agency in draining marshes and lakes, in smoothing down the obstacles between different countries, and modifying the primitive distribution of animal and vegetable species, that these very facts become of decisive importance in the changes which the outward surface of the globe is undergoing. This action of man may embellish the earth, but it may also disfigure it; according to the customs and social condition of any nation, it contributes either to the degradation or glorification of nature. Man moulds into his own image the country which he inhabits…" (RECLUS, 1886, p. 490)

94 "The gardens of the Emperor Yang-Ty were in the habit of replacing the flowers and leaves which fell from the trees by artificial foliage and flowers mad of silk, the latter being impregnated with perfume so as to render the illusion more complete." (RECLUS, 1886, p. 492)

95 "The universal wish of man is to adapt the earth to his requirements, and to take complete possession of it in order to derive from it its immense treasure. He covers it with a network of roads, railways, and telegraphic wires; he fertilizes its deserts and makes himself master of its rivers." (RECLUS, 1886, p. 494)

96 Retomando as ideias de Reclus, sobre o grau de modificação que o homem tinha impresso à natureza até o momento de sua análise (século XIX), o homem ainda não tinha visto suas obras superarem em tamanho e complexidade as ilhas constituídas pelos corais. Mas isto se refere a um estágio ainda inicial da dominação da natureza, pois no momento atual assiste-se a uma infinidade de grandes obras que representam vastas extensões territoriais, como os aterros marinhos. Os homens até estão produzindo ilhas, como exemplo pode-se citar a ilha onde fica o aeroporto de Kansai, no Japão, ou as famosas ilhas-condomínios em Dubai. Aqui cabe um comentário, enquanto a natureza sempre foi marcada pela busca de repetições de padrões, o homem imprime a sua variedade cultural sobre a mesma, mas com o advento do modo de produção capitalista e a globalização, observa-se uma retomada a uma repetição "quase natural ou automática" de padrões e símbolos de construções humanas, um retorno à natureza?