O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 32 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

São Paulo – A sofisticação da natureza

- Você vai querer criar raízes;

- A natureza e a segurança nunca estiveram tão próximas;

- Um estilo de vida que valoriza a natureza e o charme;

- A natureza toma conta do condomínio;

- Venha fazer parte de um seleto grupo que valoriza morar bem

em contato com a natureza;

- Uma proposta moderna de integrar a natureza ao edifício;

- A vegetação nativa recebeu cuidados especiais;

- A natureza transformada em arte;

- A natureza fez o projeto para você;

- Uma área reservada para sua família e para a natureza;

- Lotes junto à natureza;

- Mais do que morar é viver; condomínio sofisticado em meio à

natureza.

 

São Paulo – A sofisticação da natureza

A cidade de São Paulo apresenta-se, esteticamente, como uma negação da ideia de natureza romântica e verde. Entretanto, encontram-se reunidos em seu espaço, os traços de uma ideia de natureza romanticamente e globalmente padronizada pelos agentes do mercado imobiliário, notadamente as grandes incorporadoras, que têm reafirmado o valor monetário da natureza. A valorização da natureza verde restringe-se apenas aos folhetos e material de propaganda, pois o que se observa na realidade é uma retirada da vegetação nativa (o que ainda restava) e, em outros casos, a manutenção de uma área verde na qual foram plantadas espécies exóticas – principalmente eucaliptos e palmáceas.

Em São Paulo, qualquer objeto associado a uma ideia de natureza torna-se sinônimo de qualidade de vida e transforma-se em valor econômico, aumentando os preços dos apartamentos, casas e edifícios. Este processo pode ser observado em várias áreas da cidade, com especial concentração nas imediações dos parques urbanos e em bairros como Vila Andrade (Panamby), Moema, Morumbi, Brooklin Novo, Campo Belo, Granja Julieta, entre outros. Os nomes que mais são mencionados nos empreendimentos pesquisados são: Villagio, Jardin, Parque, Villa, Village, Bosque.

Muitos são os empreendimentos que negam a construção social da natureza e todo o processo histórico de sua incorporação à vida cotidiana (como foi detalhado na primeira parte deste livro). Como, por exemplo, um edifício localizado no Itaim Bibi, onde seria possível conviver com a vegetação nativa/original do sítio. Após todo o processo de ocupação da cidade, de todo o desenvolvimento técnico da sociedade ocidental, encontrar verde nativo das matas brasileiras num bairro completamente urbanizado de São Paulo, com uma área verde por habitante, segundo dados do Atlas Ambiental de São Paulo (2003), de 3,86 m²/habitante, não é apenas uma ilusão, como se transforma no mais puro ato enganador que o "marketing verde" propaga. É a comprovação da alienação que falava Chauí (1984) e Santos (1994), do pagamento por um produto caro – a natureza nativa – mas que na verdade é o pagamento para ser enganado.

Outros casos se relacionam com o hiperdimensionamento das matas. Algumas árvores ou capões de eucaliptos e bambus se transformam em bosques naturais, que ocupariam bairros e condomínios inteiros.

Em São Paulo, as áreas verdes públicas da cidade se tornam, pela propaganda dos empreendimentos, bens privados. Alguns empreendimentos usam proximidade com o Parque do Ibirapuera como forma de torná-lo o jardim do edifício. O mesmo ocorre com o Parque Burle Marx e com o Parque Villa Lobos.

LOCALIZAÇÃO DOS EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS EM

SÃO PAULO

Além da ideia de apropriação dos parques públicos, muitos empreendimentos em São Paulo fazem uso de uma ideia de proximidade com estes parques, uma vez que, se tratam de empreendimentos localizados em já densas áreas residenciais. Os croquis de localização seguem uma tendência geral de aproximar, às custas do sacrifício da escala na representação cartográfica, as áreas verdes dos empreendimentos.

Estes croquis, como representação da ideia de natureza que se vende, fazem uso maciço da cor verde na sua impressão e tendem a aumentar exageradamente a quantidade de áreas verdes no entorno do empreendimento. Se um estrangeiro que chegasse a São Paulo, vendado, fosse pautar suas impressões apenas pelas árvores e áreas verdes destes croquis, com certeza irá reforçar a ideia de que o Brasil é um país ocupado inteiramente pelas florestas.

As maquetes, animações e vídeos (graças ao computador) dos empreendimentos também fazem uso recorrente das substituições das áreas construídas pelas áreas verdes. Um prédio localizado na Vila Buarque (na região da Praça da República) parece no panfleto como se estivesse inserido no interior da Serra da Cantareira. Visitando o local percebe-se a inexistência de qualquer forma arbórea ou arbustiva (o índice de área verde na região da República – com exceção das praças – é praticamente zero).

Outra estratégia de marketing é a alteração do bairro onde se localizam os empreendimentos. Como exemplo, a venda que um condomínio no Morumbi, mas que realmente se localiza na Vila Sônia. Enquanto o Morumbi tem um índice de área verde por habitante, segundo o Atlas Ambiental de São Paulo (2003), de 239,04 m2 2 /hab., a Vila Sônia só tem 35,06m/hab.

Outros exemplos desta associação de empreendimentos com a natureza em bairros onde a natureza é praticamente nula ou ínfima estão localizados nos distritos de: Perdizes (a área verde por habitante, segundo dados do Atlas Ambiental de São Paulo, de 2003, é de 5,94 m 2 2 /hab) e Jabaquara (4,02m/hab).

Entretanto, o caso mais impressionante da anulação da cidade e supervalorização do verde ocorre na Vila Andrade. Além do predomínio do tom verde nas figuras de propaganda do empreendimento, os edifícios são, através de técnicas computacionais, inseridos no meio de uma grande floresta tropical, repleta de árvores de grande porte, e não no espaço urbano de São Paulo, nas proximidades da Marginal Pinheiros, na vertente oposta aos grandes prédios inteligentes da região da Avenida Berrini. As ilustrações da sala do apartamento mostram que a vista de uma das janelas seria de apenas uma imensa floresta, o que não lembra em nada a vista real do local.

Os agentes do mercado imobiliário que constroem e vendem estes empreendimentos fazem, no seu processo de superexploração do valor de troca de seu condomínio, um espaço social, econômica e geograficamente segregado do restante da cidade, através da supressão da própria cidade. Mesmo que esta análise seja marcada apenas pela observação dos materiais de propaganda, as ideias começam a se materializar no espaço. No ato de negar a cidade, por eliminação da paisagem urbana na imagem, o condomínio nega também a possibilidade de construção coletiva de uma natureza urbana, pois excluído, mesmo que ideologicamente, de São Paulo e inserido no meio da tranquilidade da floresta, o empreendimento evidencia e aquilata a satisfação individual dos seus moradores/consumidores em possuir um bem/mercadoria tão exclusivo – a natureza.

Pela análise dos dados do Atlas Ambiental de São Paulo (2003), percebe-se que a região da Vila Andrade possui uma das mais altas taxas de área verde por habitante da cidade. Entretanto, a aceleração do processo de construção de condomínios de alto padrão na região – em função desta natureza urbana ainda presente (e representada em grande parte por eucaliptos recentemente plantados, mostrando, mais uma vez, que a natureza na cidade é obra socialmente construída) – tende a diminuir este índice, quer seja pelo processo de substituição das áreas verdes pelas áreas construídas, quer pelo simples aumento da densidade populacional. Assim, a Vila Andrade terá uma menor quantidade de área verde a ser dividida por um maior número de moradores.

Ao lado da propaganda, contendo a proximidade do "verde", destaca-se sempre a presença de shopping centers nas redondezas. Afinal, apesar da ideia romântica da proximidade do verde, a sociedade moderna, ou melhor, as classes média e alta, não admitem a possibilidade de retorno ao estado primitivo da cidade ainda no meio da natureza. Ter árvores no entorno é importante, mas as infra-estruturas básicas (água, luz, esgoto, telefone, antena de celular, TV a cabo, fibra ótica, hipermercado, delicatessen, pet shop, locadora de DVD, academia de ginástica, enfim, uma gama de serviços essenciais, 24 horas por dia) não podem estar longe do residencial (condomínio) natural.

Observa-se, através dos empreendimentos imobiliários na atualidade, o triunfo da apresentação sobre a significação. O engano se apresenta como verdadeiro. A criação de fantasias de natureza, faz com que os condomínios, as reservas, os parques naturais e os aquários, espaços altamente tecnificados, sejam apresentados como naturais. A natureza passa a ser associada a equipamentos e objetos cada vez mais técnicos.

Para tornar a situação da apropriação da natureza na cidade pelos empreendimentos imobiliários ainda mais interessante, um novo padrão global de natureza é inserido. A maior parte dos lançamentos imobiliários – prédios e condomínios – é nomeado, como pode ser constatado nos empreendimentos já nominalmente citados, em línguas estrangeiras, especialmente inglês, francês e italiano.

Num levantamento realizado em março de 2003 através de um sítio especializado na comercialização de empreendimentos imobiliários

pela Internet (www.planetaimovel.com.br), foram encontrados 32 lançamentos de alto padrão em São Paulo, os quais 26 batizados em línguas estrangeiras. Numa outra consulta aos vários sítios da Internet, em 2004, mais de 90% dos empreendimentos que estavam sendo anunciados naquele momento foram nomeados com termos estrangeiros.

Além da questão linguística, o mais importante é que estes empreendimentos, que fazem uso de uma ideia de natureza como uma forma de aumento de seus preços, na maioria dos casos observados, introduzem uma ideia "globalizada" de natureza, através, por exemplo, de esquilos e elementos da flora de outros climas. Esta natureza externa, padronizada, bane aquilo que se poderia considerar como uma ideia de natureza brasileira. Dos 32 lançamentos de alto padrão pesquisados em março de 2003, 12 estão ligados a alguma ideia de natureza. Assustadoramente, onze destes empreendimentos remetem a uma ideia exterior ou globalizada de natureza e apenas um a uma natureza tipicamente brasileira.

Estas novas ideias e conceitos de natureza carregam muito das intencionalidades capitalistas e pouco de valores culturais identitários, mostrando uma transformação (outra cultura ou a própria cultura local mudando?), banindo objetos ou formas que tinham fortes laços com o lugar e inserindo outros que são estranhos. Na cidade de São Paulo, o encontro destas duas forças, mostra uma tendência ao domínio de uma ideia de natureza padronizada, asséptica e esteticamente definida por modelos que não condizem com a realidade brasileira. Uma natureza globalizada, que remete a um mundo mais civilizado, refinado, elegante e sofisticado, uma cultura mais distante da natureza primitiva, muito diferente da nossa cultura tropical, quente e úmida, visualmente confusa e muito próxima da natureza.

Assim, a racionalidade instrumental capitalista cria e insere alguns objetos como os esquilos, o urso panda e o plátano, os quais são simbólica, estrutural e funcionalmente mais avançados e mais perfeitos que a natureza, neste caso, que a natureza tropical pode criar. "Na realidade, quanto mais distante os objetos são da

natureza, mais perfeitos eles são". 146

Alguns empreendimentos também estão atrelados à ideia de uma natureza campestre ou rural. O projeto parece resgatar a tranquilidade como uma virtude da natureza urbana, trazendo o sossego de cidades do interior. Na Vila Olímpia, alguns empreendimentos buscam criar a ideia de uma chácara urbana, com ar puro e como um local de repouso e de vida familiar. Uma fuga da vida agitada e estressante da grande cidade. O edifício estaria envolto em um "imenso" pomar.

Contraditoriamente, o mesmo marketing que vende a tranquilidade e o ar puro de empreendimentos repletos de verde, como bosques, praças e jardins valoriza a vida noturna agitada, cheia de cafés, peças de teatros, musicais e infra-estrutura com grandes vias de circulação. A tranquilidade da Vila Olímpia cedeu espaço para os edifícios inteligentes que apagam os traços culturais e sociais do passado mítico valorizado primeiramente pelas propagandas. Toda a infra-estrutura modernizante da Vila Olímpia acabou por tornar o lugar o antônimo do sossego, inclusive com o adensamento do tráfego aéreo em Congonhas, com aviões decolando ou se aproximando da pista do aeroporto sobre o bairro.

Todas as idealizações da natureza, pelos habitantes da cidade, mostram uma dupla determinação, sendo ambas relacionadas à distância que a natureza (objeto a ser idealizado) está da vida cotidiana. De um lado, aqueles que estão mais próximos da natureza, que buscam a superação das dificuldades impostas por ela e, de outro, aqueles que habitam lugares altamente tecnificados, longe da natureza e das suas limitações, mas que alimentam o sonho e o desejo de proximidade com a natureza. Como coloca Greenbie (1988), o executivo de uma grande corporação que trabalhe no 40o andar de uma torre de escritórios, a paisagem urbana pode não ser agressivamente ameaçadora, mas agressivamente excitante, um símbolo da vontade e do poder humano. Ele pode apreciar a presença de árvores na rua, mas esta apreciação pode não ser uma prioridade para ele, especialmente se ele mora numa boa casa num subúrbio verde. Para o balconista de uma das lojas do térreo, uma caminhada num parque no caminho para casa pode ser uma forma de recuperação de suas força; mas ele também pode preferir um caminho mais curto para seu apartamento com uma televisão e algumas plantas num vaso na