O Direito à Natureza na Cidade

Wendel Henrique · Capítulo 7 de 39

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O Direito à Natureza na Cidade

A interpretação e contemplação da natureza

de uma forma-conteúdo13 artificial que, segundo os ciclos da natureza, nunca teriam existido naquela região. Os Jardins Suspensos da Babilônia representavam, sem uma conotação abertamente religiosa, um dos objetivos que todas as outras "Maravilhas do Mundo Antigo" tinham em comum: o desafio à natureza numa grande escala, transformando a "paisagem natural".

Esta influência dos jardins no pensamento e no entendimento da natureza no Período Clássico é de grande importância. Segundo Glacken (1996), a presença contemporânea de jardins e ruas arborizadas indicam um claro desejo de reprodução de pequenos reinos da natureza dentro das cidades.

 

A interpretação e contemplação da natureza

As bases das interpretações da natureza estão nos tratados romanos, gregos e persas sobre as formas e as técnicas de melhoramento do solo, cujo principal objetivo era, sem dúvida, a produção de alimentos. Mesmo que rudimentares, as técnicas de irrigação, controle de insetos e fertilização se constituíram em importantes fontes de conhecimento para o entendimento da ordem e propósito da natureza.

De acordo com o filósofo Filón, na obra Sobre a criação (apud Glacken, 1996), a relação de proximidade com a natureza também era fruto das crenças dos povos da Antiguidade Clássica. A natureza era admirada e homenageada como a semente da fertilidade da terra e dos homens. Desta relação religiosa surgiram muitos mitos e rituais para explicar este laço entre natureza e fertilidade. A natureza teria outorgado a toda mãe um dom muito especial, a possibilidade de amamentar seus filhos.

Já para Aristóteles (Glacken, 1996), a natureza, assim como o homem, é um artífice, entretanto um artífice infinitamente mais poderoso. Nas obras da natureza dominam o propósito e não o acidente. O que é belo ocupa um lugar central. Nestas concepções aristotélicas, apesar de uma posição proeminente na natureza, o homem ainda é muito mais fraco. De acordo com Lenoble (1969, p. 28), enquanto os primitivos buscavam na natureza "compreender a vontade dos deuses, do mar, dos vulcões e dos rios, Aristóteles [buscava construir] uma hierarquia das formas organizadas". Da abordagem sobre as formas da natureza ao exame da natureza, constituia-se com Aristóteles, segundo Lenoble (1969), um estudo

fisionômico14.

O homem era considerado um artífice individual, um carpinteiro que constrói uma casa ou qualquer obra sabendo qual será o seu resultado ou produto final. Esta ideia estava em consonância com a ideia de propósito. Para Lenoble (1969), a concepção de natureza de Aristóteles e Platão é o da morada do homem e feita para o homem.

Lucrécio (De natura rerum apud LENOBLE, 1969) escreve que a historicidade do homem se dá pela historicidade da natureza, um universo onde a "a humanidade e a Natureza puderam modelar-se uma pela outra". Neste parágrafo de Lucrécio estão as bases da

interpretação dialética da natureza 15.

Também era fonte de influência no pensamento clássico sobre a natureza o incremento das viagens e comunicações entre os povos. Num primeiro momento da história do homem sobre a Terra, como escreve Reclus (1985), os grupos humanos viviam isolados e não se comunicavam. As bordas das terras conhecidas eram povoadas por monstros e bestas, que amedrontavam os homens que questionavam os limites impostos. Ao redor do ano 117 a.C., segundo informações de Glacken (1996), com a descoberta de uma rota marítima para a Índia, se iniciam formas de intercâmbio. As regiões da Europa mediterrânea conectaram-se com o mundo antigo.

Estas viagens e os mitos da natureza irão influenciar, por exemplo, a visão que Homero tinha da natureza. De acordo com Glacken (1996), no imaginário da natureza em Homero ela é viva, mas está extremamente vinculada a atividade dos Deuses, as quais a referem. O período helênico teve a tendência a ver os aspectos da natureza tais como realmente são.

O melhor conhecimento da geografia, das experiências do comércio, as viagens e as explorações, que permitiam a comparação de paisagens, são apreciados claramente na literatura. A poesia da natureza e a descrição da paisagem no helenismo não têm igual em nenhum momento anterior do mundo clássico. [...] o interesse pela natureza, animado e intensificado por inspirações procedentes do Oriente (como o jardim) e combinado com o incremento da vida

urbana, agudizaram a distinção entre natureza e arte 16.

Isto significa uma crescente preocupação estética. A natureza é a fonte de grande contemplação e a matéria original para as futuras "imitações" e aproximações. Também se destaca o início de um processo de interpretação antropocêntrica da natureza.

Outra forma de mediação entre a natureza e o homem se construiu através do interesse dos povos da Antiguidade Clássica pela Astrologia, relação está que será de fundamental importância para os futuros desdobramentos do entendimento que a humanidade fez e faz sobre a natureza. O fato curioso, segundo Glacken (1996), é que estes povos estavam muito mais interessados na observação da Lua do que do Sol. Esta "preferência" era resultado da crença que a Lua possuía forte influência na fertilidade da terra e das mulheres. Outra interpretação recorrente era que os cometas e as estrelas cadentes eram formas de "desordem" da natureza e que representavam interferências em uma ordem natural.

Estes são apenas poucos exemplos das riquezas de formas de interpretação, representação e descrição da Natureza feitas no Período Clássico. Outras grandes contribuições foram dadas de:

Virgílio e Heródoto17. De acordo com Glacken (1996), estes filósofos tinham em comum a ideia de que o homem era participante de diferentes formas de criação. O homem era considerado como um artífice individual, um carpinteiro que constrói uma casa ou qualquer obra sabendo qual será o seu resultado ou produto final. Esta ideia estava em consonância com a ideia de propósito.