O Homem de Giz

C. J. Tudor · Capítulo 10 de 30

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O Homem de Giz

Capítulo 2016

O meu pai espreitou.

– Cristo!

Sem lhe dar tempo a retirar o pacote, espreitei lá para dentro. Aninhada no fundo da caixa estava uma coisa pequena e cor-de-rosa, coberta de sangue e muco viscoso (mais tarde vim a saber que se tratava de um feto de porco). E enterrada nela uma faca de lâmina estreita com um papel espetado onde se liam três palavras:

ASSASSINA DE BEBÉS.

2016

Os princípios são uma coisa muito bonita. Para quem os pode ter. Gosto de pensar em mim como um homem de princípios, mas a maioria das pessoas pensa o mesmo. A verdade é que todos temos o nosso preço, todos temos uns botões que basta premir para que façamos coisas não muito dignificantes. Os princípios não pagam hipotecas, nem dívidas. Na verdade, os princípios são inúteis no dia-a-dia da existência. Um homem de princípios é em geral alguém que tem tudo quanto precisa, ou então que nada tem a perder.

Fico acordado durante muito tempo, e não é só por causa da indisposição causada pelo excesso de vinho e de esparguete.

– Sei quem realmente a matou.

Um poderoso efeito dramático. Mickey tinha consciência disso. E, como é evidente, não se deu ao trabalho de explicar.

– Neste momento não te posso dizer. Primeiro tenho de esclarecer umas coisas.

Uma ova, pensei. Mas assenti, atordoado pelo choque.

– Vou deixar-te dormir sobre o assunto – disse Mickey ao sair.

Não tinha trazido o automóvel e não deixou que lhe chamasse um táxi. Estava alojado num Travelodge, nos arrabaldes da cidade.

– A caminhada vai-me fazer bem – tinha ele dito.

Não tive tanta certeza disso, considerando que mal se aguentava nas pernas. Mas concordei.

Afinal de contas ainda não era muito tarde e ele era um adulto.

Depois de ele sair, meti os pratos na máquina de lavar e retirei-me para a saleta com um grande copo de bourbon, para reflectir na sua proposta. Posso ter fechado os olhos por alguns minutos. A soneira que se segue ao jantar… a maldição da meia-idade.

Acordei com o ruído das pranchas do soalho a ranger por cima da minha cabeça e com o som de passos que desciam a escada.

Chloe meteu a cabeça pela abertura da porta.

– Ei!

– Olá!

Estava vestida para se ir deitar. Uma T-shirt larga por cima de umas calças de pijama de homem e um par de meias descaídas. O cabelo escuro estava solto. O seu aspecto era sexy, vulnerável e ao mesmo tempo desgrenhado. Enfiei o nariz no meu bourbon.

– Então, como correu? – perguntou.

– Foi interessante – respondi, ao cabo de uma breve hesitação.

Entrou e empoleirou-se no braço do sofá.

– Conta-me.

Bebi um pequeno trago.

– Mickey quer escrever um livro sobre o que aconteceu, talvez mesmo um argumento para televisão. Quer que trabalhe com ele nisso.

– A trama adensa-se.

– Achas?

– E..?

– E o quê?

– Bem, calculo que tenhas dito que sim.

– Ainda não disse nada. Não sei se me apetece colaborar nisso.

– Porquê?

– Porque há muitas coisas a considerar. Em primeiro lugar, como as pessoas de Anderbury se vão sentir com este desenterrar do passado. Gav e Hoppo. As nossas famílias.

E Nicky, pensei. Teria ele falado com Nicky?

Chloe franziu a testa.

– Pronto, isso percebo. Mas tu, o que pensas?

– Eu?

Suspirou e olhou para mim como se eu fosse um garotinho de compreensão lenta.

– Pode ser uma boa oportunidade. E tenho a certeza de que o dinheiro também não te faria mal.

– A questão não é essa. Além do mais, tudo isto é apenas hipotético. Projectos destes ficam a todo o momento pelo caminho.

– Sim, mas de vez em quando é preciso tentar.

– É o que fazes?

– Sim. De outra maneira nunca se vai a lado algum na vida. Fica-se sentado a fossilizar, em vez de viver realmente.

Ergui o copo.

– Obrigado por isso. Um conselho sábio de alguém que vive no fio da navalha, a trabalhar a tempo parcial na porcaria de uma loja de trapos. De facto, estás a dar o máximo.

Irritada, levantou-se e dirigiu-se para a porta.

– Estás bêbedo. Vou voltar para a cama.

Arrependi-me da tirada. Era um idiota. Um idiota diplomado com distinção, mas um idiota.

– Peço desculpa.

– Esquece. – Esboçou um sorriso amargo. – Seja como for, amanhã de manhã já não te deves lembrar de nada.

– Chloe…

 

– Vai dormir para esquecer, Ed.

Vai dormir para esquecer. Viro-me de lado, e depois de costas. Um bom conselho. Assim eu conseguisse adormecer.

Recosto-me na almofada, mas sem resultado. O estômago é uma dor persistente e irritante.

Devo ter antiácidos por aí em qualquer lado. Talvez na cozinha.

A contragosto, balanço as pernas para fora da cama e desço a escada, descalço. Ligo a luz crua da cozinha, que me agride os olhos doridos. Semicerro os olhos e vasculho uma das gavetas repletas de tralha. Rolos de película aderente, cola, canetas, tesouras. No fundo, chaves e parafusos que não sei a que pertencem, e um velho baralho de cartas. Por fim, lá encontro os antiácidos, à mistura com uma lima de unhas e um velho saca-cápsulas.

Pego na embalagem e verifico que só me resta uma pastilha. Serve. Enfio-a na boca e trinco-a.

Devia saber a fruta, mas sabe-me a giz. Regresso ao corredor, e é então que reparo numa coisa.

Bem, de facto são duas coisas: a luz da saleta está acesa e no ar paira um cheiro esquisito.

Adocicado e rançoso. Podre. Mas que não me é estranho.

Dou um passo em frente e piso uma coisa estaladiça. Olho para baixo. Um rasto de terra escura percorre o corredor. Pegadas. Arrastadas e a largar terra ao longo do caminho. Uma coisa que se arrastou, vinda de profundezas escuras e gélidas onde pontificam os vermes e os escaravelhos.

Engulo em seco. Não. Não é possível. É a minha mente a pregar-me partidas. A desenterrar um pesadelo antigo sonhado por um rapazinho de doze anos dotado de uma imaginação hiperactiva.

Um sonho desperto. É como lhes chamam. Um sonho que parece quase real. No interior do sonho podem realizar-se actividades que contribuem para a ilusão de realidade, tal como manter conversas, preparar comida, pôr um banho a correr… ou outras coisas.

Isto não é real (mal-grado a sensação concreta da terra entre os dedos dos meus pés e da pastilha com sabor a giz que tenho na boca). Tudo o que tenho a fazer é acordar. Acorda.

Acorda! Infelizmente, o estado de vigília, tal como o de esquecimento que antes busquei, é também difícil de alcançar.

Avanço e apoio a mão na porta da saleta. Claro que o faço. É um sonho, e em sonhos como este (maus sonhos) o caminho a seguir é inevitável: uma senda estreita e sinuosa através das profundezas escuras do bosque, que conduz à vivenda de arquitectura rebuscada alojada no âmago da nossa psique.

Empurro a porta. Aqui também faz frio. Um frio que não é normal. Não é a frescura ligeira de uma casa durante a noite. É um frio que nos envolve os ossos e se nos instala nas entranhas, como um bloco de gelo. Um frio de medo. E o cheiro é mais intenso. Avassalador. Mal consigo respirar. Quero recuar, sair da saleta. Quero fugir. Quero gritar. Mas o que faço é ligar o interruptor.

 

Está sentado no meu cadeirão de braços. O cabelo, de um louro-esbranquiçado, agarra-se-lhe ao couro cabeludo como uma teia de aranha pegajosa, a deixar ver por baixo pedaços de osso e de cérebro. A cara é uma caveira irregularmente coberta por pedaços desgarrados de pele putrefacta.

Como sempre, traz vestida uma camisa preta larga, umas calças de ganga justas e pesadas botas pretas. As roupas estão rasgadas, em farrapos. As botas, ruças e incrustadas de terra. O

chapéu amachucado repousa no braço da cadeira.

Devia ter percebido. O tempo do espectro da minha infância já lá vai. Agora sou um adulto.

Chegou o momento de encarar o Homem de Giz.

O senhor Halloran volta a cabeça na minha direcção. Os olhos já desapareceram, mas há algo no interior daquelas órbitas que se assemelha a reconhecimento e compreensão… e mais qualquer coisa que faz que não as queira fitar com atenção, com receio de nunca vir a recuperar por completo a sanidade mental.

– Olá, Ed. Há muito tempo que não te via.

Pouco depois das oito horas, quando desço, exausto e estremunhado, Chloe já está levantada, a beber café e a comer torradas na cozinha.

Sintonizou a telefonia noutra estação e, em vez da Rádio 4, o aparelho berra qualquer coisa que se assemelha aos gritos de um homem em agonia enquanto se tenta suicidar a bater com a guitarra na cabeça.

Escusado será dizer que em nada contribui para aliviar o latejar surdo dentro da minha cabeça. Chloe vira-se e avalia-me num breve instante.

– Pareces um monte de merda.

– É o que sinto.

– Óptimo. Fica-te bem.

– Muito obrigado pela gentileza.

– O sofrimento auto-infligido não merece compaixão.

– Mais uma vez obrigado… e se puderes baixa o volume ao homem branco furioso que tem problemas com o paizinho.

– Chama-se música rock, avozinho.

– Foi o que acabei de dizer.

Abana a cabeça mas reduz ligeiramente o volume.

Dirijo-me à máquina do café e sirvo-me de uma chávena.

– Quanto tempo ainda ficaste a pé depois de eu me ter ido deitar? – pergunta Chloe.

Sento-me à mesa.

– Não muito. Estava a cair de bêbedo.

– Não me digas.

– Desculpa.

Desvaloriza o assunto com um aceno da mão branca.

– Esquece. Não me devia ter intrometido. Não é nada que me diga respeito.

– Pois não, quero dizer, tens razão. Naquilo que disseste. Mas por vezes as coisas não são assim tão simples.

– Óptimo. – Bebe um gole de café e continua: – Tens a certeza de que não ficaste a pé até tarde?

– Tenho.

– E não te voltaste a levantar?

– Sim, vim cá abaixo buscar uma pastilha para o estômago.

– Só isso?

Acode-me à memória um fragmento do sonho:

– Olá, Ed. Há muito tempo que não te via.

Afugento-o.

– Sim. Porquê?

Atira-me um olhar desconfiado.