O Homem de Giz
Capítulo 1986
– Não o odeio.
Olho-o com atenção, com o cigarro a meio caminho dos lábios.
– Já o odiei – afirma. – Durante algum tempo. Queria que fosse ele o culpado. Mas não consegui.
– Não estou a perceber.
– Não é por causa do acidente que não falo sobre o Mickey nem foi por causa disso que nunca mais o quis ver.
– Então foi porquê?
– Porque me faz lembrar que tive o que merecia. Mereço estar nesta cadeira de rodas. Por aquilo que fiz. É o karma.
De súbito, volto a ouvir a voz do senhor Halloran:
– Karma. Colhe-se o que se semeia. Fazem-se coisas más e elas acabam por nos vir morder o traseiro.
– O que fizeste?
– Matei o irmão dele.
1986
Além de trabalhar em casas particulares, a mãe de Hoppo também fazia a limpeza da escola primária, da igreja e do salão da igreja.
Foi assim que ficámos a saber sobre o reverendo Martin.
Como de costume, Gwen Hopkins chegou a St. Thomas no domingo de manhã, por volta das seis e meia, para lavar o chão, limpar o pó e deixar tudo a brilhar antes da primeira missa, às nove e meia. (Parece que o descanso dominical não se aplicava a quem prestava serviços ao vigário.) Os relógios ainda não tinham sido atrasados, de modo que ainda era escuro quando ela se dirigiu às grandes portas de carvalho, pegou na chave que guardava no chaveiro da cozinha e a meteu na fechadura.
As chaves de todas as casas que limpava estavam penduradas nesse chaveiro, com a indicação da morada do proprietário. Não muito seguro nem muito inteligente, sobretudo quando se considera que a mãe de Hoppo vinha à noite fumar para as traseiras da casa e às vezes se esquecia de voltar a fechar a porta à chave.
Mais tarde, nessa manhã, disse à polícia (e aos jornais) que tinha reparado que as chaves da igreja estavam na escápula errada. Não dera importância ao caso, nem ao facto de a porta das traseiras não estar fechada à chave porque, como ela disse, era um bocado distraída, mas costumava pendurar as chaves na escápula certa. O problema é que toda a gente sabia onde ela as guardava. Era um milagre que ninguém ainda as tivesse usado para roubar.
Bastava penetrar furtivamente lá em casa e depois ter acesso a uma casa da qual se soubesse que os donos estavam fora. Podia levar-se qualquer coisa por cuja falta não dessem, como um pequeno objecto decorativo ou uma caneta tirada de uma gaveta. Qualquer coisa pouco valiosa e que pensariam ter deixado fora do lugar. Podia ser só isso. Para quem fosse o género de pessoa que gosta de tirar coisas.
A primeira coisa errada que Gwen notou foi que a porta da igreja não estava fechada à chave.
Mas não lhe deu importância. Podia ser que o reverendo já lá estivesse. Por vezes ele levantava-se cedo e quando Gwen chegava à igreja ele já lá estava, a rever os sermões. Foi só quando penetrou na nave que se deu conta de que qualquer coisa estava mal. Muito mal.
A igreja não estava às escuras.
Em condições normais, tanto os bancos corridos como o púlpito não passavam de sombras negras e sólidas. Naquela manhã refulgiam, cobertos de traços brancos.
Talvez tenha hesitado. Talvez tenha sentido que se lhe arrepiavam os pêlos da nuca. Um
Talvez tenha hesitado. Talvez tenha sentido que se lhe arrepiavam os pêlos da nuca. Um daqueles arrepios de medo que atribuímos a uma partida da nossa imaginação, quando a verdadeira partida é iludirmo-nos com a ideia de que tudo está bem.
Gwen benzeu-se, procurou o interruptor, que ficava junto à porta, e ligou-o. Ao longo das naves laterais, as velhas lâmpadas, algumas fundidas e a precisarem de substituição, zumbiram e foram-se iluminando.
Gwen soltou um grito. O interior da igreja estava coberto de desenhos. No chão de pedra, nos bancos de madeira, no púlpito. Para onde quer que olhasse. Dezenas e dezenas de figuras brancas, desenhadas a giz. Umas a dançar, outras a acenar. E outras, muito mais profanas.
Homens de pénis rígidos. Mulheres de peitos avultados. Pior do que tudo, homens enforcados, com laços em volta do pescoço. Fatídico, arrepiante. Mais do que arrepiante, aterrador.
Gwen esteve prestes a virar-se para fugir. Por pouco não deixou cair o balde das limpezas e desatou a correr para fora da igreja, tão depressa quanto lhe permitiam as pernas brancas. Se o tivesse feito, poderia ter sido demasiado tarde. Mas hesitou, e foi quando ouviu um ligeiro ruído. Um gemido fraco.
– Está aí alguém?
Novo gemido, desta vez um pouco mais alto. Que não podia deixar de ouvir. Um gemido de dor. Persignou-se outra vez – agora com mais determinação – e percorreu a nave, com os cabelos da nuca eriçados e os braços em pele-de-galinha.
Foi encontrá-lo por detrás do púlpito. Enroscado no chão, em posição fetal. Todo nu, com excepção do plastrão eclesiástico. O tecido deste, dantes branco, apresentava manchas vermelhas. Tinha sido violentamente agredido na cabeça. Mais uma pancada e tê-lo-iam morto, disseram os médicos. Mas foi poupado à morte, se é que «poupado» é a palavra adequada.
Todavia, o sangue não provinha apenas da cabeça. Era também dos ferimentos nas costas.
Gravados com uma faca; duas longas linhas irregulares que lhe corriam das omoplatas até às nádegas. Foi só depois de todo o sangue ser limpo que as pessoas perceberam que se tratava de…
Asas de anjo.
O reverendo Martin foi transportado para o hospital e ligado a uma imensidade de tubos e de outras coisas. O cérebro tinha sido afectado e os médicos precisavam de avaliar a gravidade das lesões antes de se decidirem a operá-lo.
Nicky foi ficar em casa de uma das manifestantes amigas do pai – uma senhora de idade, de cabelos encaracolados e óculos de lentes grossas. Mas não ficou lá muito tempo. Um ou dois dias mais tarde, um automóvel desconhecido estacionou à porta do vicariato. Um Mini amarelo, brilhante, com uma enorme quantidade de autocolantes: Greenpeace, um arco-íris,
«Combater a SIDA» – esse género de coisas.
Não a cheguei a ver. Quem me contou foi Gav, que ouviu do pai dele, que por sua vez tinha ouvido a alguém no pub. Do automóvel saiu uma mulher. Uma mulher alta, de cabelos ruivos que lhe chegavam quase à cintura, vestida com umas calças de ganga grossas, um blusão verde do exército e botas de pára-quedista.
Como uma daquelas tipas de Greenham Common5.
Mas afinal não era de Greenham Common. Vinha de Bournemouth e era a mãe de Nicky.
Não tinha morrido, como todos pensávamos. Muito longe disso. Era apenas o que o reverendo Martin tinha dito a toda a gente, incluindo Nicky. Ao que parecia, tinha-se ido embora quando Nicky ainda era muito pequena. Mas eu não sabia porquê. Não percebia como uma mãe podia desaparecer. Mas agora estava de volta e Nicky ia viver com ela porque não tinha mais família e o pai não estava em condições de tomar conta dela.
Os médicos operaram-no e disseram que iria melhorar, que talvez até recuperasse. Mas não se podia ter a certeza. Quando se trata de lesões na cabeça, nunca se sabe. Com um pouco de ajuda, conseguia sentar-se numa cadeira, comer, beber, ir aos lavabos. Mas não conseguia falar
– ou não queria – e eles não faziam ideia se ele percebia alguma coisa do que se lhe dizia.
Foi levado para uma casa onde cuidavam de pessoas com perturbações mentais, para
«convalescer», disse a minha mãe. A Igreja pagava a conta. E ainda bem, pois não creio que a mãe de Nicky tivesse dinheiro para isso, ou talvez nem o quisesse fazer.
Tanto quanto sei, nunca levou Nicky a visitá-lo. Talvez fosse a sua maneira de se vingar dele.
Durante todos aqueles anos ele andara a dizer a Nicky que a mãe tinha morrido e impedira-a de ver a filha. Ou talvez Nicky não quisesse lá ir. Não lhe posso levar a mal.
Só uma pessoa o visitava com regularidade, todas as semanas, sem falhar, e não era nenhum dos membros da congregação, nem nenhum dos seus «anjos» devotos. Era a minha mãe.
Nunca percebi porquê. No passado, tinham-se odiado. O reverendo Martin tinha dito e feito coisas horríveis à minha mãe. Mais tarde, ela havia de me dizer:
– Exactamente por isso, Eddie. Tens de compreender que ser uma pessoa boa nada tem a ver com entoar hinos nem rezar a um qualquer deus mítico. Não é usar um crucifixo nem ir todos os domingos à igreja. Uma pessoa boa não precisa de religião porque está em paz consigo mesma ao fazer o que deve ser feito.
– E é por isso que o visita?
Esboçou um estranho sorriso.
– Não, não é por isso. Tenho pena dele.
Acompanhei-a numa dessas visitas. Não sei porquê. Talvez não tivesse nada melhor para fazer. Ou porque fosse agradável estar na companhia da minha mãe, já que ela continuava a trabalhar muito e não passávamos muito tempo juntos. Ou motivado pela curiosidade mórbida de uma criança.
A casa chamava-se St. Magdalene e ficava a dez minutos de automóvel, na estrada para
A casa chamava-se St. Magdalene e ficava a dez minutos de automóvel, na estrada para Wilton. Situada no fundo de uma alameda estreita bordejada de árvores de um lado e do outro.
Era imponente: uma grande mansão antiga, com um extenso relvado às riscas em frente, salpicado de elegantes mesas e cadeiras brancas.
Havia uma barraca de madeira situada ao fundo e dois homens de fato-macaco que trabalhavam de modo penoso. Jardineiros, pensei. Um andava para trás e para diante com uma ruidosa máquina de cortar relva; o outro cortava os ramos secos das árvores com um machado e amontoava-os numa pilha, para os queimar.
Sentada a uma das mesas do jardim estava uma senhora idosa. Envergava um vestido com flores estampadas e na cabeça usava um chapéu profusamente ornamentado. Quando passámos por ela no automóvel ergueu o braço numa saudação:
– Ainda bem que vieste, Ferdinand.
Olhei para a minha mãe.
– Está a falar connosco?
– Não, Eddie, está a falar com o noivo.
– E ele vem visitá-la?
– Duvido. Já morreu há quarenta anos.
Estacionámos e subimos por uma vereda de gravilha que rangia debaixo dos nossos pés, em direcção a um grande portão. Lá dentro não era nada como eu imaginara. Continuava a ser agradável, ou pelo menos tentava ser, com as paredes pintadas de amarelo, ornatos, quadros e coisas assim. Mas cheirava a médicos. Um cheiro característico a desinfectante, urina e couves podres.
Senti que ia vomitar, ainda antes de chegarmos ao pé do reverendo. Uma senhora em uniforme de enfermeira conduziu-nos ao longo de uma sala muito comprida com muitas mesas e cadeiras. A um canto, uma televisão emitia uma claridade pálida. Estavam duas pessoas sentadas em frente dela. Uma mulher muito gorda que parecia meio adormecida e um jovem com óculos de lentes grossas e um aparelho auditivo, que de vez em quando se levantava, agitava os braços no ar e gritava:
– Dá-me com o chicote, Mildred!
Era ao mesmo tempo engraçado e embaraçoso. As enfermeiras nem pareciam dar por ele.
O reverendo Martin estava sentado numa cadeira, perto das portas envidraçadas, as mãos apoiadas nas pernas e um rosto tão inexpressivo como o de um manequim numa montra.
Tinham-no colocado numa posição de onde podia ver o jardim, mas não sei se apreciava a vista. Olhava em frente sem expressão, para qualquer coisa situada ao longe – ou talvez para nada. Os seus olhos não se moviam, nem mesmo quando alguém passava perto ou quando o homem do aparelho auditivo gritava. Nem sei se chegava a piscar os olhos.
Não fugi da sala a correr, mas pouco faltou. A minha mãe sentou-se para lhe ler um livro clássico de um autor já falecido. Inventei uma desculpa para dar uma volta pelo jardim, só para
sair dali e apanhar um pouco de ar fresco. A senhora do chapéu grande continuava sentada no mesmo sítio. Esforcei-me para me manter fora do seu ângulo de visão, mas quando me aproximei ela virou-se.
– O Ferdinand não vem, pois não?
– Não sei – gaguejei em resposta.
Os seus olhos fixaram-se em mim.
– Eu conheço-te. Como te chamas, rapaz?
– Eddie.
– Eddie, minha senhora.
– Eddie, minha senhora.
– Vieste visitar o reverendo.
– A minha mãe é que veio.
Assentiu com a cabeça.
– Queres saber um segredo, Freddie?
Estive para lhe dizer que me chamava Eddie, mas resolvi ficar calado. Havia algo de assustador naquela senhora, e não era só por ser velha, embora isso também contasse. Para um garoto, os velhos de peles engelhadas e mãos esqueléticas são figuras monstruosas.
Com um dedo fino e ossudo, fez-me sinal para que me aproximasse. A unha era amarela e recurvada. Uma parte de mim quis correr para longe. Mas qual é o garoto que não deseja conhecer um segredo? Dei um pequeno passo em frente.
– O reverendo… está a enganá-los a todos.
– Como?
– Já o vi, à noite. É o diabo disfarçado.
Esperei. A dama reclinou-se na cadeira e franziu o sobrolho.
– Eu conheço-te.
– Sou o Eddie – repeti.
De repente, apontou para mim.
– Sei o que fizeste, Eddie. Roubaste uma coisa, não foi?
Dei um salto.
– Não, não fiz nada disso.
– Devolve-a. Ou a devolves ou te mando açoitar com o chicote dos cavalos, meu vagabundo.
Recuei, seguido pelos gritos dela.
– Devolve o que roubaste, rapaz. Devolve!
Corri com todas as minhas forças de volta ao carreiro que conduzia à casa, o coração aos saltos no peito, a cara a arder. A minha mãe continuava a ler para o reverendo. Sentei-me cá fora nos degraus, até ela acabar.
Mas antes disso repus no seu lugar a pequena figura de porcelana que tinha tirado da sala comum.
Aconteceu tudo mais tarde, muito mais tarde. Depois da visita da polícia. Depois de terem vindo prender o meu pai. Depois de o senhor Halloran ter sido obrigado a demitir-se da escola.
Nicky fora viver com a mãe em Bournemouth. O Gav Gordo foi uma ou duas vezes a casa do Metal Mickey para tentar fazer as pazes com ele, mas em ambas as ocasiões a mãe de Mickey lhe disse que o filho não podia vir e lhe bateu com a porta na cara.
– Aquilo era uma treta de merda – disse o Gav Gordo, que mais tarde tinha visto o Mickey a andar pelas lojas, na companhia de dois rapazes mais velhos.
Uns tipos grosseiros, que costumavam andar com o irmão dele.
Quanto a mim, pouco me importava saber com quem Mickey andava. Ainda bem que já não fazia parte da nossa quadrilha. Mas importava-me o facto de Nicky já não estar connosco, mais do que estava disposto a admitir ao Hoppo e ao Gav Gordo. E não era a única coisa que não lhes contava. Nunca lhes disse que ela tinha vindo ver-me uma última vez. No dia em que se fora embora.
Estava sentado à mesa da cozinha, a fazer os trabalhos de casa. O meu pai encontrava-se não sei onde a martelar e a minha mãe aspirava. Eu tinha o rádio ligado e foi por milagre que ouvi a campainha da porta.
Esperei um momento. Quando se tornou evidente que ninguém a ia abrir, deixei-me escorregar para o chão, corri para a entrada e fui abri-la.
Nicky estava lá fora, agarrada ao guiador da bicicleta. Muito pálida, com os cabelos ruivo-baços e emaranhados, e por baixo do olho esquerdo ainda era visível uma mancha amarela e azulada. Parecia um dos quadros abstractos do senhor Halloran. Uma versão pálida e atamancada da sua pessoa.
– Ei – saudou ela, e nem a voz parecia a mesma.
– Ei – disse eu em resposta. – Erámos para te fazer uma visita, mas…
Não continuei. Era mentira. Tínhamos medo, não sabíamos o que dizer. Como com o Mickey.
– Não faz mal – disse.
Mas fazia. Afinal, éramos os amigos dela.
– Queres entrar? – perguntei. – Tenho limonada e bolachas.
– Não posso. A minha mãe julga que estou a fazer a mala. Escapuli-me.
– Vais-te embora hoje?
– Vou.
O coração caiu-me aos pés. Senti que qualquer coisa dentro de mim dava de si.
– Vou sentir a tua falta – disse, a atropelar as palavras. – Vamos todos.
Preparei-me para uma resposta mordaz, sarcástica. Mas em vez disso deu um súbito passo em frente e abraçou-me. Um abraço tão apertado que nem parecia um abraço, foi mais um
enlace desesperado, como se eu fosse a última tábua a flutuar num mar de águas negras e tumultuosas.
Deixei que me apertasse. Inalei o cheiro dos caracóis retorcidos. Baunilha e pastilha elástica.
Senti a agitação do peito dela. Os mamilos incipientes, através da camisola larga. Não me importava de ficar assim para sempre. Que ela nunca desfizesse o amplexo.
Mas desfez. Virou-se com a mesma brusquidão e passou a perna por cima da bicicleta.
Depois, pedalou furiosamente pela estrada fora, os cabelos ruivos a flutuar atrás dela como uma massa de chamas furiosas. Sem mais uma palavra. Sem um adeus.
Fiquei a vê-la desaparecer e tomei consciência de outra coisa: não tinha feito qualquer alusão ao pai. Nem uma única vez.
A polícia apareceu de novo para falar com a mãe de Hoppo.
– Então, já sabem quem fez aquilo? – perguntou o Gav Gordo a Hoppo, enquanto metia na boca um rebuçado em forma de garrafa de cola.
Estávamos no recreio da escola, sentados num banco. O sítio onde nos costumávamos sentar os cinco, na orla do campo, perto dos quadrados do jogo da macaca. Agora, éramos só três.
Hoppo abanou a cabeça.
– Não creio. Estiveram a perguntar-lhe pela chave, quem sabia onde ela a guardava. E
também lhe perguntaram outra vez pelos desenhos na igreja.
Aquilo despertou-me a atenção.
– Os desenhos? O que perguntaram?
– Se ela já tinha visto alguma coisa daquelas. Se o reverendo tinha falado noutras mensagens ou ameaças. Se alguém tinha algum ressentimento contra ele.
Agitei-me no banco, pouco à vontade. Cuidado com os homens de giz.
O Gav Gordo olhou para mim.
– O que foi, Eddie Munster?
Hesitei. Não sei porquê. Eram os meus companheiros. A minha quadrilha. Podia falar-lhes de tudo. Devia falar-lhes sobre os outros homens de giz.
Mas qualquer coisa me impediu.
Talvez porque o Gav Gordo, ainda que divertido, leal e generoso, não era muito seguro a guardar segredos. Talvez porque não quisesse falar a Hoppo no desenho do cemitério, pois teria de explicar o motivo que me levara a nada dizer na ocasião. E ainda porque me recordava do que ele tinha dito nesse dia: Quando descobrir quem fez isto, mato-o.
– Nada – respondi. – Só que nós desenhámos homens de giz, não foi? Espero que a polícia não pense que fomos nós.
O Gav Gordo fungou depreciativamente.
– Isso era só uma brincadeira de merda. Ninguém vai pensar que fomos nós a dar com uma
– Isso era só uma brincadeira de merda. Ninguém vai pensar que fomos nós a dar com uma tranca na cabeça do vigário. – O seu rosto iluminou-se. – Aposto que foi algum desses tipos do satanismo. Um adorador do diabo. A tua mãe tem a certeza de que era giz? Não era saaangue?
Inclinou-se para trás, dobrou os dedos a imitar garras e soltou uma gargalhada demoníaca.
– Aah, aahh, aaahh.
A campainha tocou para as aulas da tarde e o assunto, embora não encerrado, foi adiado por algum tempo.
Quando voltei da escola, vi um carro desconhecido parado no caminho de acesso, e o meu pai estava sentado na cozinha com um homem e uma mulher que vestiam roupas cinzentas de má qualidade.
Pareceram-me secos e antipáticos. O meu pai estava sentado de costas para mim, mas pela maneira como o seu corpo se afundava na cadeira imaginei-lhe o rosto perturbado, com as sobrancelhas farfalhudas unidas pela preocupação.
Não tive oportunidade para ver muito mais porque a minha mãe saiu da cozinha e fechou a porta atrás de si. Empurrou-me pelo corredor fora.
– Quem são? – perguntei.
A minha mãe não era pessoa para adoçar uma resposta.
– São detectives, Eddie.
– Polícias? O que estão eles aqui a fazer?
– Querem fazer umas perguntas a mim e ao teu pai, por causa do reverendo Martin.
Levantei os olhos para ela, com o coração já um pouco acelerado.
– Porquê?
– É a rotina. Estão a falar com muitas das pessoas que o conheciam.
– Mas não falaram com o pai do Gav Gordo e ele conhece toda a gente.
– Não sejas atrevido, Eddie. Vai ver televisão enquanto nós acabamos.
A minha mãe nunca me mandava ver televisão. Não havia televisão até ter terminado os trabalhos de casa, portanto percebi logo que se passava alguma coisa.
– Ia buscar qualquer coisa para beber.
– Eu trago-te.
Olhei demoradamente para ela.
– Há algum problema, mamã? Eles pensam que o papá fez alguma coisa?
O seu olhar adoçou-se. Pousou-me a mão no braço e deu-lhe um ligeiro aperto.
– Não, Eddie. O teu pai não fez nada de mal. Está bem? Agora, desaparece. Já te trago um sumo.
– Está bem.
Dirigi-me para a saleta e liguei a televisão. A minha mãe nunca me trouxe o sumo. Mas não fazia mal. Pouco depois, o polícia e a mulher saíram. O meu pai foi com eles. E percebi que
nada estava bem. Nem um bocadinho.
Veio a saber-se que o meu pai tinha saído para dar uma volta na noite em que o reverendo foi atacado, mas que não tinha ido mais longe do que o The Bull. O pai de Gav atestou a sua presença lá, a beber uísque (o meu pai não bebia muitas vezes, mas quando o fazia nunca bebia cerveja como os outros pais, só uísque). O pai do Gav Gordo tinha conversado com ele, mas estava muito ocupado nessa noite, e além disso observou:
– Percebe-se quando um freguês apenas quer estar sozinho.
Mesmo assim, quando ele saiu, perto da hora de fecho, já tinha pensado em não lhe servir mais uísque.
Depois disso, o meu pai lembrava-se de pouca coisa, só que se tinha sentado para apanhar ar fresco num dos bancos do adro da igreja, que ficava a caminho de casa. Alguém o tinha visto lá, por volta da meia-noite. A minha mãe disse à polícia que o papá tinha voltado para casa pela uma da madrugada. A polícia não sabia ao certo a que horas o reverendo Martin tinha sido atacado, mas acreditavam que teria sido entre a meia-noite e as três da manhã.
Não deviam ter matéria bastante para acusar o meu pai, mas com a briga e as ameaças contra a minha mãe, não precisavam de mais nada para o levarem para a esquadra, para outro interrogatório. E talvez o tivessem retido lá, se não fosse o senhor Halloran.
Na manhã seguinte, entrou na esquadra da polícia para lhes dizer que naquela noite tinha visto o meu pai a dormir num banco do adro da igreja. Como não o queria deixar ali ficar, tinha-o acordado e ajudado a regressar a casa, até à cancela. Isto tinha acontecido entre a meia-noite e a uma hora. Tinham precisado de uns bons quarenta minutos (embora a distância se percorresse em dez) dado o estado em que o meu pai se encontrava.